Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Ouro Preto

(Freguesia do Ouro Preto – Século XVIII)

Situada no Caquende (ponto de penetração da estrada real no povoado), é de facílimo acesso.

Os pretos filiados à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário que em 1715 se fundara na Matriz do Pilar, erigiram modesta igrejinha à sua Padroeira no ano imediato, capela a que veio abrigar o Santíssimo no período de 1731 a 33.

Em 1715, segundo se lê em um Termo constante do Livro da Irmandade do Rosário, em mãos do atual zelador, já existia no lugar da atual igreja do Rosário, no Caquende, a primitiva Capela desse orago. Não obstante em nenhum dos aforamentos nesse bairro se faz menção à igrejinha do Rosário como se faz à Matriz do Pilar e a de Nossa Senhora da Conceição do Antônio Dias. (Salomão Vasconcelos – Revista Sphan, pág. 257 – Os primeiros aforamentos e primeiros ranchos de Ouro Preto).

É que a Matriz velha do Pilar estava sendo substituída por outra nova e quando chegaram à feitura da Capela-mor, apelaram para os Irmãos do Rosário, abrigando-se ali o Santíssimo e dali saindo em 1733, a procissão do Triunfo Eucarístico, marco brilhante na história católica de nossa Terra, maravilha oriental transportada para plagas ouropretanas, tais foram a profusão e deslumbramento do ouro nela imperados. O ouro, a prata, a platina, as pedrarias e decorações custosas e valiosas, o mundo de riquezas ostentadas nunca poderão mais aparecer, tais foram os motivos de extasiamento aos olhos maravilhados de quem pôde apreciar o Belo aliado ao esplendor, ao fastígio do ouro!

Sabe-se ter sido ainda substituída no século XVIII pela atual Capela do Rosário, cujos pormenores da construção são ignorados. “Rosário Novo, ereto por provisão ordinária de 16 de março de 1753” – (Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana, página 214 – Cônego Raimundo Trindade). No entanto, os traçados do frontispício e da empena são conhecidos como sendo de Manuel Francisco de Araújo.

Irmã em traço da Igreja de S. Pedro em Mariana, sobrepuja-lhe no entanto pela imponência do conjunto, sua fachada acompanhando o risco ogival predominante em toda ela, à semelhança da rotunda de Roma.

“É flagrante à primeira vista, a semelhança da planta da Igreja do Rosário de Ouro Preto com a de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, do Rio de Janeiro, apesar da primeira se desenvolver toda ela em linhas curvas e a segunda em linhas poligonais”. (Paulo F. Santos – A Arquitetura religiosa em Ouro Preto).

Disse renomado urbanista francês: “a Igreja do Rosário é de uma arquitetura atrevida”.

Atrevida na acepção de arrojada, airosa, destemida, inigualável.

Vinda do risco de Sousa Calheiros, segundo Diogo de Vasconcelos, são no entanto, de Manoel Francisco de Araújo, os traçados da empena e do frontispício. (Rodrigues M. Franco de Andrade).

Apresentando-se, no exterior, em lindo conjunto de ogivas e curvas que lhe emprestam uma expressão de suntuosidade, vão elas se desdobrando em uma série agradável de sinuosidades e ondulações que terminam em sua parte posterior, a única de linhas retas.

“Sua forma ovalada, em que ao arrojo barroco da composição – em planta e em elevação exterior – se une perfeita harmonia e apuro de proporções, dá-lhe uma fisionomia característica, inconfundível, que a situa entre as mais originais e belas do Brasil.. (Paulo F. Santos – Arq. Religiosa em Ouro Preto, págs. 137-8)”.

Mais original que as Igrejas do Carmo e de S. Francisco de Assis de Ouro Preto, a Igreja do Rosário, cujo frontispício cilíndrico compreende três arcos no primeiro pavimento, três sacadas no segundo e, como coroamento, um nobre e bem lançado frontão trilobado.

“O efeito geral desse frontispício é vigoroso e imponente” (Paulo F. Santos – A Arquitetura Religiosa em Ouro Preto, página 171).

Toda ela construída em cantaria açafroada do Itacolomi trabalhada pelo mestre canteiro José Ferreira dos Santos, tem a encimar-lhe na fachada, rico e artístico cruzeiro em esteatite cinzenta.

A portada principal, em cantaria raiada, natural, parte é magnífico monolito, elegantemente entalhado e trabalhado.

Suas pias, laterais, de água benta, à entrada, são verdadeiras jóias de escultura, trabalhadas em cantaria cinzenta, onde, ainda se vêm pepitas de ouro engastadas.

Externamente rica, internamente não tanto, posto que impressione bastante: é clara, leve e espiritual.

A decoração vinda dos primeiros tempos, de cores conservadas até hoje, mas cuja composição e arranjo os antepassados nada nos legaram, são nossas, aqui colhidas e preparadas.

Irmandade de pretos ostenta a Igreja do Rosário em quase todos os seus altares, santos pretos, seus protetores, devendo ressaltar que Santo Antônio de Cartagerona e São Benedito, imagens que ali se veneram nos primeiros altares laterais, junto ao Arco Cruzeiro, são da autoria do Pe. Félix, irmão do Mestre Aleijadinho.

O trabalhado frontal do altar-mor pertencia à primitiva capela, e os dois arcos, em cantaria, sendo um (o maior) no Arco Cruzeiro e o menor no Coro. São arcos sustentando todo o entravamento dos tetos da Capela mor, Corpo da Igreja e Coro, arcos cujas perpendiculares tiradas dos centros caem fora das bases, pois que se projetam para diante.

Vê-se na Sacristia um Cristo artístico, de autoria desconhecida.

O livro de compromissos da Irmandade, que se destinava ao desaparecimento pelo folhear contínuo que sofria, foi felizmente retirado e guardado, zelosamente.

De 1724 a 1779 é o livro 2.º de Termos desta Irmandade de N. Sra. do Rosário.

Conta a tradição que, foi ao realizar-se, nesta Igreja uma festa, pelo estrugir dos fogos, que os habitantes do arraial do Antônio Dias souberam existir povoamento nestas bandas. E logo procuraram se irmanar, confraternizando-se, pois densa floresta no Morro de Santa Quitéria, os separavam.

As divisas das terras da Irmandade do Rosário atingiam longe, e por deliberação expressa da mesma, nenhum Irmão podia construir dentro desse perímetro. Acontece que uma Irmã transgrediu essa ordem, construindo uma casa em terrenos que se supõe serem os da atual rua Gabriel Santos. Essa Irmã sofreu expulsão da Irmandade que com ela, entrou em luta, afim de assenhorear-se da construção feita.

Quem não se lembra do velho preto escravo “Pae Chico” que após à missa conventual aos domingos, vestindo sua opa branca dos Irmãos do Rosário, percorria de porta em porta, de casa em casa, com passo já titubeante e trôpego, as ruas da Cidade e na sua meia língua pedia “Gimóia p’a Senola do Losálio”?

“Pode dizer-se que com a Igreja do Rosário de Ouro Preto, o ciclo barroco em Minas atinge a sua mais alta expressão”. (Paulo F. Santos – A Arquitetura religiosa em Ouro Preto – pág, 141).

A Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos de Vila Rica é o mais rico e soberbo legado que nos deixaram os Irmãos pretos escravos no inventário dos Tempos (Diogo de Vasconcelos – Obras de Arte).

Fonte

  • Ruas, Eponina. Ouro Preto: Sua História, Seus Templos e Monumentos. 3ª ed. Minas Gerais, 1964. 249 p.

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