Igreja de São Joaquim

POUCO se sabe a respeito da antiga Igreja de São Joaquim. Os livros pouco dizem e os historiadores não se ocuparam dela particularmente.

Monsenhor Pizarro (José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo), descrevendo os seminários do Rio de Janeiro, e Joaquim Manuel de Macedo e o Dr. Moreira de Azevedo, narrando a história do Imperial Colégio de D. Pedro II, a ela fazem ligeira referência. Assim, contam que, no ano de 1758, um velho de nome Manoel de Campos Dias, possuidor de sólidos haveres, tinha levantado uma capela consagrada a São Joaquim, no sítio em que principiava a Rua do Valongo (depois da Imperatriz, hoje Rua do Camerino) e, em 1766, notando as proporções acanhadas da casa do colégio dos órfãos de São Pedro, que ficava atrás da antiga igreja do mesmo nome, ofereceu a estes a capela que fizera erigir.

Secundando esta ação piedosa, outro indivíduo, cujo nome não chegou até nós, mas que se sabe ter sido morador em Minas Gerais, fez também, pelo mesmo tempo e para o mesmo fim, doação de algumas braças de terra que possuía junto àquela ermida, a fim de ser ali edificado o seminário dos órfãos (onde está hoje o Colégio Pedro II), que passaram à proteção do pai da Virgem.

Com o correr dos anos, sob as vistas e amparo dos bispos, os diversos reitores do seminário foram ampliando o estabelecimento e, a pouco e pouco, fazendo construir a igreja de São Joaquim, conforme fossem mais ou menos animadores os recursos que oferecia aos órfãos a caridade pública.

Em outubro de 1817 – já concluída a igreja, que participava parede e meia da vida do seminário – chegou de Portugal uma divisão de tropa, e sendo insuficientes os quartéis da cidade para acomodá-la, lembrou-se o Governo do seminário de São Joaquim. Por Decreto de 5 de janeiro de 1818, D. João VI extinguiu o estabelecimento, removeu os seminaristas para outros colégios e considerou todo o edifício e suas dependências como bens da Coroa. Quanto à igreja, destinou-a para capela dos batalhões e corpos que compunham a divisão lusitana.

Profanado assim o templo (“profanar”, no sentido de retirar uma igreja do culto, despindo-a de alfaias e de imagens), nunca mais teve ele seus dias de esplendor e glória, em que a petizada entoava os seus hinos de festa e de alegria.

É bem verdade que, passados pouco mais de três anos, o Príncipe D. Pedro, procurando reparar a injustiça praticada com os pobres órfãos, promulgou um decreto, em 19 de maio de 1821, restabelecendo o seminário e devolvendo aos seminaristas a sua igreja. Mas esta, bastante dilapidada, com o seu culto muito diminuído e, por fim, também já sem santos nem paramentos, acabou abandonada, entregue ao pó, às aranhas e aos ratos.

Pensou-se, então, em demoli-la para dar passagem às linhas da Estrada de Ferro D. Pedro II (hoje Central do Brasil), cujos trens se pretendia levar até ao mar, na Prainha (atual Praça Mauá). Mas não se realizou esse empreendimento.

Afinal, na administração do Prefeito Francisco Pereira Passos, com o projeto de alargamento da antiga Rua Estreita de São Joaquim, assinou-se, a 27 de abril de 1904, a escritura de cessão da velha igreja à Municipalidade, pela quantia de 200 contos de réis.

No dia 4 de maio, teve começo a sua derrubada. As paredes de grossa cantaria e argamassa de cal e borra de óleo de baleia (“gala– gala”), atestaram o propósito dos construtores d’antanho, de fazerem obra “per omnia saecula saeculorum”… Ruiu, porém, o velho edifício, a golpes de picareta e dinamite, e os seus escombros foram removidos para o aterro da Praia de Botafogo.

A fotografia, tirada da Avenida Marechal Floriano, na direção de quem da Praça da República olha para o mar, mostra a igreja, poucos dias antes da sua demolição. À direita, na mesma direção, vê-se a antiga Rua Estreita de São Joaquim, cuja largura era de 4 metros apenas.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

Texto original

Mapa