Igreja de São José

A tradição aponta o ermitão Egas Muniz como o fundador da ermida de São José, da qual fazem menção, já em 1633, os livros da primeira matriz instituída nesta cidade.

Por não poder concluir a capela com paredes de pedra e cal como principiara, ou por outro qualquer motivo, doou-a o fundador aos devotos de São José.

Estevão de Vasconcellos e sua mulher deram, por escritura lançada a fl. 141 do livro de notas servido de 1640 a 1641, à confraria de São José, da qual era juiz Salvador Corrêa de Sá e Benevides, cinco ou seis braças de terra com fundos até o mar. Deu-se então maior extensão a ermida, cuja capela-mor havia sido edificada quase dentro d’água.

Em 3 de abril de 1652 tomara posse do governo do Rio de Janeiro o mestre de campo Luiz de Almeida, que em 1658 doou à referida confraria nove braças de terra com fundos para o mar, na Rua Direita do Carmo, sendo essa doação confirmada por D. João IV.

Espalhando-se a cidade pela várzea circunvizinha ao Morro do Castelo, e achando-se arruinada a igreja matriz, edificada naquele morro, e afastada do centro da povoação, resolveu o prelado Manoel de Souza e Almeida transferir o sacrário e a pia para a Ermida de São José; do que tendo notícia a câmara conferenciou com o governador, e de acordo com este enviou, em 3 de agosto de 1659, uma carta ao prelado administrador, pedindo-lhe que nada fizesse sem a determinação de El-Rei.

Julgando que o senado queria limitar-lhe a jurisdição, irritou-se o prelado, e respondeu à câmara nos seguintes termos:

– Advirto à vossas mercês que em duas excomunhões da bula da cea incorreram, e não me restava mais que declará-las, se não entendera que vossas mercês não advertiram.

Feitas outras observações, acrescentava:

– Agora lhes digo que se em três dias, que lhes dou pelas três canônicas admoestações, que começarão da entrega desta, não revogam o assento que fizeram, os hei de declarar, aos que se acham assinados nas suas cartas, por incorridos na excomunhão da bula da cea. A igreja matriz mudo pelas razões que a vossas mercês são públicas e notórias, e que vossas mercês aprovaram tantas vezes que ao mesmo vigário persuadiram a mudança, e vossas mercês foram as primeiras que começaram a fazer as festas do estado em a do bem-aventurado São José. Em todo ano não há quem vá um domingo à matriz, e agora lhes chegou este zelo. Leem-se as cartas de excomunhão às paredes, correm-se os banhos, fazem-se as festas da páscoa e natal aos negros do vigário, e sobretudo está o Santíssimo na igreja, e tem a chave dela um secular tesoureiro da confraria, que entra nela de dia e de noite, e nisto se não adverte. Tudo o que há na igreja matriz hei de mudar para baixo, e só o altar de São Sebastião com o santo, sua fábrica e confraria; e um sino hei de deixar na matriz, para que no dia do santo se lhe faça sua festa e procissão; para ter cuidado da igreja hei de por um ermitão. Se os moradores tiverem devoção, sempre terão a porta aberta e ordem para dizer missa, e mostrarão a devoção que até agora manda o vigário fazer o caminho para os dias de festa.

Dois dias depois respondeu a câmara, em 6 de agosto, declarando que não era intenção sua atacar a jurisdição eclesiástica, porém para acudir à sua obrigação por ser a Matriz de São Sebastião igreja do padroado real, e assim esperava que não tivesse efeito a censura notificada.

Moveu-se o prelado a suspender a excomunhão pelos pedidos do governador Thomé Corrêa de Alvarenga, mas mudou a pia e o sacrário para a Ermida de São José, pois por uma disposição testamentária de Manoel Vaz de Leão, sabe-se que essa capela servia de matriz antes de 1661.

Em 6 de novembro de 1659 levara a câmara uma representação ao rei, relatando o procedimento do prelado, e pedindo-lhe nomeasse no Rio de Janeiro pessoa que pudesse servir de juiz dos feitos reais, porquanto o que existia na cidade da Bahia não podia pela distância acudir às violências, que costumavam fazer os eclesiásticos, senão depois de passados seis meses ou um ano. De feito, corridos alguns anos, ordenou o rei que o ouvidor geral do Rio de Janeiro servisse de juiz dos feitos da coroa para reprimir os excessos dos ministros eclesiásticos.

Requerendo o juiz da irmandade de São José, João de Souza da Silva, que a câmara cedesse à referida confraria o terreno, que se estendia da capela-mor até ao mar, cujas águas haviam recuado, atendeu a câmara, cedendo, em 17 de dezembro de 1688, todo o chão necessário para se acrescentar a igreja, ou tribuna, ou o que fosse preciso à dita igreja, com a condição, porém, que não fariam casas para alugar nem morar.

Invadindo os Franceses o Rio de Janeiro em 1711 saquearam as igrejas e as casas; e da Ermida de São José, além de objetos de valor, desapareceram antigos documentos e títulos da confraria de São José; os templos só foram respeitados depois da capitulação, sendo então arcabuzados, por ordem do general francês, 18 soldados, que haviam desacatado uma igreja.

Em 1725 a 1729 fizeram-se diversas obras na ermida de São José, e ocupando por esse tempo, ou anos depois, o cargo de juiz, doou Cosme Velho Pereira, em 12 de novembro de 1749, um órgão à ermida. Era Cosme Velho homem rico e conceituado; e deixou seu nome a um dos arrabaldes da cidade, que ainda é assim conhecido.

Transferida a catedral para a Igreja da Cruz, foram para ali removidos em 1734 o sacrário e a pia, que estavam na Ermida de São José há mais de setenta anos.

De dia para dia esboroava-se essa ermida, as paredes fendidas pareciam vacilar nos alicerces e desabar sobre os fiéis, o cupim corroera o madeiramento, e prestes desapareceria a capela de Egas Muniz, se a irmandade de São José não cuidasse em reconstruí-la; de feito em 13 de julho de 1806 resolveu a irmandade levantar, no lugar da antiga capela, um templo vasto e digno do culto, e em sessões de mesa de 25 de janeiro, e 21 de junho de 1807 foi a obra aprovada.

Colocado em uma caixa de chumbo e esta em uma de pedra o padrão da igreja, e juntamente uma moeda de ouro de 6$400, outra de prata de 640rs. cunhadas em 1808, e outra de cobre antiga de 40rs. praticou o vigário Ignácio Pinto da Conceição, seguido de outros padres em 22 de dezembro de 1808, a cerimônia da introdução da respectiva caixa na parede do arco da capela-mor do lado do evangelho.

Eis o padrão:

NA IGREJA DE S. JOSEPH

“Gouvernando a suprema Igreja Catholica Romana o Santissimo Papa Pio VII no VIII anno de seu Pontificado: Reinando na monarquia portugueza A Fidelissima Rainha D. Maria I, Nossa Senhora, por Seu Filho o Principe Regente, N. S. D. João: Sendo Bispo deste Bispado o Excellentissimo e Reverendissimo D. Joseph Caetano da Silva Coutinho, Capellão-Mór da Casa Real: E vigário desta freguezia o Reverendo Ignacio Pinto da Conceição: Servindo de Juiz na nossa Irmandade o irmão Tenente-Coronel Joaquim Ribeiro de Almeida, e de Secretario, Thesoureiro, Procurador, Assistentes e irmãos de meza os abaixo assignados: Por resolução das mezas conjunctas de 13 de julho de 1806, e 26 de janeiro e 21 de junho de 1807 acordárão, a custa dos rendimentos da dita irmandade, reparar as ruinas, e aperfeiçoar as antiguidades deste templo, fundado em nove braças de terreno na frente com os fundos até o mar, na Rua Direita do Carmo para a Misericordia, por doação, que no anno de 1608 [1] fez o Illustrissimo D. Luiz de Almeida, sendo governador nesta capitania, confirmada pelo memoravel Senhor Rei D. João IV.
Em 9 de janeiro de 1751 foi creada terceira freguezia nesta capital. Para assim constar se faz o presente padrão em perpetua memoria na reedificação e construcção da igreja dedicada á Gloria e Veneração de S. Joseph, pela devota irmandade, na Capital do Reino de Portugal, no Rio de Janeiro, aos 22 dias do mez de Dezembro do anno de NDCCCVIII. E eu João Lopes da Silva Couto, secretario actual da dita irmandade o fiz escrever e assignei. João Lopes da Silva Couto, Joaquim Ribeiro de Almeida.”

Começaram as obras pela sacristia; que, estando concluída, recebeu as imagens da igreja, em 24 de dezembro de 1815.

Demolida a antiga ermida, deu-se princípio à construção do corpo da igreja, dirigindo a obra o artista Felix José de Souza, que foi substituído pelo arquiteto da casa real João da Silva Muniz.

Apresentou este o desenho do novo templo, e aprovando o que tinha sido feito, propôs se alargasse mais três palmos o corpo da igreja, pelo que destruíram-se os pegões que já estavam começados.

Altar da Igreja de São José

Escasso era o patrimônio da irmandade para a construção da igreja, mas confiando na caridade pública, não se iludiu; o povo concorreu com esmolas, e entre outros fiéis, distinguiu-se o português Manoel José Teixeira, serralheiro, residente na Rua da Assembleia, homem devoto, que festejava anualmente em sua casa a invenção da Santa Cruz, tendo pregada na frente do seu domicílio uma cruz, que servia à via sacra, que saía da Igreja de São Francisco da Penitência. Manoel Teixeira, além de fornecer todas as ferragens para a igreja, dava 80 réis por cada carrada de pedra que se gastava na obra; e tinha em casa um cofre onde recolhia os quebrados das contas que pagava ou recebia, aplicando esse dinheiro à construção da matriz; repetia esse velho:

– Não hei de morrer enquanto não terminarem as obras da Igreja de São José.

De feito faleceu em 16 de abril de 1845 com 117 anos de idade, três anos depois de concluído o templo.

O aviso de 8 de outubro de 1813 concedeu quatro loterias para a continuação da obra; constando a primeira loteria de 8000 bilhetes do custo de 8$000 cada um; a roda andou em 29 de outubro de 1814, restando 500 ou 600 bilhetes, que não foram vendidos. Vendo-se que era morosa e difícil a venda dos bilhetes, reduziram-se a 7000, custando cada um 9$600.

Em 1824 um devoto ofereceu para ajuda das obras uma rifa de 40 bilhetes de 640 réis cada um, mas apesar dessas esmolas a construção da igreja caminhava com lentidão, e teve de parar por algum tempo.

O decreto de 31 de maio de 1826 concedeu quatro loterias para as obras da matriz, e um ano depois foram decretadas mais seis loterias.

Haviam recomeçado as obras, e concluído o templo, foi benzido em 10 de abril de 1842; no dia 17 trasladaram-se as imagens, e no domingo seguinte houve a primeira festa do orago.

Edificada na Rua da Misericórdia, esquina da Rua de São José e do Beco da Natividade, não tem átrio esta igreja por estar no nivelamento das casas.

Duas pilastras sustentando o entablamento separam das torres o corpo central, que apresenta o pórtico de granito, as três janelas com grades de ferro pertencentes ao coro, o entablamento, sobre este um outro corpo no centro do qual há um emblema de pedra com as letras J. M. J. e um frontão curvo.

As torres têm uma janela de peitoril no primeiro pavimento, outra de grades de ferro, na altura das do coro, e os coruchéus em forma de pirâmides achatadas, sustentando no ápice uma esfera e uma cruz. Em uma das torres há sinos e uma escada de cantaria; na outra há uma escada de madeira, que principia no corredor superior.

A face voltada para a Rua de São José tem no primeiro pavimento nove janelas de peitoril e duas portas, e no segundo onze janelas de sacada, ornando a primeira, junto a torre, um frontão curvo. Sobre cada porta e janela do primeiro pavimento há um mezanino elíptico com varões de ferro.

É semelhante a esta a face voltada para o Beco da Natividade. Quando era cadeia a casa que serve hoje de Paço da Câmara dos Deputados, e havia forca armada na Praia de Santa Luzia, vinham os padecentes adorar a Eucaristia na porta da Igreja de São José.

Que ideias tristes, que martírios e angústias não acabrunhariam esses infelizes ao dobrar os joelhos em terra; quantos gemidos e suspiros não soltariam ao adorar a Deus pela última vez no mundo; quantas lágrimas não molhariam o limiar da porta desta antiga igreja!

Deu-se na porta da antiga ermida aqui edificada um fato curioso.

Enviados alguns índios ao vice-rei, Conde de Rezende, encarregou este ao major Joaquim Xavier Curado de levá-los à Igreja de São José para serem batizados, mas recusando o padre Manoel dos Santos batizá-los antes de celebrar outro batizado, opôs-se o major; do que resultou uma contenda, na qual impeliu ele o sacerdote, que imediatamente excomungou-o. Receando cair na condenação pública, e ser prejudicado em sua carreira militar, sujeitou-se o major, alguns dias depois, à disciplina das varas na porta do templo, sendo publicamente absolvido da excomunhão!

O pavimento da igreja, debaixo do coro, é coberto de mosaico de mármore; há quatro altares, seis tribunas e quatro portas no corpo da igreja, e duas portas e quatro tribunas na capela-mor.

Os altares do lado do evangelho pertencem ao Coração de Jesus e Santa Apolônia o primeiro, e o segundo a Senhora das Dores.

Já em 1722 existia a devoção de Santa Apolônia; em 1842 colocou-se no mesmo altar o Coração de Jesus, que constitui uma irmandade, cujo compromisso foi aprovado em 1847. Houve neste altar a imagem da Senhora das Barroquinhas.

Construída a igreja se destinara o segundo altar para a Senhora do Terço, cuja confraria havia sido ereta em 24 de fevereiro de 1722 por letras patentes do mestre geral da ordem dos pregadores frei Agostinho Pepia, dadas em Roma em 10 de julho de 1721, sendo 1º juiz da confraria o governador do Rio de Janeiro Ayres de Saldanha de Albuquerque Coutinho Mattos e Noronha.

Em 17 de dezembro de 1722 a imagem do Terço foi colocada na capela velha do Sacramento; duas vezes por semana saía desta igreja e das do Rosário e Mãe dos Homens a procissão do Terço, na qual contemplavam-se os mistérios da Virgem, e entoava o povo padre-nossos e ave-Marias. Os meninos acompanhavam a procissão levando cada um, uma espécie de candeeiro de folha de flandres, chamado caçamba, espetado em um pau. Logo que o bico de cera chegava ao meio apagavam-no os garotos, e ocultando-o, pediam outro ao regente, que era um indivíduo, que carregava um saco cheio de bicos de vela. Irritava-se o regente, chamava os rapazes de furta-bicos, mas fornecia-lhes outro pedaço de cera.

Vindo para o Brasil a família de Bragança começaram os criados da casa real, aos quais apelidava o povo de toma-larguras, pelas casacas compridas de abas largas de que usavam, a escarnecer dos devotos do terço, d’onde originaram-se contendas e lutas; transformando-se em cacetes os lampiões dos rapazes. Essas desordens foram afugentando os devotos, e por fim cessaram semelhantes rezas pelas ruas, que nem eram decentes, nem próprias e edificantes. Em 1842 a imagem do Terço foi transferida para a capela do Senhor dos Passos, vindo substituí-la a imagem das Dores.

Os altares do lado da epístola pertencem à Senhora do Amparo e a São Miguel.

Não se sabe, onde começou a devoção do Amparo; consta ter existido na Igreja da Candelária; mas sabe-se que em 1633 aprovou o prelado Antônio de Marins Loureiro o compromisso desta devoção, que já em 1676 estava estabelecida na Igreja de São José, tendo sido a antiga imagem esculpida pelo preto João Vermelho hábil escultor, porém dado à embriaguez, pelo que o senhor não deixava-o sair à rua; e como tinha oficina de imagens encarregava outro escravo de trocá-las; mas reparando que um Santo Antônio nunca saía do tabuleiro, quis examiná-lo, e descobriu ser postiça a cabeça, e estar o santo cheio de aguardente. Servia a imagem de botija a João Vermelho!

Outrora festejava-se com muita pompa a Virgem do Amparo, sendo o compromisso da irmandade aprovado em 1839.

Instituída em 1759 tem a irmandade de São Miguel o compromisso aprovado em 1848.

Há no coro um órgão comprado por seis contos pelas irmandades de São José e do Sacramento.

O pavimento da capela-mor é ladrilhado de mosaico de mármore, e de mármore é o presbitério, na boca do trono estão as imagens de Jesus, Maria, José, sobre o trono o Sacramento, e na parte superior do retábulo do altar as estátuas da fé, esperança e caridade.

O compromisso da irmandade do Sacramento foi aprovado em 1853.

Antiquíssima é a irmandade de São José, cujo compromisso foi reformado em 1716; nele se declara que cada irmão dará dois mil réis de entrada, vinte réis de cada irmão ou mulher de irmão que falecer, e vinte réis mensalmente para os gastos e fábrica da irmandade. E também se declara que não será admitido quem tiver raça de judeu, mouro ou mulato!

Antigamente certos operários, antes de sujeitarem-se a exame, tinham de dizer se pertenciam a esta irmandade, cujo compromisso atual foi aprovado em 1843.

Distribui esta irmandade, em 19 de setembro de cada ano, por dez irmãs viúvas e pobres, dez esmolas de 6$000 cada uma em cumprimento da verba testamentária de Cândido Fernandes Lima.

Ornou de talha esta igreja o artista Semião José de Nazareth, do qual encontrará o leitor traços biográficos no fim deste capítulo.

As portas laterais da igreja vão ter aos corredores, que ladeiam-na, os quais são ladrilhados de mármore, e atravessam a ante-sacristia e a sacristia, cujo pavimento é coberto de mármore; e há ali um altar com a imagem de Cristo, um arcaz, um esguicho e painéis nas paredes.

Da ante-sacristia principia uma escada, que conduz a um vão, ou a um segundo corredor, alumiado pelos mezaninos elípticos; servindo o do lado da Rua de São José de casa de arrecadação da irmandade do Amparo, tendo na extremidade a casa forte da irmandade de São José; e o oposto de casa de arrecadação das irmandades do Sacramento e São Miguel, tendo na extremidade a casa forte daquela irmandade.

A escada que conduz ao segundo corredor, dá subida para os terceiros corredores, um de cada lado do templo, os quais vão ter ao consistório, onde há uma capela com um painel representando Jesus, Maria e José.

Disse-nos o pintor Bonifácio que conta mais de 90 anos, ter sido autor deste quadro o artista Raymundo da Costa.

O irmão José Joaquim Borges Monteiro ofertou a cortina encarnada, franjada de ouro, que encobre esta capela, onde coloca-se na quinta-feira santa, a âmbula, e dali sai em procissão o Sacramento. Além da capela, há no consistório uma peça de madeira simulando um armário, porém não é mais que uma escada, que conduz ao altar-mor.

Comunica-se o consistório com a sala do arquivo de São José, à qual dão luz três janelas voltadas para o Beco da Natividade.

Na saleta do corredor, que corre desse lado, há um antigo painel dos desposórios de São José.

O aumento da população e da cidade levou o bispo a representar ao rei pedindo a criação de duas freguesias, além da do curato da Sé e da Candelária; em 9 de novembro de 1749 atendeu-se à requisição do bispo, que não só devia escolher as igrejas, que provisoriamente serviriam de matriz, precedendo o beneplácito dos donos ou padroeiros, como marcar os limites das freguesias.

Em 30 de janeiro de 1751 estabeleceu o prelado os limites das paróquias, e indicou as igrejas de São José e Santa Rita, o que aprovou o alvará de 10 de maio de 1753.

Nomeado vigário encomendado da freguesia de São José o padre Antônio José Malheiros Reimão, sobrinho do bispo, em 29 de janeiro de 1751, dois dias depois tomou posse.

Pretendia a mesma freguesia o vigário de Nazareth, do bispado de Mariana, padre Luiz Jayme de Magalhães Coutinho Cardoso, que, com o seu contendor, dirigiu-se a Lisboa em 1752, e levou-lhe a palma, sendo escolhido e apresentado em 10 de maio de 1753 na referida freguesia, que dois dias antes se tornara de natureza e classe dos benefícios perpétuos; confirmado em 23 de agosto, empossou-se em 12 de julho de 1756.

Elevada a igreja à paróquia arrebentou longa contenda entre a irmandade de São José e o vigário; aquela por julgar-se ofendida em seus direitos de posse da igreja, dos sinos e das sepulturas, este por querer assumir poder temporal e espiritual, julgando-se senhor de tudo; pelo que mandava fechar sepulturas abertas no templo sem consentimento seu; e vingava-se a irmandade retirando da sacristia uma cômoda onde estavam paramentos pertencentes ao vigário.

Alegrou a irmandade a sentença favorável, dando-lhe a posse da igreja, em 12 de novembro de 1756, sentença anunciada por luminárias e repiques de sino. Mas a carta régia de 5 de maio de 1759 entregou a igreja ao pároco, e até 1761 prolongou-se a demanda, concordando nesse ano o vigário em tirar da sacristia a cômoda, e a irmandade em ceder-lhe o uso e emolumentos dos jazigos, e as chaves do arcaz e armários.

Falecendo em 2 de janeiro de 1790 o vigário Luiz Jayme, comissário do santo ofício, entrou em concurso a freguesia; concorrendo os padres Ignácio Pinto, João de Almeida Carvalho e João de Andrade Veiga, foram os dois últimos aprovados, mas obteve o benefício o padre Ignácio Pinto; e apaixonados da sem razão desse procedimento, diz monsenhor Pizarrofaleceram em pouco tempo aqueles padres.

Provido em 5 de junho foi apresentado o padre Pinto em 28 de março de 1792, e confirmado em 25 de setembro.

O alvará de 7 de outubro de 1807 provera, por graça régia, na futura sucessão dessa igreja, o padre João Baptista Gervásio Picaluga, filho do desembargador desse apelido, que residindo em frente do Passeio Público, e havendo uma árvore nesse jardim que interceptava-lhe a vista, mandou decepá-la. Censurou-o o vice-rei Vasconcellos por esse procedimento, e havendo contenda entre ele e o vice-rei, foi o desembargador repreendido por carta régia.

Ainda hoje aparecem Picalugas, vândalos que decepam árvores, destroem vegetais dos jardins públicos, e o que é mais de notar, não são punidos e castigados severamente.

Achando-se valetudinário o vigário Ignácio Pinto, substituiu-o em 7 de outubro de 1810, o padre Picaluga, cônego honorário; e a este sucedeu por decreto régio o ex-frade beneditino Bernardo José da Silva Veiga, que pereceu com a idade de 90 anos em 9 de setembro de 1855.

Serviu como encomendado o vigário de Itaboraí, Dr. José Antônio Caldas, até 5 de maio de 1856, em que foi eleito vigário o padre João Procópio da Natividade Silva, que empossado em 18 de maio, ainda hoje goza do benefício.

Vimos que João da Silva Muniz foi também o arquiteto da Igreja do Sacramento.

Contemplando estes edifícios vê-se que já passou o entusiasmo religioso, que longe vai a época em que Christophe Wreen concebeu o soberbo monumento de São Paulo, em Londres; em que Miguel Ângelo elevou a cúpula de São Pedro, em Roma; o bispo Durham mandou construir a catedral Salisbury com tantas janelas quantos dias no ano, e tantas portas quantos meses; em que Alfonso Domingues o cego, edificou o convento da Batalha, em Portugal, e entre nós elevaram-se as igrejas da Cruz e da Candelária.

Ao contemplarmos as duas igrejas São José e Sacramento vemos que a arquitetura, as artes não têm tido entre nós uma marcha progressista; pois nada têm esses templos de grandioso.

No entanto é nas igrejas, que se pode estudar o adiantamento artístico de um povo; ali cada coluna, cada mainel, arco ou lavor deve exprimir uma ideia, inspirar uma oração; o templo deve ser uma maravilha da arte, e um livro que patenteie a grandeza e sublimidade da religião; e deixai que digamos, deve ser um monumento que fale, e pregue eternamente; deve ser a bíblia de povo. E para isso necessita que a arte erga-o magnífico, monumental, grandioso como o mar, o céu, como Deus, do qual é altar e recinto.

Felizmente as recentes modificações, que o arquiteto Bettencourt da Silva imprimiu na frontaria da Igreja do Sacramento, ornando-a com cinco estátuas e dando as torres altos coruchéus, tornaram esse edifício imponente e digno de sua missão cristã.

Nota

  1. Há sem dúvida engano na data 1608, pois vimos que Luiz de Almeida começou a governar em 1652; nem naquela data podia a doação ser confirmada por D. João IV. Também os cronistas dão a criação da freguesia em 30 de janeiro e não em 9.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

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