Canal do Mangue

A PALAVRA “mangue” significa uma planta da família das mirtáceas – a “Eugênia Nítida”. Por extensão, passou-se a chamar “mangue” a todo o alagadiço em que vegeta essa planta.

No Rio de Janeiro, deu-se o nome de Mangue ao imenso pântano que se estendia do Rocio Pequeno (depois Praça Onze de Junho) para cima.

Desde o tempo de D. João VI, houve a ideia de se abrir um canal através deste vasto brejal, até à antiga Praia Formosa[1], para sanear um pouco essa zona, que era um foco de infecção de mosquitos e de exalações desagradáveis. Mas nada se fez: construiu-se unicamente um longo e estreito aterro para passagem das carruagens do monarca e dos fidalgos, que, com frequência, se dirigiam ao Paço Real, na Quinta da Boa-Vista, em São Cristóvão.

Por esse caminho, que se chamou “do Aterrado”, levantou o então Intendente Geral de Polícia, a quem estava afeto o serviço de iluminação da Corte, umas colunas de pedra, distantes 100 passos umas das outras, nas quais foram suspensos grandes lampiões de óleo de baleia. Daí a denominação de Caminho das Lanternas, como, durante muitos anos, ficou conhecida a antiga Rua Senador Euzébio, que também se chamou São Pedro da Cidade Nova, por achar o povo que ela não passava de prolongamento da rua que tinha esse nome na parte antiga da cidade (atual lado par da Avenida Presidente Vargas).

Em 1835, resolveu o Governo Imperial acabar com aquela vasta superfície alagada, reduzindo-a a um estreito canal que recebesse as águas pluviais e a dos riachos da redondeza. Só em 1857, porém, isso se realizou: Irineu Evangelista de Sousa (depois Barão e Visconde de Mauá) obteve a concessão para construir, por administração, esse canal, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 21 de janeiro.

Canal do Mangue

Transcorridos três anos, inaugurou-se, a 7 de setembro de 1860, o Canal do Mangue, que custou 1.378 contos de réis, tendo sido as obras dirigidas pelo engenheiro inglês William Gilbert Ginty.[2]

Seu objetivo era, não somente secar os terrenos circunvizinhos, como também permitir navegação a pequenas embarcações que trouxessem gêneros até à cidade; mas, no fim de alguns anos, os resíduos da Fábrica de Gás, o lodo e o cisco obstruíram essa obra, reduzindo-a a um depósito de lama e de imundícies.

Estendia-se o Canal do Mangue do Rocio Pequeno à Ponte do Aterrado (ou “dos Marinheiros”, como ficou depois conhecida). Somente em 1876 foi completado o seu acabamento, com a colocação de uma comporta junto à ponte, o assentamento do gradil de ferro e a arborização das alamedas marginais, onde foram plantadas cerca de 700 palmeiras.

Finalmente, no quatriênio do Presidente Rodrigues Alves (1902 – 1906), o vasto plano de obras do Cais do Porto exigiu o prolongamento do Canal até ao mar. Foi esta uma das grandes realizações do Ministro da Viação, Dr. Lauro Müller, pois acabou com o alagadiço das antigas praias Formosa e dos Lázaros, saneou e tornou utilizável enorme extensão de terra e pôs fim às constantes enchentes provocadas pela inundação dos rios Comprido, Trapicheiro, Maracanã e Joana.

Conforme se sabe, desde os primeiros tempos da fundação da cidade do Rio de Janeiro, estavam seus moradores habituados a utilizar-se dos mangues, fonte inesgotável da natureza, criada para aliviar a miséria da pobreza, pois, com exuberante fecundidade, subministrava, sem trabalho, o marisco das ostras, as moreiras, os caramurus, os caranguejos e siris, a lenha e madeira para suas choças.

Notas do editor

  1. Atual Rua Pedro Alves em Santo Cristo. Fonte: Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro: Notícia histórica e descritiva da cidade. Prefácio de Gilberto Freyre, desenhos de Luis Jardim e fotografias de Sascha Harnisch. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 2 v. (Edição do IV Centenário, 1965).
  2. Decreto nº 3.485, de 21 de Junho de 1865 – Concede a William Gilbert Ginty privilegio por dez annos para usar, no Municipio neutro e Provincia do Rio de Janeiro, de um processo, de sua invenção, destinado á preparação da turfa.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

Texto original

Mapa – Canal do Mangue

Canal do Mangue