Obras de Frei Agostinho da Cruz

  • Cruz, Frei Agostinho da. Obras de Frei Agostinho da Cruz: Conforme a edição impressa de 1771 e os códices manuscritos das bibliotecas de Coimbra, Porto e Évora. Com prefácio e notas de Mendes dos Remédios. Coimbra: França Amado, 1918. 466 p. Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa XXI.

Soneto I

A quem ler. Os versos, que cantei importunado Da mocidade cega a quem seguia, Queimei (como vergonha me pedia) Chorando, por haver tão mal cantado. Se nestes não ficar tão desculpado Quanto o mais alto estilo requeria, Não me podem negar a melhoria Da mudança, que fiz d’hum n’outro estado. Que vai que sejam bem,...

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Soneto II

Ao triste estado. Passa por este valle a primavera, As aves cantam, plantas enverdecem, As flores pelo campo apparecem, O mais alto do louro abraça a hera; Abranda o mar; menor tributo espera Dos rios, que mais brandamente descem, Os dias mais fermosos amanhecem, Não para mim, que sou quem dantes era. Espanta-me o porvir,...

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Soneto III

A’ Lei de Deos. Que cousa mais suave, doce, e branda, Que nos liberte mais, que mais releve, Que guardar huma Lei na vida breve, D’hum Deos, que por amor amar nos manda? Qual he o coração que não se abranda, Duro que pedra mais, frio que neve? Suave o jugo seu, a carga leve;...

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Soneto IV

Ás Chagas. Divinas mãos, e pés, peito rasgado, Chagas em brandas carnes imprimidas, Meu Deos, que por salvar almas perdidas, Por ellas quereis ser crucificado. Outra fé, outro amor, outro cuidado, Outras dôres ás vossas são devidas, Outros corações limpos, outras vidas, Outro querer no vosso transformado. Em vós se encerrou toda a piedade, Ficou...

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Soneto V

A Nossa Senhora da Arrabida Aqui, Senhora minha, onde soía Cantar na minha leve mocidade O muito que de vossa saudade Desejei d’accender nesta alma fria: Aqui torno outra vez, Virgem Maria, Desenganado já, mais de verdade, Pois me mostrou do mundo a falsidade, Que a lagrimas comprei quem me vendia. Conselham-me tão claros desenganos...

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Soneto VI

A S. João Baptista. Daquelle, que não tinha inda pisado A terra com seus pés, quando saltava Nas entranhas da mãi, donde alcançava O Senhor nas da VIrgem encarcerado; Daquelle de quem Deos foi baptizado, Daquelle que era voz do que clamava, Daquelle São João, que tanto amava A Deos, e que de Deos foi...

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Soneto VII

Ao mesmo Santo. (S. João Baptista) Nas entranhas da mãi alumiado Da luz, que nas da Virgem dentro via, Sentio João quamanho bem seria Trocar pelo deserto o povoado. Delle fugindo vai todo abrazado Do fogo, que em seu peito arder sentia, Mais quer de animaes brutos companhia, Que ser de gente humana acompanhado. A...

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Soneto VIII

A S. João Evangelista. Na derradeira Cêa do Senhor, João, ceando todos, só dormia Sobo-lo peito, donde elle sabia Que não sabia cousa outra melhor. Naquelle somno achou outro sabor Mais suave que quanto se comia, Que em fim he differente iguaria O repouso de seu divino amor. A dormir se lançou no fogo puro,...

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Soneto IX

Á Cruz. Em ti, suave Cruz, inda que dura Por ver sangue innocente derramado, Pregados pés, e mãos, aberto o Lado, Donde minha esperança se pendura; Em ti de piedade, e de brandura Doce penhor do penitente errado, Em ti Christo Jesus dependurado A salvação do mundo dependura; Em ti se consumou toda crueza, Que...

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