A Pesca no Rio de Janeiro da Primeira República

Pescadores, colônias, fauna – Isolados em suas praias, recôncavos e ilhas, desamparados do poder público e sem assistência da igreja, os pescadores sempre se congregaram em colônias. Quando afastados da Baía do Rio de Janeiro – e isso acontecia geralmente aos brasileiros – outro contato não tinham com o mundo exterior do que o estritamente necessário à entrega do pescado ao Mercado da Praça 15 de Novembro e, depois, ao Mercado Municipal (da Rua D. Manuel) e à compra de gêneros alimentícios necessários a si e aos seus familiares. Desse modo, homens, mulheres e crianças viviam em toscas moradas, entre a praia, o mar e o céu. A maioria das colônias era de portugueses, provindos de Póvoa de Varzim, em Portugal, e, por isso, denominados “poveiros”. Suas principais colônias estavam situadas nas praias da ilha do Governador, de Santa Luzia (no lugar que hoje corresponde à confluência das Avenidas Calógeras e Presidente Wilson) e de Santo Cristo (em São Cristóvão). Homens fortes, trabalhadores e ordeiros, distinguiam-se pela indumentária, pois usavam felpudas camisas com longas mangas de variegadas cores e uns gorros, também felpudos, cujos tons não condiziam com os das camisas. Um ou outro brasileiro pertencia à colônia de Santa Luzia. Mas havia também a colônia de pescadores italianos de Sepetiba. E embora não formassem agrupamentos, pois viviam esparsos, havia os pescadores brasileiros de Copacabana.

Antigo Mercado do Peixe na Rua do Mercado no Rio de Janeiro. Carte Postale Messageries Maritimes.

As colônias de pesca – reunidas na Confederação-Geral dos Pescadores do Brasil – foram, com o desenvolvimento da cidade, abandonando os seus tradicionais locais. As dos “poveiros”, foram extintas com a virtual expulsão dos mesmos pela lei de nacionalização da pesca, tendo como absurdo fundamento de que as costas brasileiras não podiam estar à mercê do desvendamento dos estrangeiros… Esqueciam-se, os que assim tão mal raciocinavam, que o Almirante francês Mouchez já tinha desvendado, um século antes, toda a costa brasileira e publicado os respectivos mapas, usados pelos que navegavam pelo Atlântico Sul. Esqueciam-se, também, que o Almirantado Britânico conhecia, de longa data e de sobra, a nossa costa.

A fauna estava representada pelas espécies ictiológicas da costa, dos rios e das lagoas. Do mar provinham linguados, garoupas, robalos, tainhas, badejos, corvinas, dourados, pescadinhas, polvos. A baía de Guanabara era abundante em deliciosas sardinhas. Dos peixes de água doce, a preferência da população recaía nas espécies representadas pelos lambaris, acarás, camorins (espécie encontrada em lagoas, também conhecida como do robalo-camuri), traíras (muito vorazes) e bagres. E entre os crustáceos, havia siris (siri-de-areia), caranguejos, camarões, lagostas e os pitus, ou potis (de água doce). As ostras abasteciam abundantemente o Mercado, provindo principalmente do Estado do Rio de Janeiro.

Do exposto verifica-se que a pesca constituía objeto de grande atividade marítima, empregando, em 1930, mais de 10.000 homens. O distrito onde a pescaria se apresentava mais vultosa era o de Guaratiba. Nas ilhas da Guanabara, mormente nas do Governador e Paquetá, bem como na praia de Copacabana essa atividade também se exibia apreciável. O peixe era vendido diretamente aos compradores das ilhas e das praias, aos peixeiros (ou vendedores ambulantes), aos donos de bancas de peixe (do Mercado Municipal e das feiras-livres) e às peixarias dos bairros.

A pesca à dinamite e a existência de cercados e de viveiros de peixes (principalmente nas ilhas) contribuíam para prejudicar a indústria pesqueira.

Fonte

Imagem destacada

  • Doca da alfândega do RIo de Janeiro: planta do litoral entre o arsenal de marinha e o de guerra, a ilha das Cobras e a dos Ratos, 1890?, via Biblioteca Nacional.

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