Igreja de São Pedro

Teve começo na ermida de São José a irmandade dos clérigos de São Pedro, ignorando-se a época de sua fundação; mas parece haver sido nos primeiros anos do século XVII, porque falecendo Gonçalo Lopes de Távora em 7 de março de 1639, por verba testamentária, mandou dizer algumas missas a São Pedro, na igreja de São José.

Igreja de São Pedro por Augusto Malta (1864-1957), via Biblioteca Nacional

Viveu a irmandade algum tempo sem compromisso, até que concedeu-o o prelado eclesiástico Manoel de Souza e Almada antes do mês de agosto de 166l, pois determinando em testamento Francisco Dutra de Leão, falecido em 25 de agosto de 1661, que o acompanhasse a irmandade de São Pedro dos Clérigos, não executou-se essa disposição por não estar em uso, e apenas acompanharam o finado alguns padres; e segue-se que para não estar em uso era necessário que muito antes daquele ano já estivesse a irmandade regularmente estabelecida.

Originando-se contendas entre os irmãos de São José e de São Pedro, retiraram-se estes para a igreja do Parto, por deliberação de 23 de setembro de 1705, aprovada pelo bispo D. Francisco de São Jerônimo; e o padre José Carvalho Dias, falecido em 1 de outubro de 1706, legou à irmandade de São Pedro 200$000 para as obras, que estava fazendo na igreja do Parto.

Tendo o padre Francisco Barreto de Menezes doado, por escritura de 9 de outubro de 1732, lavrada no cartório do tabelião Manoel Salgado da Cruz, dez e meia braças de terreno com treze de fundo, na Rua do Carneiro, para os clérigos construírem ali sua igreja, resolveram estes em 2 de agosto de 1733, dar princípio a obra; de feito lançou o bispo D. frei Antônio de Guadalupe a primeira pedra, e para a construção do edifício ofereceu alguns mil cruzados. Era então provedor da irmandade o padre João Alvares de Barros, vigário colado na freguesia de Nossa Senhora do Pilar em Iguaçu, o qual, perecendo em 9 de setembro daquele ano, foi o primeiro irmão, que pediu para ser sepultado na nova igreja, cuja construção estava em princípio.

Igreja de São Pedro no Rio Comprido

Construída a igreja de São Pedro na Rua do Carneiro, recebeu essa rua o nome de São Pedro, que ainda conserva; tendo recebido a antiga denominação de D. Antônia Carneiro, mulher de Luiz de Figueiredo, instituidora da ordem terceira de São Francisco da Penitência, a qual habitara ali entre as ruas da Quitanda e dos Ourives [1].

Não se sabe o ano em que São Pedro foi para seu novo templo, mas parece que foi antes de 1741, porque em 7 de outubro desse ano lavraram os clérigos, por súplica do padre João de Araújo e Macedo, o termo da irmandade de São Gonçalo de Amarante, cuja imagem o bispo fundador fizera colocar no altar do lado da epístola. Ausentando-se para Lisboa o bispo Guadalupe, decaiu a devoção de São Gonçalo, cuja imagem ficou a cargo da irmandade dos clérigos. Edificada na Rua de São Pedro, esquina da dos Ourives, é a igreja de São Pedro elegante e de arquitetura romana; o corpo do templo, mais saliente do que as torres, forma uma rotunda; o pórtico é de mármore, e tem na parte superior os emblemas do pontificado; aos lados, no segundo pavimento, abrem-se as duas janelas do coro com grades de ferro e logo acima há um entablamento; sobre este ergue-se outro corpo, que tem um óculo na parte inferior e um entablamento na superior, e coroa o edifício um zimbório com uma lanterna, que eleva-se acima das torres. São estas de forma arredondada com quatro pavimentos e os pináculos abobadados. Cerca o átrio uma grade de ferro, que formava um semicírculo em frente da porta do edifício, mas para dar-se regularidade à rua, tornaram-na reta. O exterior do templo indica a forma do interior, que é uma rotunda com quatro arcos, constituindo a capela-mor, o coro e os altares laterais.

presbitério é de mármore; na boca do trono do altar-mor está a imagem do orago, e na parte superior a do Senhor da Agonia, que ocupava outrora o altar do lado do evangelho; pertence este altar à Senhora da Boa Hora, e o do lado da epístola a São Gonçalo de Amarante.

Levantam-se os púlpitos entre a capela-mor e os altares menores; e entre estes e o coro há de cada lado uma tribuna.

Orna a igreja elegante obra de talha dourada, de estilo barroco, ignorando-se o nome do artista que executou-a.

Os pavimentos da capela-mor, dos corredores que vão ter à sacristia e o desta são de mosaico de mármore, vendo-se na sacristia a imagem do príncipe dos apóstolos, trabalhada em mármore pelo artista Despré, a qual substituiu há cinco ou seis anos a imagem de Cristo que ali havia; tem um nicho e três retratos dos quais mais tarde falaremos.

Não podemos repetir com certeza o nome do arquiteto deste edifício, mas diz a tradição ter sido o tenente coronel José Cardoso Ramalho [2].

Se tivessem estendido a igreja até à Rua do Sabão, obtendo o terreno, que atualmente pertence à irmandade, seria este um dos nossos melhores templos; não prevendo, porém, o grande desenvolvimento que teria a cidade do Rio de Janeiro, fizeram os clérigos um edifício pequeno; e consta que dissera o bispo fundador:

– É suficiente este templo para os padres do Rio de Janeiro.

Há ali um coro de treze sacerdotes, que rezam duas vezes por dia as horas canônicas, instituído por Manoel Vieira dos Santos, morador em Minas-Gerais. Desejara Manoel Vieira criar uma colegiada em uma das igrejas de Minas; mas, por motivos que se desconhecem, não realizando seu intento, tratou de levá-lo a efeito na igreja de São Pedro desta cidade.

Dirigindo-se ao cartório do tabelião Thomaz Gomes de Almeida, no arraial de Nossa Senhora da Penha, em Minas, passou Manoel Vieira dos Santos, em 13 de junho de 1764, uma procuração a seu irmão Domingos Thomé da Costa residente no Rio de Janeiro; e este, em 2 de agosto do mesmo ano, compareceu no consistório da igreja de São Pedro, e em nome do seu constituinte, doou à irmandade dos clérigos 42,000 cruzados para estabelecer-se um coro de seis sacerdotes, servindo para patrimônio do dito coro 40,000 cruzados, que serão postos a juros, ou em bens estáveis e rendosos, e 2.000 gastos no preparo do mesmo; que seria a irmandade in perpetuum et solidum administradora da instituição; que pedia o instituidor se lhe designasse na capela-mor da igreja sepultura para jazigo do seu corpo, se acontecesse falecer nesta cidade, e se em Minas mandaria a irmandade trasladar para a dita sepultura seus ossos; que para preencher qualquer vaga, que se desse de alguma capelania, se preferisse, em iguais circunstâncias, o candidato que fosse parente ou consanguíneo do instituidor; que, por desejar favorecer os estudantes, e mais pessoas pobres, que se quisessem ordenar, recomendava que, para ocupar as capelanias, fosse nomeada qualquer pessoa de limpo sangue, tendo 21 anos de idade e daí para cima, obrigando-se a tomar ordens dentro de dois anos inclusive; vinham especificadas na procuração outras condições relativas ao regímen do coro, e sufrágios pela alma do instituidor que por ser cego por ele assinara a procuração Antônio Gonçalves Jordão.

Declarou a mesa da irmandade aceitar todas as obrigações especificadas na escritura, pelo que Domingos Thomé da Costa entregou os 42,000 cruzados em boas moedas de ouro, que o procurador da irmandade, o padre Antônio de Oliveira, e mais mesários receberam, contaram e acharam certo sem falta alguma.

Em 11 de novembro de 1764 concedeu o bispo D. frei Antônio do Desterro a licença para estabelecer-se o coro, declarando que em tempo algum poderia a irmandade dispor do patrimônio e do rendimento para despesas estranhas àquela instituição.

Em gratidão a Manoel Vieira dos Santos mandou a irmandade tirar o retrato desse benfeitor, pelo artista Manoel Pereira Reis, para colocá-lo na sacristia; e gravar em uma pedra mármore posta no arco, que sustenta o coro da igreja, o seguinte:

Placa de Manoel Vieira dos Santos na Igreja de São Pedro no Rio Comprido

À Memória
de nosso irmão
Manoel Vieira dos Santos
Instituidor do coro desta
Irmandade de S. Pedro
Falecido na província de Minas.

Cantate Domino et benedicite nomini ejus
annuntiate de die in diem salutare ejus.

Pela alma de tão benemérito e piedoso varão canta-se cada dia um memento no fim do coro; aplica-se a missa que cada capelão celebra diariamente, e há todos os anos um oficio fúnebre.

É justo que aqueles que recebem socorros dessa instituição, lembrem-se sempre em suas orações do seu magnânimo benfeitor. Instituiu o cônego Manoel Freire mais um lugar de capelão no coro da igreja, doando para subsistência dessa capelania uma casa na Rua do Ouvidor, com a condição de rezar-se uma missa no aniversário de sua morte, e um memento cantado no coro; a irmandade aceitou o legado, do qual lavrou termo em 18 de setembro de 1770. Doou o mesmo cônego para o altar da Senhora da Boa Hora e do Senhor da Agonia, uma lâmpada, que conservar-se-ia todo o ano acesa, legando para esse fim um prédio na Rua do Ouvidor, junto ao que já havia dado à irmandade, obrigando-se esta a rezar uma missa perpétua, às sextas-feiras, naquele altar pelas almas dos agonizantes. E declarou o doador que se o prédio se arruinasse completamente, ficariam sem efeito os encargos, mas se o estrago fosse apenas parcial, ainda que cessasse a obrigação da lâmpada acesa, subsistiria a da missa. Pereceu Manoel Freire em 20 de outubro de 1774, e sepultou-se junto ao altar da Senhora da Boa Hora. Conserva a irmandade o retrato desse benfeitor.

Teve o coro mais um capelão pelo legado de uma casa na Rua da Quitanda, feito por Melchior Soares de Aguiar e sua mulher em 1790; e por alma desses instituidores há cada semana uma missa rezada.

A provisão de 29 de novembro de 1764 concedeu estatutos ao coro, organizados pelo bispo Frei Antônio do Desterro; a provisão de 21 de janeiro de 1817 do bispo D. José Caetano modificou o regímen e a reza e elevou o número dos capelães a dez, e a provisão de 23 de fevereiro de 1854 do bispo D. Manoel do Monte, conde de Irajá, permitiu a reforma dos estatutos que de feito foram reformados e aprovados em 27 de outubro de 1854.

A irmandade de São Pedro está isenta da jurisdição paroquial, como vê-se confirmado no capítulo VI de seu antigo compromisso, reformado em 1732 pelo bispo D. frei Antônio de Guadalupe; mas não atendendo a esse direito, quis o vigário da freguesia da Candelária, Ignácio Manoel da Costa Mascarenhas, que acompanhassem o enterro de Braz Dias, irmão secular da ordem, sacerdotes que não eram irmãos, e de mistura com o corpo da irmandade; opôs-se a mesa da irmandade e representou ao bispo D. frei Antônio do Desterro, que pela provisão de 13 de julho de 1762, ordenou ao vigário que acompanhasse com a cruz e clérigos a sua ovelha, diante da cruz da irmandade, ou atrás do procurador da mesma, como determinavam os estatutos desta; e declarou ao provedor e mesários de São Pedro que entre os irmãos do corpo da irmandade não admitissem outros clérigos que não fossem irmãos.

Altar da Igreja de São Pedro no Rio Comprido

Desejando prevenir questões semelhantes lavrou o bispo Desterro a provisão de 15 de setembro de 1762 declarando e confirmando a isenção da igreja de São Pedro, onde poder-se-iam celebrar todas as solenidades e ofícios eclesiásticos pelo provedor da irmandade pro tempore existente ou por quem suas vezes fizesse, sem dependência ou assistência do pároco do distrito. O papa Pio VI confirmou essa provisão pelo breve de 8 de março de 1776, que pelo aviso da secretaria de estado dos negócios do reino, de 18 de agosto de 1780, obteve o beneplácito régio, e foi executado nesta cidade e julgado por sentença definitória do Ordinário, publicada em 7 de junho de 1781.

Determinava o compromisso da irmandade que os irmãos sacerdotes levassem à sepultura os irmãos seculares que perecessem, mas suscitando dúvidas a esse respeito o padre José da Fonseca Lopes, mestre de cerimônias do bispado, suspendeu-se essa disposição até ser consultada a congregação dos Ritos, que decidiu a questão a favor da irmandade, como asseverou o mestre-escola da catedral do Rio de Janeiro e procurador da mitra em Lisboa, por carta de 7 de maio de 1757. Atestou o bispo Antônio do Desterro este documento, ordenando que se executasse o capítulo dos estatutos sobre o dever que tinham os irmãos clérigos de conduzirem à sepultura seus finados confrades. Usa esta irmandade de cruz pontifícia, como dizem os estatutos; não acompanha procissão alguma, e só concorre aos atos fúnebres de seus irmãos, quando vêm encomendar-se em sua igreja, ao do bispo diocesano e aos das pessoas da família imperial.

Era difícil em outros tempos inscrever-se qualquer secular entre os irmãos de São Pedro; necessitava ser pessoa de importância social, e concorrer com a soma de 400$000; assim o primeiro irmão secular da ordem foi o provedor da fazenda real Pedro de Souza Pereira e debaixo de certas condições; o segundo foi o sargento-mor Martim Corrêa Vasqueanes, natural do Rio de Janeiro, filho de Duarte Corrêa Vasqueanes, que por vezes governou esta capitania e de D. Martha Borges; cavaleiro professo na ordem de Cristo, o qual, conduzido no esquife da irmandade dos clérigos, sepultou-se na igreja dos jesuítas desta cidade. O terceiro foi Martim Corrêa Vasques, nascido no Rio de Janeiro, mestre de campo de um terço de infantaria, fidalgo da casa real, cavaleiro de Avis, governador do Rio de Janeiro em 1697, e falecido em 25 de junho de 1710; sendo seu cadáver conduzido no esquife da irmandade dos clérigos à igreja da ordem de São Francisco da Penitência. Mas necessitando obter dinheiro para a construção da igreja deixaram os padres de ser tão escrupulosos e exigentes na admissão de irmãos seculares, e desde 6 de novembro de 1733 reduziram a 200$000 a esmola de entrada.

O padre que quer entrar para esta corporação, tendo menos de trinta anos, dá 30$000, de trinta a sessenta 60$000, e mais de sessenta 100$000.

Lavabo da Sacristia da Igreja de São Pedro no Rio Comprido

Distribui a irmandade no dia da Festa de Todos os Santos dezesseis esmolas de 1$000 por outros tantos pobres mais necessitados, à eleição da mesa e com preferência dos próprios irmãos, as quais foram instituídas, pelo secular Antônio Fernandes Maciel, que para esse fim legou em 25 de julho de 1756, 800$000, com a pensão de quatro missas anuais e dois responsos pela sua alma.

Está a cargo desta irmandade uma instituição mui útil e importante devida à caridade e religião de Alexandre Dias de Rezende.

Alexandre de Rezende, natural do Rio de Janeiro, era de cor parda, alto, olhos grandes, sofria de estrabismo, tinha um pequeno sinal no rosto, e as pernas inchadas, era homem rico, estimado de todos, pertencente a muitas irmandades, irmão confrade de Santo Antônio, e tão devoto deste santo padre, que à sacristia do convento dos franciscanos ofereceu uma caldeirinha de prata para água benta de subido valor. Capitão do terço dos pardos reformou-se em sargento mor e teve o hábito da ordem de Santiago da Espada. Desejando pertencer à irmandade de São Pedro, apresentou sua petição que foi indeferida por ser o pretendente pardo.

Atendia-se então muito à cor, mais ou menos escura dos indivíduos, e originavam-se por isso questões ridículas e indecorosas, como a que vamos narrar.

Tinha Alexandre de Rezende um vizinho, que era-lhe desafeiçoado; o qual, para molestá-lo, maltratava um escravo seu que era mulato, repetindo esta palavra em voz alta para que Alexandre de Rezende ouvisse. Em represália comprou este um cavalo russo, e quando avistava seu vizinho, ou sabia que podia ouvir o que dissesse, gritava para os escravos.

– Apanhem o branco, deitem-lhe o selim, que por andar manhoso o branco precisa de trabalho e de castigo.

E os escravos que já sabiam de quem se tratava, traziam o cavalo ajaezado, no qual montava Rezende para passear, caminhando em frente da casa do vizinho.

Ficou Alexandre de Rezende mui pesaroso por não haver sido admitido na confraria de São Pedro; mas ocultando seu ressentimento tratou de vingar-se nobremente daqueles que haviam-no repelido; de feito falecendo em 9 de agosto de 1812, abriu-se o seu testamento, e nele leu-se a verba seguinte:

“Declaro que entre os bens que possuo, são duas moradas de casas, que fazem dois sobrados no canto da Rua de São Pedro, uma com frente para a Rua Direita, e outra com frente para a dita Rua de São Pedro, as quais deixo à irmandade de São Pedro, para esta tomar logo conta delas, e fazer assistência aos reverendos sacerdotes, que se acharem enfermos, sem poderem celebrar, fazendo-se-lhes uma mesada ao arbítrio da mesma irmandade, para sustentação dos ditos impossibilitados sacerdotes, ficando a mesma irmandade obrigada a pagar a décima; e no caso que a dita irmandade as queira vender, então passarão para a Misericórdia, opondo-se esta a tal determinação, e tomando logo conta delas para do seu rendimento se sustentarem os pobres clérigos”.

Esquecidos da cor escura do finado, e solícitos em receber o legado, que lhes deixara, conduziram os clérigos seu cadáver da Rua dos Pescadores, em frente ao Beco dos Cachorros, para a igreja de São Pedro; rezaram-lhe um ofício de corpo presente, e de tarde seguiu o enterro para o convento de Santo Antônio; vinham no préstito quase todas as irmandades existentes na cidade, às quais pertencera Alexandre de Rezende; traziam todos tochas acesas, e nas esquinas das ruas depositado o caixão sobre bancos de madeira, entoavam os padres um responso cantado; chegado o féretro ao cruzeiro na ladeira de Santo Antônio, vieram os frades recebê-lo, e deram-lhe sepultura no claustro, por ter sido o morto irmão confrade.

No mês de novembro de cada ano celebra a irmandade de São Pedro um ofício solene com missa pela alma do pio instituidor do patrimônio dos clérigos pobres, do qual propôs em 1852 o padre Agostinho José da Silva que se tirasse o retrato, e aprovada à ideia unanimemente encarregou-se do trabalho o artista nacional João Maximiano Mafra. Dizem, porém, as pessoas que conheceram Alexandre de Rezende que era este de cor escura e gordo, e não como está no retrato, mas deve atender-se que o hábil artista executou o seu quadro por informações, não tendo nem desenhos, nem cópias ao seu dispor.

Mandara a ordem de São Pedro exumar os ossos desse benfeitor, e colocá-los em uma urna, e há cinco ou seis anos depositou-os no arco que sustenta o coro lendo-se sobre a pedra mármore, deste jazigo o dístico seguinte:

Placa de Alexandre Dias Rezende na Igreja de São Pedro no Rio Comprido

Aqui jazem
os ossos do sargento-mor
Alexandre Dias de Rezende
Instituidor do patrimônio
dos clérigos pobres
Falecido em 9 de agosto de
MDCCCXII
Manum suam aperuit inopi et
palmas suas extendit ad pauperem.

(Salomão.)

Não necessitamos elogiar a pia instituição de Alexandre de Rezende, porque reconhecem todos sua utilidade, e admiram a ideia nobre e humanitária desse homem, que soube tornar-se benfeitor perpétuo de uma classe inteira. É esta instituição um montepio administrado pela mesa da irmandade, tendo tesoureiro e procurador especiais; por ela são socorridos os sacerdotes pobres ainda que não sejam irmãos da ordem, uma vez que se achem neste bispado, e impossibilitados de celebrar o sacrifício da missa por moléstia, prisão, suspensão de ordens ou outra qualquer coisa que o embarace.

Outros benfeitores têm aumentado o patrimônio dos clérigos pobres; como Manoel Rodrigues dos Santos que legou, em 1827, 2:000$000; Antônio Rodrigues dos Santos, irmão do precedente, que, em 1829, legou 4:000$000; o cônego Alberto da Cunha Barbosa, que deixou, em 1845, 2:000$000 ; monsenhor Antônio Vieira Borges, ex-delegado da cúria romana, que legou, em 1845, 2:000$000, deixando quase toda a sua fortuna aos pobres; e Luiz Antônio Muniz dos Santos Lobo, que legou, em 1857, 2:000$000. Este sacerdote ocupou lugar distinto na política do país, honrou o púlpito, e faleceu e sepultou-se na cidade de Magé [3].

Por proposta do padre Agostinho José da Silva, em 1857 mandou a irmandade tirar os retratos dos benfeitores Cunha Barbosa, Vieira Borges e Santos Lobo, e depositou-os no consistório, que fica superior à sacristia, tendo janelas de sacada com grades de ferro para a Rua dos Ourives. Há ali um altar com a imagem de São Pedro representada em painel, e, ao redor da mesa, cadeiras de jacarandá com encosto e assento de couro lavrado, construídas em data muito remota. Nas paredes há dois painéis, um da Assunção da Virgem pintado por Pedro Américo de Figueiredo e Mello, o outro de Nossa Senhora da Boa Morte, pintado por Manoel Pereira Reis, professor de desenho da escola de Marinha.

Móveis da antiga igreja na Igreja de São Pedro no Rio Comprido

Junto ao salão do consistório há uma pequena sala, onde veem-se um painel da ceia do Senhor, obra do artista Reis; um retrato do bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, e um de D. João VI pintado por José Leandro de Carvalho. Havia também aí os retratos dos bispos D. frei Antônio de Guadalupe, frei Antônio do Desterro e de D. José Joaquim Mascarenhas Castello Branco, que, por estarem arruinados, foram substituídos pelos que estão na sacristia.

Prestou bons serviços à irmandade dos clérigos o bispo Desterro; doou uma lâmpada de prata, e quase todas as peças desse metal que possuía, para fazer-se a banqueta do altar-mor; ofertou um cálix de prata com a sua firma, e em beneficio da irmandade aplicou os remanescentes da testamentaria do padre Francisco de Sampaio, que importaram em 1:273$000.

Depois de minuciosas pesquisas descobrimos que veio repousar nesta igreja em 1 de novembro de 1814 o poeta Manoel Ignácio da Silva Alvarenga [4].

No presbitério do lado da epístola abriu-se o túmulo do bispo de Azoto, D. Antônio Rodrigues de Aguiar, que, sagrado em 29 de setembro de 1816, foi uma das testemunhas do juramento prestado por D. João VI no ato da sua aclamação, e pereceu no terceiro dia da viagem para a sua diocese em 2 de outubro de 1818, vindo o cadáver em um coche da casa real.

Foram aqui sepultados os padres José Mauricio Nunes Garcia, e Luiz Gonçalves dos Santos, dos quais vamos ocupar-nos nas páginas seguintes.

Tem a irmandade cemitério de sua propriedade na Ponta do Caju.

Notas

  1. Monsenhor Pizarro, dá, a essa senhora o nome de Anna Carneiro, mas em todos os papéis da ordem terceira de São Francisco, que consultei vi escrito Antônia Carneiro.
  2. Veja o capítulo XIX.
  3. Há poucos anos faleceu o cônego José Luiz Gomes de Menezes legando um sobrado para patrimônio do montepio dos clérigos pobres.
  4. Veja no tomo 38 e pág. 151 da Revista do Instituto Histórico a notícia da sepultura de Manoel Ignácio da Silva Alvarenga.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

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