Roda dos Expostos

Vendo a impiedade e o abandono em que eram deixados os meninos órfãos, sendo lançados à rua, onde pereciam de inanição e frio, representou o governador Antônio Paes de Sande a El-Rei pedindo providências, pois, referia o governador, que a Misericórdia os não recolhia por não ter rendimento, e não mostrava o senado da câmara interessar-se na criação daqueles inocentes, que, sendo educados, podiam tornar-se úteis à religião e ao Estado. Em resposta enviou o rei a carta de 12 de dezembro de 1693 ordenando que os enjeitados fossem alimentados pelos bens do conselho, e que não tendo este réditos pusesse uma contribuição no que fosse mais suave. Em 8 de outubro de 1694 e em 5 de novembro de 1696 de novo recomendou o governo a criação dos enjeitados, ordenando se impusessem as fintas precisas para tão pio e interessante encargo.

Começou a câmara a empregar as sobras de alguns impostos na criação dos expostos, e em uma casa chegou a ter quarenta e dois, gastando 4$800 mensalmente com cada um; mas elevando-se essa despesa a 2:361$600, e tendo pouco rendimento para atender a todas as necessidades do município, representou a câmara várias vezes a El-Rei pedindo a administração de certos impostos, para ter meios de criar os enjeitados.

Vendo o povo onerado de imposições e impostos, não quis a câmara lançar a finta que o rei permitira para a criação dos expostos; mas atendendo que eram as crianças lançadas ao desamparo nas ruas, e algumas tragadas pelos cães, oficiou a Gomes Freire de Andrade, em 13 de novembro de 1737, pedindo-lhe mandasse pagar com o produto do donativo, isto é, com a quantia que era enviada para dotes dos príncipes de Portugal, o que se devia da criação dos enjeitados; atendeu o governador a esta petição.

Incumbira-se a câmara da criação dos expostos; mas sem rendimento certo, sem casa própria para recolhê-los, acontecia que muitos pereciam à míngua de trato, nas ruas e às portas dos edifícios públicos; e comovendo o coração magnânimo de Romão de Mattos Duarte o abandono e miséria das crianças sem pai e sem mãe, para criação delas doou, em 14 de janeiro de 1738, 32,000 cruzados à Misericórdia, que aceitou o legado e concedeu ao piedoso benfeitor o título de irmão da Santa Casa, comprometendo-se a dar-lhe casa, alimento e botica se viesse a necessitar de semelhantes socorros. Lavrou a escritura da doação o tabelião José de Vargas Pizarro, sendo provedor da Misericórdia o Dr. Manoel Correa Vasques.

Estabeleceu-se a roda em uma das enfermarias do Hospital da Misericórdia, e alguns benfeitores começaram a concorrer com esmolas para a criação dos expostos; entre outros Ignácio da Silva Medella deixou-lhes a terça parte do rendimento dos prédios, que legou à Misericórdia.

O alvará de 8 de outubro de 1778 ordenou que a câmara concorresse com 800$000 anualmente para as despesas dos expostos, e o alvará de 3 de novembro de 1803 aplicou os legados não cumpridos em benefício dos enjeitados e dos enfermos.

Doando José Dias da Cruz aos expostos um terreno no largo da Misericórdia, construiu-se aí uma casa para onde foram eles transferidos em 3 de março de 1811.

Era o edifício acanhado, construído sem as condições higiênicas, e pouco zelo havia na administração, do que resultava grande mortalidade. Visitando este estabelecimento viu D. Pedro I o mau estado da instituição; e na fala que dirigiu à assembleia constituinte, em 3 de maio de 1823, expressou-se assim:

“A primeira vez que fui à roda dos expostos achei, parece incrível, sete crianças com duas amas, sem berços, nem vestuário. Pedi o mapa e vi que em treze anos tinham entrado perto de 12,000 e apenas tinham vingado 1,000, não sabendo a Misericórdia verdadeiramente aonde elas se achavam.

Agora, com a concessão da loteria, edificou-se uma casa própria para tal estabelecimento, aonde há trinta e tantos berços, quase tantas amas quantos expostos, e tudo em muito melhor administração.”

Tendo o governo concedido uma loteria para esta instituição, comprou a Misericórdia dois prédios contíguos ao edifício da Roda, em 20 de março de 1821, e, demolindo-os, construiu uma casa mais vasta, a qual ficou concluída em 1822.

Situada no Largo da Misericórdia em frente da igreja, era esta casa mal edificada, sem as condições higiênicas, sem um pátio que lhe desse ar e luz, e defronte do hospital e próximo do Quartel do Moura. Reconhecendo tais defeitos o provedor José Clemente Pereira propôs a mudança da roda para a casa n. 7 da Rua de Santa Thereza, o que aprovado pela mesa conjunta de 24 de janeiro de 1840, em julho foram os órfãos removidos para essa casa, que era espaçosa, bem localizada e com água encanada para o consumo.

Em 1 de abril de 1840 José Clemente deu novo regimento à casa dos expostos, e projetando edificar um hospital com todas as acomodações para asilo das crianças, lançou os alicerces no terreno do Beco do Império, entre o Largo da Lapa e a Rua de Santa Thereza.

Em 1852 removeram-se os órfãos para a casa n. 46 da Rua da Lapa, e para regularizar o terreno, onde devia erguer-se o novo edifício, demoliu-se a casa n. 7 da Rua de Santa Thereza; mais tarde reconheceu-se a inconveniência deste local para asilo de enjeitados; e não convindo também a casa da Rua da Lapa por ser mal dividida, úmida e em lugar de muito pó, removeram-se os expostos para o prédio n. 66 da Rua de Evaristo da Veiga, realizando-se a abertura em 10 de junho de 1860 em presença da família imperial.

Este edifício, de dois pavimentos, servira em 1855 de Escola de medicina.

O vestíbulo é ladrilhado de mármore, tem de um lado a sala de pagamento das amas externas, e, do outro a sala da roda, onde permanece constantemente uma irmã de caridade para recolher as crianças que são expostas; aos lados da escada central erguem-se as estátuas de São Vicente de Paula e a da Caridade. No primeiro pavimento estão o refeitório, a sala de recreio, a sala do engomado, a cozinha, tanques de lavagem e jardim; no segundo pavimento a capela, a sala dos berços com quarenta berços, o dormitório das expostas com quarenta e dois leitos, a sala de leitura, a de costuras, aposentos das irmãs de caridade, gabinete da irmã superiora, a botica e a sala da administração.

Veem-se nesta sala os retratos de Pedro I e da imperatriz D. Maria Leopoldina, de D. Pedro II e da Imperatriz D. Teresa Cristina, de Romão de Mattos Duarte, do sargento-mor Joaquim de Paiva Barreto, falecido em 8 de maio de 1820, de D. Luiza Rosa Avondano e o de José Clemente Pereira; e na sala dos berços há o retrato de uma criança hidrocefálica que, lançada à roda em 20 de junho de 1841, faleceu em 2 de agosto, tendo sido batizada com o nome de Felipe.

Os expostos são batizados aos sábados; a administração do estabelecimento é confiada a um tesoureiro, a um escrivão e a um procurador, irmãos da Misericórdia, e eleitos anualmente pela mesa da irmandade; há um médico interno e dois externos, e onze irmãs de caridade.

Para dar cômodos necessários à casa da roda, o zeloso provedor Zacarias de Góes e Vasconcellos arrematou em março de 1814 o grande prédio de dois andares contíguo ao edifício dos expostos, e anexou-o ao estabelecimento. Outrora as expostas, logo que completavam oito anos, eram remetidas para o recolhimento das órfãs onde eram tratadas a custa da casa da roda; mas tendo o atual edifício espaço para recolher as expostas, continuam elas a residir aí, onde aprendem a ler, contar, escrever, a doutrina, história sagrada, a gramática, trabalhos de agulha e a engomar; as que se casam recebem um dote arbitrado pela mesa da irmandade.

Em 28 de agosto de 1860 as princesas D. Isabel e D. Leopoldina enviaram à Santa Casa da Misericórdia dois baús contendo diversas vestimentas feitas por suas próprias mãos para uso dos expostos, revelando com tão caridoso ato a bondade de seus corações.

Em junho de 1872 existiam na roda 154 crianças, e nesse ano regulou a mortalidade na razão de 41, 33%.

A receita orçou em 207:600$000 e a despesa em 108:506$057.

Esta instituição tem tido diversos melhoramentos, mas ainda não está convenientemente regularizada; há poucas amas para a criação dos enjeitados, não há enfermarias para as crianças doentes, que ficam na mesma sala em que estão as sãs; as expostas são tratadas no próprio dormitório, e não tendo sido o edifício construído para o fim a que está destinado, faltam-lhe as acomodações, que a higiene e a ciência recomendam.

Descrevendo este edifício não podemos deixar de clamar contra as mães desnaturadas que lançam os filhos vivos à rua, à imundície, como se atira o lixo, ou o resto da mesa à voracidade dos cães; esquecendo-se de que há um asilo para os inocentes que têm o infortúnio de serem repelidos desde o berço, arremessam-os à rua, à lama, ou entregam-os à morte dolorosa pelo frio, pela inanição, pelas garras dos animais daninhos, ou pela roda do primeiro carro que tem de despedaçar o crânio ainda mole desses infelizes. As feras amparam o fruto de seu ventre, e essas mães, ou antes, esses entes, que são piores que feras, abandonam à fome, ao frio, ao perigo e à morte o inocente, cujo palpitar sentiram junto de seu seio durante meses. Em 1874 foram encontradas abandonadas nas ruas doze crianças que a polícia remeteu para a roda.

Ofende também à moral, à religião a prática escandalosa de lançarem no lajedo das ruas, nas pedras da calçada cadáveres de recém-nascidos; em 1874 encontraram-se seis cadáveres de recém-nascidos nas ruas da cidade. Este ato é tanto mais repreensível quanto a polícia facilita a remessa dos cadáveres para a Misericórdia a fim de serem sepultados; é um abuso que pode ocultar crimes, que depõe contra a moralidade pública e patenteia a crueldade daqueles, que não receiam entregar cadáveres de criancinhas aos dentes dos cães.

Fonte

  • Azevedo, Manuel Duarte Moreira de. O Rio de Janeiro: Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877. 2 v. (É a segunda edição do "Pequeno Panorama" 1861-67, 5 v.).

Veja também

  • Biblioteca Nacional – A administração dos bens dos meninos expostos da Real Casa da Sancta Mezericordia desta Corte do Rio de Janeiro em conta corrente com o seu thezourº o tente João Loppes da Silva Couto do anno d’1814 para o d’1815.
  • Biblioteca Nacional – Ofício a S.M.I. sobre a representação em que os administradores dos expostos da Santa Casa da Misericórdia pediam que, a exemplo das meninas órfãs, as expostas pudessem ser admitidas àquele recolhimento, independentemente da contribuição da Repartição dos Expostos.
  • Biblioteca Nacional – Receita e despesa que teve a administração dos meninos expostos desta Real Casa da Santa Misericórdia desde o dia 03 de julho de 1813 até hoje.
  • Biblioteca Nacional – Representação do provedor da Santa Casa da Misericórdia a S.M.I. solicitando uma pena-d’água para o prédio dos Expostos, situado em frente ao hospital daquela instituição

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