A Exposição Nacional de 1908 – I

Por ocasião do grandioso certame norte-americano, comemorativo da incorporação dos vastos e fecundos territórios da Luisiana à grande União, ante os olhares maravilhados dos curiosos, idos de todas as partes do Mundo, desenharam-se as nossas forças econômicas, dignas de ombrear com as dos velhos povos dos outros continentes, manifestando-se perfeitas em nossos artefatos industriais, enormes na expansão de nossa agricultura, maravilhosas nos produtos de nossa natureza, de sorte a colocar o Brasil em tal situação de avantajamento, que na gigantesca feira bem se pode afirmar – fomos nós os vencedores. Desde a vasta e incomparável bacia amazônica até as verdejantes cochilas do Rio Grande do Sul, todos os Estados da Federação concorreram com os seus produtos próprios, qual mais perfeito e atraente, mostrando uma feição nova de nosso progresso aos povos concorrente à Exposição de São Luiz. E com justo e legítimo orgulho recebemos a inumerável série de prêmios, destinados a recompensa e estímulo do nosso trabalho, do nosso progresso, da nossa fecunda atividade.

Mas se maravilha foi para o estrangeiro esse atestado pujante de nossa vitalidade, força é confessarmos que talvez fossemos nós mesmos os mais maravilhados.

É que nós vivemos nos desconhecendo. Mais nos interessa quase sempre o que vai por além mar do que o acontecido dentro das raias do nosso vastíssimo território.

Os Estados se ignoram e muita vez o mesmo se dá com os municípios vizinhos de um mesmo Estado.

Com extrema admiração chega-nos ao conhecimento que o objeto adquirido pelo mimoso da manufatura, pelo acabamento do todo em luxuosos magazines de modas, não é produto das afamadas fábricas d’além mar e sim das mais modestas de um Estado qualquer. Porque na indústria nós só compreendíamos que o Brasil fizesse além das moringas da Bahia, das redes do Maranhão, do algodãozinho mineiro e dos rebenques de couro trançado do Rio Grande, mais uns curiosos berloques que uma hora arrancada à ociosidade malandra dos praieiros arabescava em cascas de coco que a natureza fornece em profusão pelos extensos areais do Norte.

A Exposição de São Luiz veio perturbar-nos essa doce ilusão, revelando-nos os progressos da indústria nacional de que só falávamos com sorrisinhos de mofa e entretanto o Júri internacional galardoava admirado do nosso adiantamento.

Daí em diante e mercê desse movimento de progresso que fez com que em um lustro se tornasse o Brasil mais conhecido do que nos quatro séculos que tem de existência e à força de ouvirmos louvores sobre esse progresso por nós desconhecido em seus múltiplos detalhes a ideia do governo atual de reunir a produção de todos os Estados em um grandioso certame que se abrirá em Junho próximo, de modo a atestar com brilho a verdade dos conceitos sobre nós emitidos em um concerto de louvores que nos anima e nos fortalece como nos enche de suave alegria patriótica.

Votada pelo Congresso Nacional a necessária autorização na Lei do Orçamento, em 4 de Julho de 1907 e pelo Decreto n. 6545[1], o Dr. Affonso Penna, presidente da República, aprovou as bases organizadas pelo Ministro da Indústria Viação e Obras Públicas Dr. Miguel Calmon du Pin e Almeida.

Em 10 de Outubro foi nomeada a Comissão Superior composta de 41 membros sob a presidência do Dr. Antônio Olyntho dos Santos Pires, ex-ministro da Viação, provecto lente da Escola de Minas de Ouro Preto e nosso delegado em São Luiz.

Três vice-presidentes, os Drs. Luiz Raphael Vieira Souto, Arthur Getúlio das Neves e Antônio de Pádua Assis Rezende, o primeiro substituído pelo general Gregório Thaumaturgo de Azevedo e um secretário geral o Dr. Cândido Mendes de Almeida constituem com o Presidente o Diretório Executivo da Exposição:

Constará ela de 4 Seções:
Agricultura;
Indústria Pastoril;
Várias Indústrias, e
Artes Liberais.
Projeto de Raphael Rebecchi do Pavilhão do Estado de Minas Gerais para a Exposição Nacional de 1908 na Praia Vermelha.

Para promover o comparecimento de todos os Estados ao Certame vários delegados percorrem o país inteiro em propaganda, facilitando o trabalho dos governos estaduais.

Por conta do governo correrão as despesas com o transporte de todos os objetos destinados à Exposição.

O local escolhido foi a grande esplanada da Praia Vermelha onde há bem pouco tempo se erguiam os edifícios da Escola Superior de Guerra.

Confiados os trabalhos de construção à competência e atividade do Dr. José Mattoso Sampaio Correia, diretor das Obras Públicas, quem hoje se dirigir àquele local certamente não deixará de se admirar das transformações por ele sofridas.

Os velhos pavilhões da Escola tombaram, no mesmo local se erguendo outras construções destinadas a abrigarem os objetos expostos.

Dos Estados da federação somente Minas, São Paulo e Bahia estão construindo pavilhões independentes e fá-los-ão ainda o Paraná e Santa Catharina.

A Prefeitura do Distrito Federal terá também pavilhão à parte.

Das Repartições Públicas terá um pavilhão isolado a Repartição Geral dos Telégrafos.

A Sociedade Nacional de Agricultura construirá também um pavilhão e bem assim a Companhia Progresso Industrial do Bangu.

Ainda concorrerão em pavilhões independentes a casa Herm. Stoltz com uma exposição de maquinismos para a Lavoura e a Cervejaria do Estado do Pará.

Portugal, única nação estrangeira a qual foi dada a concessão de concorrer a Exposição, já tem em obras o seu pavilhão, de estilo manuelino.

A Exposição abrir-se-á em 15 de Junho e encerrar-se-á em 7 de Setembro, funcionando diariamente das duas horas da tarde até às oito quando se fecharão os pavilhões, continuando entretanto a funcionar as diversões até meia noite.

No recinto da Exposição funcionarão um teatro, um café concerto, vários cinematógrafos. Haverá ainda outras diversões variadas, montanhas russas, balões cativos, etc.

Funcionarão restaurantes e bar no grande terraço com vista para o mar.

O custo dos bilhetes de entrada variará conforme os dias de 500 rs. a 2$000.

O transporte será dado pelos bondes da Companhia Jardim Botânico que prolongará os seus trilhos até o grande portão da Exposição e pela Companhia Cantareira cujas barcas atracarão em ponte para esse fim especialmente construída.

Um dos mais curiosos atrativos da Exposição será certamente a Seção Pastoril, o pavilhão construído para o gado contendo 300 cocheiras diversas.

Dois pavilhões são destinados às máquinas. Kósmos que acompanhará em todos seus números o movimento da Exposição, começa hoje a publicar fotografias das obras, tomadas em diversas fases da construção, de modo a dar a impressão perfeita do que vai ser o grandioso certame.

Nota do editor

  1. Decreto nº 6.545, de 4 de julho de 1907 Approva as bases para organização de uma Exposição Nacional em 1908

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Projeto de Raphael Rebecchi do Pavilhão do Estado da Bahia para a Exposição Nacional de 1908 na Praia Vermelha. Revista Kosmos – Ano V – Número 3 – Março de 1908.

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