Companhia Cantareira

DA FUSÃO da Companhia das Barcas Ferry com a Empresa de Obras Públicas do Brasil, organizou-se, em 1º de outubro de 1889, a Companhia Cantareira e Viação Fluminense, que passou a explorar o abastecimento d’água de Niterói, o serviço de bondes na mesma cidade (tração animal) e a navegação a vapor entre o Rio de Janeiro e a capital fluminense.

Por ocasião da revolta da armada, chefiada pelo contra-almirante Custódio José de Melo (5/9/1893 a 13/3/1894), paralisou-se durante seis meses, o tráfego marítimo na Baía de Guanabara. Aproveitou então a Cantareira para reformar algumas barcas e substituir por eletricidade a antiquada e deficiente iluminação a querosene. Foi devido a um defeito nessa instalação elétrica que a barca “Terceira”, ao anoitecer de 6 de janeiro de 1895, incendiou-se diante da Estação de São Domingos, vitimando mais de 80 pessoas.

Do segundo grande desastre muitos ainda se recordam: aconteceu com a barca “Sétima”, às 3½ da tarde do dia 26 de outubro de 1915. Regressavam a Niterói 328 alunos do Colégio Salesiano, de Santa Rosa, que tinham vindo tomar parte numa cerimônia em honra do Arcebispo Cardeal Dom Joaquim Arcoverde. Na Enseada da Ponta da Areia, a barca rompeu o fundo num escolho, meteu água, que logo invadiu o recinto das máquinas, e naufragou, matando 27 estudantes de doze a quinze anos e 1 seminarista, o professor Otacílio Nunes.

Praça XV de Novembro com a estação das barcas ao fundo

Na administração do Visconde de Moraes (1903 a 1908), realizou a Cantareira grandes melhoramentos, como a construção de novos flutuantes para facilitar o embarque e desembarque dos passageiros; substituição das velhas barcas por outras mais rápidas e mais confortáveis; construção das novas estações do Cais Pharoux e da Praça Martim Afonso; eletrificação dos bondes de Niterói, etc.

Correram os anos e, em 1925, vigorando ainda as mesmas tarifas de 1905, obteve a empresa permissão para aumentar o preço das passagens de 300 para 400 réis. Em se tratando de passageiros habituais, o aumento seria de apenas 20 réis, devido ao desconto concedido nas assinaturas.

Não obstante, o fato provocou geral descontentamento, tanto aqui como em Niterói. O assunto vinha sendo discutido há muitos meses, justificando a Cantareira, através de notas e entrevistas à imprensa, a necessidade imperiosa do aumento.

Afinal, ficou resolvido que a majoração começaria a partir de 0 hora do dia 1º de dezembro.

Até à manhã desse dia, nada ocorreu de anormal. Às 7h30min, porém, a barca “Niterói” deixou a vizinha cidade repleta de passageiros. Havia a bordo um grupo que se mostrava seriamente exaltado, protestando veementemente contra o aumento.

Repentinamente, sem que ninguém esperasse, um dos mais exaltados partiu uma vidraça com a bengala. Isto bastou para que os demais passageiros, entre gritos, pateadas e assobios, começassem a depredar a barca, arrancando os bancos, quebrando todos os vidros e as lâmpadas, espatifando os aparelhos do toalete e atirando ao mar os salva-vidas.

A impressão era a de que se comemorava ali um “grande sábado de Aleluia”, em que o material da Cantareira fazia de Judas…

Enquanto isso se dava, cenas idênticas se desenrolavam nas barcas “Gragoatá” e “Guanabara”.

A polícia interveio e efetuou muitas prisões; somente à noite, porém, terminou a “manifestação” à Cantareira.

As fotografias mostram a estação do Cais Pharoux, na Praça Quinze de Novembro.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

Texto original

Mapa – Barcas na Baía de Guanabara (Praça XV, Praça Arariboia, Charitas, Cocotá e Paquetá)