A Exposição Nacional de 1908 – II

A GRANDIOSA feira nacional, que o governo do Presidente Affonso Penna organizou, sob o louvável pretexto de comemorar o centenário da abertura dos portos do Brasil ao comércio mundial, como um balanço da capacidade industrial, comercial e artística do país, foi entregue à visita pública em 11 de Agosto de 1908 na faixa de terra que liga o morro alcantilado da Babilônia com o alto bojo alamborado da Urca, e se limita, por banda do Atlântico, na breve curva da Praia Vermelha e, pelo interior, nas areias claras da Praia da Saudade, último recosto das águas da Guanabara no golfo de Botafogo.

Indicada a escolha do local tanto pelo pitoresco da circunvizinhança, que é, incontestavelmente, dos mais impressionantes, já pela soberbia dos pedregosos montes que o enfeixam, já pelo escampado da área cuja planície se prestava à especialidade de construções provisórias e variadas, quanto pelas tradições que ali se apegaram, porque foi naquele ponto que desembarcou a companha guerreira dos Sás, os fundadores da cidade do Rio de Janeiro conquistado aos franceses de Villegagnon e aos tamoios adversos, essa grande obra de prova civilizadora, ideada, planejada e levada a efeito pela força de vontade do ministro da Indústria e Viação, o Dr. Miguel Calmon, secundado pelo diretório executivo – Drs. Antônio Olinto, ex-ministro da Indústria e Viação, lente da Escola de Minas e chefe dos serviços contra a seca do Norte, Thaumaturgo de Azevedo, Pádua Rezende, Getúlio das Neves e Cândido Mendes de Almeida – teve no Dr. Sampaio Correia, o seu diretor supremo na parte material, o mais extraordinário executor, tal a rapidez, a relativa perfeição, o entusiasmo trabalhador, de noites e dias sem descanso, com que foi realizada!

Parece-nos, ainda, um sonho, esse inesperado aparecimento da pequenina cidade de palacetes nos areais da Urca. Parece-nos um sonho esse levantamento de pavilhões brancos, facetados e rendilhados pela decorativa arquitetônica, que são pequenos palácios ebúrneos na perlada diafaneidade duma visão, e ali se firmaram alegre e triunfalmente sob o azul intenso do céu, diante do glauco suave das águas, em contraste com o roxo carregado dos montes, o verde-escuro dos matos, e quase sempre iluminados, num fundo de apoteose, pela limalha d’oiro do sol!

O sonho, porém, transmudou-se em realidade. Lá está a Exposição Nacional de 1908, no assombroso cenário das montanhas, a atrair a curiosidade de todo o mundo que a vê, à distância, como um encantado panorama das Mil e uma noites, o reino maravilhoso dum maravilhoso reizinho rosado e louro como um pajem dos romances medievos.

E não se cansam os olhos de admirarem-na!

Vê-la, seja da confluência das ruas que alcançam a linda avenida em curva da enseada de Botafogo, seja da altura de mirantes ou de pontos altaneiros de adjacências monticuladas, é sempre um gozo, porque há nela a esbelteza linear de um conjunto de arquitetura raramente conseguido, o tom macio dos visionamentos suaves entre brumas levemente distendidas, o ineditismo de uma nova, minúscula cidade a continuar o aglomero quase interminável da cidade percorrida; e essa que, de improviso, se nos antolha, assim levantada além d’águas de um golfo formosíssimo, assim no extremo curvilíneo duma avenida arrebatadora, longe, a se debuxar apenas, desperta-nos o assombro, e nos faz sonhar. Que país de maravilhas é este?… Que capricho teve o Criador em fazê-lo?… E a cidadezinha branca, rendilhada e facetada, nos fascina. Ansiamos por vencer a distância que nos separa dela. Corre a carruagem ao trote largo das parelhas, voa o auto fonfonando, roda vertiginosamente o carro elétrico nos trilhos, o espaço é devorado, a extensão diminui, mas a ânsia acelera-nos as artérias, entontece-nos o coração… Queremos vê-la, queremos admirá-la. Até julgamos nunca mais alcançá-la tal o desejo fervoroso de a penetrar…

A curiosidade que nos assalta, nessa atração irreprimível, bem prova a admirável obra que o governo do presidente Affonso Penna, conseguiu realizar.

E se a tenaz vontade do ilustre Dr. Miguel Calmon resolveu o problema de público inventário do adiantamento do país, com os documentos convincentes da sua capacidade de força produtora nas indústrias, no comércio, nas artes; se a superior competência do Dr. Antônio Olinto já comprovada em tantos serviços ao país, na direção geral do certâmen demonstrou as suas exímias qualidades de administrador ao qual cabe não pequena messe de glórias, não menos glorioso foi o esforço do Dr. Sampaio Correia em conter a quantiosa manifestação dessas atividades num espaço e local em que tudo se acondicionasse convenientemente, e se tornasse digno do fito com que o governo organizava essa Exposição. Ao pensamento dos administradores era preciso corresponder o apuro da execução. Felizmente e, digamos, ainda louvavelmente, o ilustre secretário dos negócios da Indústria e Viação soube escolher o seu excelente auxiliar.

O jovem e habilíssimo engenheiro, a quem foi entregue a execução do plano, tinha a seu favor o entusiasmo e atividade da idade, a competência profissional, a experiência administrativa.

Acercou-se de ajudantes confiáveis, indo buscá-los na mocidade que as Escolas Superiores preparam de há dez anos a esta parte, Lossio, Dobadella, Costa Rodrigues, Ávila, Dodsworth; reuniu em torno de si esse grupo de moços competentes, chamou para auxiliá-los o provado talento do arquiteto René Barba, entregou a parte decorativa de escultura e pintura a Nicolina Vaz, Gastão Alves, Amoedo, Hélios Seelinger, Fiúza Guimarães, Arnaldo de Carvalho, Calixto, Amaro, Crispim do Amaral, Mário Costa, Macedo, Timóteo; e no curto espaço de meses a Exposição Nacional de 1908 surgia como uma cidade de encantamento, levantando para o azul as agulhas dos seus torreões e os zimbórios dos seus centros.

Ninguém contava com esse resultado. Aos menos pessimistas ele se afigurara um esforço manque, uma obra apressada e imperfeitíssima.

E, no entanto, em 11 de Agosto ela ali estava confirmando o valor da engenharia brasileira representada na sua mocidade. Porque, deve-se dizer e com orgulho, a maioria dos homens que trabalharam nessa obra, quer engenheiros, quer arquitetos e artistas, era composta de moços.

Não fizeram trabalhos provisórios, como soem ser os dessa natureza, construções aligeiradas, facilmente desmontáveis. O Palácio dos Estados, vasto edifício apenas começado há mais de vinte anos e então destinado à Escola Superior de Guerra, foi concluído sob o plano primitivo, com pequenas modificações; o enorme e velho edifício da extinta Escola Militar foi demolido e sobre os seus alicerces, com aproveitamento de poucas paredes do pavimento térreo, erigiram a fachada vistosa do Palácio das Indústrias, em cujo corpo central cascateia sobre cinco bacias sucedâneas a queda d’água da cúpula, o chateau d’eaux; numa ala dessa arruinada Escola, que a picareta demoliu até suas bases, levantaram o garboso pavilhão manuelino oferecido às indústrias portuguesas; ergueram o teatro, os pavilhões de máquinas, de artes liberais; da pesada muralha da cidadela, que fechava os fundos da Escola Militar pelo lado do Atlântico, fizeram um lindo terraço, largo e calçado, do qual se desfruta um dos mais encantadores “pontos de vista” que olhos humanos têm a ventura de contemplar; em os extremos abandonados dessa muralha foram levantados dois restaurantes de feitio e aspecto diferentes, mas de sólida construção. Toda a extensa área que fica entre a Praia da Saudade e a Praia Vermelha, da Babilônia à Urca, foi demarcada, aplainada, macadamizada, dividida em avenidas, praças e ruas com os respectivos ajardinamentos; a cada pavilhão deram o seu lugar, e a imensa área recebeu, em todos os seus detalhes, os cuidados da jardinagem ou a modificação necessária ao bom êxito do conjunto. A Praia da Saudade teve um grande cais em frente às suas areias, de maneira a formar uma bacia em que ancoram pequenas embarcações e uma porta monumental, eminentemente decorativa, ergue-se ao fim da avenida que a Prefeitura construiu no tortuoso caminho que ligava as duas praias, as da Saudade e Botafogo.

É, atendida a exiguidade do tempo, a multiplicidade de serviços a desempenhar, uma obra colossal, exaustiva; mas, vencida pelo esforço extraordinário da sua comissão executora, constitui para ela uma glória inolvidável.

Pavilhão do Estado de São Paulo, autoria do arquiteto Ramos de Azevedo – Exposição Nacional de 1908 na Praia Vermelha – Revista Kósmos – Ano V – Número 7 – Julho de 1908

Não se pode nem se deve negar que em seu apoio concorreram a boa vontade e o sentimento patriótico de alguns Estados. O de São Paulo, o de Minas Gerais, o da Bahia, o de Santa Catarina, cada qual na proporção dos seus meios, deram a esse grandioso certâmen o brilho necessário à sua fulguração. Os três primeiros excederam à expectativa pela beleza e riqueza de seus pavilhões, sendo o de São Paulo da autoria do notável arquiteto Ramos de Azevedo, e os dois últimos do ilustre Rebecchi.

Santa Catarina, que é dos Estados do Sul, um dos que maior futuro promete, não pôde ombrear-se com os dois poderosos Estados cafeeiros, mas, na sua simpática modéstia, apresenta um gracioso, pequeno, e leve pavilhão todo feito de suas preciosas madeiras.

O Distrito Federal concorreu também com um pavilhão de vastas proporções e de grande efeito arquitetônico, e uma elegante construção em madeira envernizada, que avulta dentre a riqueza dos edifícios pela esbelteza e simplicidade de suas linhas, destinada à Exposição da Inspetoria de Matas marítimas, jardim, pesca e caça, autoria do desenhista Archimedes Silva por encomenda do inspetor daquela repartição, o Dr. Júlio Furtado.

A Sociedade Nacional de Agricultura, a repartição dos Correios e Telégrafos, o governo português, o corpo de bombeiros, a fábrica de tecidos do Bangu, fizeram construir pavilhões seus, que colaboram grandemente no aformoseamento dessa Exposição, que é a mais suntuosa de quantas têm sido organizadas na América do Sul.

Mas, a valiosa concorrência dos Estados e de outros expositores, que ali ergueram pavilhões, não desmerece de modo algum o arrojo, a persistência, o inesperado resultado desse imenso trabalho da comissão executora.

Ele ali está na grandiosidade, beleza e segurança das suas construções, na vastidão impressionante e atraente do seu conjunto, no cuidado de suas meticulosidades, como prova irrefutável do seu inaudito esforço, da sua desmedida e firme dedicação, do elevado grau da sua competência profissional. É uma glória.

E ver essa cidade branca, facetada e rendilhada, brilhando ao sol, sob o azul do céu, em frente ao glauco dos mares, como um panorama imaginário, criado pelos sonhos de um grego rebelde à severidade geométrica das linhas; ou vê-la, à noite, ardendo à luz de milhares de lâmpadas elétricas, crivada de focos luminosos e multicores, com o seu pórtico em fogo, num deslumbramento apoteótico, a lembrar fantasias do Oriente escoadas na ardente imaginação da infância, é compreender o trabalho vitorioso dos que a idearam, planejaram e realizaram num rápido espaço de tempo, o bastante para serem esboçados os delineamentos de um projeto, nunca a obra definitiva, assente, completa, de uma vontade triunfadora!

E por maior que seja a glória conquistada pela nossa aptidão para o trabalho, por mais relevância que consigam as indústrias fabris e extrativas, as confecções da pequena indústria, o trabalho das lavouras, os resultados inteligentemente guiadas da agricultura pastoril, o tino e saber das administrações privadas, a excelência das artes liberais, a magnificência das belas artes, a realização desse grande certâmen nacional avultará não só como um patriótico e nobre, pensamento do governo Affonso Penna, mas também como a afirmação positiva do quanto são capazes a inteligência, o saber, e a ação utilizável do Brasil mental, representados nos executores de tão vasto quanto arrojado empreendimento.

Fonte

Texto original

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  • Primeiro plano da Exposição Nacional de 1908 apresentado pelo Dr. Buarque de Macedo. Revista Kosmos – Ano IV – Número 10 – Outubro de 1907.

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