Copacabana

A alta montanha chamada Babilônia, e outros volumes de gnaisse mais ou menos cobertos de vegetação que se estendem na direção da pedra da Gávea, a SO., separam Botafogo do Oceano Atlântico. Para além desses montes correm a costa e praias do Sul do Distrito Federal e os novos bairros de Leme. Copacabana, Ipanema e Leblon.

Rapidamente, qualquer veículo chega a esses bairros, traspassando o granito por um dos dois túneis nele rasgados.

Copacabana permaneceu até os últimos anos do século XIX coberta de cajueiros, pitangueiras, jambeiros, araçazeiros e maçarandubeiras; era um areal enorme, agreste, qual o conheceram nos séculos anteriores ao XVI os silvícolas que lhe chamavam Sacopenopã. Nesse estado rude povoavam-na uns pescadores – lançavam suas redes, e dormiam em palhoças, deitavam suas redes, e colhiam peixe à farta. Sobre um promontório existia uma igrejinha que a devoção erguera a Nossa Senhora de Copacabana, nome de origem muito controvertida (163) e que suplantou o nome indígena. Contornando dunas, subindo a Ladeira do Leme, transpondo o velho Forte (ali construído em 1778 pelo Marques de Lavradio, receoso de um desembarque inimigo), ou transpondo Vila Rica, outra garganta mais a Oeste, esses pescadores vinham à Cidade fazer seu negócio, assim como da Cidade iam devotos render suas homenagens à Virgem; e iam também pedestres curiosos em busca de novos ares, novos horizontes. Quem via Copacabana declarava encantador o espetáculo do céu, do mar e das praias.

“Entre rolos de espuma ruge e brama
Na curva praia a onda buliçosa”

Mas a distância era grande, e os comodistas contentavam-se com ficar sabendo que para além daqueles montes havia mais espaço para vida, largueza e respiração da Cidade.

Em 1891 a Companhia Ferro Carril Jardim Botânico, cujos bondes, aliás, já se anunciavam para Copacabana, sem passarem da Rua Real Grandeza, no sopé de Vila Rica, abriu um túnel aí na rocha para que as suas linhas chegassem imediatamente à extensa, decantada e futurosa praia. A facilidade de transporte levou lá meia população ávida de contemplar a imensidade de luz, de colorido e de movimento das águas que são lendário manto espesso de profundos mistérios, e que se adelgaçam transparentes, espumando rendas na areia. Não faltou quem adivinhasse o porvir de tão graciosa localidade. Chãos foram adquiridos, divididos e subdivididos, a preços crescentes. Interveio a Municipalidade; mas, infelizmente, tarde para impedir que o domínio particular se abeirasse tanto das ondas reduzindo muito o logradouro público da beira-mar. Os materiais afluíram, construções mil se fizeram. Copacabana é hoje um arrabalde primoroso, com mui to comércio, cerca de cinco mil casas, algumas de linda arquitetura, e a 45 minutos da Cidade.

É uma perfeita e ampla vila balneária, desde um extremo N. chamado Leme até o extremo S. chamado Leblon.

A praia é extensíssima, e toma varias denominações. Acompanha-a a Avenida Atlântica, obra arrojada e formosíssima do Prefeito Paulo de Frontin. Correm pela Avenida os automóveis de passeio, e ao longo passam embarcações de todos os portes e de todos os portos. Ilumina-se á noite, fulgurante, a Avenida; e cintila ao largo, solitário, o Farol da Rasa. A arrebentação das ondas enche o ar de sons e de sais. É festival para os olhos e salutar para o sangue este luminoso flanco ela Cidade.

Longos anos os moradores do Rio de Janeiro se contentaram com as águas que banham o litoral da sua baía: Retiro Saudoso, Caju, São Cristóvão, Santo Cristo, Saco do Alferes, Gamboa. Saúde, Santa Luzia, Lapa, Glória, Russell, Flamengo, Botafogo (164), e as praias das ilhas Paquetá e Governador. A população, porém, cresce e procura lagares novos que dêem novas sensações. Copacabana impôs-se logo como sítio privilegiado; Gozando-se ali a pompa do cenário entre a mata e o mar, respira-se aquele ambiente feito nos dois grandes laboratórios do mar e da mata.

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Por exigências do tráfego crescente a mesma Companhia de bondes abriu em 1904 um novo túnel, de 200 metros como o primeiro, mais largo e melhor, através da rocha sobre que existiu o estratégico Forte do Leme. É o chamado “Túnel Novo”, próximo da Praia da Saudade.

Notas

163. São do erudito escritor João Ribeiro as seguintes linhas nO Imparcial de 11 de Outubro de 1920:

“No Brasil o influxo das civilizações novas do Pacífico é apenas perceptível. Entretanto, aqui mesmo no Rio, há um vestígio poético e religioso do tempo em que o domínio espanhol dava unidade à península Ibérica. Por quase um século éramos espanhóis. Por esse tempo, entre Peru e Bolívia o zelo da fé cristã fazia destruir um templo dos Incas numa solitária ilha aonde acorria o gentio supersticioso, esperando dos seus deuses o milagre de consolação e remédio para as misérias humanas.”

“O Cristianismo destruiu aqueles deuses e aquela idolatria e repôs no templo incaico a imagem de Nossa Senhora. A continuidade dos milagres não se interrompeu e, antes, avultou e centuplicou com a imagem de Maria na ilha de Copacabana. Esse culto de Nossa Senhora da Copacabana passou da solitária ilha do Peru a todo o domínio espanhol com a fama de todas as virtudes e maravilhas da Virgem Santa, e, então, aqui mesmo junto ao Oceano surgiu numa aldeia de pescadores a igrejinha da Santa onde é o mais admirável recanto da Cidade.”

“O velho nome tupi – Sacopenopan – cedeu ao vocábulo quéchua, Copacabana que migrava assim desde vertentes do Pacífico às praias do Oceano Atlântico.”

164. A construção do Cais Acostável e da Avenida Beira-mar fez desaparecer a maioria dessas praias com que as águas da Guanabara bordavam a Cidade.

Fonte

  • Rosa, Francisco Ferreira da. Rio de Janeiro em 1922-1924. Rio de Janeiro: Typographia do Annuario do Brasil (Almanak Laemmert), 1924. 222 p. (Coleção Memória do Rio 3 - Reprodução).

Imagem destacada

  • Copacabana vista do Costão do Leme.

Mapa – Bairro de Copacabana