Rua da Guarda Velha

ANTIGO caminho, aberto no século da colonização, à margem da Lagoa de Santo Antônio, denominou-se, depois de aterrado esse brejal, Rua Bobadela, em honra do último governador da Capitania do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela (1733-1763).

Havia, então, no começo desta rua (no sítio onde esteve até recentemente o Hotel Avenida), um corpo de guarda, encarregado de manter a ordem entre os escravos que iam buscar água ao chafariz da Carioca, mormente em ocasiões de seca, quando os aguadeiros, em algazarra, disputavam a primazia em encher seus barris e potes. Daí passarem a chamá-la de Rua da Guarda Velha.

O apelido ficou e, apesar de ter recebido em 1888 a atual denominação de “Treze de Maio”, em memória da data da abolição da escravatura no Brasil, ainda no começo deste século muitos não a conheciam senão por aquele nome.

Conta Ferreira da Rosa que foi nessa rua que, em 1863, o industrial Bartolomeu Corrêa da Silva inaugurou a primeira fábrica de cerveja do país. Contíguo ao estabelecimento fabril, instalou um parque pitoresco com mesas e cadeiras, à sombra de árvores, e alguns divertimentos para atraírem a freguesia. Aos domingos e feriados e nas tardes calmosas, o jardim enchia-se literalmente, havendo uns bailes famosos que fizeram época.

Em pouco tempo, a cervejaria ganhou fama e o carioca referindo– se ao local ou à saborosa bebida, começou a chamar-lhe “Cervejaria da Guarda Velha” e cerveja “Guarda Velha”. O fabricante cedeu à sugestão popular: rotulou seu produto com esse nome.

Em 1885, quando foi aberta a Rua Senador Dantas, ela desembocou justamente onde corria o gradil e se abria o portão da Cervejaria da Guarda Velha. Mudou-se, então, a fábrica para o prédio n.º 52 do novo logradouro e o parque para o lado oposto, no n.º 57, ocupando um terreno de 53 metros de frente por 28 de fundos, no sopé do morro de Santo Antônio, onde foi até há bem pouco tempo a Garage Royal.

Entrava-se no parque, todo plantado de amendoeiras e palmeiras, por um airoso portão de ferro. No interior, havia um chalé e, em torno, cerca de 200 mesinhas de ferro, pintadas de verde, e caramanchões. A música fazia se ouvir em dobrados, valsas, polcas e maxixes e a alegria mais comunicativa se derramava pela multidão em fervente garrulice. Este segundo jardim da Guarda Velha veio até aos nossos dias.

A gravura, reproduzida da “Ilustração Brasileira” de 1878, mostra o começo da Rua da Guarda Velha (trecho absorvido pelo novo jardim do largo da Carioca), vendo-se, ao centro, o antigo edifício da Imprensa Nacional, em estilo gótico manuelino, construído quatro anos antes pelo Visconde do Rio Branco, então Ministro da Fazenda, e, no canto, à direita, parte do velho chafariz da Carioca e a escadaria para o convento e igrejas de Santo Antônio e São Francisco da Penitência. Por cima do telhado da Imprensa Nacional, vislumbra-se, ao fundo, a coberta do Teatro Lírico, também já desaparecido.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

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