Convento do Carmo

Em 1590 vieram estabelecer-se os frades carmelitas frei Pedro Vianna e outros na ermida da Senhora do Ó, erguida na praia do mesmo nome, onde um ano antes haviam residido os frades beneditinos.

Procuraram os carmelitas construir uma casa para residência, e auxiliados pela câmara e pelo povo erigiram na praça chamada lugar do ferreiro da Polé um edifício com dois dormitórios, tendo cada um treze janelas; e desde então a praça ficou conhecida com o nome de Praça do Carmo.

Nesses remotos tempos fácil era levantar-se uma igreja, erguer-se um convento, porque o povo, arrastado pelo sentimento religioso, fazia valiosos donativos em troca de uma benção ou indulgência; eram comuns as doações às ordens religiosas; o governo, a câmara, o povo, todos porfiavam em prestar benefícios à religião, aos padres; e assim não tardaram os carmelitas a obter muitas e importantes aquisições, que enriqueceram a corporação; doou-lhes uma mulher a ermida da Senhora do Ó, a câmara a várzea junto à ermida para a edificação do mosteiro; em 28 de abril de 1590 Jorge Ferreira concedeu-lhes uma légua de terra de duas, que possuía em sua sesmaria; em 5 de novembro de 1591 Fernando Affonso e sua mulher deram-lhes 150 braças de terra, começando da Cruz de São Francisco ao longo da lagoa; no mesmo ano receberam de Crispim da Costa e sua mulher Isabel de Mariz terrenos que estes possuíam ao entrar do boqueirão da Carioca à mão esquerda, até entestar com a água da lagoa, e de comprido pelo outeiro acima 60 braças; em 7 de dezembro de 1596 tiveram terras em Irajá doadas por Antônio Dias Coelho e sua mulher Maria de Sá; em 1611 alcançaram o terreno para a cerca do convento, e ali construíram mais tarde casas com frente para a rua, que recebeu o nome de Beco do Carmo, e depois de Rua Detrás do Carmo; obtiveram terrenos em Suruí e a pedreira da Ilha das Enxadas.

No capítulo provincial reunido em Lisboa, em 15 de janeiro de 1595, havia sido nomeado prior do convento do Rio de Janeiro o padre frei Pedro Vianna.

Era esta casa conventual uma vigararia unida à da Bahia, e dependente da de Lisboa; mas havendo grande dificuldade na visitação dos conventos pela distância e perigos das viagens, tendo perecido o provincial e 12 religiosos no trajeto da Bahia para o Rio de Janeiro, resolveu-se tornar vigararia distinta e separada dos conventos da Bahia e Pernambuco o convento do Rio de Janeiro pelo breve de 22 de setembro de 1658, que só foi confirmado pelo papa Inocêncio XI em 8 de fevereiro de 1686; efetuando-se, em 15 de março do ano seguinte, a separação, sendo eleito provincial do convento do Rio de Janeiro o padre frei Bento Garcez.

A provisão do Conselho Ultramarino de 23 de março de 1656 estabelecera para a província dos carmelitas do Brasil a ordinária anual de duas pipas de vinho, quatro arrobas de cera, e oitenta alqueires de farinha pagos pela fazenda real; mais tarde reduziu-se esta ordinária a dinheiro na quantia de 180$000 divididos pelos quatros conventos de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Santos, vindo o do Rio de Janeiro a receber 90$000, pelo aumento de 45$ concedido pela provisão de 26 de outubro de 1692.

Havendo em 1693 uma epidemia de bexigas nesta cidade, a qual causou grande mortandade de escravos, patentearam os frades do Carmo muita caridade e zelo, não só consolando os doentes, senão sepultando os mortos, pelo que enviou o rei Pedro II duas cartas em 4 de fevereiro de 1694 e 28 de janeiro de 1695, dirigidas aos frades Antônio das Chagas e Ignácio da Graça, nas quais louvava-lhes os serviços prestados à humanidade e ao Estado.

Em 1697 passou o convento por uma reforma operada por frei Manoel Ferreira da Natividade, reformador geral dos conventos de todo o estado do Brasil, e em 1702 por outra pelo comissário visitador apostólico e reformador frei Roque de Santa Thereza.

A bula sacrosanctum de Clemente XI de 22 de abril de 1720 erigiu em província distinta, e isenta da de Lisboa, a vigararia do Rio de Janeiro, ficando-lhe sujeitos sete conventos.

Em 29 de março de 1757 alcançou o convento, livres de direitos, os gêneros vindos de Portugal para seu gasto e sustento.

Reinando a intriga, o desleixo e ciúme no convento, por quererem todos governar e ninguém obedecer, representaram o bispo e o vice-rei Vasconcellos à rainha D. Maria I, notificando-lhe a indisciplina e o tumulto que havia no claustro; e então expediu o núncio apostólico de Lisboa, Vicente Ranuzi, um breve em 20 de julho de 1784, com o beneplácito régio, nomeando visitador geral e reformador o bispo D. José Joaquim Justiniano. Recebido o breve dirigiu-se o bispo ao convento, na tarde do dia 16 de fevereiro de 1785, acompanhado de seu secretário o Dr. João Rodrigues da Costa Marmelo, do vigário geral Francisco Gomes Villas Boas, do desembargador ouvidor do crime Antônio José Cabral de Almeida, de oficiais da câmara eclesiástica, escrivães, alcaides e meirinhos, e reunidos os frades em capítulo, ordenou ao secretário a leitura do breve.

Estavam postados na Praça do Carmo um piquete de cavalaria e o regimento de Bragança, que haviam acompanhado o bispo até o convento, e atopetava o povo os lugares circunvizinhos, ansioso de saber o que ia acontecer.

Intimou o bispo a frei Bernardo de Vasconcellos e a frei Inocêncio do Desterro Barros que seguissem ao seu secretário, que conduziu-os ao palácio do vice-rei, de onde foram remetidos para o convento da ilha do Bom Jesus [1]; e ordenando o provincial frei José de Santa Thereza Costa aos religiosos, que entregassem as chaves das suas celas, foram estas revistadas por ordem do diocesano.

Em 12 de novembro de 1785 expediu o prelado uma circular aos párocos determinando, que por si ou por interpostas pessoas declarassem com todo o segredo possível tudo que pudessem possuir, e que houvesse pertencido aos carmelitas, qualquer que fosse o título ou doação que tivessem recebido dos frades; e se o não fizessem, seriam excomungados, malditos e amaldiçoados de Deus Todo Poderoso.

Seis religiosos representaram a rainha mencionando delitos cometidos pelo diocesano, seu reformador; declararão que este chamava os carmelitas de vis e baixos em presença de seculares, que repetia ter autorização para esvaziar a cadeia dos presos, e nela recolher os religiosos, e que deixava-os morrer a fome, fornecendo-lhes na ceia comidas não usuais no claustro, como tripas, mocotós, bananas e sardinhas!

Em 18 de julho de 1795 dirigiu o senado da câmara uma representação à soberana a favor dos frades do Carmo, e depois de outras súplicas e representações, estranhou a rainha, em aviso de 28 de março de 1797, a falta da execução do breve na parte relativa à convocação do capítulo e eleição dos prelados; expediu-se outro aviso em igual sentido em agosto de 1799, até que em 3 de maio de 1800, veio o bispo ao convento e, reunida a comunidade, deu por finda a sua missão.

Foi eleito provincial o padre frei Antônio Gonçalves Cruz. Se os frades haviam abusado, e profunda desordem reinara no convento, parece que também durante sua administração mostrou-se violento o bispo D. José Joaquim Justiniano; de sorte que nessa época secularizaram-se tantos frades, e falecerão tantos, que a corporação religiosa ficou muito tempo impossibilitada de cumprir os encargos das missas diárias, e outras obrigações da casa.

Chegando em 1808 ao Rio de Janeiro a família real de Bragança, tornou-se o convento do Carmo uma dependência do paço, ao qual foi unido por um passadiço construído em frente da Rua da Misericórdia.

Este edifício, colocado na parte ocidental da praça de D. Pedro II, é de aspecto desagradável e sem arquitetura; composto de três pavimentos contém os dois últimos treze janelas rasgadas cada uma, guarnecidas de balcões de ferro, e ornadas superior e lateralmente de rótulas de madeira, que desapareceram quando o convento transformou-se em palácio; no pavimento inferior havia um arco com um portão, que dava entrada para o pátio do mosteiro, que estendia-se até a Rua Detrás do Carmo, onde viam-se duas janelas de peitoril e uma de sacada, e a face, que olhava para a Rua da Cadeia, hoje da Assembleia, apresentava três janelas de peitoril.

No pátio do convento, estava a enfermaria dos escravos dos frades, e erguia-se um chafariz, que desapareceu em 1848 ou 1849. Do lado esquerdo unia-se o convento à igreja; na parede anterior da torre estava o alpendre da portaria com quatro colunas de pedra, o qual ainda existe; a porta de entrada, construída em 1681, era guarnecida de pregos de metal como ainda se vê: o teto do salão da portaria era abobadado; do lado direito abria-se uma porta, que ia ter à escada do interior do convento, e em frente outra que ainda existe, a qual conduzia ao claustro, circundado de celas; seguia-se a igreja, que já descrevemos tratando da capela imperial.

Não havia arte nem beleza no interior deste edifício, que apesar de haver sofrido diversas modificações interiormente, ainda apresenta no terceiro pavimento os quartos que foram celas dos frades.

Transformado em palácio real o convento dos carmelitas, foram estes asilar-se no hospício dos frades Capuchinhos na Rua dos Barbonos, que abrigaram-se em um sobrado no Outeiro da Glória; mas não julgando-se bem acomodados, pediram os frades do Carmo o seminário da Lapa do Desterro para asilo seu; e doando-lhes o rei esse edifício, em 21 de outubro de 1810, trasladaram em procissão as imagens da casa, assistindo ao ato o bispo, o príncipe D. João, seus filhos, seu sobrinho e a corte.

O seminário da Lapa havia sido fundado pelo padre Ângelo de Siqueira, natural de São Paulo, e missionário apostólico, que, tendo obtido do capitão Antônio Rebello a doação do terreno, e alcançado a licença episcopal em 2 de fevereiro de 1751, deu começo a obra a custa do seu bolsinho e esmolas dos fiéis. Concluído o edifício entraram em exercício as aulas de latim, cantochão e cerimônias do coro; usavam os alunos de sotaina preta e capinhas da mesma cor, pelo que apelidava-os o povo de formigões.

Extinto o seminário, e transformado em residência de frades, construíram-se dormitórios e outras dependências, que não deram a esse edifício aspecto monástico. Estende-se o convento ao lado direito e posterior da igreja; a face que está do lado direito apresenta um dormitório de oito janelas de peitoril; segue-se um corpo mais saliente com sete janelas, que abrem para o lado do Passeio Público, vendo-se aí a portaria, sendo de sacada as duas janelas, que ficam-lhe superiores.

A face posterior conta duas janelas de sacada e nove de peitoril, erguendo-se na extremidade direita dessa face outro corpo com duas janelas para o mar e onze para o pátio do mosteiro fechado do outro lado pelas casas dos escravos, havendo no centro um chafariz.

Interiormente é o convento tão irregular e mesquinho como no exterior a portaria é pequena e mal preparada; vestem-lhe as paredes três painéis, sendo um da Senhora do Carmo pintado pelo artista nacional Raymundo da Costa. Nascem da portaria dois corredores, um estreito e escuro, que vai ter à enfermaria dos escravos, ao refeitório e à cozinha, e o outro à sacristia. Subindo-se a escada ao lado esquerdo da portaria chega-se ao segundo pavimento onde vê-se um salão ornado de grandes painéis, quase todos devidos ao pincel do pintor João de Souza, e de um retrato de D. João VI pintado por José Leandro; há um outro salão chamado do colégio, onde está a cadeira com o dístico Initium sapientiae, timor Domini, na qual sentaram-se ilustres religiosos para doutrinar seus irmãos do claustro; há vinte e sete celas. Veem-se no 3º pavimento a capela de Santa Bárbara, nua de ornatos, o cárcere e o salão da livraria, que tem estado em abandono.

Na frente do convento, no princípio da Rua da Lapa, ergue-se a igreja, cuja fachada não tem beleza, nem arquitetura. Transpondo o átrio com dois degraus de pedra, e cercado de gradil de ferro, construído em 1866, vê-se o pórtico, três janelas no coro com vidraças, sendo maior a do centro, o frontão reto e a cruz; de cada lado levanta-se uma torre, mas a do lado esquerdo está incompleta. Guarda o interior cinco altares, vendo-se aos lados do altar-mor as imagens de dez palmos de altura dos patriarcas Santo Elias e Santo Eliseu; orna o teto da capela-mor um painel da Senhora do Carmo cercado dos quatro evangelistas; e estão aí as cadeiras dos religiosos e no pavimento a sepultura do bispo de Crisópolis.

Todo o pavimento da igreja é de mosaico de mármore; assim como o da sacristia, colocada na parte posterior, tendo um esguicho de mármore feito em 1814, e janelas, que deitam para um jardim.

Junto à torre do lado esquerdo havia o recinto das catacumbas, e aí abriram os religiosos uma porta para o salão das aulas que, inauguradas em 13 de janeiro de 1862, pouco tempo funcionaram!

O convento do Carmo do Rio de Janeiro possui mais de 70 casas térreas e de sobrado, no distrito desta cidade, e várias fazendas de cultura; é habitado atualmente por quatro religiosos.

A ordem carmelitana fluminense conta além do convento da corte, um em Angra dos Reis, um na cidade da Vitória, província do Espírito Santo, um na de São Paulo, um na de Santos, um em Mogi das Cruzes, e um em Itu.

Além destes há, um na cidade de Belém no Pará, que foi arrendado ao bispo para estabelecimento de um asilo da infância desvalida; o convento da cidade da Vitória esta em ruínas.

Promulgada a lei de 28 de setembro de 1871, foram libertados todos os escravos do convento.

Reunidos os religiosos em capítulo em 1860 para procederem à eleição dos prelados da Casa, levantou-se tão renhida contenda que, se não chegou à deliberação alguma pelo que o núncio apostólico, monsenhor Mariano Falcinelli nomeou para visitador apostólico monsenhor Narciso da Silva Nepomuceno, que tendo sido carmelita, secularizara-se; terminou essa reforma em 16 de fevereiro de 186l; e convocado o capítulo em 21 de abril do mesmo anuo, foi eleito provincial o padre mestre Dr. frei Bernardino de Santa Cecília Ribeiro, orador notável, que faleceu há poucos anos; em 1866 foi nomeado visitador apostólico do convento frei José Damásio de S. Vicente Ferreira, e atualmente exerce esse cargo o monsenhor Felix Maria de Freitas Albuquerque.

Ilustraram esta casa conventual homens notáveis em letras e virtudes, entre outros:

O padre mestre Dr. frei João dos Santos Coronel, douto e mui recolhido, confessor de freiras, eloquente pregador, sendo lembrado entre seus sermões, que perderam-se, um repetido na igreja do Rosário em uma quarta-feira de cinza.

Frei Fulgêncio, virtuoso, sábio e austero na execução da disciplina monástica; só tomava rapé em sua cela; quando tocava o silêncio tirava os sapatos e andava descalço, lecionou no convento dezoito anos, e muitos de seus discípulos doutoraram-se.

O padre mestre Dr. frei Antônio Gonçalves Cruz, sábio e religioso; em sua cela não havia nem uma cadeira; duas tábuas sobre dois cavaletes e um pedaço de pau envolvido em um couro, eis de que constava seu leito; foi provincial e morreu cego; era natural de Guaratinguetá [2].

O padre mestre Dr. Fernando de Oliveira Pinto, natural da província de Minas, confessor de freiras e lente do convento, pregador notável; nomeado presidente do convento durante a reforma do bispo D. José Joaquim Justiniano, renunciou ao cargo; foi quem ofereceu o convento para a residência da família real; era de alta estatura e tão gordo que não podia ajoelhar-se.

Frei Leandro do Sacramento, natural da cidade do Recife em Pernambuco que, tendo obtido em Coimbra o título de licenciado em filosofia, veio para a pátria, onde vestiu o hábito de carmelita; no Rio de Janeiro foi nomeado inspetor do Jardim Botânico e do Passeio Público em 10 de fevereiro de 1824 com o ordenado de 240$ réis, e ali abriu uma aula de botânica e de agricultura; publicou sobre a cultura e fabrico do chá, no Jardim Botânico, uma excelente memória. Era homem de temperamento bilioso, de estatura mais que ordinária, magro, de cor morena, cabelos pretos, olhos pequenos e mui expressivos, tendo os ossos inalares mui salientes; na caixa do peito apresentava um defeito de configuração, o osso sternum nos seus dois terços inferiores era muito deprimido. Tendo sofrido repetidas hemoptises, que fazia cessar com o uso da erva tulangá leominus tartaria veio a falecer de tubérculos pulmonares em 1 de julho de 1829, contando 50 anos de idade.

Frei Pedro de Santa Mariana, natural da cidade do Recife, onde nasceu em 30 de dezembro de 1782, e professou no convento do Carmo da mesma cidade, alcançando em pouco tempo o grau de mestre por dedicar-se ao ensino da geometria; indo a Coimbra aplicou-se às ciências matemáticas, e de volta para o Brasil foi nomeado lente da escola militar, jubilando-se depois de 25 anos de magistério, durante os quais deu duas ou três faltas! Escolhido para preceptor do Sr. D. Pedro II em 1833 habitou desde esse ano o palácio imperial, e ali faleceu em 6 de maio de 1864; em 1841 foi sagrado bispo de Crisópolis; teve o cargo de esmoler mor, o grau de doutor em matemáticas, conferido aos lentes da escola; a comenda de Cristo, e recebeu de Gregório XVI os títulos de seu prelado doméstico, bispo assistente ao sólio pontifício, e conde palatino, honra pela primeira vez concedida a um prelado brasileiro. Crismou as princesas D. Isabel e D. Leopoldina, sendo esta a última vez que celebrou. Viveu 31 anos no paço de São Cristóvão, gozando da maior consideração e respeito por sua ilustração e virtudes; quanto tinha repartia com os pobres. Deixou a sua cruz, o anel e a bíblia ao Imperador, a quem consagrava verdadeira estima; seu corpo depois de embalsamado, por ordem do Imperador, foi conduzido no coche, que tem servido para o enterro dos príncipes, à igreja do convento da Lapa, onde ao chegar pegou o Imperador de uma das argolas do caixão, como já havia feito ao sair do paço, honra de que não havia exemplo no Brasil; e, depositado o cadáver na câmara ardente, houve no dia seguinte as encomendações e outras cerimônias religiosas, as quais assistiram a família imperial; mandou o Imperador preparar a sua custa a lousa, que fecha o sepulcro do finado, e vai todos os anos assistir a missa rezada pela sua alma. Era o bispo de Crisópolis membro do Instituto Histórico e de outras sociedades científicas.

Frei Custódio Alves Serrão, natural da província do Maranhão, cursou com proveito a universidade de Coimbra, onde recebeu o grau de bacharel em ciências naturais; por vontade dos seus progenitores entrou para a ordem carmelita, mas não chegou a tomar ordens de missa. Foi nomeado lente de física e química da academia militar; e por decreto de 26 de janeiro de 1828 diretor do Museu Nacional, cargo que exerceu durante 19 anos; alcançou o título de doutor como lente jubilado da academia militar; ocupou durante dois anos o cargo de diretor do Jardim Botânico; fez importantes descobertas sobre o pau-brasil e sobre o paládio, podendo-se obter pelo seu processo esse metal inteiramente separado de todos os corpos com que costuma se achar unido, o que até então se não sabia; acontecendo ser obtido o paládio mais ou menos impuro e pouco dúctil; assim o hábil químico barão d’Arcet ofereceu ao Sr. D. Pedro II um sinete julgando ser de paládio puro, mas examinado na casa da moeda viu-se que era de carbureto de paládio; botânico notável era frei Serrão consultado pelas sumidades científicas da Europa; porém mui modesto vivia retirado em uma chácara na Gávea, onde estabeleceu seu horto botânico; recusou diversas vezes condecorações e honras, e no seu retiro veio a morte encontrá-lo em 10 de março de 1873.

Frei Antônio de Santa Gertrudes, distinto nas letras divinas e humanas, pregador imperial, mui eloquente, apelidado por Baltasar da Silva Lisboa, o Bossuet brasileiro; ocupou diversas vezes o cargo de provincial.

CARMELITAS DESCALÇOS

Vieram com a família real de Bragança dois religiosos carmelitas descalços, frei João dos Santos e frei Nicolau de Jesus Maria, que alcançaram a estima do povo por se prestarem a qualquer hora às necessidades espirituais. Retirando-se D. João VI para Lisboa se passaram estes frades para a capela de Santo Antônio dos Pobres na Rua dos Inválidos, e tendo residido aí oito anos, foram habitar a capela do Senhor dos Passos na rua do mesmo nome; mas realizada a independência do Brasil, e intimados os prelados dos conventos a pedirem a separação de obediência de Portugal, retiraram-se do Rio de Janeiro estes religiosos.

Notas

  1. Depois de viver desterrado mais de cinco anos adoeceu o padre mestre Dr. frei Bernardo de Vasconcellos, e removido por Ordem do bispo, de 11 de dezembro de 1790, para a enfermaria do convento dos Franciscanos nesta Cidade, ali faleceu. Permaneceu frei Inocêncio durante treze anos no convento da ilha; mas perdoado pela rainha em 8 de julho de l797, em 30 de outubro desse ano regressou para a cela de seu mosteiro.
  2. Veja Mosaico Brasileiro pelo Dr. Moreira de Azevedo pág. 54.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

Livro digitalizado

Mapa – Convento e Igrejas do Carmo