Floresta da Tijuca

O bonde segue a margem esquerda do rio Maracanã, coleando o contraforte da serra da Tijuca que domina o Andaraí; e, metendo-se pela estrada de três quilômetros com rampas de 10%, e curvas de 14 metros de raio, chega ao Alto da Boa Vista, 358 metros sobre o nível do mar. Pára 1 quilômetro adiante, na Estrada das Furnas, e volta ao centro da Cidade pelo mesmo caminho de ida.

No Alto da Boa Vista há uma praça de 15.000 m2, lindamente ajardinada desde 1903.

É muito frequentada; tem botequim a um lado, e coreto, ao centro, para música. É o vestíbulo da Floresta da Tijuca – diadema verdejante da Capital da República.

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Devemos essa floresta ao Visconde do Bom Retiro que foi Ministro do Império em 1857. Roças velhas, morros esgotados de humo, cobertos de samambaias e de capim gordura, totalmente ravinados, foram adquiridos pelo Governo, e entregues ao cuidado administrativo do major Manoel Gomes Archer, hábil silvicultor. Até 1874 o trabalho consistiu em limpar as nascentes, regularizar o curso das águas, fazer estradas, fixar o solo da montanha, sistematizar a arborização. Nas matas virgens de Guaratiba foram escolhidas as essências mais adequadas para constituírem a Floresta da Tijuca: Araribá, bicuhyba, canela batalha, canela limão, cedro-rosa, goiabeira cascuda, guarajubá, guarapiapunha, guaretá, jacarandá-tan, jequitibá, pau-brasil, e tantas outras madeiras de lei, foram semeadas em viveiros, e plantadas, aos milhões, com eucaliptos de seis espécies diversas, e imbus, camurús, mangabas – infinita variedade de caules, imensa variedade de frondes.

Da magnificência da Floresta da Tijuca só pode fazer idéia quem lhe percorre as extensas alamedas com mais de 20 quilômetros de desenvolvimento, em suas diferentes seções, graciosamente traçadas por encostas, saliências e reentrâncias, elevações e depressões do grande acidente geográfico. Aí se encontram os tipos mais notáveis da riqueza florestal dos trópicos; aí se nos oferecem admiráveis paisagens quer estendamos o olhar por horizontes longínquos, quer contemplemos o esplendor dos quadros que nos rodeiam.

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Quem do Alto da Boa Vista caminha para o N. chega breve, à Cascatinha. É ameno o sítio. O ininterrupto, uníssono fragor das águas que se despenham de uma altura de 30 metros enche o espaço de frescura e o espírito de suavidade. A natureza pura está aí perfeitamente enquadrada. As naiades que a Mitologia grega desenha com tanta doçura não podiam ter dado vida e amor a cenário mais iluminado nem a solidão mais cariciosa. Aqui alva como franjas de jaspe, ali transparente como lençóis de cristal, a água desce batendo nos diferentes planos da rocha íngreme cujas arestas vai quebrando e, de século em século, afeiçoando às conveniências do seu infinito rolar.

O transeunte pára extático, feliz, sorridente, e surpreende a alegria do inanimado expressa naquela aglomeração vegetal estendendo os ramos para a clareira úmida, cobrindo-se de aljôfares, e acompanhando, em surdina, as vozes da cascata.

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A estrada continua, larga e flanqueada de arvoredo. O declive é suave. Caminha-se uma, duas e três horas, á sombra, ouvindo, apenas, o chilrear da passarada, o murmúrio das folhas que a aragem balança. Aqui um regato, ali uma grota, adiante uma ponte rústica sobre um hiato da montanha; de quando em vez uma abertura na mata, deixando que a vista dardeje o panorama longínquo da Cidade.

Dois mil oitocentos e cincoenta e um metros depois do Alto da Boa Vista o passeante chega ao planalto do “Bom Retiro”, nome que não somente exprime homenagem ao titular do Império que deliberou fundar a Floresta, como traduz, realmente, a serenidade poética desse remanso, a 659 metros de altitude.

Fonte

  • Rosa, Francisco Ferreira da. Rio de Janeiro em 1922-1924. Rio de Janeiro: Typographia do Annuario do Brasil (Almanak Laemmert), 1924. 222 p. (Coleção Memória do Rio 3 - Reprodução).

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Imagem destacada

  • Cascatinha vista por baixo da Ponte Job de Alcântara, na Floresta da Tijuca.

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