Inauguração do Monumento de Cabral

Amanhecera chuvoso o dia 3 de maio de 1900. Nuvens densas, cor de chumbo, encobrindo o horizonte, não permitiam esperar dia propício para uma solenidade pública. Não obstante, desafiando a chuva, o povo, desde cedo, acorreu à rua para saudar a faustosa data do quarto centenário do descobrimento do Brasil.

Do largo do Machado ao da Lapa foram levantadas duas fileiras de mastros, aos quais estavam suspensos galhardetes de diferentes feitios e variadas cores. De um mastro a outro pendiam festões de flores artificiais de belo efeito.

Por volta das 7 horas a chuva cessou e entre as nuvens que se acumulavam ameaçadoras apareceu uma nesga de céu azul. Quando, afinal, surgiram os primeiros raios de sol, a alegria despontou em todos os semblantes.

A essa altura, as ruas da Lapa e do Catete, os cais da Glória, do Russel e do Flamengo e o Largo da Glória estavam apinhados de povo.

Às 8 horas da manhã teve início o desfile das tropas, sob o comando do Gen. Feliciano Mendes de Moraes, obedecendo ao seguinte itinerário: Praça da República, ruas Visconde do Rio Branco, Lavradio, Riachuelo, Evaristo da Veiga, Visconde de Maranguape, largo e rua da Lapa, Glória e Catete. Aí estendeu-se em linha, desde a Praça da Glória até além do Largo do Machado.

Às 10 horas o Presidente da República, Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles, acompanhado de todo o Ministério, passou revista às forças e, em seguida, assistiu à missa campal no Campo do Russel, onde foram improvisados um altar com uma grande cruz de madeira medindo 12 metros de altura por 4 de largura, e, em redor, uma floresta artificial armada de ramos de árvores, dando ideia do ato grandioso traduzido no quadro da “Primeira Missa” no Brasil.

Terminada a cerimônia religiosa, S. Exa. e mais pessoas gradas dirigiram-se ao Largo da Glória, onde eram esperadas para a inauguração do Monumento do Centenário.

Mais de 50.000 pessoas apinhavam-se nas imediações, ansiosas de ver desvendada a bela estátua do escultor Rodolfo Bernardelli.

O Dr. Campos Salles caminhou entre a multidão até ao pedestal e segurou o cordão de seda verde e amarelo preso ao véu que encobria o monumento. Fez-se grande silêncio. Milhares de peitos se preparavam para o grito uníssono da aclamação. Ao iniciar O Hino Nacional, S. Exa. puxou o cordão, mas … nada. Deu outro puxão … também nada. A chuva que caíra instantes antes molhara o nó corrediço, não deixando que este se desfizesse. Que situação!

Era impossível retirar os longos véus que escondiam a estátua. Foi nessa aflitiva conjuntura que, subitamente, surgiu da multidão um homem – o cearense Martim Francisco de Paula – e, com espanto de todos, galgou resolutamente o grande monumento, venceu toda a extensão do corpo da estátua, subiu pela haste da bandeira que Cabral desfralda e, a um movimento brusco, retirou a cortina. A multidão em delirante entusiasmo ovacionou o herói que descobrira o descobridor do Brasil…

A fotografia mostra um aspecto dessa inauguração no memorável dia 3 de maio de 1900 A fotografia mostra o Monumento a Pedro Álvares Cabral no Largo da Glória em 2010.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

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