Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto

Freguesia do Antonio Dias – Século XVIII

Situa-se bem próximo à Praça da Independência de onde dista cerca de 200 metros descendo-se pela rua do Ouvidor (Dr. Cláudio).

“A Capela de São Francisco de Assis de Vila Rica é a joia de Minas, seja pela elegância de suas linhas externas, seja pelos temas impregnados de altos conhecimentos de mística e simbólica”. (O Aleijadinho e a arte colonial – A. Lima Jr.)

Igreja monumental, toda ela em pedra, situada em amplo adro, em centro de grande terreno arrematado em 15-12-1765 aos herdeiros do Sargento-mor João de Siqueira.

O livro 1.º de Termos desta Ordem dos Terceiros de São Francisco de Assis da Penitência diz ter sido ela fundada na Capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões em 9 de janeiro de 1745, em reunião presidida pelo Capelão Fidalgo de Sua Majestade, o Padre Félix Simões e Paiva; havendo comparecido para mais de 80 irmãos entre professos, que apresentaram patentes vindas do Reino, e noviços.

Aumentando de dia a dia o número de Irmãos, pequena se tornou a Capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões para abrigá-los, e transferiu-se então a Ordem dos Terceiros de São Francisco de Assis de Vila Rica para a Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Antônio Dias.

Reunidos, foi deliberada a construção da Capela nos terrenos da chácara do Sargento-mor João de Siqueira que, até então, não se mostrara muito infenso a deles se apartar, porém vindo a falecer, e subindo os mesmos à praça pública, a Ordem dos Terceiros os arrematou pela quantia de 450$000.

Reza a tradição que Mestre Aleijadinho presente à reunião dos Terceiros de São Francisco, interpelado onde melhor se assestaria a Capela da Ordem, opinou pelos da chácara do Sargento-mor João de Siqueira.

Em 1767 por um aviso do Conselho Ultramarino ao governador da Capitania, vem o pedido de informação sobre a representação que os Terceiros da Ordem de São Francisco de Assis fizeram para edificar sua Capela em separado. (Xavier da Veiga – Efemérides Mineiras).

Tardando a vir do Reino a desejada licença, iniciaram os Terceiros de São Francisco a construção da Capela, tendo por padroeira Nossa Senhora dos Anjos, tanto que lograram em 1771 benzer a Capela-mor, embora oficialmente, o início das obras date de 1765.

Tão adiantadas encontravam-se elas que o Vigário Geral declarou que, o Corpo da Igreja podia receber, também, a mesma cerimônia, no meio das grandes e pomposas festas realizadas para tal fim.

Atribuem alguns, e é a maioria, ter sido o risco da Capela dos Terceiros de São Francisco de Assis de Vila Rica, de autoria de Antônio Francisco Lisboa, Mestre Aleijadinho.

Datam os seus sofrimentos físicos do início das obras dos Terceiros de São Francisco, e neste estado de grave enfermidade criara ele as suas maiores obras de arte.

Neste período de vida procurou ele cada vez mais encher a sua alma de fé e devoção ao Divino Mestre, e “lendo a Bíblia buscou inspiração para a sua arte e alívio para as torturas que o seu corpo sofria”. (Mestre Antônio Francisco – R. A. Freudenfeld).

Querem outros, ter sido a Capela dos Terceiros de São Francisco vinda do risco do Dr. Cláudio Manuel da Costa que o executara, sob moldes militares, em homenagem ao seu protetor o Sr. Conde de Bobadela, para a Capela do Convento de Santa Tereza no Rio de Janeiro.

Advindo a morte do seu protetor e entrando em dificuldades financeiras as Religiosas do Convento de Sta. Teresa, cederam aos Terceiros da Ordem de São Francisco de Assis de Vila Rica o risco da grandiosa planta que lhes era destinada.

Cláudio Manoel da Costa educou-se em Portugal, onde tinha um irmão em cujo convento fácil se lhe era por largo prazo perder-se em profundos estudos em uma biblioteca. Dali seguiu para Roma, onde esteve se aperfeiçoando. Regressando à Mãe Pátria e vindo aos pagos natais, assentou banca de advogado em Mariana e Vila Rica.

Ingressando na Ordem dos Terceiros de São Francisco como seu advogado (1771) não pôde, como o era sua Progenitora, dela ser Irmão.

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Linda Capela de grande leveza espiritual, com belíssimo frontispício, ricamente decorado e trabalhado por Mestre Aleijadinho. Nela se vê maravilhoso medalhão trazendo a efígie de Santa Maria dos Anjos e a visão seráfica rigorosamente perfeita, entalhada em pedra sabão.

“A fachada constitui uma arrojada concepção em nossa arquitetura colonial (A. Lima Jr.), apresentando o todo da Igreja um conjunto harmonioso e grandioso que encanta”.

“A arquitetura do exterior da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, é mais harmoniosa que a do Carmo e a razão principal está na disposição dada às torres em ambas as Igrejas” (Paulo F. Santos – A arquitetura Religiosa em Ouro Preto).

Suas torres são em guarita; uma cruz lorena encima-lhe o frontão; um corpo principal, Capela-mor, consistório e sacristia.

Lateralmente, completam-na dependências de risco claustral que a ornam sobremaneira.

O velho cemitério da Ordem, ao lado.

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Capela em amplo centro de terreno, plano e murado, destaca-se em imponência, livre de construções outras que porventura, viriam tirar-lhe a graça que as suas linhas exteriores ostentam, ressaltando-lhe o soberbo conjunto.

Se Mestre Aleijadinho não é o autor do risco da Capela dos Terceiros de São Francisco de Assis, foi ele, documentadamente, quem o executou, lavrando no cedro e na esteatite os grandiosos trabalhos que nos legou.

Foi este o período áureo do seu fastígio (1766- 1794).

Em 1771 recebeu ele 20$400 pelas pedras dos púlpitos.

Em 1773-4 recebeu ele 73$200 pelo barrete.

Em 1774-5 recebeu ele 14$400 pelo risco da nova portada.

Em 1778-9 recebeu ele … pelo risco da Tribuna do Altar-mor.

Em 1790-1 recebeu ele 50 oitavas de ouro pelo retábulo do Altar-mor e mais 425 oitavas e dois vinténs de ouro pelo feitio do novo retábulo da Capela-mor.

Em 1791-2 recebeu ele 280 oitavas de ouro pela Capela-mor. Pelo mesmo trabalho no ano seguinte.

Em 1792-3 recebeu ele 233 oitavas e 3/4 de ouro, a mais.

Em 1793-4 recebeu ele 469 oitavas e meia e 1 vintém de ouro.

Domingos Moreira de Oliveira arrematou as obras de pedra (parede e arco da Capela-mor) prontas a 10-3-1771.

Mestre Aleijadinho planejou e elaborou toda a Capela-mor (do Arco Cruzeiro ao Altar-mor, inclusive retábulo, tribunas e teto em barrete artesoado).

Externamente:

Seis sineiras com três sinos, o maior com 200 arrobas.

Porta principal em canela, almofadada com portais em cantaria, artisticamente entalhados.

A portada, propriamente dita, engalana todo o frontal da Igreja dando-lhe um ar de alegria e festa, constando de um medalhão de N. Sra. dos Anjos, e dois ovais em escudo, simbolizando as cinco chagas e as quinas de Portugal.

Encimando-o uma coroa de rainha e mais acima o maravilhoso medalhão de São Francisco de Assis recebendo as chagas no Monte Alverne.

“Pairam dúvidas, porém, quanto à portada e o medalhão complementar, cuja concepção é reconhecidamente de Mestre Aleijadinho (pelo debuxo da nova portada recebeu Mestre Aleijadinho 1774-5 a importância de 14$400), mas cuja execução foi arrematada por José Antônio de Brito”.

“Sendo muito notório que em muitos outros casos nem sempre o arrematante foi o executor, admite-se como muito provável que José Antônio de Brito, canteiro e não escultor, tenha confiado ao próprio Aleijadinho, autor do desenho, a delicada tarefa de cinzelar a pedra sabão. Só assim se compreende o finíssimo acabamento”. (Edgard Falcão – Relíquias da Terra do Ouro).

Existem mais de 30 recibos firmados por Mestre Aleijadinho de pagamentos a ele feitos pela Ordem dos Terceiros de São Francisco de Assis.

Os riquíssimos púlpitos, arrematados também por José Antônio de Brito, foram por ele entalhados e no livro da Irmandade às folhas 146 verso acha-se anotado ter sido Mestre Aleijadinho o autor do risco da maravilhosa portada.

“É fora de dúvida que tendo sido ele quem talhou os púlpitos arrematados por Brito, haja sido também o autor da maravilhosa portada, a qual afirma não só na linha geral a sua arte, mas também nos seus detalhes o cinzel do toreuta”). (Mestre Antônio Francisco – R. A. Freudenfeld).

Os dois púlpitos acham-se engastados no Arco Cruzeiro, na parte média de cada uma das duas colunas que o compõem, em duplo jogo.

Representam eles, em suas faces, motivos da Sagrada Escritura e os quatro Evangelistas. São ricamente cinzelados em pedra sabão.

Capela-mor – No trono – Nossa Senhora Rainha dos Anjos, logo abaixo a imagem de São Francisco de Assis, com seu rosário de contas em prata e a cruz de jacarandá, com guarnições, também, de prata.

Nos nichos – São Luiz Rei de França e Santa Isabel de Hungria.

Altar-mor – Ricamente trabalhado e decorado, dourado e pintado, encimado por rica tarja da Santíssima Trindade.

No teto do Altar-mor e lateralmente três medalhões, sendo que os dois últimos são movediços, representando anjos.

Sacrário – Encimando-o o Cordeiro Pascal, abaixo o emblema em ouro, das cinco chagas.

Frontal representando a Ressurreição de Cristo com as Santas Mulheres, ricamente trabalhado, dourado e pintado como o é todo o Altar-mor.

“A Capela-mor forma com o largo Arco-cruzeiro, um conjunto de indescritível beleza e grandiosidade. Leve na sua composição, clara na expressão, liberta a alma de quem penetra nesse sagrado ambiente. Todo o gigantesco trabalho de talha é de autoria do grande Mestre”. (Mestre Antônio Francisco – R. A. Freudenfeld).

Nos quatro ângulos do teto da Capela-mor medalhões ovais, imagens em 3/4 de projeção dos confessores (autor Mestre Aleijadinho): São Conrado, Santo Ivo, Santo Antônio e São Boaventura.

Lateralmente, nas paredes da Capela-mor, um quadro monumental de pintura, representando a doação do Anjo a São Francisco das graças da Porciúncula. Logo abaixo um quadro da Ceia dos Apóstolos e mais dois outros menores representando os Papas Xisto IV e Nicolau IV.

Na parede lateral, à direita: um quadro grande representando a Visão Seráfica de São Francisco; logo abaixo a cena do Lava-pés, e mais dois quadros de pintura dos Papas Gregório IX e Nicolau V.

De cada lado do altar-mor, duas velhas credências, em madeira, entalhada, e muito bem trabalhadas, e dois tocheiros grandes, antigos.

O piso do Altar-mor é todo ele em cantaria, com cinco degraus, neles se vendo um cofre pequeno, antigo, portátil.

Já o piso da Igreja, compreendendo Corpo e Capela-mor, é forrado por tabuado antigo, de canela, guarnecido com frisos de jacarandá e trazendo ainda a numeração antiga.

São 92 sepulturas onde se acham: o canteiro-pedreiro Henrique Gomes de Brito; João Gomes Batista, abridor de cunhos da casa de fundição de Vila Rica, grande mestre entalhador; o Padre Joaquim Viegas de Meneses (o Gutenberg Mineiro); o Padre Félix Antônio Lisboa, irmão do Aleijadinho; Felipe Vieira, grande entalhador e outros.

Altares:

1.º à esquerda – Santa Isabel – Rainha da Hungria.

2.º à esquerda – Santo Ivo.

3.º à esquerda – São Lúcio.

1.º à direita – Santa Rosa.

2.º à direita – São Roque – o entalhe da tarja logo abaixo do dossel e o próprio dossel, diferentes dos demais.

3.º à direita – Santa Bona.

São do risco do Mestre Aleijadinho todos eles.

Nos quatro ângulos do Corpo da Igreja, grandes quadros, pintura, antiga representando São Pedro, Santa Margarida de Cortona, Santa Clara e a morte de São Francisco.

Manuel da Costa Ataíde encarregou-se do douramento e pinturas de vulto, trabalhando na Igreja dos Terceiros de São Francisco de 1801 a 1810.

Outros pintores, também, trabalharam nesta Igreja dos Terceiros de São Francisco de Assis de Vila Rica: João Batista de Figueiredo, Francisco Xavier Gonçalves, Feliciano Manoel da Costa e outros.

A pintura do teto é o maravilhoso conjunto policrômico representando a Glória da Virgem, em que Ela se nos mostra envolta por anjos, em grande número, e David, aos seus pés, tocando harpa. É um medalhão imenso, em cores nossas, ouropretanas, daqui extraídas e preparadas, mas cujo processo e conservação os nossos antepassados nada nos deixaram.

Circundando esse imenso medalhão, dois deslumbrantes arcos de triunfo, afora dois outros menores, além de quatro colunas monumentais, grandiosas e de notável perspectiva, toda essa maravilha do pincel de Ataíde.

Dele, também, os azulejos com motivos sobre a vida de Abraão e que se vêm nas ilhargas da Capela-mor.

Também na Sacristia, o quadro central e que é o maior, representando a Assunção de São Francisco, é de sua autoria.

Os demais quadros do teto dizem cenas da vida deste Santo e de Santa Margarida de Cortona.

Além da monumental cômoda de jacarandá negro com quinze gavetões, vê-se na Sacristia, em tamanho natural, a bela cena do Amor Divino.

No meio da cômoda, há um dispositivo para a exposição do Santo Sepulcro, na Semana Santa.

Registro algum se encontra nos livros desta Ordem quanto à feitura do riquíssimo Lavabo da Sacristia, joia de inestimável valor, e cuja autoria, até hoje, acha-se obscura.

Foi ele uma oferta dos sacristãos da Ordem de 1777, 1778 e 1779 e tendo corrido por conta deles, parece-nos que, por este fato, nada consta nos assentamentos da Ordem.

Saído do cinzel de Mestre Aleijadinho é joia preciosíssima de nossa arte sacra.

“O gravador João Gomes Batista, que foi provavelmente mestre do Aleijadinho, fazia parte da Fraternidade dos Franciscanos de Vila Rica, e no ano de 1778 desempenhava as funções de Sacristão do sodalício. Este cargo outrora era de importância, e parece que era o sacristão que se incumbia de contratar as obras do Templo. Neste caso podemos formar a suspeita de que João Gomes Batista assistiu de perto a execução deste Lavabo e que o Aleijadinho, ao traçar o desenho, ouviu a opinião do velho amigo e antigo mestre”. (Nas Galerias da Arte e da História – Pe. Heliodoro Pires).

Consistório – Um altar monumental, pintado a água, de Nosso Senhor Crucificado das Cinco Chagas, além das imagens de São Francisco e mais três imagens de Jesus, Maria e José.

Uma cômoda de jacarandá e uma arca, antiquíssimas, e o armário-secretária, contendo o arquivo da Ordem, constante dos livros de Irmãos desde 1746 até nossos dias.

O arquivo é muito bem cuidado, graças à dedicação do Irmão procurador Manuel José de Paiva Júnior que, há mais de cinquenta anos, sucedendo ao seu Progenitor, cuida desveladamente desta Capela dos Terceiros de São Francisco de Vila Rica.

Situada no coração desta Cidade, a Igreja de São Francisco de Assis é de facílimo acesso, agradável mesmo, seja a pé, seja por outro meio de locomoção.

Tem ricas alfaias, bem conservadas e rica prataria, carinhosamente guardadas pelo seu esforçado Zelador, Manuel José de Paiva Júnior, grande baluarte do velho Ouro Preto.

Fonte

  • Ruas, Eponina. Ouro Preto: Sua História, Seus Templos e Monumentos. 3ª ed. Minas Gerais, 1964. 249 p.

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