Soneto IV

Ás Chagas.

Divinas mãos, e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas,
Meu Deos, que por salvar almas perdidas,
Por ellas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dôres ás vossas são devidas,
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no vosso transformado.

Em vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso cada hum deu do que tinha:

Claros sinaes d’amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas de meu Senhor, redempção minha.

Fonte

  • Cruz, Frei Agostinho da. Obras de Frei Agostinho da Cruz: Conforme a edição impressa de 1771 e os códices manuscritos das bibliotecas de Coimbra, Porto e Évora. Com prefácio e notas de Mendes dos Remédios. Coimbra: França Amado, 1918. 466 p. Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa XXI.