Ilha de Paquetá

POUCO depois de lançados os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, na várzea entre o Pão de Açúcar e o morro Cara-de-Cão, Estácio de Sá doou a ilha de Paquetá, em partes iguais, a Inácio de Bulhões (1565) e Fernão Baldez (1566), em atenção aos serviços prestados ao reino de Portugal, na luta travada contra os tamoios.

A ilha, cujo nome parece exprimir “muitas pacas” (“etá” significa, em língua tupi, “grande número”, “quantidade”), era então um forte reduto daqueles índios que, segundo Gastão Cruls, “aproveitavam os cômoros como postos de observação e dali, em caso de perigo, alertavam as aldeias vizinhas, por meio de fogueiras”.

A freguesia de Paquetá foi criada por provisão de 21 de junho de 1769, fazendo parte das vilas de Magé e São Gonçalo, da antiga província do Rio de Janeiro. Por decreto de 23 de março de 1833, foi anexada ao município da Corte. Contava, então, pouco mais de 1.000 habitantes.

A sua primeira capela, dedicada a São Roque, foi erigida pelo padre Manoel Antunes Espinha, em 1697, recebendo a benção para entrar em uso a 24 de novembro do ano seguinte, tendo sido seu primeiro capelão o padre Antônio Ramos Macedo.

Igreja de São Roque em Paquetá
Anualmente, se realiza ali, no dia 16 de agosto, a festa do padroeiro, hoje, infelizmente, sem o brilho e a concorrência de outrora. Conta Vieira Fazenda que, antigamente, desde a véspera daquele dia, atravancavam as praias da ilha dezenas de canoas, faluas e embarcações de todo gênero, repletas de pescadores e homens do mar. Vinham embandeiradas e garridamente engalanadas de flores e folhagens. Cozinhava-se e dormia-se a bordo, aguardando-se o alvorecer do grande dia. Neste, às 3 horas da tarde, chegavam de Petrópolis, Magé, Niterói e da cidade os devotos, em numerosas caravanas. A festança conservava a primitiva feição colonial, com as célebres corridas de argolinhas, as infalíveis cavalhadas, os descantos líricos, terminando sempre com um concorrido leilão de prendas. Às 10 horas da noite, após os fogos de artifício, começava o movimento de retirada, e de terra e do mar ouviam-se as aclamações do povo, dando vivas “a São Roque pro ano”. E tudo acabava em alegria e santa paz.

A igreja matriz de Paquetá é a do Senhor Bom Jesus do Monte, cuja primitiva capela, construída por Manoel Cardoso Ramos, data de 1758.

Praia de São Roque em Paquetá
Tanto a antiga capela de São Roque como a do Senhor do Bom Jesus do Monte foram inteiramente reconstruídas, nada restando como lembrança dos primitivos templos. Esta última foi reedificada em 1900, às expensas do comendador Antônio Martins Lage, que pagou pelas obras mais de 200 contos.

Poetas e prosadores têm enaltecido as belezas naturais da “Ilha dos Amores”, como a chamava Dom João VI. Dom Pedro I, José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Evaristo da Veiga e Carlos Gomes, dentre muitos outros personagens ilustres, foram seus entusiastas.

Assim começava uma poesia de Manuel J. Gonçalves Júnior, publicada, no século passado, no “Arquivo do Retiro Literário Português”:

Surgindo d’água à flor, coberta de verdura
O mar em torno dela, assim branco murmura:
– “Tu és da Guanabara a mais formosa filha;
“Nenhuma como tu, no seu regaço brilha;
“Tão bela e tão louçã, ó Paquetá saudosa!
“Eu mesmo, nos vai-vens da luta porfiosa,
“Ao ver o solo teu coberto de verdores,
“Em ti penso beijar a Ilha dos Amores”.

A fotografia destacada mostra um aspecto da festa de São Roque, no começo deste século do Século XX. As demais fotografias exibem imagens atuais da Ilha de Paquetá.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

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