Recolhimento das Órfãs

Há poucas notícias deste estabelecimento.

A fadiga ainda nos não fez interromper o afanoso trabalho de coligir notícias das coisas pátrias, mas a incúria; o desleixo dos nossos maiores nos foram fatais; nossos arquivos são pobres. De que servem papéis velhos, repetiam os homens de outrora que não compreendiam a utilidade do arado, quanto mais do papel empoeirado e roído da traça.

Em 15 de outubro de 1739 Marçal de Magalhães Lima e o capitão Francisco dos Santos doaram 52,000 cruzados para fundação e patrimônio de um recolhimento de órfãs, sendo 20,000 para as obras do edifício, e 32,000 para o patrimônio necessário ao sustento de quinze órfãs e uma regente.

Começado o edifício gastaram-se não só os 20,000 cruzados, como também mais 6,000, que se tomaram de empréstimo; e em 15 de setembro de 1740, dia da festividade da Senhora de Bom Sucesso, abriu-se o recolhimento com cinco órfãs, das quais foi nomeada regente D. Isabel Ferreira de Mendonça.

Instituíra-se o recolhimento com o caridoso fim de servir de amparo às órfãs desvalidas, mas pelo andar do tempo, foram admitidas no mesmo estabelecimento as expostas da casa da roda.

Por escritura de 23 de novembro de 1738, lavrada pelo tabelião Francisco Xavier da Silva, criara Ignácio da Silva Medella um dote perpétuo de 200$000 para todos os anos se casar uma órfã pobre, legando para este fim um sobrado na Rua Primeiro de Março com as seguintes condições; que a eleição da órfã seria dele instituidor, preferindo suas afilhadas e por sua morte seria à nomeação de sua comadre e cunhada Anna de Faria, dando sempre preferência às suas afilhadas de batismo, e na falta destas se seguiriam os parentes de sua mulher e da dita Anna de Faria, e depois da morte destas pertenceria à mesa da Misericórdia, a quem recomendava que não esquecesse preferir suas afilhadas, principiando pelas mais velhas, e na falta destas e de parentes de sua mulher passaria às expostas.

A mesa conjunta de 24 de agosto de 1835 deliberou que, para se conferir esse dote aos parentes da mulher de Ignácio Medella era indispensável sentença de habilitação.

Reconhecendo José Clemente Pereira que a casa do recolhimento era insuficiente para as órfãs, deu começo, no Largo da Misericórdia, no mesmo lugar do antigo estabelecimento, a um edifício mais vasto, cuja primeira pedra lançou-se em princípios de fevereiro de 1839, e três anos depois estava a casa concluída; em 2 de julho de 1840 introduziu-se água no estabelecimento e em 24 de agosto de 1812 recebeu novos estatutos, que fixaram em 48 o número das órfãs, e proibiram fosse recolhidas àquele asilo mulheres de idade superior, a que permitiram os fundadores, e sem moralidade de costumes.

Este edifício construído no Largo da Misericórdia e ocupado atualmente pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e por enfermarias da Misericórdia, consta de três pavimentos divididos em três corpos, com dez janelas de peitoril nos pavimentos superiores, e uma porta e aberturas quadrangulares no pavimento inferior.

Em mesa de 19 de janeiro de 1849, e na de 6 de fevereiro de 1850, a Santa Casa da Misericórdia elevou a 800$000 o dote das órfãs, o que foi confirmado por decreto de 11 de julho de 1850.

Na epidemia da cholera-morbus em 1855 foram as recolhidas para uma casa do arrabalde das Laranjeiras, e em outubro do mesmo ano se passaram algumas para a casa do conselheiro Joaquim Pereira de Faria, na Rua do Marquês de Abrantes, oferecida pelo proprietário para alojamento das órfãs durante a epidemia.

Em 30 de dezembro de 1858 transferiram-se as órfãs para uma casa da Rua do Imperador em São Cristóvão; em 15 de outubro de 1866 para o edifício do recolhimento de Santa Thereza [1] tendo sido elevado seu número a cem.

Em 15 de outubro de 1873 na Rua do Hospício de Pedro II, junto ao terreno do recolhimento de Santa Thereza, lançou-se a pedra fundamental do edifício que a Misericórdia pretende edificar para o recolhimento de suas órfãs.

Depois da missa celebrada no recolhimento de Santa Thereza, foi benzida a pedra pelo bispo D. Pedro Maria de Lacerda, e em seguida conduzida em uma padiola para o lugar designado pelo provedor conselheiro Zacharias de Góes e Vasconcellos, escrivão da administração das órfãs João José Duarte, tesoureiro João Antônio da Silva Guimarães, e procurador Francisco da Costa Faria. Assistiram ao ato a irmandade da Misericórdia, as meninas do recolhimento da Santa Casa e de Santa Thereza e muitas senhoras, encerrando-se com a pedra fundamental uma caixa de chumbo, e dentro desta outra de vinhático contendo moedas de ouro, prata, níquel e cobre, um exemplar da constituição do Império, uma nota escrita em pergaminho e as folhas do dia.

Achava-se postada junto ao terreno uma guarda de honra do batalhão de engenheiros, tocando durante a cerimônia a música do 1.º batalhão de linha.

Deu a planta do edifício, que se vai construir, o hábil engenheiro arquiteto Francisco Joaquim Bettencourt da Silva.

Possui o recolhimento diversos prédios, e 334:400$000 em apólices da dívida pública.

Entre seus benfeitores devem ser mencionados Joaquim do Babo Pinto, que legou 1/3 do rendimento dos prédios deixados à Misericórdia para dote das órfãs, que se casarem nos dias 10, 11 ou 12 de novembro de cada ano, em memória do dia em que o benfeitor aportou ao Brasil e mais 2/9 daquele rendimento para sustento das órfãs; D. Luiza Rosa Avondano Pereira, que também legou a este estabelecimento, parte do rendimento dos prédios e apólices deixados à Misericórdia.

Há no recolhimento onze irmãs de caridade, e conta atualmente 122 órfãs.

Nota

1. Criado por decreto de 14 de março de 1852 para servir de asilo às meninas indigentes, cuja admissão não se pudesse verificar no recolhimento das órfãs, por lhes faltar algumas condições exigidas nos estatutos desse estabelecimento, foi o recolhimento de Santa Thereza instalado em 4 de julho daquele ano dentro do recolhimento da Santa Casa, com o número de nove meninas desvalidas. Em 14 de março de 1853 transferiu-se para uma casa, que lhe havia sido doada na Rua do Hospício de Pedro II; mas estando este prédio arruinado, e sendo necessário demoli-lo para se construir o novo edifício do recolhimento foram as meninas remetidas, em 12 de abril de 1854, para o recolhimento da Santa Casa. Em 29 de março de 1853 lançou-se a pedra fundamental daquele edifício, a qual benzida pelo bispo, conde de Irajá, foi conduzida em uma padiola pelo Imperador, pelo presidente do conselho de ministros e pelos conselheiros José Clemente Pereira e visconde de Abrantes, do lugar da benção ao da obra começada, onde foi depositada com as solenidades do estilo, assistindo ao ato dezessete meninas desvalidas pertencentes ao novo recolhimento.

Começada a obra com o produto da subscrição aberta para se solenizar de um modo permanente e útil o triunfo das nossas armas no Rio da Prata tem sido favorecida pela caridade pública; o edifício acha-se concluído; é de arquitetura modesta, de um só andar, tendo ao rês do chão e por baixo do sobrado, cômodos espaçosos para o serviço da casa; têm bons dormitórios e uma linda capela com painéis da escritura santa. Deve dar asilo a 120 meninas desvalidas, que receberão a educação religiosa, moral e fabril, que as habilite a ganharem honestamente a vida e a serem úteis à sociedade.

A mesa administrativa do recolhimento foi instalada em 29 de maio de 1852 no consistório da Santa Casa, e o aviso do ministério do império de 4 de maio daquele ano mandou executar as instruções para o regimento econômico e administrativo do estabelecimento.

A Irmandade do Divino Espirito-Santo da Lapa concorreu com vinte apólices de conto de réis cada uma, dando quinze para patrimônio do asilo e cinco para a criação de um cofre de dotes para as meninas, que por parte da mesma irmandade foram admitidas ao recolhimento. Tem essa instituição mais dez apólices doadas pelo Imperador, cinco pela Imperatriz, e vinte pelo marquês de Abrantes.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

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