Canal do Mangue

Aberto em frente à fábrica do gás, que aí despejava seus resíduos, julgamos que podemos incluir neste capítulo a descrição desta obra.

Tratando-se no tempo de D. João VI de dissecar o vasto pântano que se estendia próximo à cidade nova, o qual era um extenso foco de infecção, de mosquitos e de exalações desagradáveis, houve a ideia de abrir-se um canal navegável desde a Praça Onze de Junho até a Ilha de João Damasceno [1]; porém nada se fez, apenas aterrou-se a estrada e construiu-se sobre o mangue uma ponte para facilitar a passagem do rei e sua comitiva da Quinta de São Cristóvão para o paço da cidade. Fez-se o caminho para o rei e para os fidalgos; quanto ao povo que continuasse a cheirar o lodo do mangue, a adoecer e a morrer.

O decreto de 16 de junho de 1835 autorizou a municipalidade a demarcar no pântano ou mangue da cidade nova o lugar para um canal, e as ruas cuja abertura conviesse à salubridade pública, podendo aforar o restante do terreno a quem quisesse dissecá-lo, e nele edificar e receber o foro que fosse justo estipular com atenção à natureza do mesmo terreno.

Em 24 de agosto de 1838 propôs Aureliano de Souza Oliveira Coutinho, depois Visconde de Sepetiba, que os possuidores de terrenos no mangue de um e outro lado da Rua do Aterrado que comunicava a cidade nova com o bairro de Mataporcos, hoje Estácio de Sá, fossem obrigados a aterrá-los no prazo de dois anos, e se o não fizessem perderiam a posse deles; que a municipalidade aforasse os terrenos devolutos com a condição de aterrá-los quem os quisesse tomar, e desse princípio a um canal paralelo à Rua do Aterrado, comunicando o mar até à Praça Onze de Junho, tendo este canal um braço que se estenderia até ao edifício da Correção; arborizadas as margens, bordadas de casas da mesma perspectiva e havendo pontes rodantes para darem passagem a barcos desde a Ilha de João Damasceno até à Praça Onze de Junho.

Em abril de 1853 fundamentou o Dr. Roberto Jorge Haddock Lobo uma proposta sobre a obra desse canal, e cooperou para que a câmara municipal dirigisse nesse ano e no seguinte representações ao governo lembrando a utilidade de semelhante obra.

Em 26 de novembro de 1855 participou o ministro do império à municipalidade que o Barão de Mauá se havia encarregado de construir por administração 50 braças do canal do mangue; de feito em 21 de janeiro de 1857 em presença do ministro, do empreiteiro e de outras pessoas gradas lançou-se a primeira pedra do canal.

O decreto de 6 de março de 1858 aprovou o contrato celebrado com o Barão de Mauá para a construção dessa obra com a qual a lei de 14 de setembro de 1859 autorizou o governo a despender a quantia de 310:000$000.

Dando-se maior extensão ao canal votaram-se novas verbas para as despesas da construção.

Estende-se este canal desde a Praça Onze de Junho até a Ponte do Aterrado em uma extensão de 600 braças ou pouco mais, formando próximo à praça uma bacia, junto a qual contratou a câmara com o engenheiro Ginty a edificação de um mercado; mas não realizou-se essa obra, e nesse lugar levantou a municipalidade a Escola Municipal de São Sebastião.

Gasômetro no Aterrado, de P. G. Bertichem – Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856

Quatro elegantes pontes construídas sob a direção do engenheiro Ginty, que dirigiu toda a obra, cortam o canal, dando duas passagem a peões e duas também a cavaleiros e carros.

Em 7 de setembro de 1860, no dia em que inaugurou-se um dos grandes gasômetros da fabrica do gás, foram franqueadas ao trânsito público duas dessas pontes com a seguinte cerimônia:

Acompanhado do engenheiro Ginty e de todos os operários do canal em número de quatrocentos, divididos em turmas, percorreu o Barão de Mauá as duas pontes que iam ser entregues ao povo; regressando entrou o préstito na fábrica do gás na seguinte ordem:

Dois guardas da fábrica de uniforme verde, quatro trinchantes vestidos de branco com facas e garfos, um carro puxado por vinte e quatro pretos com roupa branca contendo dois bois inteiros assados, quatro carneiros também assados e trinta arrobas de batatas cozidas, quatro trinchantes com facas e garfos, dois guardas da fábrica, o presidente, o gerente e o engenheiro com suas mulheres, e o engenheiro ajudante, os empregados superiores da companhia do gás e da obra do canal, os inspetores, contramestres, superintendentes, apontadores e outros empregados da companhia do gás e do canal, os aparelhadores do gás e seus ajudantes, os ferreiros, caldeireiros, pedreiros, carpinteiros, pintores, funileiros e os trabalhadores de todas as classes incluindo os calceteiros, carroceiros, foguistas e outros da companhia do gás, noventa e seis acendedores fardados, setenta e seis canteiros, cincoenta pedreiros, carpinteiros, maquinistas, ferreiros e noventa e quatro trabalhadores do canal e oitenta escravos da companhia do gás.

Em frente do gasômetro o préstito parou e, circundando-o, abriu a Baronesa de Mauá as válvulas que deviam deixar escapar o gás para o grande depósito, o que foi saudado com muitos vivas.

Entrando de novo em marcha seguiu o préstito para as trinta e duas mesas colocadas em frente do edifício da fábrica sob uma coberta de arcos de folhas ornados de bandeiras; admitia cada mesa vinte e quatro pessoas, e junto de cada uma havia uma torneira que quando aberta deixava correr excelente cerveja de Bass ou Tenent. O prato travessa era um carro com chapas de ferro de vinte palmos de comprimento e oito de largura sobre rodas de dezoito polegadas de diâmetro.

Prepararam-se os assados nos fornos da fábrica; havia em todas as mesas profusão de frutas, abundância de pão, muito queijo e manteiga.

Tomando assento a imensa comitiva começaram os trinchantes a cumprir com destreza sua missão, reinando muito entusiasmo entre os convivas que mostraram muito apetite e muita sede. Levantou o Barão de Mauá dois brindes, um ao engenheiro, gerente e mais empregados e operários da companhia do gás; o outro ao engenheiro, empregados e operários da empresa do canal, aos quais respondeu um dos operários propondo um brinde ao barão, o qual foi entusiasticamente aplaudido; seguiram-se outros terminando com grande regozijo esta festa industrial, a que assistiram mais de oitocentas pessoas.

Canal do Mangue

Gastaram-se com o canal 1,378:000$000, havendo-se executado essa obra não só para secar os terrenos circunvizinhos como também para dar navegação a pequenas embarcações que levassem gêneros à Praça Onze de Junho; mas no fim de alguns anos os resíduos do gás, o lodo, o cisco obstruíram essa obra, reduziram o canal a um viveiro de mosquitos, a depósito de imundícies e foco de exalações pestilenciais [2]. Reclamava a imprensa contra essa vala de lama que atravessava a cidade, infeccionava o ar e parecia obra derruída pelo tempo e abandonada pelos homens; até que lembrou-se o governo de assinar um contrato em 12 de fevereiro de 1816 para limpeza e restauração de semelhante obra que absorvera avultada soma. Obrigou-se o contratante a desobstruir e limpar o canal, colocar uma comporta junto à Ponte do Aterrado, reparar os muros laterais e pontes, a colocar um gradil de ferro, destinado a fechar as margens, assentado sobre baldrame de alvenaria, e com dez portões também de ferro, e a arborizar o terreno das margens, sendo todas estas obras ajustadas por 200:000$000.

Mas enquanto se não continuar até ao mar esse canal pouco proveitosa será a despesa que se fizer com sua limpeza. Prolongado até o mar aproveitar-se-ão os terrenos adjacentes e alagadiços, focos de emanações miasmáticas; crescerá a cidade adquirindo um novo bairro; a entrada franca das marés facilitará a renovação constante das águas, tornar-se-á mais fácil o esgoto das águas da cidade, e pequenos batéis poderão percorrer todo o canal, dando animação e beleza a esse bairro que se transformará em ponto de reunião e recreio.

A digna comissão nomeada para propor os melhoramentos da cidade considerou a obra do prolongamento desse canal como uma das de maior utilidade e urgência.

Notas

  1. Chamou-se em tempos remotos Ilha dos Melões.
  2. Em 13 de outubro de 1862 caiu no canal um preto e afogou-se, na ocasião em que o atravessava sobre uma tábua que ali estava desde muito tempo. Em 17 de agosto de 1864 suicidou-se afogando-se no canal Manoel José Ribeiro. Sobre uma das pontes caiu um raio em 10 de fevereiro de 1863, que quebrou todos os vidros dos lampiões e acendeu um dos bicos do gás por meio da faísca elétrica.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

Livro digitalizado

Mapa – Canal do Mangue

Canal do Mangue