Hospício de Pedro II

No relatório apresentado em 25 de julho de 1840 disse o provedor da Misericórdia José Clemente Pereira.

“Não sei que espírito de previdência me inspira, a chácara do vigário geral há de um dia converter-se em hospício de alienados.”

E um ano depois realizavam-se os pressentimentos caritativos do benemérito cidadão.

Em 15 de julho de 1841 dirigiu José Clemente o presente ofício ao ministro do império.

Hospício de Pedro II – Praia Vermelha – P. G. Bertichem – 1856

“O zelo de melhorar a sorte dos infelizes que, tendo a desgraça de perderem o juízo, não encontram nesta capital hospital próprio, onde possam obter tratamento adequado à sua moléstia, por serem insuficientes as enfermarias, onde são recebidos no hospital da Santa Casa, me faz lembrar a necessidade de dar-se princípio a um hospital destinado privativamente para tratamento de alienados; e debaixo destas vistas dei princípio a uma subscrição aplicada ao dito fim, que monta já à quantia de 2:560$000; e espero que hoje mesmo esteja elevada a mais, segundo informações de pessoas encarregadas de a promoverem em diversos lugares desta província. Felizmente os meus votos são hoje auxiliados por outra subscrição, que a comissão da praça do Comércio desta corte acaba de por à disposição de S.M. o Imperador para ser aplicada à fundação de um estabelecimento de caridade, que for mais de seu imperial agrado.

E como nenhum outro possa ser mais importante; e S. M. o imperador se dignasse de declarar-me que deseja ardentemente proteger esta instituição, apresso-me em por à disposição do mesmo Senhor a sobredita quantia, que existe já arrecadada, com a qual, junta a da subscrição promovida pela comissão da praça do comércio, se pode dar princípio a obra, na certeza de que a piedade dos fiéis lhe dará andamento com generosas esmolas.

E como seja indispensável lugar salubre e apropriado, com terreno suficiente para as comodidades e larguezas, que estabelecimentos de semelhante natureza exigem, poderá o referido estabelecimento fundar-se na chácara que a Santa Casa da Misericórdia possui na praia Vermelha, denominada do Vigário Geral, e onde existe já uma enfermaria de alienados que têm obtido melhoramentos, e alguns até um total restabelecimento; e há a possibilidade de comprar-se uma casa para enfermarias de homens, que se vende por 6:000$000. E porque em tais fundações a construção do edifício é pouco em comparação da despesa ordinária para sustento dos estabelecimentos, a Santa Casa da Misericórdia não terá dúvida em tomar esta a seu cargo, uma vez que se lhe confie a administração, como será de razão, e até conveniente, pois fornecerá o terreno e a subsistência futura do novo hospital; acresce que goza do merecido conceito de administrar bem seus estabelecimentos, que todos prosperam por uma maneira espantosa. Digne-se V. Ex. de levar todo o referido à soberana presença de S.M. o Imperador, para que haja por bem ordenar o que for mais do seu imperial agrado; e fará um ato que eternizará o fausto dia da sagração e coroação do mesmo augusto Senhor, a fundação de um hospital de alienados, que poderia bem tomar o nome de Hospício de Pedro II. D. G. a V. Ex. Santa Casa da Misericórdia 15 de julho de 1841. Ilmo. Exmo. Sr. Candido José de Araújo Vianna, ministro e secretário de estado dos negócios do império. José Clemente Pereira”.

Em 18 de julho de 1841, dia da sagração e coroação do segundo imperador do Brasil, assinou-se o seguinte decreto:

“Desejando assinalar o fausto dia da minha sagração com a criação de um estabelecimento de pública beneficência: hei por bem fundar um hospital destinado privativamente para tratamento de alienados com a denominação de Hospício de Pedro II o qual ficará anexo ao hospital da Santa Casa da Misericórdia desta corte, debaixo da minha imperial proteção, aplicando desde já para princípio da sua fundação o produto das subscrições promovidas por uma comissão da praça do comércio, e pelo provedor da sobredita Santa Casa, além das quantias com que eu houver por bem contribuir. Candido José de Araújo Vianna do meu conselho, ministro e secretário de estado dos negócios do império o tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro, 18 de julho de 1841, 20º da Independência e do império. Com a rubrica de S. M o Imperador. Candido José de Araújo Vianna”.

Em 6 de agosto remeteu-se o decreto ao provedor da Misericórdia, que apresentou-o à mesa da irmandade no dia 24, sendo aceita a anexação do hospício ao hospital da Misericórdia, com a condição de que só serviria para tratamento de alienados, e nunca para outro destino diverso; que se criasse uma repartição separada, denominada administração do hospício de Pedro II, composta de escrivão, tesoureiro e procurador; que o novo edifício fosse construído na chácara da praia Vermelha, pertencente ao patrimônio do hospital; que o irmão provedor e a mesa ficassem autorizados para comprar, e fazer incorporar quaisquer prédios rústicos ou urbanos para a construção do hospício, que seria mantido com o rendimento da Santa Casa da Misericórdia.

Em 3 de setembro de 1842 lançou-se a primeira pedra do edifício e no dia 5 começaram as obras.

Em 1846 o cidadão José Ribeiro Monteiro ofereceu ao Imperador o terreno da chácara da capela da praia Vermelha, e outros contíguos por ele comprados para serem metade incorporada ao hospício, ficando a outra metade à disposição do monarca; e por aviso do ministério do império de 14 de setembro ordenou o Imperador se cumprisse a vontade do doador.

Em 19 de junho de 1850 a assembleia provincial do Rio de Janeiro concedeu duas loterias para as obras do hospício, e o decreto de 10 de julho do mesmo ano votou 20 loterias em benefício das obras do mesmo edifício e para manutenção dos alienados.

Em 30 de novembro de 1852 benzeu-se o edifício, e sagrou-se a respectiva capela, assistindo o imperador ao ato; e cinco dias depois, em presença das pessoas imperiais, do corpo diplomático, ministros de estado, irmãos da Santa Casa e muitos convidados inaugurou-se o estabelecimento; celebrou pontifical o monsenhor Narciso da Silva Nepomuceno, que, acometido por um acidente repentino, não terminou o ato; orou o padre mestre frei Antônio do Coração de Maria, e regeu a orquestra o mestre Francisco Manoel da Silva. Terminado o ato religioso leu o escrivão da Santa Casa, Dr. Thomaz José Pinto de Cerqueira, no salão imperial, as atas das sessões da mesa conjunta da irmandade, de onde constava ter a administração tomado a si a tarefa da construção do hospital, e a elevação de uma estátua ao Imperador para perpetuar a memória da fundação. Finda a leitura caiu o véu, que cobria a estátua. Seguiram-se discursos recitados por José Clemente Pereira, Drs. José Martins da Cruz Jobim, diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Francisco de Paula Candido, membro da academia de medicina, e por outras pessoas gradas; e por fim aceitaram SS. MM. uma delicada refeição preparada pela irmandade, havendo outra mesa para os convidados.

Em 8 de dezembro começou a funcionar o hospício com cento e quarenta alienados, sessenta e sete que vieram da enfermaria provisória da praia Vermelha, e setenta e três do hospital da Misericórdia. Em 1855 concluíram-se as obras do edifício.

A lei provincial de 29 de outubro de 1856 concedeu uma loteria anual a este hospital, enquanto não tiver a província do Rio de Janeiro um estabelecimento semelhante, e o decreto de 10 de setembro do mesmo ano concedeu trinta loterias para patrimônio do mesmo estabelecimento.

Ergue-se o hospício de Pedro II na praia Vermelha, outrora praia de Santa Cecília, em uma superfície de 1,562 braças quadradas. O pórtico revestido de cantaria, apresenta uma escadaria de dez degraus; quatro colunas de pedra com capitéis dóricos sustentam uma balaustrada de mármore, havendo entre as colunas três portas. Há no segundo pavimento quatro colunas de ordem jônica, coroando o corpo um frontão reto, e ornando o tímpano as armas imperiais trabalhadas em mármore; entre as colunas abrem-se três janelas. 0s corpos laterais constam de vinte janelas de peitoril no primeiro pavimento, cuja arquitetura é da ordem dórica do teatro de Marcello em Roma, e de vinte no segundo pavimento, que é da ordem jônica sob o sistema do templo de Minerva Políade na Grécia; treze janelas têm sacada de grades de ferro e sete são de peitoril. Todas as janelas são de arquivolta e guarnecidas de varões de ferro. Um ático, ornado de estátuas e vasos de mármore, oculta o telhado do edifício.

Nas faces laterais há treze janelas em cada pavimento, tendo sete janelas do segundo pavimento sacadas de grades de ferro; na face do fundo veem-se quatro torreões com três janelas em cada andar, ligando os torreões corpos de um só pavimento com seis janelas de peitoril. No centro do edifício eleva-se a capela.

Deu o desenho deste monumento o engenheiro Domingos Monteiro, exceto o do pórtico que é do engenheiro Guilhobel, e o engenheiro José Maria Jacinto Rebello modificou o plano primitivo.

O vestíbulo tem o pavimento ladrilhado de mármore, e encerra as estátuas dos sábios Esquirol e Pinel, trabalhadas pelo escultor Pettrich, as quais importaram em 1:400$000. Comunica-se por um lado com a sala da administração, e por outro com o consultório gratuito para os doentes pobres daquele arrabalde da cidade.

Concorrendo ao consultório da Misericórdia muitos doentes pobres, resolveu o provedor, marquês de Abrantes, autorizado pela mesa, franquear aos pobres mais três consultórios, e em julho de 1859 abriu um no hospício de Pedro II, outro na enfermaria da Saúde, outro na Gamboa, e o terceiro no recolhimento das órfãs em São Cristóvão.

Há no fundo do vestíbulo três portas começando na do centro uma escada, que vai ter à capela, e nas laterais outras duas, que se dirigem ao andar superior. A escadaria é iluminada por uma claraboia primorosamente construída pelo arquiteto Rebello.

A capela de gosto simples e grave, sem ornatos de luxo, impressiona quem busca semelhante recinto; encerrado em uma rotunda está o altar com a imagem de mármore de São Pedro de Alcântara, feita por Pettrich, a qual custou 5:000$000; abrem-se de cada lado quatro tribunas, donde ouvem missa os doentes, que podem assistir a este ato.

O lado direito do edifício é ocupado pelos homens, e o esquerdo pelas mulheres; no primeiro pavimento do lado direito estão a secretaria, a rouparia, quatro dormitórios, a enfermaria, oito quartos de pensionistas, casa de banhos, construída em 1860, com dez banheiros de mármore para banhos quentes, frios, de chuva e a vapor, a sala do refeitório dos pensionistas, com as estátuas de São Vicente de Paula e São José, a sala do refeitório dos doentes pobres, a cozinha, despensa, quartos para doidos furiosos, e dois pátios com jardim e tanques.

Há no lado esquerdo os mesmos aposentos para as mulheres; mas, em vez da rouparia e secretaria, há o consultório gratuito, e os aposentos das irmãs de caridade. Os corredores são ladrilhados de mármore.

As divisões do segundo pavimento são iguais às do primeiro, mas no lado esquerdo há a sala da costura, e a sala onde expõem-se à venda trabalhos dos alienados, como flores de pano, cestas de contas etc.; e no lado direito há a sala de visitas, onde os doidos falam com as pessoas que procuram-nos, e a sala do fundador. Pertence esta sala à ordem coríntia, é ornada de pilastras caneladas com capitéis dourados, e com seu respectivo entablamento, é decorada a claro-escuro com arabescos simples, e tem no teto dois ovais com as armas do Império, lendo-se em um, 18 de Julho de 1841 e em outro, 5 de Setembro de 1842; dão-lhe luz cinco janelas de cada lado.

Em um dos extremos ergue-se sobre alto pedestal de pedra a estátua em mármore de D. Pedro II revestido de capa e cetro, lendo-se na base uma inscrição em latim, cuja tradução textual é a seguinte:

A Pedro Segundo
Honra e Defesa do Brasil
E deste Hospício
Protegido pela gloriosa sombra de seu nome
Fundador:
Este testemunho de um ânimo agradecido
Os Irmãos do Hospital da Misericórdia
Levantaram
No ano do Senhor de 1852,
Em 15 de Dezembro.

Esta estátua trabalhada pelo escultor Pettrich importou em 10:711$984.

De fronte da estátua do imperador apresenta-se a de José Clemente Pereira com o balandrau de vara de provedor da Misericórdia; é de mármore, assim como o pedestal, e tem por inscrição o seguinte:

Decreto de 13 de Março

Três dias depois de ter falecido José Clemente Pereira apareceu seguinte decreto:

“Querendo dar testemunho pessoal do apreço em que tenho os serviços prestados à humanidade pelo falecido provedor da Santa Casa da Misericórdia José Clemente Pereira, hei por bem que pela mordomia da minha imperial casa se mande fazer a sua estátua, que será colocada defronte da minha, na sala do Hospício do meu nome. José Maria Velho da Silva, de meu conselho, mordomo interino da minha imperial casa o tenha assim entendido. Palácio do Rio de Janeiro em 13 de março de 1854, 33º da Independência e do Império. Com a rubrica de Sua Majestade o imperador. José Maria Velho da Silva”.

Esta estátua, feita por Pettrich, e erguida pelo imperador como um testemunho pessoal de apreço aos serviços humanitários de José Clemente Pereira, há de perpetuar o nome do provedor da Misericórdia e do monarca do Brasil; dupla será sua missão, pois recordará sempre dois homens, porque mandando levantar esta estátua e gravar-lhe no pedestal a epígrafe: Decreto de 13 de Março, ergueu o imperador um monumento de glória para si e para o provedor da Misericórdia.

Inaugurou-se esta estátua em 19 de junho de 1857 em presença das pessoas imperiais que, recebidas pela irmandade da Misericórdia, dirigiram-se à capela para orar, e chegadas à sala do fundador, correu-se a cortina de damasco verde, que cobria o monumento. O provedor da Misericórdia Camillo Faro pronunciou uma alocução de agradecimento ao imperador, e o escrivão Dr. Thomaz José Pinto de Serqueira leu o elogio de José Clemente Pereira, do qual encontrará o leitor uma notícia biográfica no fim deste capítulo. Terminado ato aceitaram o imperador e a Imperatriz uma refeição oferecida pelo provedor, e examinaram os trabalhos expostos dos alienados.

Aos lados da estátua de José Clemente estão os bustos em mármore do barão de Guapimirim e de Joaquim de Babo Pinto. O primeiro benfeitor ofereceu a quantia necessária para se concluir e decorar esta sala e legou 6:000$000 ao hospício, além de outros benefícios prestados à Misericórdia; Joaquim do Babo Pinto legou diversos prédios à Misericórdia para ser aplicado 2/9 do rendimento no tratamento dos alienados. Em mesa conjunta de 22 de novembro de 1852 propôs José Clemente Pereira, que se colocassem na sala nobre do hospício, os bustos destes benfeitores, precedendo aprovação do governo, que foi concedida no dia 29 do mesmo mês. Importou cada busto em 600$000 e foram esculpidos por Pettrich.

A construção do hospício importou em 1,313:451$481.

Destinado para asilo, tratamento e curativo dos alienados de ambos os sexos de todo o Império recebe-os sem distinção de condição, de naturalidade e religião. Em virtude do decreto de sua fundação e da incorporação à Santa Casa da Misericórdia, é igual em direitos, prerrogativas e isenções aos outros estabelecimentos pios da mesma Santa Casa; sua administração consta de escrivão, tesoureiro e procurador, eleitos anualmente pela mesa da irmandade da Misericórdia e a ela subordinados.

O primeiro escrivão que teve o hospício foi o Dr. Diogo Soares da Silva de Bivar, o primeiro tesoureiro o barão do Bonfim, e o primeiro procurador Francisco José da Rocha Júnior.

Há três médicos encarregados do serviço sanitário e vinte irmãs de caridade. O primeiro diretor do serviço clínico, Dr. Manoel José Barbosa, escapou de ser assassinado por um doido por haver-lhe recusado alta; saía o médico da enfermaria quando o doente acometeu-o com uma tesoura, mas não perpetrou o ferimento, porque um enfermeiro deteve-o, ficando este ferido.

Admitem-se gratuitamente neste hospital as pessoas indigentes, os escravos dos senhores, que não possuírem mais de um, sem meios de pagar as despesas do tratamento e curativo, e os marinheiros de navios mercantes; os que pagam são recebidos como pensionistas; e o aviso do ministério do império de 11 de agosto de 1802 elevou as cotas diárias nos termos seguintes: para os pensionistas da 1ª classe 5$000, para os da 2ª 3$500, para os da 3ª 2$500 e para os escravos. 1$600. O hospital pode admitir 350 alienados.

Quando construía-se este edifício mais de um desassisado e irrefletido lançou o ridículo sobre José Clemente, julgando mui extenso o hospital, e inútil o erguer-se um palácio para encerrar doidos; mas o sarcasmo e a ignorância de alguns não abalaram o ânimo do digno provedor da Misericórdia, que, inspirado pelo anjo da caridade, continuou em sua missão, e em dez anos construiu um hospital para os doidos. Cedo reconheceu-se o erro daqueles que julgavam mui vasto o edifício, porque um ano e nove meses depois de aberto, já encerrava o hospício um número de alienados superior ao da lotação. Pediu o provedor providências ao governo que, por aviso de 4 de setembro de 1854, proibiu a remessa dos alienados das províncias sem prévia autorização do ministério do império, ouvida a provedoria da Santa Casa.

É certo que das províncias remetiam idiotas e paralíticos, e de uma só província veio uma família de idiotas.

Há neste hospital, além dos alienados, algumas meninas, filhas de mulheres pobres, que morrem no hospital da Misericórdia, as quais ali recolhidas aprendem a ler, a escrever e a trabalhos de agulha.

Além dos quatro jardins que há nos pátios do palácio, há na parte posterior uma extensa chácara, e na frente um jardim cercado com alto e elegante gradil de ferro.

Aos lados do hospício estão as casas das oficinas dos doidos, criadas em 27 de janeiro de 1854 por solicitação do Dr. Manoel José Barbosa. Constam essas casas de uma porta e quatro janelas de peitoril, tendo um frontão reto e um óculo no tímpano. Estão de um lado as oficinas de sapateiro, alfaiate, marceneiro, florista, e de desfiar estopa, que são as dos homens, e do lado oposto a lavanderia com máquinas a vapor, sala de engomado sendo estes serviços feitos pelos alienados, que lavam e engomam a roupa do hospital.

Quando criaram-se as oficinas de alfaiate e sapateiro havia no hospício sete sapateiros e cinco alfaiates, e havendo também quatro músicos, ordenou o provedor José Clemente se comprassem uma rabeca, uma flauta, uma clarineta e uma requinta como meio de distração, e talvez de cura.

O serviço interno do hospital é regulado pelo regimento de 14 de março de 1858; há asseio, ordem e disciplina no estabelecimento, os alienados são tratados com humanidade, e andam decentemente trajados; ao domingo pode o edifício ser visitado.

Já passou o tempo em que ninguém se atrevia a entrar em um hospital de doidos, receoso de penetrar em enxovias, em gaiolas de ferro, onde eram encarcerados os míseros, como se fossem feras. Acorrentados, presos ao tronco, tendo o chão frio por leito, o pão duro por alimento, o azorrague como remédio, viviam estes infelizes em subterrâneos, em um corredor escuro e úmido do hospital da Misericórdia, onde nada lhes servia de lenitivo, antes tudo se conjurava para exasperá-los, e obscurecer-lhes mais a razão.

Desde 1830 clamava a sociedade de medicina, depois academia imperial de medicina, por não haver um asilo especial para os doidos; O Dr. De-Simoni publicou uma memória provando a necessidade da criação de um hospital separado, em que os alienados pudessem ser submetidos a um tratamento conveniente, e também representaram no mesmo sentido algumas comissões da câmara municipal encarregadas da visita dos hospitais. Ouvindo José Clemente os brados da ciência e da humanidade, fundou um elegante e vasto hospital para os que perdem a razão, onde são eles tratados pelos meios, que a filosofia e a medicina ensinam; e se ali muitos não recuperam a razão, de muitos são minorados os sofrimentos.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

Imagem destacada

  • UFRJ – Campus da Praia Vermelha visto do Morro da Urca.

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