Palacete da Praça da Aclamação

Em 1818, por ocasião da coroação de D. João VI, fizeram-se grandes festas no Campo de Sant’Ana, onde levantou-se um palacete para a família real assistir aos festejos, o qual elevava-se do chão cerca de vinte palmos.

Pelos quatro lados corria uma varanda constituída por arcos entre colunas unidas por uma balaustrada; a varanda da frente era mais saliente que as outras uma braça, e sustentada por cinco arcos, três maiores na frente e dois menores lateralmente, constituindo um vestíbulo com grades; a escada ficava fronteira ao arco central, e interiormente havia um salão e três quartos forrados de damasco e veludo carmesim.

Este edifício era de madeira, mas alguns anos depois fizeram-no de pedra e cal.

Neste palacete ouviu o príncipe D. Pedro um patriótico discurso do presidente da municipalidade que, em nome do povo, ofereceu-lhe o título de imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil. Era em 12 de outubro de 1822, e cercado de seus ministros, rodeado de imenso povo, que enchiam Campo de Sant’Anna, declarou o príncipe que, ouvido o seu conselho de estado e os procuradores gerais, aceitava o título de imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil.

O povo e a tropa saudaram o novo imperador com grande regozijo.

Entrou a imperatriz em um carro, e dirigiu-se para o paço da cidade, e o imperador a pé, debaixo do pálio, seguido por toda a corte, e por uma multidão entusiasmada, caminhou para a capela imperial, onde assistiu com a imperatriz a um te-Deum.

Caía a chuva com violência, mas nem assim era menor o ardor e entusiasmo da imensa multidão, que acompanhava o monarca; se o pálio vergava ao peso da água, também custava a suster em seu regaço as flores, que sobre ele espargiam todo o povo.

Este acontecimento fez o Campo de Sant’Anna mudar de nome; e por portaria de 12 de dezembro de 1822 denominou-se Praça da Aclamação.

Em 26 de março de 1824, formada na Praça da Aclamação, em grande parada, a força militar existente na cidade, sob o comando do tenente-general Joaquim Xavier Curado, achando-se no palacete a imperatriz, montou o imperador a cavalo, e ordenou marchasse a força em coluna cerrada à frente do palacete, onde prestou ela juramento a constituição, salvando após este ato a artilharia com 101 tiros, e mais três descargas de mosqueteria; e em seguida tendo o imperador à sua frente, desfilaram os batalhões em continência à imperatriz [1].

Para festejar a sagração e coroação de D. Pedro II preparava o artista Francisco de Assis Perigrino um grande fogo artificial no palacete, quando, em 22 de julho de 1841 pela manhã, estando a secar ao sol um pouco de estopim e 140 bombões, refletiram-se os raios do sol nos vidros de um lampião vizinho, preso ao ângulo do palacete, e imediatamente arderam os bombões, comunicando-se o fogo ao edifício. Houve um estampido estrondoso, uma explosão violenta, que anunciou à cidade o desastre que acontecia; as grades do palacete saltaram à grande distância, decepando uma árvore vizinha; os vidros do paço do Senado, de diversas casas da praça e ruas adjacentes estalaram; a violência do incêndio tornou inútil o auxílio das bombas, e assim entregou-se o edifício às labaredas, e colocaram-se sentinelas em círculo para conter o povo. Havia dentro do palacete um barril com uma arroba de pólvora, cinco mil e tantos foguetes do ar, duas mil e tantas peças de fogo de vistas, uma iluminação de várias cores de dez mil e tantas luzes, cincoenta libras de clorato de potassa, vinte de nitrato de estronciana e vinte de nitrato de barita, e por isso terrível devera ser a explosão.

Salvaram-se, saltando pelas janelas, porém ficaram feridos, Francisco Rodrigues Lima, Joaquim Baptista Perigrino e os escravos Paulo, Cipriano, Simplício e Severino, que foram remetidos para o hospital do quartel do campo; pereceram José da Costa Velho, seu filho Candido José da Costa, e o diretor Francisco de Assis Perigrino que, conseguindo saltar por uma janela, foi nesse momento esmagado por uma parede que desabou.

O guarda nacional Ricardo José de Figueiredo, que estava de sentinela no palacete, escapou, mas ficou ferido nas costas e na perna.

Logo que teve notícia do desastre o imperador enviou uma guarda de arqueiros para o lugar do sinistro, e ordenou que a custa de seu bolsinho se fizesse o enterro de Francisco Perigrino, que no dia seguinte foi sepultado na igreja de Santo Antônio, dedicando-lhe o poeta Teixeira e Souza uma linda poesia, que termina com estes versos:

Honrai-lhe, honrai-lhe a campa e uma lágrima,
Dai-lhe um ai de saudade, ele o merece.

Em sinal de sentimento o imperador não quis visitar as luminárias na noite desse dia.

Edificado na praça, do lado do edifício do Senado, tinha o palacete, que o fogo consumiu, a fachada voltada para o edifício do quartel.

Nota

  1. Veja no vol. 32 da Revista do Instituto Histórico a notícia histórica intitulada a Constituição do Brasil.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

Imagem destacada

  • Aclamação de Dom Pedro I no Campo de Santana no Rio de Janeiro, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.

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