Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto

(1701-1705 — Freguesia do Ouro Preto)

De facílimo acesso situada na parte baixa do Ouro Preto, denominado “Fundo do Ouro Preto”.

“No Brasil, a arquitetura barroca foi a que predominou desde quando se ergueram no País, os primeiros edifícios religiosos dignos de nota em fins do século XVI até à chegada da Missão Francesa em princípios do século XIX. A Arquitetura barroca religiosa abrangeu o período colonial completo, sendo por isso, também conhecida como “colonial”.

Em linhas gerais, a arquitetura religiosa mineira do Ciclo do ouro – século XVIII – tendo se desenvolvido durante o período barroco, é também barroca, embora com características diferentes das arquiteturas barrocas que floresciam, na mesma época, em outros pontos do País”. – (A Arquitetura Religiosa em Ouro Preto – Paulo F. Santos, págs. 56).

* * *

Nos primórdios do século XVIII existia uma pequena Capela sob a invocação de Nossa Senhora do Pilar e que era sede da Matriz.

Pequena e com uma só torre, não comportando a população que crescia, resolveram aumentá-la. “Instituída entre 1700 e 1703, foi elevada à categoria de colativa pelo alvará de 16-2-1724”. – (Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana, págs. 213 – Cônego Raimundo Trindade).

Provisoriamente como Matriz ficou a Capela do Rosário do Caquende, enquanto se procediam à construção da nova Matriz.

Em 7 de julho de 1711 no Termo de ereção de Vila Rica, os moradores declararam:

“que desejavão e tinhão devoção de que se continuasse a invocação a Padroeyra desta Igreja do Ouropreto Nossa Senhora do Pilar”.

Data desse ano a fundação da Irmandade de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, a primeira que aqui se fundou.

A sede da paróquia do Pilar, de começo, era em modesta Capela de taipa, coberta de telhas, com um só corpo de torre e onde já se achava o soberbo “Jerônimo”.

Arrematada por João Fernandes de Oliveira pelo ano de 1720, levantou-se a Matriz do Pilar sob o risco do Sargento-mor Pedro Gomes Chaves e construção de Antônio Francisco Pombal, tio de Mestre Aleijadinho.

Antônio Francisco Pombal arrematou as obras depois que João Fernandes de Oliveira desistiu de executá-las (1736).

Em 1745, Antônio Henrique Cardoso, sócio de Francisco Xavier de Brito, fez a talha da porta da Igreja.

O Arco Cruzeiro foi executado por Ventura Alves Carneiro entalhador da época, por 1.070$000 (1750).

Em 1769 a Domingos da Mota foi feito o pagamento do resto do caixão da Sacristia e em 1770, o carpinteiro Manoel Conceição desmanchou o andaime da pintura no Corpo da Igreja.

Data de 1731 que atingindo as obras a feitura da Capela-mor, trasladou-se para a Capela do Rosário, o Santíssimo Sacramento, de onde tornou à primitiva e nova Matriz, em 1733, em soleníssima e pomposa procissão do Triunfo Eucarístico, sonho oriental em profusão de ouro e pedrarias ostentado em terras ouropretanas.

O Conde das Gálveas, atual Governador, com seu Corpo de Tropa e Nobreza assistiram a esse desfile de esplendor e luxo, de suntuosidade e brilho que Vila Rica no seu fastígio pôde ostentar e que olhos maravilhados nunca puderam esquecer.

Deliberada a ampliação da Capela-mor em 1741, coube a Francisco Xavier de Brito o serviço do entalhe do Altar-mor (1746) que primorosamente esculpiu-lhe o retábulo.

“Obedecia ao estilo barroco jesuítico da Sé de Mariana e da Matriz de Sabará que ainda o conservam” (Edgard Falcão – Relíquias da Terra do Ouro).

Sofreu no século XIX nova reconstrução, adquirindo o aspecto atual, sob a direção de Manoel Fernandes da Costa.

Em 1825, conclui-se-lhe o frontispício, o exterior ganhando em grandiosidade, e em imponência o conjunto, acrescido de duas torres e novas sineiras, sendo a do Evangelho construída pela Irmandade do Santíssimo e a da Epístola pela Irmandade do Pilar.

A Matriz é um dos templos mais suntuosos da Cidade, apresentando o mais audaz galbo de ordem jônica que se executou entre nós.

Foi a Igreja Matriz primitiva, fabricada de taipa e adobes pois que, por aqueles tempos, eram os meios mais conhecidos.

Seu madeiramento retirado da mata virgem existente em suas cercanias, e teve pago o custeio das obras da parede lateral do lado do Evangelho (Capela-mor ), graças às 690 oitavas de ouro, obtidas pela lavagem das terras retiradas dos caixões feitos para os alicerces.

Reza a tradição existir um veio aurífero em seu subsolo, de cuja exploração adveio o custeio das obras da Igreja Matriz. No entanto, o que consta é que no livro de receita e despesa da Irmandade do Santíssimo, às folhas 8 verso, tem “um pagamento feito pelo Doutor Ouvidor da vistoria que fez na mina que abriu, o preto Paulo, por baixo da Igreja Matriz do Pilar, em 1737”.

Também, a tradição nos conta que existiu um subterrâneo na Matriz que a liga à Casa da Câmara e Cadeia. Inda hoje, existe no Largo da Matriz, essa casa e que é a primeira de varandas balconadas.

Externamente gigantesca, com suas monumentais torres e sineiras, onde se vêm:

O “Jerônimo”, o “Atanásio”, o “Ambrósio” e o “Agostinho”. Trazem os nomes dos quatro doutores da Igreja, sendo que o Jerônimo vem da primitiva Matriz. Quando refundido em 1893, viu-se-lhe a data de 1711- Foi ele pago por Caetano José da Porciúncula, seu fundidor.

O grandioso e soberbo “Jerônimo” só é ouvido nas grandes festividades, seu dobre sonoro e augusto reboa de quebrada em quebrada, calando no coração ouropretano um sentimento de respeito e unção!

Ao ouvi-lo, o ouropretano onde estiver, pára e escuta! Ouve-lhe o som, que é a sua voz e diz: é o sino dos Passos! Como dobra solene e augusto!

Tão grandioso, tão imponente é seu interior, sua maravilhosa talha, a profusão de adornos, de ouro, que a sensação de deslumbramento, de poderio, faz-se mister, é imperante.

Os dois púlpitos são verdadeiras jóias, riquíssimo trabalho de talha doirada, traçado oriental. A decoração, tão profusa e rica expressa a fantasia do autor:

“a palavra de Deus carregada pelos Anjos, sendo que o do centro aponta o orador e o da cúpula, com os braços abertos, cabeça alevantada, como que pedindo inspiração”.

São ambos sustentados por cariátides.

Os altares, o 1º e o 3.º do lado do Evangelho, são os maiores e vindos da primitiva Matriz. São iguais ao Altar-mor da Sé de Mariana e ao da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré em Cachoeira do Campo (Diogo de Vasconcelos – Obras de Arte).

A imagem de Nossa Senhora do Rosário, no 2º altar deste mesmo lado, reza a tradição ser da autoria de Mestre Aleijadinho.

A Capela-mor, vinda da Matriz velha, é um dos raros modelos de estilo, do traço de Antônio Francisco Pombal, tio de Mestre Aleijadinho, ricamente ornamentada por folhagens e anjos que, em grupos alados, trazem vida e movimento ao conjunto.

Teve por executor Francisco Xavier de Brito, autor, também, do rico retábulo da Igreja de São Francisco da Penitência no Rio de Janeiro, grande entalhador da época que, aqui, viveu 10 anos, executor, também, dos púlpitos da Matriz do Pilar.

O opulência, a riqueza, o fastígio do ouro nela são intensamente vividos, agradando, no entanto, sua distribuição.

O teto é grandioso, em polígonos e quadros, apresentando os Profetas, personagens e cenas do Velho Testamento.

Na Capela-mor, lateralmente, nos quadros são os Evangelistas, e no alto os Apóstolos e o Senhor na Instituição do Santíssimo Sacramento, cuja Irmandade é fundadora do Templo.

O autor destas maravilhas foi João Carvalhais, mestre pintor e dourador.

A mesma profusão de ouro que se vê na Capela do Padre Faria, aqui também se via, sendo que nesta Matriz, todos os pontos em pintura clara, são partes em ouro velho, recobertas pela cal, ordem talvez determinada por alguém interessado em ressaltar toda a beleza da riquíssima talha dourada, em proporções destacadas. O que não se notaria em um fundo em ouro, exclusivo, legítima expressão do barroco colonial.

Se a pudéssemos ver refulgir em toda sua magnificência de ouro velho, com a riquíssima talha que ostenta, que tesouro inigualável de imponência, de sensação e deslumbramento, teríamos na Matriz do Pilar!

Mesmo privada, em grande parte do refulgir do seu ouro velho, não lhe diminuíram, no entanto, a grandiosidade, a majestade dominadora e senhorial que apresenta.

Nos seus grandes dias de festividades, quando esplendem seus adamascados e a rica prataria, nas solenidades da Semana Santa, nos ofícios e demais atos sacros executados, a música imperante é nossa, escrita por compositores aqui nascidos, figurando, primacialmente, Tristão José Ferreira, os Jerônimo de Sousa, os Sales Couto e outros.

Vive a Matriz de Nossa Senhora do Pilar os seus antigos dias de glória, de fausto e de opulência, coroados pelo dobre do “Jerônimo”, que se evola pelas montanhas longínquas, como nas grandes solenidades de posse de quase todos os governadores da Capitania das Minas Gerais, durante o período colonial, exceção, somente, do Conde das Gálveas, cuja posse se realizou na Matriz da Conceição do Antônio Dias.

Não menores, também, em brilho e garbo eram as suntuosas procissões de “Corpus Christi” que da Matriz do Pilar saiam pelas ruas de Vila Rica, procissões em que os cavaleiros militares, por ordem régia, tomavam parte, envergando seus mantos, punindo o Governo aqueles que a ela não comparecessem.

Montada em soberbo corcel, a imagem de São Jorge que se admira no Museu da Inconfidência, e da autoria de Mestre Aleijadinho, passava em revista às tropas que nelas formavam.

Na Sacristia da Matriz do Pilar, existe monumental cômoda, oriunda do tabuado da mata circunvizinha, onde a mesa é peça única, corrida, cujas tábuas medem, cada uma delas 9 ms de extensão.

No Consistório inestimável Credência antiga, onde se reuniam os homens de destaque, convocados para resolver os grandes problemas da Cidade, e mesmo os da Capitania e Colônia.

Os Ministros da Irmandade nela se congregavam. Os livros de compromissos da Irmandade do Santíssimo, com os seus estatutos, são os mais acabados possíveis. As alfaias são ricas, e sua prataria, em exposição, digna de ser admirada.

Inda há poucos anos, percorria as velhas ruas desta Cidade, sobraçando a opa da Irmandade do Santíssimo ou das Almas, semanalmente, o irmão “das Dores”. Pedia ele um óbolo, “para a missa do Santíssimo ou das Almas”, ao que o povo glosava, “p’ra mim e p’ras Dores ou p’ra mim e p’ras Almas”. Boa alma, singela e simples, que evolou para o Além. Pax!

Fonte

  • Ruas, Eponina. Ouro Preto: Sua História, Seus Templos e Monumentos. 3ª ed. Minas Gerais, 1964. 249 p.

Veja também

Mapa