Morro da Viúva

ANTIGAMENTE, quem quisesse ir da Praia de Botafogo à do Flamengo não podia dar a volta ao Morro da Viúva, como agora se faz pela Avenida Rui Barbosa, de 1.100 metros de extensão, antes chamada “do Contorno”. Deve-se ao Prefeito Carlos César de Oliveira Sampaio a abertura desse importante logradouro, em 1921.

Quando Francisco Pereira Passos construiu a Avenida Beira-Mar, em 1904/1906, não se afoitou a contornar aquele morro de granito, preferindo ligar as duas praias por uma reta de 200 metros, a que deu o nome de Avenida de Ligação, mudado em 1917 para Avenida Oswaldo Cruz.

O Morro da Viúva, com apenas 79 metros de altitude, mantém essa denominação desde meados do século passado, quando se tornou propriedade da viúva Joaquina Figueiredo Pereira de Barros, por herança do marido Joaquim José Gomes de Barros. Antes, pertencera à Marquesa de Paraná (mulher de Honório Hermeto Carneiro Leão, que foi Ministro da Justiça aos 31 anos de idade).

Alexandre José de Mello Moraes, na sua “Crônica Geral e Minuciosa do Império do Brasil”, publicada em 1878, informa que a primeira casa de pedra e cal que se construiu no Rio de Janeiro foi junto ao sopé desse morro, mandada levantar por Villegagnon, em 1556, para o fabrico de tijolos. Nela residiu o navegador e historiador francês Jean de Lery e, mais tarde, em 1568, o primeiro juiz ordinário desta cidade, nomeado por Mem de Sá, Pedro Martins Namorado. Daí o nome de “Lery” (e por corrupção “Leripe”), pelo qual era conhecido antigamente o Morro da Viúva.

Esta versão, porém, é contestada por outros historiadores que não encontram na palavra “Leripe” qualquer ligação com o nome do navegador francês. Seria antes uma corruptela da palavra “riri”, de origem tupi (“riripe”, “reripe” e por fim “leripe”), que significa ostra, pois havia muitas por ali. Mestre Vieira Fazenda, por seu turno, diz que o primitivo Morro do Lery foi o da Glória.

No Morro da Viúva existiam, até recentemente, vestígios de um forte, construído por ocasião da rumorosa “Questão Christie”, de que já tratamos em outro escrito. “Era uma bateria levantada em 1863 – informa o engenheiro-militar Augusto Fausto de Souza – com o fim de defender a Baía de Botafogo e a Enseada do Flamengo, até em frente do Passeio Público, auxiliando a defesa de algumas das faces das fortalezas de São João, Lage e Villegagnon. O espaço acanhado de que dispunha a mesma bateria, a pouca elevação e a facilidade de ser ofendida por fogos curvos, não permitiram ligar a esta obra grande importância”. Eis, provavelmente, porque foi abandonada a posição.

Há, também, no topo desse morro, um reservatório, feito em 1880, para armazenamento de cerca de seis milhões de litros d’água, provenientes das sobras da Represa dos Macacos, no Jardim Botânico, e das águas canalizadas do Rio Tinguá. Destinava-se, quando foi construído, a abastecer todo o “arrabalde” de Botafogo.

A fotografia destacada, tirada do lado do Flamengo, mostra antiga pedreira do Morro da Viúva, exatamente onde começa a atual Avenida Rui Barbosa. Em 1618, os frades de São Bento aforaram, nesse local, 20 braças, a 200 réis a braça por ano, a fim de tirar pedra para as obras da sua igreja e mosteiro.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

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