Hospital da Misericórdia

Fundada a cidade do Rio de Janeiro estabeleceu-se logo depois em 1568 ou em 1569 o Hospital da Misericórdia, como se infere de um documento conservado no arquivo da Santa Casa, do qual adiante falaremos; mas o padre Vasconcellos e o autor do Santuário Marianno tratando do princípio desse hospital escrevem:

“Pelos anos 1582 se entende teve princípio a Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ou poucos anos antes; porque neste chegou àquele porto uma armada de Castela, que constava de dezesseis naus, em que iam trezentos espanhóis, de que era general Diogo Flores Baldez. Com os temporais padeceu muito esta armada, porque lhe adoeceu muita gente; e assim chegaram ao Rio, bem necessitados de remédio e de agasalho. Achava-se naquela ocasião, e nesta cidade, o venerável José de Anchieta, visitando o colégio da sua religião, fundado em 1567. Como o venerável padre era varão levado da caridade tomou muito por sua conta a cura e o remédio de todos aqueles enfermos, dando traça como se lhes assignasse uma casa, em que pudessem ser curados todos e assistidos; para o que destinou alguns religiosos, assistindo também ele ao mais com as medicinas, médico e cirurgião. Com esta ocasião teve princípio o hospital da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.”

A provisão de 1 de julho de 1591 do prelado administrador, Bartolomeu Simões Pereira, proibiu ao vigário da freguesia existente na cidade intrometer-se nas eleições da irmandade da Misericórdia, por estar isenta de sua jurisdição.

Gozando deste e de outros privilégios começou esta irmandade a prosperar, e tratou de requerer a El-Rei nos seguintes termos:

“Dizem o provedor e irmãos da Santa Casa da Misericórdia da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, partido do Brasil, que há sessenta anos tem feito casa com seu hospital para enfermos, sacristia, parlatório, e é uma das boas da costa, e a algumas faz vantagem notável com sempre ter sua irmandade, guardando o compromisso, fazendo muitas esmolas, casando órfãs, e dando suas ordinárias todos os sábados, conforme a possibilidade da terra; e porquanto até agora não tem provisão para ser Misericórdia, pedem a Vossa Majestade lhes mande passar provisão para que aquela casa possa gozar de todos os privilégios e graças, honra e liberdades que têm e gozam as casas desta cidade de Lisboa e a da Vila de Setúbal, e as mais deste reino, e receberá mercê.”

Enviou o rei o seguinte alvará:

“Eu El-Rei, faço saber aos que este alvará virem, que, havendo respeito ao que na petição atrás escrita dizem o provedor e irmãos da Santa Misericórdia de São Sebastião do Rio de Janeiro, partes do Brasil, e vistas as causas que alegam, hei por bem e me apraz que eles possam gozar e usar de todas as provisões e privilégios concedidos à Casa de Misericórdia desta cidade de Lisboa, e isto naquelas coisas em que se lhes puderem aplicar; e mando às justiças a quem este alvará for mostrado, e o conhecimento pertencer, o cumpram como nele se contém; o qual hei por bem que valha como carta feita em meu nome, por mim assinada sem embargo da ordenação do 2º L., tit. 40 em contrário. João Feio o fez em Lisboa a 8 de outubro de 1605. Duarte Corrêa o fez escrever. Rei. Alvará por que Vª Majestade há por bem que o provedor e irmãos da Santa Casa de Misericórdia da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro possam gozar e usar de todas as provisões e privilégios concedidos à Misericórdia da cidade de Lisboa, e aquelas coisas em que se lhes podem aplicar. Para Vossa Majestade ver.

Cumpra-se esta provisão de Sua Majestade, assim como nela se contém. – André Gauzão Menezes, juiz dos órfãos. – Cumpra-se como nela se contém. – Rio de Janeiro 13 de agosto de 1630. – Pedro Homem Albernaz. – Cumpra-se – Administrador. – Cumpra-se – o provedor, Duarte Corrêa Vasqueanes.”

Concordamos com Antônio Duarte Nunes, autor do Almanack Historico, que supõe engano de quem lavrou o alvará, porque comparando-se a era da fundação da cidade em 1567 com a do cumpra-se do alvará em 1630, encontra-se uma diferença de sessenta anos ou pouco mais, que são os sessenta anos da posse que alegam os irmãos da Misericórdia, assim parece que logo depois da fundação da cidade, criou-se o hospital, e decorrido aquele tempo requereram a El-Rei pedindo privilégios e graças que foram concedidos pelo alvará já citado, cuja data julgamos não ser exata, porque não é de crer que lavrado em 1605 em Lisboa, só tivesse o cumpra-se no Rio de Janeiro em 1630; acresce que admitindo-se semelhante data, é necessário dar a fundação do hospital antes do ano de 1545 isto é, mais de vinte anos antes da fundação da cidade.

O alvará de 22 de maio de 1642 concedeu à Santa Casa os dízimos de frangos e ovos por três anos, graça que outras ordens estenderam por mais tempo; a resolução de 23 de agosto de 1760, cedeu-lhe os dízimos de todos os gêneros à exceção do açúcar, por seis anos, que anualmente rendiam 332$000, e sendo arrematado o contrato dos dízimos em 1765 por Manoel Alvares de Mira obrigou-se este a dar 400$000 à Santa Casa anualmente pelo resto dos seis anos. Em virtude das bulas do Papa Pio VI que mandaram aplicar aos hospitais dos enfermos e expostos os legados não cumpridos, começou a Misericórdia a gozar deste privilégio, cuja execução autorizou o alvará de 5 de setembro de 1786; o alvará de 18 de outubro de 1806 mandou reger pelo compromisso da casa de Misericórdia de Lisboa os hospitais do reino e domínios ultramarinos; o alvará de 27 de junho de 1808 isentou da décima os prédios da Misericórdia, assim como eram isentas suas rendas da contribuição do selo, pelo alvará de 20 de maio de 1811 ; o alvará de 8 de julho de 1811 deu-lhe juiz privativo das suas causas, a quem arbitrou-se o ordenado de 400$000 pagos pelo rendimento da própria Misericórdia.

Eram neste hospital medicados os soldados da guarnição da cidade, os das guarnições dos navios de guerra, e os presos doentes, para cujo tratamento contribuía a fazenda real anualmente com 1:000$000, enquanto se não estabeleceu o hospital militar.

Edificado no Largo da Misericórdia, sem arquitetura, mui pequeno e acaçapado tornou-se, com o aumento da cidade, insuficiente o hospital da Santa Casa, pelo que construíram-se novas enfermarias; mas sendo algumas dessas enfermarias abaixo do nível do chão, quase sem ar e sem luz, não tendo o hospital esgoto, apesar de estar perto do mar e nem água para o serviço interno, e levantado junto de um cemitério, que recebia cada ano perto de três mil cadáveres, determinou o provedor José Clemente Pereira construir um novo edifício. Propôs em sessão de mesa conjunta de 30 de julho de 1838 que se fizesse a planta de um novo hospital, e se transferisse o cemitério da Praia de Santa Luzia para a Ponta do Caju. Aprovadas essas deliberações, ficou encarregado do desenho do edifício o tenente-coronel de engenheiros Domingos Monteiro; e comprado por 10:000$000 a João Goulart o terreno para o cemitério começou a funcionar, sob o nome de Campo Santo, em 2 de julho de 1839, tendo sido preparado sob o desenho do engenheiro Domingos Monteiro.

Destinado o terreno do antigo cemitério para a edificação do novo hospital lançou-se em 2 de julho de 1840 a primeira pedra do edifício em presença do Imperador menor, das princesas e do regente do Império. O bispo deu a benção à pedra fundamental que, depositada em uma padiola de araribá rosa, foi conduzida ao lugar que era-lhe destinado pelo Imperador, pelo regente, ministro de império e o provedor; colocando-se juntamente uma moeda de ouro de 6$400, outra de prata de l$200 cunhadas no reinado de D. Pedro II, e alguns pergaminhos com a seguinte inscrição:

“Com o auxílio da Divina Providência e debaixo do patrocínio de Nossa Senhora da Misericórdia, o Sr. D. Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, regendo o Império em seu nome o Ilmo. Exmo. Sr. Pedro de Araújo Lima, lançou a pedra fundamental do novo hospital, que a Santa Casa da Misericórdia da muito leal e heroica cidade do Rio de Janeiro, intenta edificar para amparo dos enfermos pobres; pelo sobredito Senhor ajudada a conduzir, e previamente benta segundo o ritual romano, pelo Exmo. e Rev. Sr. Bispo Capelão-Mor D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, em o ano X do Pontificado do Papa Gregório XVI, servindo de Provedor da dita Santa Casa José Clemente Pereira, no dia 2 do mês de julho de 1840.”

Serviu neste ato o mestre pedreiro Francisco Pereira de Santa Anna.

Cunhou-se uma medalha de bronze para comemorar o princípio dessa obra de caridade pública, tendo no verso a efígie do Imperador, e circularmente o dístico: D. Pedro II Imp. Const. e Def. Perp. do Braz. e no reverso a fachada do edifício do hospital, e por baixo esta inscrição:

Lançou a pedra fundamental do novo hospital da Santa Casa da Misericórdia.

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Em 27 de junho de 1852 monsenhor Marciano benzeu o novo edifício, que exposto três dias ao público, recebeu os doentes no dia 30; no dia 2 de julho houve a festa de Santa Izabel, e a visita do Imperador ao hospital; dois dias depois trasladou-se para a capela aí edificada o santo viático, que veio em procissão solene formada pelas irmandades da Misericórdia, Espírito-Santo da Lapa, do Sacramento de São José, dos frades bentos, carmelitas e franciscanos e por mais de cem recolhidas; o Imperador achava-se na porta do hospital para acompanhar o Sacramento até à capela, onde assistiu a um Te-Deum.

Medalhão da Santa Casa da Misericórdia

Colocado na Praia de Santa Luzia é o Hospital da Misericórdia um edifício de estilo clássico, e representa um paralelogramo retângulo dividido em três corpos. O corpo da frente, levantado segundo o desenho do engenheiro José Maria Jacinto Rebelo, que modificou em alguns pontos a planta primitiva do engenheiro Domingos Monteiro, compõe-se de três corpos apresentando o central, uma escada de pedra, que dá subida para o átrio, que é de cantaria, e fechado com balaústres de mármore; há sete portas no primeiro pavimento divididas por colunas de granito, e no segundo sete janelas separadas por colunas da mesma pedra; segue-se um frontão reto e no tímpano um baixo relevo, obra do artista Luiz Giudice formando três painéis. O do centro é um medalhão de 13 ½ palmos de diâmetro, no qual em proporções maiores do que o natural, está figurada a Misericórdia, como santa e carinhosa protetora de todos os infelizes. Seus braços levantados sustentam o manto que aberto oferece proteção e abrigo a todos os desvalidos. De um lado há um velho aleijado, e já curvado pelo peso dos anos, tendo ao pé de si uma infeliz mãe, que aperta contra o seio um filhinho que vai abandonar; do outro uma matrona que simboliza a caridade, sustenta no regaço um inocente, a quem alimenta; a um e outro lado da Misericórdia, mas em segundo plano, algumas figuras de infelizes de ambos os sexos, e de diversas idades preenchem o painel. Na parte inferior veem-se dois escudos, um repousando sobre uma cruz e tendo esculpidas as cinco chagas, o outro representando o brasão das armas do Brasil. Ornam os dois escudos as plantas do café e do tabaco. Há no centro, entre um e outro escudo, as setas de São Sebastião, padroeiro desta cidade.

Os baixos relevos laterais representam emblemas alusivos à religião e a medicina. Figuram de uma parte, entrelaçados com ramagem o cálice eucarístico, a cruz, o báculo, o livro dos evangelhos e a estola, e de outra parte, engatados com plantas medicinais, o livro da ciência, a caveira e a ampulheta, significando o estudo e o tempo; a cobra e o espelho simbolizando a saúde e a verdade. Uma graciosa moldura fecha, como quadro os três baixos relevos.

Toda a obra esculturada em pedra lioz tirada das pedreiras de Pero Pinheiro em Lisboa, onde foi esboçada sob a direção do artista Luiz Giudice, que modelara todos os originais, concluiu-a o mesmo artista nesta corte. Dirigiu o trabalho da ascensão da grande peça em 2 de julho de 1868, sob a inspeção do engenheiro arquiteto da Santa Casa, Francisco Joaquim Betencourt da Silva, o mestre Joaquim Pedro de Alcântara.

Contam os corpos laterais trinta e oito janelas de peitoril no primeiro pavimento, e igual número no segundo, porém de sacada com grades de ferro.

Une-se esta parte do edifício com a parte central por um passadiço coberto sobre colunas, e lateralmente por um gradil de ferro, que fecha as áreas que se abrem entre o corpo da frontaria e o seguinte.

A parte central do edifício forma também por si um paralelogramo retângulo, apresentando na face da frente um corpo central com uma porta e duas janelas no primeiro pavimento, e no segundo três janelas e lateralmente duas galerias com oito janelas em cada andar separadas por um terceiro corpo com três janelas em cada andar e um frontão reto, e nas extremidades do edifício dois torreões de três andares com três janelas em cada pavimento.

As quarenta e seis janelas do primeiro pavimento são de peitoril, e as quarenta e sete do segundo são de sacada de grades de ferro.

Cada torreão comunica-se com o que fica-lhe na parte posterior por uma galeria de oito janelas em cada pavimento, e também a parte central une-se com a parte posterior do edifício por uma galeria de oito janelas em cada andar, vendo-se de cada lado um espaçoso jardim com esguicho e tanque de mármore, e planta do com simetria e gosto.

A face posterior do hospital apresenta perspectiva igual à da parte central e pela porta do centro, que tem no primeiro pavimento, comunica-se com o edifício das cozinhas que é inteiramente separado do hospital, e consta de dois pavimentos.

Coroando a parte central do edifício eleva-se um zimbório com uma lanterna octógona sustentando uma cruz, o qual foi executado pelo risco do engenheiro Joaquim Candido Guilhobel; porém convém observar que parece-nos baixo em relação à largura e extensão do monumento.

Transposto o pórtico entra-se em um vasto vestíbulo, ornado de colunas, o qual por um passadiço coberto, como vimos, e sustentado também por colunas abre comunicação para o hospital.

A parte anterior de tão vasto edifício é ocupada no primeiro pavimento pela farmácia, por um dormitório de meninas órfãs, pela secretaria, arquivo e empresa funerária, estabelecida em virtude do decreto de 18 de outubro de 1851 que encarregou a Misericórdia pelo tempo de 50 anos do serviço dos enterros na cidade, estando também a seu cargo a estatística mortuária.

Do lado esquerdo do vestíbulo começa uma escada, que vai ter ao segundo andar, vendo-se aos lados as estátuas em gesso do jesuíta José de Anchieta e de frei Miguel Contreiras, o fundador do Hospital de Misericórdia de Lisboa; foram esculturadas pelo artista Pettrich.

No pavimento superior estão a sala de honra e o salão dos benfeitores.

Em 2 de julho de 1874 inaugurou-se a sala de honra que está em relação com a magnificência do edifício. Dão entrada para ela três portas, às quais correspondem outras tantas no fundo; tem sete janelas de sacada e sete portas interiores. As paredes são pintadas a óleo fingindo damasco, e as portas a branco porcelana com filetes de ouro. O teto de estuque apresenta um baixo relevo feito pelo artista Chaves Pinheiro, e é sustentado por doze colunas, em cujo centro veem-se os bustos dos doze apóstolos a óleo. No fundo se acha a estátua do Imperador em grande uniforme, feita pelo estatuário Francisco Manoel Chaves Pinheiro. Contíguo à sala há o gabinete da Imperatriz, pintado a óleo e mobiliado com móveis de jacarandá, estofado de brocatel carmesim ao gosto de Francisco I, feito na casa de Correção.

O salão dos benfeitores é extenso e simples de ornatos, apresentando pendentes das paredes os retratos dos principais benfeitores da Misericórdia e dos respectivos provedores cujos nomes, títulos e serviços mencionaremos no fim deste capítulo.

Hospital da Santa Casa da Misericórdia

Conta o hospital 25 enfermarias: 13 no primeiro pavimento para moléstias externas, e 12 no segundo para moléstias internas, tendo cada enfermaria 140 palmos de vivo de comprimento e 32 de vivo de largura, com 32 leitos colocados no vão de duas janelas; há 16 quartos para os doentes que pagam; salas de operações, casas de banhos, latrinas, corredores largos circundando o edifício, e estabelecendo correntes de ar, aposentos para as irmãs de caridade, salas de rouparia, de arrecadação, e duas capelas, uma colocada em um salão onde as irmãs de caridade fazem as orações quotidianas, e a outra sob o zimbório, tendo interiormente lindos retábulos com os retratos dos quatro evangelistas pintados pelo artista brasileiro Carlos Luiz do Nascimento.

Os soalhos e tetos são envernizados e as escadas largas e com bastante luz. Todo o edifício é iluminado a gás, com bastante água encanada para o consumo e tem esgoto para o mar.

Além das enfermarias, onde são tratados os doentes pobres, há à entrada do hospital o consultório, chamado sala do banco, no qual anualmente são examinados e recebem remédios grátis mais de sete mil doentes pobres.

Recebe o hospital cada ano de doze a quatorze mil doentes, dos quais metade pelo menos são estrangeiros. Além das enfermarias para homens, mulheres e crianças, existem duas para a maternidade e moléstias de olhos.

Nos quartos particulares paga-se a diária de 2$400 ou 3$000 e nas enfermarias pagam os senhores de escravos 1$600 diários.

O serviço médico é exercido por dezoito facultativos clínicos, sendo os cirurgiões auxiliados por doze alunos da Faculdade de Medicina, pensionistas efetivos do hospital, os quais são obrigados a ajudar as operações, fazer os necessários curativos etc. Os facultativos são substituídos pelos adjuntos ou pelos médicos internos. Há um diretor do serviço sanitário que é atualmente o Dr. Pedro Alfonso de Carvalho Franco, nomeado por despacho de 6 de dezembro de 1871. O serviço econômico (ecumênico? N. do E.) está a cargo das irmãs de caridade, que são também auxiliares do serviço sanitário.

Estão as cozinhas do hospital em um vastíssimo salão na parte posterior do edifício, havendo quatro fogões, dois com fornos e estufas; e dois com seis caldeiras cada um, e todos com capacidade para cozinhar para quatro mil pessoas; são de duas frentes e do sistema de chama virada. A fumaça percorrendo uma extensão de 84 metros abaixo do solo sobe por uma chaminé de 161 palmos de altura construída com 36.000 tijolos de fogo ingleses.

Ao lado da chaminé uma mangueira a vapor supre d’água quente todo o hospital; há na cozinha quatro grandes mesas e dois lavatórios de mármore.

Com a construção deste edifício monumental se há gasto desde o assentamento da primeira pedra até o fim de junho de 1872 a quantia de 2,861:592$730.

No ano compromissal de 1874 a 1875 orçou a receita do hospital em 939:915$388 e a despesa em 888:848$947. Provém a receita dos aluguéis de prédios urbanos e rústicos, foros e arrendamentos, de apólices, ações do Banco do Brasil, de quatro loterias anuais concedidas pelo governo, de legados, do curativo dos doentes tratados a sua custa, do direito de 63 réis sobre cada litro de vinho, do direito de 315 réis por cada marinheiro de navio transatlântico em troca do seu tratamento gratuito no hospital, e do prêmio de 12% sobre o produto de todas as loterias.

A administração superior do hospital está a cargo de um procurador, escrivão e tesoureiro, eleitos anualmente dentre os irmãos da Santa Casa de Misericórdia, os quais têm de entender-se com o provedor que, eleito pelos conselheiros de mesa, é a suprema autoridade da instituição.

É o hospital da Misericórdia um edifício vasto e elegante, tendo apenas o defeito de ter o pé direito baixo em relação ao tamanho das enfermarias, pelo que parece acaçapado; todavia é um belo monumento, que perpetuará o nome de José Clemente Pereira, o fundador desse pio estabelecimento. Não só gravou José Clemente Pereira seu nome na primeira pedra dessa casa, como também deixou de seus serviços tão grata lembrança, e tão nobre exemplo que aqueles que após e1e, hão sustentado a vara de provedor, têm procurado imitá-lo, esforçando-se por concluir o edifício destinado ao curativo dos indigentes; os marqueses de Paraná e de Abrantes mostraram-se dignos sucessores daquele conspícuo varão no afanoso cargo de provedor, e substituídos em 28 de julho de 1866 pelo conselheiro Zacharias de Góes e Vasconce1los, conseguiu este concluir o hospital inscrevendo seu nome entre os dos irmãos beneméritos da Santa Casa de Misericórdia.

Homem de vontade enérgica, destinado para a luta e para o poder, tem o conselheiro Zacharias reunido a outros dotes e méritos, que o elevam na arena política e parlamentar, a distinção honrosa de benfeitor da humanidade; e se da toga de tribuno tem colhido glória, o balandrau de provedor lhe há servido de capa de triunfo.

Já resolveu o atual provedor estabelecer quartos particulares para enfermos do sexo feminino, quartos fortes para os doentes que, acometidos de alienação mental, devem ser observados antes de serem remetidos para o Hospício de Pedro II, colocar para-raios e bombas para incêndio no edifício, criar uma biblioteca para uso dos enfermos; e outras obras importantes há realizado nesta casa pia, e em outras instituições, que estão sob a administração da Santa Casa da Misericórdia.

Mantém e administra a Santa Casa o hospital geral, o Hospício de Pedro II, o recolhimento das órfãs, a roda dos expostos, a enfermaria de Nossa Senhora da Saúde, no morro da Gamboa, estabelecida na chácara, que pertenceu a Mariano Procópio Ferreira Lage, comprada por 79:288$000 como consta da escritura de 9 de fevereiro de 1866, quatro consultórios gratuitos e o serviço dos enterros, estando por isso sob sua inspeção os cemitérios de São João Baptista da Lagoa, e São Francisco Xavier na Ponta do Caju, chamado outrora Campo Santo da Misericórdia, fundados pela Santa Casa em virtude de lei de 5 de setembro de 1850 [1]. Dá esmolas a viúvas pobres na quinta-feira santa, conforme a instituição do cônego Gaspar Ribeiro Pereira; veste a doze pobres que assistem ao lava-pés em virtude da instituição de Ignácio da Silva Medella, e a mais doze em 24 de março de cada ano, aniversário do falecimento em Portugal do conde de Ferreira, e sustenta na igreja da Misericórdia um coro de horas canônicas.

Esta igreja acha-se situada no largo da Misericórdia entre os edifícios do antigo hospital, e do recolhimento das órfãs, que atualmente está ocupado por enfermarias de inválidos, e pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Tem o pórtico de mármore, duas janelas no coro, e sobre este o campanário coroado por um frontão curvo; ornam-lhe o interior cinco altares, uma pia batismal, e além das tribunas da capela-mor e do corpo da igreja, tem uma de madeira construída na capela-mor, donde assistem as pessoas imperiais à festividade de Santa Isabel.

Além dessa festividade celebram-se neste templo certos atos da semana santa, e a festa da Senhora do Bom Sucesso, padroeira da Misericórdia.

O coro de três sacerdotes, que ali existe, foi instituído pelo capitão Ignácio de Andrade Souto-Maior que falecendo em 4 de março de 1703, doou em testamento a quantia de 7,000 cruzados, (3:500$000), sem cláusula mais do que reverter a dita quantia para seus herdeiros, se no prazo de três anos, se não estabelecesse o referido coro. Recebida a quantia e posta a juros, aconteceu que, falecendo em 3 de outubro de 1703, Manoel Pinto dos Santos nomeou a Misericórdia herdeira dos remanescentes de seus bens para com o rendimento deles criar-se o coro da Santa Casa, com a condição de cantar-se no mesmo coro, de manhã e a tarde um responso por sua alma, pronunciando-se por seu nome, ficando ao arbítrio da mesa o número de capelães e a administração. Importou o remanescente dos bens em 11:737$000, que reunido ao dinheiro que já existia, e a outras esmolas dadas para o mesmo fim, completou a soma de 18:445$330. Em 22 de fevereiro de 1704 resolveu a irmandade da Misericórdia estabelecer e organizar o coro, que começou em 1 de abril do mesmo ano, no dia da festa da Senhora da Encarnação, com doze cadeiras, tendo por primeiro presidente o padre Balthazar Gonçalves, o capelão mais antigo da Misericórdia.

Em 6 de janeiro de 1709 aumentou-se a cadeira de mestre da capela, deu-se regimento a instituição, marcando-se as seguintes multas; por cada vez que faltassem os capelães à procissão das segundas-feiras 80 réis de multa; por cada enterro 150 réis; pela falta de um dia inteiro de coro 100 réis, e sendo o dia em que se reza o ofício de Nossa Senhora ou de defuntos mais 80 réis; dia de missa cantada 180 réis; vesperais cantadas 60réis; ladainha de Nossa Senhora aos sábados de tarde 40 réis, e por cada uma das horas que faltassem a este respeito. Em 4 de agosto de 1793 reduziram– se as cadeiras a onze, e, após outras reformas, ficou reduzido a três desde 4 de junho de 1861.

O atual provedor conselheiro Zacharias de Góes e Vasconcellos, mandou há poucos anos consertar e gessar este templo, gastando na obra e em outros acessórios a quantia de 13:437$000 [2].

Mas segundo o plano geral da obra do hospital deve ser construída na Praia de Santa Luzia, lado esquerdo do hospital, a nova igreja da Misericórdia, cuja primeira pedra foi lançada em 14 de setembro de 1873 no dia da festa da Senhora do Bom Sucesso.

Benzida pelo vigário geral monsenhor Felix Maria de Freitas Albuquerque, encerrou-se nela uma caixa de madeira contendo um exemplar da Constituição do Império, moedas de ouro, prata, níquel e cobre, os jornais do dia e uma discrição da cerimônia, escrita em pergaminho; colocada em uma padiola foi conduzida ao lugar destinado pelo senhor D. Pedro II, pelo provedor conselheiro Zacharias de Góes e Vasconcellos, tesoureiro barão de Andaraí e pelo chefe de policia da corte. O desembargador Travassos escrivão da irmandade, acompanhou a Imperatriz até ao pavilhão que aí se erguera para esse fim.

A igreja será consagrada à Senhora do Bom Sucesso, e erguida sob o desenho do arquiteto nacional Francisco Joaquim Bettencourt da Silva.

No dia em que a irmandade da Misericórdia executou essa cerimônia entregou o provedor a carta de aposentadoria com todos os vencimentos ao antigo mestre das obras da Santa Casa, José Joaquim Pedro de Alcântara que, por seu estado valetudinário, achava-se impossibilitado de continuar no exercício daquele cargo, que tantos anos ocupara com muita honradez e muito zelo.

Notas

  1. O decreto de 3 de agosto de 1861 aprovou o regulamento para os cemitérios públicos e particulares do Rio de Janeiro, serviço dos enterros e taxas funerárias.
  2. Foi sepultado em 7 de setembro de 1675 na entrada da porta principal desta igreja, como determinara, o governador desta cidade e provedor da Misericórdia Thomé Corrêa de Alvarenga.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

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  • Hospital da Santa Casa da Misericórdia – Praia de Santa Luzia, de P. G. Bertichem . Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg Rio de Janeiro , 1856.

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