Igreja do Hospício

Não é raro vir sentar-se a discórdia nos umbrais da igreja, aparecer a cizânia entre aqueles que, congregados pelos laços da religião, formam essas corporações, confrarias, irmandades cujos membros se denominam cristãos. O ciúme, o ódio, a cobiça e outras paixões dividem muitas vezes àqueles que, entregues às coisas do culto, se esquecem todavia da excelência da doutrina de Cristo que recomenda a mansidão do cordeiro, a misericórdia sem fim, a paz e concórdia, a paciência e resignação. E quando penetram a desarmonia e a desordem nas corporações religiosas, sofrem a moral e a religião; o culto decai, a fé esfria, e a casa de Deus sem paz e sem ordem dá ao mundo um espetáculo triste.

Vimos que os terceiros de São Francisco da Penitência, por contendas entre si e os religiosos, dividiram-se em dois partidos, dos quais um, tendo à frente o Ministro Francisco de Seixas da Fonseca, transferiu-se para a ermida da Rua do Rosário. O alvará régio de 12 de março de, 1721 autorizou a ordem na ermida do Rosário, onde com as imagens e alfaias para ali conduzidas, e nomeado um sacerdote sob o título de comissário, celebraram-se as festividades competentes.

Os irmãos, que haviam abraçado o partido dos religiosos nomearam sob a influência destes outra administração; mas, em 4 de setembro de 1725, reconciliaram-se os dois partidos, recolhendo-se Francisco de Seixas e seus partidários à igreja da ordem. A carta régia de 20 de dezembro daquele ano mandou que se fizesse restituir à antiga e própria capela dos terceiros de São Francisco todas as imagens, ornamentos e mais paramentos, que dela se haviam mudado para a do Rosário.

Residiram nesta ermida dois religiosos italianos, que em benefício das missões o governador Ayres de Saldanha de Albuquerque reteve nesta cidade.

Esse recinto tão pequeno e mal colocado não podia convir a frades, que mais que todos parecem apreciar os cômodos da vida; de feito deixaram a ermida de Francisco de Seixas, e foram recolher-se a do Desterro, legando à primeira habitação o nome de Hospício, que ainda conserva.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição na Sacristia

Havia na antiga Sé a irmandade da Conceição, composta de homens pardos libertos, e fundada por Antônio Pinheiro, Jorge de Castro, Eugenio Ribeiro da Costa, Antônio Dutra e Francisco Coelho de Brito, tendo compromisso aprovado em 19 de julho de 1700 pelo cabido sede vacante. Vendo que por achar-se mui arruinada a igreja catedral de São Sebastião, tratara o bispo de transferir a Sé para outro templo, receou essa irmandade não obter lugar para si na nova catedral, pelo que cuidou em comprar a ermida do Hospício, que foi-lhe cedida com todas as alfaias, e uma casa anexa, chamada do noviciado, pela quantia de 3:160$000. Realizou-se a compra por pagamentos, conforme a escritura de 9 de janeiro de 1729, no cartório do tabelião Jorge de Souza Coutinho.

Dispondo de mui poucos recursos decorreram muitos anos sem que a irmandade pudesse saldar o preço da compra; em 6 de maio de 1801 foi executada pela quantia de 1:978$000, que ainda devia; e para receber essa soma penhorou a ordem terceira da Penitência uma casa na Rua dos Ourives, pertencente à irmandade da Conceição, que só em 10 de setembro de 1807, teve quitação geral do pagamento.

Liga-se a história da irmandade da Conceição à da irmandade da Assumpção e Boa-Morte existente no convento dos carmelitas. Ereta em 1663 foi seu compromisso aprovado, em 13 de junho desse ano, pelo prelado administrador Manoel de Souza e Almada; e decorridos cincoenta e seis anos, reformaram-se estes estatutos com aprovação do bispo D. Francisco de São Jerônimo em 31 de janeiro de 1720.

Nossa Senhora da Boa Morte

Achando-se alguns irmãos da Senhora da Assumpção e Boa-Morte em desarmonia com os frades, resolveram deixar a igreja do convento, mas combinaram em segredo o seu plano; começaram a ocultar alguma prata sob o pretexto de levá-la a conserto, e esperaram ocasião azada para arrebatar a imagem; de feito no dia da procissão da Virgem, percorreu a imagem diversas ruas, e ao chegar à da Quitanda, esquina da do Rosário, em vez de descerem para dirigir-se ao convento, apressaram os irmãos o passo, subiram pela Rua do Rosário, e, penetrando na ermida da Conceição, fecharam as portas. Conta-se que houve tumulto e contenda, velas quebradas, hábitos rotos intervindo a força armada, mas a imagem ficou.

Repetiram-nos esta notícia muitos homens de avançada idade e bom conceito; e acresce que em uma certidão passada em 17 de janeiro de 1812, pelo religioso carmelita frei Thomé da Madre de Deus, diz ele ser tradição em seu convento que, em uma noite, os irmãos da Boa-Morte carregaram a imagem da Virgem para a ermida do Hospício; ora a procissão da Boa-Morte foi sempre celebrada à noite, e talvez o religioso não quisesse referir fielmente a tradição, no que parecia-lhe desairoso ao decoro monacal.

Dera-se a mudança da imagem para a ermida do Hospício em 1734, e em 19 de dezembro desse ano, uniram-se as irmandades da Boa-Morte e da Conceição; porém os irmãos da Boa-Morte, que permaneceram no convento, constituíram uma nova irmandade chamada da Senhora da Assumpção, cujo compromisso foi aprovado pelo poder competente, ficando reservado o nome de Boa-Morte ao partido da irmandade, que se ausentara para a ermida do Hospício.

A concórdia, a harmonia que começou a reinar entre as irmandades da Conceição e Boa-Morte, deu-lhes impulso e prosperidade; e resolvendo edificar um templo vasto e elegante, no lugar da antiga ermida, lançaram a primeira pedra em 25 de março de 1735, dando o brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim a traça do edifício. Progrediram as obras, apareceram devotos que concorreram com esmolas; mas no fim de alguns anos a discórdia e o ciúme separaram as duas corporações; as obras cessaram, o culto diminuiu, e as duas irmandades caíram em estado de perturbação e regresso, próprio de dois partidos que lutam. Um motivo frívolo originava uma contenda violenta; não se discutia, disputava-se; não se deliberava, guerreava-se; uma confraria queria sobrepujar a outra, destruí-la, aniquilá-la para ficar só!

À irmandade da Conceição deixara Felix Martins Rates um órgão; e por serem comuns os bens, quis a da Boa-Morte usar do instrumento, mas os irmãos da Conceição negavam-lhe as chaves; requereu ao poder competente, que permitiu se arrombasse o órgão, se as chaves não fossem entregues; em 10 de abril de 1791, na ocasião da missa da Boa-Morte, compareceram os irmãos seguidos de um alcaide, exigiram as chaves, levantaram-se contendas, mas, aberto o órgão, celebrou-se a missa.

Pertencia à irmandade da Conceição o sino grande da torre, o qual foi recusado à da Boa-Morte, que teve de comprar o sino chamado Braga, que pertencera à Igreja do Rosário, quando servira de Sé.

Na festa da purificação da Virgem conservavam as duas irmandades o Sacramento em sacrário para distribuí-lo aos fiéis; e querendo celebrar e dar comunhão antes que a irmandade da Conceição, dirigiram-se os irmãos da Boa-Morte à igreja, às 3 horas da manhã do dia 2 de fevereiro de 1798, e apesar de acharem o altar preparado para a outra confraria e com o competente pavilhão, arriaram este, e hastearam o seu; apresentou-se o tesoureiro da irmandade da Conceição para retirar do altar uma toalha, mas um irmão da Boa-Morte opôs-se, e com a açucena de um castiçal feriu-o; houve tumulto, interrompeu-se o ato religioso, fechou-se a igreja, e o vigário geral Villas-Boas condenou o sacrílego em 20$000, e excomungou-o.

Houve contendas sobre a construção das catacumbas; os da Conceição não queriam ceder o terreno do lado da Rua do Hospício, os da Boa-Morte não queriam aceitar o terreno do lado da Rua do Rosário, porque, construída a torre, ficaria reduzido.

Uma das irmandades guardava as chaves da igreja em certos meses, a outra em outros; e, se acontecia uma delas necessitar das chaves em meses contrários, negava-se a outra, e tinha-se de arrombar as portas.

Era uma luta sem tréguas; transformara-se a casa de Deus em arena de contendores; o recinto da oração se não diferençava da praça pública; e durante essa luta decaiu o culto, e a edificação do templo não progrediu.

Convém dar certos esclarecimentos antes de declarar como findou essa contenda.

Por provisão de junho de 1747, requerida pelo missionário capuchinho, frei Anselmo Bertrand, teve estabilidade a irmandade da Conceição, que em 17 de novembro de 1764 reformou seu compromisso, pelo qual só podiam ser irmãos os que fossem legitimamente pardos, não se compreendendo disso que seriam excluídos os homens brancos; e cada irmão daria na entrada 1$600 e anualmente 480 réis. Confirmado em 22 de março de 1765 pelo bispo, foi esse compromisso revalidado pela mesa da consciência e ordens, em provisão de 24 de março do 1767, por terem sido declaradas sem vigor as ereções de semelhantes sociedades pelos ordinários, e também as confirmações de suas leis, pelas provisões de 17 de novembro de 1766 e 12 de setembro de 1767 daquele tribunal.

Em 30 de janeiro de 1816 confirmou-se em Roma o diploma do breve apostólico elevando a irmandade da Conceição à ordem terceira com a regra da ordem terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula; e confirmada pelo bispo em 31 de julho de 1816, foi essa graça aprovada pelo beneplácito régio. Preparando novo compromisso a ordem terceira da Conceição aprovou-o em 17 de dezembro de 1817, e a mesa da consciência e ordens confirmou-o em 8 de julho de 1819.

Continuava a luta entre as duas corporações, sem poder aplacá-la nem as admoestações dos mais prudentes, nem os conselhos que vinham do púlpito; propusera o juiz da irmandade da Conceição, Francisco Ferreira de Sampaio, em 25 de julho de 1815, a reunião das duas irmandades, mas em 31 de julho o juiz da Boa Morte, Domingos José Ferreira Braga, recusara a conciliação. Felizmente para a religião e para a moralidade pública raiou o dia da concórdia e da paz; porque apresentada, em 9 de março de 1820, a proposta da reunião das duas confrarias, depois de animada discussão por 48 horas, foi aprovada. Dois dias depois lavrou-se a escritura em notas do livro 171, no cartório do tabelião Joaquim José de Castro, a qual veio revalidar a união das duas corporações, que desde então constituíram uma só sob o título de Ordem Terceira da Conceição e Boa Morte. Era então corretor da ordem da Conceição Nicolau Viegas de Proença, e juiz da irmandade da Boa Morte, Domingos Alves Pinto, os quais esforçaram-se por terminar uma luta de 60 anos, restabelecendo a concórdia e a paz no recinto da oração.

Propôs Carlos José de Almeida, em seu relatório de 1861 que a ordem mandasse celebrar cada ano, em 9 de março, uma missa por aqueles benfeitores, que de feito prestaram relevante serviço, plantando a harmonia entre duas corporações, que se iam aniquilando.

Em 3 de abril de 1820 houve solene festividade em louvor da fusão das duas confrarias, que prepararam novo compromisso; aprovado, em 13 de novembro de 1830, foi confirmado em 3 de dezembro do mesmo ano.

Fundidas as duas corporações cuidou-se em melhorar o templo, em levantar o culto, que nos dias de anarquia caíra em desleixo; correram, porém, alguns anos em que nada se fez, por não haver dinheiro, pois estavam exaustos os cofres; o que prova quanto são nocivas as lutas entre homens, entre associações, cujos esforços devem ser dirigidos para o mesmo fim.

Pia da Sacristia

Em sessão de 21 de fevereiro de 1838 o corretor Antônio Fernandes Vaz determinou dar princípio às obras da igreja, e nomeado procurador Antônio Machado Nunes, escolheu-se para mestre carpinteiro a José Maria da Trindade, e para mestre pedreiro a Francisco Pereira de Santa Anna; fechou-se o templo, e os atos religiosos começaram a celebrar-se na sacristia.

Acontecendo ficarem fendidas duas pilastras, que sustentam os arcos da nave da igreja do lado da Rua dos Ourives, pareceu iminente o perigo para as paredes do templo, porém mandou José da Trindade escorar os arcos, e com perícia e cuidado levantou novas pilastras; e por haver concluído o trabalho com felicidade deram ele e Santa Anna um jantar, e fizeram celebrar uma missa.

Trindade e Santa Anna administraram gratuitamente as obras da igreja, que ficou concluída em 1842. Mas estando o interior do edifício despido de ornatos, e sem a decência conveniente ao culto, corridos alguns anos, empreendeu a ordem novas obras; mandou fazer um guarda vento, banquetas para os altares, reformar as tribunas do corpo da igreja, as quais constituíam uma extensa varanda, dar forma mais elegante ao coro, que teve um órgão novo, substituir os púlpitos portáteis por outros abertos nas pilastras, que sustentam o arco cruzeiro, os quais foram dourados à custa de um irmão, e vestir de talha o recinto do templo, encarregando-se dessa obra o artista Manoel Francisco dos Santos Deveza, que não só não harmonizou seu trabalho com o retábulo do altar-mor executado por Valentim, como também não apropriou-o à arquitetura do edifício, ao caráter grave que nele predomina, tornando-se mais saliente esse defeito nas capelas fundas, onde havia espaço para elevarem-se altas colunas, estátuas majestosas, em vez de ornatos impróprios e mesquinhos.

Além de vários objetos de ornatos, como açucenas, tapetes, laços de veludo, ramos de flores, grinaldas e vestimentas de imagens fizeram-se resplendores, coroas e outras peças de prata para os santos; e desses artefatos encarregou-se gratuitamente o ourives José de Oliveira Coutinho, fornecendo à ordem a prata; e assim poupou no feitio de tais obras a quantia de 1:405$000. O antigo resplendor da imagem de Cristo do altar-mor era de folha de flandres.

A imagem da Assumpção sobre o arco cruzeiro foi substituída por um emblema com as letras C. B. M.

Por meio de uma subscrição agenciada pelo irmão Ignácio Joaquim dos Santos douraram-se as capelas fundas e o altar-mor, sendo os outros altares dourados à custa de diversos irmãos. Construiu-se o parapeito de granito, que sustenta a gradaria do adro.

Concluídas as obras, benzeu o bispo, conde de Irajá, em 4 de dezembro de 1853, a sacristia, e querendo o sacerdote, que conduzia a cruz, abrir a porta do templo, retorquiu-lhe o irmão José Maria dos Reis, que se incumbira de inspecionar as obras:

– Não abra, eu fechei, eu quero abri-la.

Na tarde desse dia vieram em procissão do templo de São Francisco de Paula para esta igreja as imagens, que haviam sido encarnadas.

Frontão da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte

Acha-se a Igreja do Hospício na Rua do Rosário, esquina da dos Ourives; tem o átrio lajeado de pedra, e cercado de gradil de ferro; três portas dão entrada para o recinto do santuário, lendo-se no friso da do centro a data 1785 em letras douradas, e no tímpano do frontão barroco que a enfeita, a antífona Janua coeli: As janelas do coro têm grades de ferro; seguem-se um segundo corpo com uma luneta envidraçada, e o frontão reto. A broxa do caiador cobriu de azul o granito que há no rosto deste edifício que não tem arquitetura, nem beleza.

Não há torre, e só um campanário para o qual sobe-se por uma escada de cantaria.

Interiormente é o templo dividido em três naves com sete altares e duas capelas fundas.

Se nota-se aqui o sombrio misterioso, a majestosa construção das antigas basílicas, não encontram-se a harmonia, o ritmo das linhas e contornos que tornam belos tais edifícios; são pesadas as formas, não há beleza nem elegância nas pilastras das naves e a falta de ornatos, de flores, de estátuas torna este templo monótono, pesado, sem poesia e vida.

Nos altares veneram-se as imagens de São Miguel, São José, São Francisco de Paula e da Senhora da Assumpção, do Socorro e a de Santa Anna.

Nossa Senhora das Dores

O arco cruzeiro e o arco da capela-mor sustentam o zimbório alumiado por uma lanterna octógona. Sob o zimbório estão as capelas fundas com as imagens da Senhora das Dores, da Boa-Morte e a de Cristo-Morto junto ao supedâneo do altar; há aí quatro tribunas, duas do lado do arco cruzeiro, e duas do lado da capela-mor, e no pavimento térreo quatro portas.

Pertence o altar-mor às imagens da Conceição e de Cristo que veio substituir a da Boa Morte que ali havia.

Em 11 de outubro de 1795 o coronel Cláudio José Pereira da Silva deu 500$000 para o retábulo deste altar, cujo frontal é de prata.

Das portas que há sob o zimbório principiam dois corredores ladrilhados de mosaico de mármore que vão ter à sacristia, que é espaçosa e com duas janelas para a Rua dos Ourives e três janelas e uma porta para a Rua do Hospício. Há na sacristia o altar da Conceição e Boa-Morte, um esguicho de mármore construído em 1855 à custa de irmãos da ordem, a capela do noviciado com três portas de arquivolta edificada sob a direção do artista Antônio de Pádua e Castro, e benzida em 8 de dezembro de 1875, e os retratos dos ex-corretores José Maria dos Reis e Joaquim José de Castro de Araújo Sampaio.

Depois de incessantes esforços e despesas obteve José Maria dos Reis o breve de 19 de setembro de 1856 confirmado pelo bispo e o governo, em 22 de dezembro do mesmo ano, isentando a ordem da sujeição e dependência do vigário da Candelária; e transferida nesse ano a festa da Conceição celebrou-se já sem licença do pároco oficiando o internúncio Vicente Massoni, que auxiliara a promulgação do supracitado breve. [1]

Em 22 de julho de 1857 propôs o irmão Carlos José de Almeida que se mandasse tirar o retrato de José Maria dos Reis, pelo benefício prestado a ordem; e sendo aprovado, pintou o artista Moreau o retrato em 1860. [2]

Falecendo em 19 de agosto de 1867 deixou Joaquim José de Castro de Araújo Sampaio um legado para por meio de sorteio distribuírem-se 12 esmolas de 20$000 cada uma, no dia da festividade da Conceição, pelos irmãos e irmãs pobres da ordem.

Junto à sacristia estava a casa da arrecadação, mas em 1875 a ordem levantou ali um prédio com janelas para a Rua do Hospício, e alugando o pavimento térreo, estabeleceu no pavimento superior o consistório.

No fundo deste prédio há um terreno que foi um antigo cemitério com catacumbas benzidas no 1º de novembro de 1813, as quais sendo insuficientes resolveu a ordem em 12 de fevereiro de 1843 edificar outras no lugar onde depois fez-se a casa da arrecadação, mas não chegou a concluir essa obra por terem sido proibidos os enterramentos nas igrejas.

Nos antigos jazigos desta igreja sepultou-se Martinho de Brito que foi o melhor ourives de martelo de seu tempo; foi ele o autor das lâmpadas de prata existentes no mosteiro de São Bento e em outros templos do Rio de Janeiro. Era de cor parda, alto, magro, capitão do quarto regimento de milícias, chamado dos pardos, e chegou a reformar-se em sargento-mor e pereceu contando mais de cem anos. Eis o seu óbito por nós encontrado em livros antigos:

“O irmão sargento-mor Martinho Pereira de Brito veio sepultar-se nesta igreja da ordem terceira da Conceição e Boa-Morte, amortalhado em hábito da ordem, conduzido em sege, no caixão da mesma ordem por ser pobre, encomendado e recomendado pelo nosso padre procomissário, com licença do pároco da freguesia do Sacramento, em 4 de julho de 1830. Jaz na catacumba nº 7.”

O antigo cemitério transformou-se em jardim com tanque de mármore. Por cima da sacristia corre um sobrado com três janelas de sacada para a Rua dos Ourives e quatro para a do Hospício, onde vê-se um salão com o altar das imagens do Cristo Crucifixado e do Senhor dos Passos, que estiveram em um dos altares da igreja; e também dois painéis, um da Conceição, trabalho do artista Raymundo da Costa, e o outro da Boa-Morte, pintado por Leandro Joaquim, do qual verá o leitor uma rápida notícia no fim deste capítulo.

Festejam-se na igreja do Hospício a Senhora da Conceição e a da Boa-Morte, distribuindo-se na primeira, além das esmolas já mencionadas, 240$000, juros de 4 apólices legadas para esse fim pelo irmão Luiz Vieira de Leão, que faleceu em 22 de março de 1846 ; os irmãos da ordem conduziram a mão o seu cadáver desde a Rua da Alfândega à igreja que descrevemos, onde foi sepultado.

Saía deste templo em 14 de agosto, a procissão da Senhora da Boa-Morte, e eram os padres que carregavam o esquife; mas desejando fazer o ato apressadamente, opuseram-se os irmãos, e em sessão de 10 de julho de 1831, resolveram carregar eles mesmos o andor.

Também na procissão do Enterro, que saía da Igreja do Carmo carregavam os padres o esquife, mas havendo contendas em 1859 entre eles e os irmãos da ordem, por exigirem maior espórtula, e quererem levar a seu jeito o corpo de Cristo, determinaram os irmãos terceiros dispensar os sacerdotes. Em 1873 suprimiu-se a procissão da Senhora da Boa-Morte, na qual outrora não havia anjo cantor, mas as devotas armavam palanques, donde cantavam hinos ao transitar da procissão.

Havia nesta igreja, no tempo de D. João VI, a festa da Senhora das Dores, chamada das Damas, por ser celebrada pelas damas do Paço.

Os irmãos da Conceição usavam de opa branca e murça azul, e os da Boa-Morte de opa e murça brancas; pela provisão de 23 de agosto de 1814, e beneplácito régio de 2 de novembro do mesmo ano, começaram a usar de hábitos talares de lã com túnica branca e capa azul, e em 1847 admitiram túnica, capa e cordão pretos, e escapulário azul tendo no peito as iniciais C. B. M.; possui esta confraria diversos prédios e apólices, e dá esmolas mensais aos irmãos pobres.

Em 1861 propôs Carlos José de Almeida uma tabela de esmolas para os irmãos que, tendo ocupado cargos na ordem, caírem na pobreza, como se pratica nas outras corporações.

É louvável essa ideia, porque é precária a fortuna; e assim o irmão que mais despender com a ordem, mais deve receber, quando cair em indigência; se as ordens, as confrarias religiosas não desamparam os seus confrades pobres, com mais razão devem favorecer àqueles que, além de pobres, prestaram serviços à corporação; acresce que se a gratidão é um dever, uma virtude, é nas instituições religiosas que a sua prática deve ser mais seguida e de mais exemplo.

Notas do Autor

  1. Este internúncio faleceu de febre amarela no Rio de Janeiro em 3 de junho de 1857, e a ordem da Conceição e Boa-Morte, que fizera preces pelo seu restabelecimento, acompanhou o cadáver até à igreja de São Sebastião no Castelo, e celebrou solenes exéquias.
  2. Faleceu José Maria dos Reis em 2 de agosto de l875.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

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