Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo em Ouro Preto

(Freguesia do Ouro Preto – Século XVIII)

De facílimo acesso em um dos ângulos da Praça da Independência.

Entre os arraiais do Ouro Preto e do Antônio Dias em soberba elevação, existia a Capela de Santa Quitéria, ali, ereta por Antônio Ramos dos Reis, Cavalheiro professo da Ordem de Cristo e Mestre de Campo das Ordenanças de Vila Rica.

Reza a tradição existir a Capela muito antes de 1737, pois que em 1720 era um dos pontos de concentração dos revoltosos de Felipe dos Santos.

Foi, por vezes, reedificada.

Os Irmãos Terceiros da Ordem do Carmo do Rio de Janeiro e aqui residentes, dadas as dificuldades de comunicações e ao elevado número que já representavam, resolveram dela se afastar e nesta Vila Rica se congregar em Irmandade autônoma, solicitando a necessária permissão das autoridades eclesiásticas. (Carta patente de 15-5-1751 e Provisão de Frei Manoel da Cruz, 1º Bispo da Diocese de Mariana datada de 19 de agosto de 1754).

Em 1755 os Irmãos Terceiros da Ordem do Carmo resolveram construir uma Capela própria, e como se achasse muito arruinada, reclamando urgentes reparos a Capela de Santa Quitéria, procuraram eles um entendimento com a Irmandade desta última para que a cedessem. Não logrando obter, a desejada combinação, rejeitadas as condições propostas, tendo até se dirigido à Real Coroa que por aviso de 26-4-1760 pedia informações ao Governador da Capitania sobre a pretensão dos Irmãos Terceiros do Carmo em relação à Capela de Santa Quitéria que desejavam obter “a mercê para a reedificarem e fazerem igreja capaz para as suas funções, isentando-a da jurisdição ordinária e ficando, somente, debaixo da real proteção”.

Deliberaram, afinal, os Irmãos Terceiros do Carmo construir sua Capela em terrenos que lhes fora cedido pela Câmara, logo abaixo aos da Capela de Santa Quitéria.

Decaindo, francamente, a Irmandade desta, em junho de 1776, apresentaram aos Irmãos Terceiros do Carmo novas propostas que aceitas em 3-8-1776 foram dadas por arrematação as obras da nova Capela.

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Serena, imponente e bela é a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo que se ergue dominando o casario existente nestas bandas da Freguesia do Pilar do Ouropreto.

Situada em amplo terreno, ajardinado e cuidado, apresenta-se sobranceira e elegante, posto que, severa em suas linhas.

Vinda do risco de Manoel Francisco Lisboa, o mestre construtor do Palácio dos Governadores, e pai de Mestre Aleijadinho, foram suas obras arrematadas por João Alves Viana, ajustadas sob várias cláusulas e sujeitas a louvações (parte de alvenaria comum e cantaria).

Os demais serviços couberam a outros arrematantes: ao canteiro Francisco de Lima Cerqueira, José Carvalho Fontes, Manoel Francisco de Araújo, Romão Abreu e outros.

Externamente é monumental, talvez a mais alta Igreja da Cidade, toda ela em alvenaria de pedra, com ampla escadaria que lhe dá acesso, circundada por paredões imensos de sustentação.

Alta, bela, grandiosa, ostentando duas torres com seis sineiras: na torre da Epístola vê-se o grande “Elias”, velho sino dos primeiros tempos com cerca de 200 arrobas e cujo dobre ecoa nas grandes solenidades ou quando partiu para o Além um dos irmãos graduados dos Terceiros.

Na torre do Evangelho, acha-se o “Jerônimo”, velho sino também com cerca de 100 arrobas.

Portada da Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo em Ouro Preto. Maravilhosa concepção do Barroco Mineiro.

A portada principal é ricamente entalhada e trabalhada em pedra sabão.

Tanto esses entalhes como os do Lavabo que se vê na Sacristia, foram executados de 1771 a 1776 sob a responsabilidade do canteiro Francisco de Lima Cerqueira. Não se sabe ao certo se ele cedeu ou contratou com Mestre Aleijadinho a feitura deles, pois que não era ele escultor.

Há insistência em se atribuir a Antônio Francisco Lisboa a concepção e acabamento destes ornatos que, no entanto, lembram muito ele perto a escola de João Gomes Batista, o mestre abridor de cunhos da Casa de Fundição de Vila Rica, mestre e amigo de Mestre Aleijadinho.

Internamente: à entrada, lateralmente, duas pias em pedra sabão muito bem trabalhadas, seguindo-se-lhes três arcos sustentados por quatro colunas indianas. Vigorosos monolitos que arcam com todo o peso do Coro disposto em revolteios, à semelhança dos existentes em São Francisco de Assis e Mercês dos Perdões desta Cidade.

Os seis altares laterais foram do risco de João Nepomuceno Correia e Castro, risco aprovado pela Mesa em 1779 e que se acha debuxado, com pequenas modificações, na parede do Consistório.

Foram todos eles arrematados por Manoel Francisco de Araújo que, no entanto, logrou após cinco anos de ingentes trabalhos, entregar à Ordem, somente, dois dos altares, e que não agradaram.

Foram os altares, próximos ao Arco Cruzeiro. A Mesa contratou os trabalhos de Mestre Aleijadinho para repará-los, acrescentando-se-lhes os guarda-pós e camarins, imitando-se, do melhor modo, os altares já acabados (1808).

Os altares (2º da direita e esquerda) são mais entalhados que os demais.

Embora tivessem sido arrematados por Manoel Francisco de Araújo, arrematante geral dos altares laterais e púlpitos (1784) foram da execução de Mestre Aleijadinho.

Os primeiros altares (direito e esquerdo), foram da autoria de Justino Ferreira de Andrade que os fez sob a inspeção e direção de Antônio Francisco Lisboa de quem foi discípulo (1812-1814). Deste serviço, quase abandonado pelo ingrato discípulo, Mestre Aleijadinho retirou-se para a casa de sua nora Joana, à rua Detrás, no Antônio Dias, onde veio a falecer em novembro de 1814.

Antônio Francisco Lisboa trabalhava a jornal de meia oitava de ouro por dia. Quando concluiu as obras da Capela do Carmo, das quais se havia primeiramente encarregado, queixou-se de ter recebido seu salário em ouro falso. Recebeu o último pagamento em 2 ele janeiro de 1809. Foram 545 oitavas e meia e 7 vinténs de ouro, à base de jornadas de serviço.

O 1º altar à direita – É o Senhor da Coluna.

O 1º altar à esquerda – É o Senhor da Pedra Fria.

O 2º altar à direita – É o Senhor da Acusação e a tarja de Jeremias.

O 2º altar à esquerda – É o Senhor na varanda de Pilatos e a tarja da Tentação.

O 3º altar à direita – É o Senhor no Horto das Oliveiras com o Anjo da Amargura.

O 3º altar à esquerda – É o Senhor dos Passos.

Todas estas imagens são em madeira, em tamanho natural e com cabeça de chumbo.

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Entre os altares descritos vêm-se os púlpitos.

São em cantaria entalhada, com ornamentos em pedra sabão, balcões de madeira, pintada, entalhada e dourada.

As portas que lhe dão acesso, em jacarandá artisticamente trabalhados, são entalhadas e com ornatos em pedra sabão.

Também em jacarandá negro, o gradeamento do corpo da Igreja, a balaustrada do Coro, balcões das Tribunas e Arco Cruzeiro.

O piso da nave ela Igreja, todo o centro, é em canela, numeração à antiga, foi removido e reposto em nossos dias.

Lateralmente, os corredores das grades e junto à Capela-mor, guardam ainda o madeiramento e a numeração à antiga.

Do corpo principal, junto ao Arco Cruzeiro, abrem-se para os corredores laterais da Capela-mor, duas portas em jacarandá, portais em cantaria, trabalhadas, muito bem entalhadas.

Sobrepujando-as, duas sacadas ou tribunas em arco romano, com balcões angulares que se projetam, em balaustrada rica, trabalhada, arrematados em linda cantaria, trabalhada e dourada.

Arco-Cruzeiro – De cantaria do Itacolomi, trabalhada em duplo jogo de colunas e, encimando-o, a riquíssima tarja da Ordem do Carmelo.

Capela-mor – Teto abobadado em barrete de clérigo, ostentando nos ângulos extremos os quatro Evangelistas.

Do arco central, de rico florão trabalhado e dourado, prende a corrente da custosa lâmpada de prata, ricamente trabalhada, com o peso global de 30 quilos.

Nas ilhargas – azulejos setecentista, vindos de Lisboa e representando motivos da vida de Nossa Senhora do Carmo.

Os Irmãos Terceiros impetraram à Real Coroa o pedido para que fosse feriado oficial o dia 16 de julho em homenagem à sua Excelsa Padroeira (1813).

Altar-mor – De autoria de Manoel da Costa Ataíde que o projetou (1813), tendo-o arrematado Manoel Francisco de Araújo, e o entalhador Vicente Alves da Costa auxiliado por Agostinho José da Silva.

Na carta em que Ataíde se dirigiu ao Irmão procurador da Ordem, entregando-lhe o risco, disse-lhe:

“cuido que em valentia e gosto o não podia eu fazer milhor.”

Ataíde incumbiu-se entre 1808-1809 da pintura e douramento dos altares laterais, inclusive o Altar-mor, serviço executado entre 1825-26.

Trono – Na redoma, a imagem de Nossa Senhora do Carmo, e logo abaixo a imagem de Santa Quitéria, vinda da primitiva Capela e por cláusula contratual expressa entre as Ordens, ali, assestada em degrau inferior ao de Nossa Senhora do Carmo.

Nos nichos laterais – as imagens de Santo Elias e Santa Teresa.

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Sacristia – Pelo conjunto que apresenta é a mais imponente e suntuosa, talvez que se registra na cidade.

Além da artística fonte em pedra sabão, riquíssima cômoda de jacarandá de autoria de Manoel Antônio do Sacramento, marceneiro da época (1812), em estilo Dom João V. Também, por ele feitos os dois belíssimos bancos que, ali, se vêm fronteiros ao arcaz.

Além do belíssimo oratório existente, a pintura do teto da Sacristia é uma dádiva do Vigário e dos sacristãos de 1805. Representa magníficos painéis do pincel de Ataíde, sendo também, dele os demais quadros sacros, ali existentes.

Deve-se ressaltar que todo o belo e severo madeiramento empregado na Igreja do Carmo foi retirado da floresta ali existente no Morro de Santa Quitéria, marco divisório dos arraiais do Antônio Dias e do Ouropreto.

Os belos tetos entalhados, cômodas, bancos, as lindas folhas trabalhadas, de portas, o gradeamento, etc., todos eles retirados dela.

As alfaias são deslumbrantes, vendo-se ainda adamascados ricos, tecidos a ouro, vindos do Reino.

Há um Crucificado em marfim, não se sabendo o que mais admirar-se: se sua expressão de agonia ou sua execução e concepção. Os menores detalhes anatômicos são completos, a expressão agônica perfeita.

Em jarras, de porcelana, do mais fino gosto, vindas dos antigos tempos existe uma profusão. Em exposição aos pés do Senhor, no oratório da Sacristia, valiosíssimo par.

A prataria faria condignamente as honras de um rico mostruário à admiração dos visitantes.

A banqueta da Irmandade do Senhor do Bomfim que teve a sua ação no altar do Senhor dos Passos, por permissão da Ordem dos Terceiros do Carmo, é um conjunto rico, entalhado em prata, constando de uma cruz monumental, quatro castiçais e duas placas.

No Consistório um altar monumental, uma mesa grande e tosca, das reuniões dos Inconfidentes.

Na parede o risco atribuído a Correia e Castro (João Nepomuceno). Os quadros em número de 4 são de Ataíde.

Cemitério – Ao lado da Igreja, com portão monumental em cantaria, contando 60 catacumbas.

Há um vulto que os Irmãos Terceiros do Carmo e os Ouropretanos devem ressaltar pela gratidão: é a do Cônego Luís Tirézio da Costa Braga. Foi irmão benemérito do Carmo e de várias associações da Cidade. Além dele, o humilde Sacristão Pedro Elídio Gomes que há 45 anos presta seus serviços à Ordem do Carmo, com louvável zelo e dedicação.

A Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo era a Ordem dos brancos da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto.

Fonte

  • Ruas, Eponina. Ouro Preto: Sua História, Seus Templos e Monumentos. 3ª ed. Minas Gerais, 1964. 249 p.

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