Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões em Ouro Preto

Igreja de Nossa Senhora das Mercês do Antônio Dias (Perdões)

Mercês dos Perdões (Mercês de Baixo) – Século XVIII

Freguesia do Antônio Dias (Ouro Preto). Em elegante colina a cavaleiro das ruas dos Perdões, Xavier da Veiga, Largo Frei Botelho e Rua Felipe dos Santos.

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Desde os primeiros tempos de Vila Rica existia nesse local uma Capela sob a invocação do Senhor Bom Jesus dos Perdões que havia sido “edificada pelo Padre José Fernandes Leite que, por isto, se constituiu seu padroeiro”.

Por escritura de 1.º de agosto de 1742 fez-lhe o referido sacerdote o patrimônio canônico.

Desde 12 de março desse ano o pároco de Antônio Dias havia dado consentimento para que se pudesse erigir “no morro do cemitério, no Calvário da Via-Sacra, uma Capela dedicada ao Senhor Bom Jesus dos Perdões”. (Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana, pág. 325 – Cônego Raimundo Trindade).

A Irmandade das Mercês de Vila Rica foi fundada em 1743 e tendo sobrevindo forte dissidência entre os Irmãos Pretos Crioulos com os Irmãos Pardos da mesma Irmandade da Igreja de São José da Vila Rica, os primeiros para a Matriz da Conceição do Antônio Dias se transferiram, havendo então o Vigário em exercício lhes ordenado a ação na Capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões e “por escritura de 2 de março de 1760 fez-lhes graciosa doação do templo, apenas, com as condições de que ele seria “ad vitam” Capelão comissário da Irmandade e que esta continuaria na Capela o culto perpétuo do Bom Jesus e de Nossa Senhora da Saúde.” (Instituições de Igrejas do Bispado de Mariana, pág. 325 – Cônego Raimundo Trindade).

E ali se abrigaram os Irmãos Pretos Crioulos, na Capela do Bom Jesus dos Perdões, e o seu administrador o Padre José Fernandes Leite que a doou com a declaração expressa de “por serem homens brancos”, abrigando-se, pois, nesta Irmandade das Mercês dos Perdões, homens brancos, pardos e pretos crioulos.

“Por breve de Pio IX de 17 de agosto de 1847 com o Beneplácito Imperial concedido a 16 de dezembro de 1847, foi ereta em Ordem Canônica e, em 1877, Sua Santidade o Papa, concedeu a todos os altares da Capela, o altar privilegiado”. (Diogo Vasconcelos Obras de Arte).

Prende-se a esta Capela a história da morte da filha do Coronel Antônio de Oliveira Leitão. Sua viúva D. Branca de Alvarenga procurou refúgio e consolo à sua grande dor, tornando-se a perpétua zeladora da Capela do Bom Jesus dos Perdões.

Diz a lenda ter o Coronel Leitão morto sua única filha que se apaixonara por um mancebo que não pertencia à sua condição social.

Um dia estando ela a sacudir um lenço para estendê-lo, o Coronel julgou ser um sinal combinado e, cego de raiva, apunhalou-a.

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Capela em elegante situação no alto de uma colina, de forma monumental, com duas torres quadrangulares, de risco primitivo, porém já mais aperfeiçoado.

São de cantaria: o frontispício, a tarja externa e o corpo principal da Capela, além das duas pias de água benta, à entrada principal.

A Capela-mor, isto é, a parte antiga, internamente, é de taipa e é do risco de Mestre Aleijadinho, cujo recebimento se acha documentado e em exposição no Museu da Inconfidência. Recebeu ele por este serviço seis oitavas de ouro.

Há, também, nesta Capela trabalhos de Manoel da Costa Ataíde.

Externamente – Corpo principal, capela-mor fazendo corpo com a Sacristia, ao fundo e o Consistório na parte superior.

Cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões em Ouro Preto

Posteriormente, o Cemitério da Ordem com 69 catacumbas e sepulturas rasas, e necrotério com Capela.

Internamente – Coro, quatro altares no Corpo da Igreja, 2 púlpitos, Arco Cruzeiro, seis tribunas na Capela-mor e o Altar-mor onde se vê a imagem de Nossa Senhora das Mercês.

As tribunas são em arco romano, grandes, de cada lado e duas menores que se abrem para o corpo da Igreja. São tribunas balconadas, de aspecto imponente.

Duas velhas e antigas credências, simples, ali se vêm.

1.º altar à direita – Sob a invocação de Santa Catarina, imagem de roca com uma roda de navalhas, coroa e espada de prata. O frontal é muito bem trabalhado, entalhado e com frisos dourados. Em sua parte inferior o distintivo de Santa Catarina.

O altar é muito bem arrematado, ricamente trabalhado, assemelhando-se a um dossel cujas franjas, caem, tudo em madeira entalhada, dourada, fina e suavemente pintada.

1.º altar à esquerda – Em tudo idêntico ao precedente, sob a invocação de São Lourenço; a tarja do frontal que nele se vê é distintivo daquele Santo, que é uma imagem de roca com palma de grelha, seus distintivos.

Os púlpitos, em madeira, finamente trabalhados, dourados e pintados, decoração semelhante à dos altares. São ambos ovalares, terminando simetricamente, encimando-lhe dosséis franjeados, e finamente trabalhados, pintados e dourados.

2.º altar à direita – Sob a invocação de Santo Antão. Lateralmente: nos nichos Santa Rita e Santo Anjo da Guarda. Abaixo de Santo Antão, vê-se a imagem de São Miguel.

O frontal é trabalhado, embora mais simples que os precedentes, tarja simples. Arremata-o igual decoração dos outros, sendo que as colunas que se vêm em todos os quatro altares do Corpo desta Igreja, trazem o fuste torcido, todo ele com frisos dourados. 2.º altar à esquerda – Sob a invocação de N. Sra. da Saúde. Nos nichos laterais: a Sagrada Família (Jesus, Maria e José). Estas imagens foram doação de Luiz Pinheiro, entalhador da época para que figurasse nesse altar (ano de 1795).

Frontal simples, tarja incompleta.

Este altar é mais decorado que os demais: por cima dos capitéis, duas águias que sustentam festões dourados, arrematando-se em um conchóide, finamente e ricamente trabalhado e dourado.

Os fustes são envolvidos por festões que preenchem os claros existentes pelo torcimento das colunas.

É este altar mais monumental; mais grandioso e mais trabalhado que os demais, terminando por rico dossel em madeira.

Do dossel de cada altar, surge um pendente sustentando um lustre antigo de cristal, sem mangas, além de um lustre grande central, um menor idêntico no Coro e quatro pequeníssimos, na Capela-mor.

Os dois serafins (tocheiros) existentes são do tempo da Capela do Bom Jesus dos Perdões.

É tradição oral que os altares laterais desta Igreja foram adquiridos de uma outra Igreja que se incendiara em Rio de Pedras. No entanto, documentação alguma existe neste particular.

Altar-mor – Altar em talha que é bem uma obra em fina madeira dourada e pintada, impressionando muito bem no belo conjunto harmonioso que apresenta.

Há dúvidas quanto ao seu entalhe, sendo que o historiador Cônego Raimundo Trindade admite a possibilidade de ter sido o atual Altar entalhado em época anterior e guardado, para depois substituir o antigo ali existente.

Ao alto, o brasão ou tarja da Ordem.

No trono, a imagem de Nossa Senhora das Mercês, imagem de roca de 1,10m, com coroa de prata de 250 gramas e brincos de prata e pedras preciosas.

Nos nichos laterais – A imagem de São Pedro Nolasco, de autoria de Mestre Aleijadinho, à esquerda, e à direita a imagem de São Raimundo Nonato.

Frontal muito trabalhado, na tarja o Cordeiro Pascal, entalhes pintados e dourados.

Na Sacristia – Uma cômoda de cedro, antiquíssima e um oratório em jacarandá, com tríplice face, onde se vê um Crucificado de autoria de Mestre Aleijadinho. (É o Crucificado que reza em inventário antigo “que devia levar dois cravos nos pés”).

No Consistório – A imagem do Senhor Bom Jesus dos Perdões, que se venerava na primitiva Capela; a Imagem de Nossa Senhora das Dores; a Imagem de Nossa Senhora dos Socos; a Imagem de Nossa Senhora do Rosário.

São imagens antigas, todas, bem conservadas.

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A Igreja de Nossa Senhora das Mercês e dos Perdões dispõe de boas alfaias e objetos de prata e ouro.

Não se acha longe do centro urbano, distando cerca de 300 metros da Praça Tiradentes.

É agradável alcançá-la, mesmo a pé, pois que seu flanco posterior faceia com o da Igreja de São Francisco de Assis dos Terceiros de Vila Rica.

Fonte

  • Ruas, Eponina. Ouro Preto: Sua História, Seus Templos e Monumentos. 3ª ed. Minas Gerais, 1964. 249 p.

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