Largo da Carioca

O Largo da Carioca é dos mais antigos logradouros da Cidade. Cronologicamente, é o segundo, sendo primeiro o que hoje se chama Praça XV de Novembro. Já houve aí um Forte, encostado ao morro, voltado para a baía, defendendo o povoado das sempre temidas invasões estrangeiras; já houve aí um Cemitério de escravos, por doação dos frades de Santo Antônio instalados no morro. Chamou-se, então, “Campo de Santo Antônio”. Onde estivera o Forte, onde esteve depois o Cemitério levantou-se em 1748 o Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, e aí permaneceu até 1905, erguendo-se no mesmo lugar o vasto edifício hoje existente, e cujo corpo central é ocupado pelo “Correio da Manhã”.

Fronteiro a este acha-se o escritório d’“A Noite”.

Em redor do Largo da Carioca há umas vinte lojas com estabelecimentos comerciais. O movimento de veículos e de peões é ininterrupto. O meio do Largo é ajardinado, e no meio do jardim, entre copados oitis, brilha à noite um lampadário.

Domina o Largo do lado Sul a pesada construção de um chafariz, substituto de outro bem mais elegante que trouxe o nome ao lugar porque a água corrente de suas torneiras era a famosa água do Rio Carioca.

Nasce este rio na (Floresta da) Tijuca, acima das Paineiras. Tinham fama de excelentes as suas águas. Rocha Pitta registra, como já vimos, a tradição de que as águas do Carioca “davam vozes suaves aos músicos e mimosos carões às damas”. Esse nome – Carioca – apelida os naturais da Cidade. Que quer dizer Carioca?

Há explicações atribuídas a João de Lery, Monsenhor Pizarro, Cônego Fernandes Pinheiro, Von Martius, Adolpho Varnhagen, em muitas parecendo que laborou a fantasia. Alfredo do Valle Cabral, estudioso funcionário que houve na Biblioteca Nacional, optava pela conjectura de Lery, que é dos mais antigos escritores sobre coisas do Brasil, e admitia Carioca como originado de kaa-ry-og – palavras tupis que significam “corrente saída do mato ou do monte”.

Os capitães mores e governadores que se sucediam na administração da Cidade bem desejavam canalizar essa boa água para o centro do povoado que dispunha somente de cacimbas; não tinham, porém, meios de empreender tão grande obra. Em 1672 o Governo da Metrópole autorizou verba para esse fim; e em 1673 João da Silva e Souza, 32º Governador do Rio de Janeiro, deu princípio ao encanamento do Carioca. Parece, entretanto, que se não fez de tal verba uma aplicação rigorosa, porquanto só em 1700, vinda lá do alto, costeando o morro em calha de telhas, chegou a água a um ponto que hoje se pode indicar como princípio da Ladeira de Santa Tereza e das ruas Riachuelo e Evaristo da Veiga. Aí se lançava em largo tanque. Daí, em barris, cântaros, potes e mais vasilhas, a criadagem transportava a linfa cristalina para as melhores casas da Cidade de dez mil habitantes.

Havia promessa de aproximar mais do centro a água preciosa; mas foi necessário antes reparar todo o aqueduto até as origens; e sobrevieram as invasões francesas de 1710 e 1711 perturbando tudo. Por muitos anos quem quis água do Carioca mandou buscá-la naquele ponto que era tido por “muito distante” do comércio e residências.

O 60º Governador, Aires de Saldanha (1719-25) empreendeu levar a água ao “Campo de Santo Antônio”. Essa obra foi concluída em 1723. A presença do chafariz mudou, então, o nome ao local.

Em 1732 D. João V nomeou Governador do Rio de Janeiro o intrépido militar Gomes Freire de Andrade que depois foi Conde de Bobadella. Entre outros atos de sua brilhante administração Bobadella reformou completamente o longo aqueduto de 8 quilômetros no morro de Santa Tereza, estendeu-o deste morro ao de Santo Antônio por cima de uma alta arcaria que construiu com a maior solidez. Só então ficou definitiva e perfeitamente canalizada a água, e inaugurado o Chafariz da Carioca.

O chafariz de Ayres de Saldanha apresentava traços e ornatos característicos do estilo barroco; lançava água por 16 carrancas de bronze. Bobadella conservou-o. Em 1830, já no Império, foi demolido por apresentar ruína. Improvisou-se, então, um de madeira até ser construído o atual, sem beleza alguma, com 35 torneiras de bronze, e inaugurado em 7 de Abril de 1834. (136)

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Largo da Carioca, com o Chafariz da Carioca na frente e o Convento de Santo Antônio no fundo por Eduard Hildebrandt (1844), via Kupferstichkabinett der Staatlichen Museen zu Berlin

Por trás do Chafariz da Carioca abria-se aladeirada uma passagem para o Convento e igrejas de Santo Antônio e de São Francisco que lhe são contíguas. Parte dessa ladeira é agora leito da linha de bondes da Companhia Ferro Carril Carioca que aí tem a estação inicial de seu tráfego para o Morro de Santa Teresa, ao longo do antigo Aqueduto, até alcançar a E. F. do Corcovado, no Silvestre.

A Ferro Carril Carioca contorna por Leste o Morro de Santo Antônio, a 30 metros de altura, e aproveita como viaduto entre os dois morros o Aqueduto levantado no século XVIII. Por lá andaremos.

A estação inicial desta linha de bondes tem o n.º 2 da Rua 13 de Maio que começa no Largo da Carioca; e, logo, em seguida, vê-se o grande edifício da Imprensa Nacional, estilo gótico manuelino. (137)

No vestíbulo desse edifício há uma lápide com a seguinte legenda:

Sob o Reinado de S. M. o Senhor D. Pedro II foi começado este edifício a 26 de Agosto de 1874, sendo Ministro da Fazenda o Visconde do Rio Branco; continuado e concluído a 31 de Dezembro de 1877, sendo Ministro da Fazenda o Barão de Cotegipe. Plano e direção do Engenheiro Dr. A. de Paula Freitas.

Aí se faz a maior parte das impressões oficiais, inclusive o “Diário Oficial”. Em 1911 houve neste edifício um incêndio que quase completamente devastou oficinas e arquivos.

À Imprensa Nacional segue-se o velho Teatro Lírico onde na segunda metade do século XIX cantaram artistas da maior celebridade. Faz a esquina da Rua Senador Dantas, e tem na sua frente o Liceu de Artes e Ofícios (n.º 1 da Rua 13 de Maio), antiga instituição que gratuitamente dá ensino literário e artístico, e abre ao público a sua biblioteca; é oriunda da Sociedade Propagadora das Belas Artes, e mantida com subsídios oficiais. (138)

Notas

136. Em relação a este chafariz há uma nota na obra do Padre Luiz Gonçalves dos Santos; há uma “Memória Histórica” do Cônego Fernandes Pinheiro, no Tomo 25 da Revista do Instituto Histórico, há importantes notícias no Ostensório Brasileiro (1846); no O Rio de Janeiro do Dr. Moreira de Azevedo (1877), e n’O Comentário de Ferreira da Rosa (Abril de 1906).
137. A propósito, vale bem a pena de contar que foi somente na presença do Príncipe Regente Dom João que Rio de Janeiro teve ostensivamente uma tipografia, coisa até então proibida “porque podia ser instrumento de propaganda infensa aos interesses do Estado”. Em 1744 estabelecera-se aqui com tipografia, sob a proteção do Conde de Bobadella, Antônio Isidro da Fonseca que tinha em Lisboa o mesmo negócio; mas vieram logo de Portugal ordens, terminantes para encerramento da oficina.

Só no dia 13 de Maio de 1808 apareceu um Decreto fundando a Imprensa Régia “onde se imprimam exclusivamente toda a legislação e papéis diplomáticos que emanarem de qualquer Repartição do meu real serviço, e se possam Imprimir quaisquer obras”.

Foi Dom Rodrigo de Souza Coitinho, depois Conde de Linhares o inspirador desse Decreto. Para administrar a Imprensa Régia foram nomeados em Comissão o Desembargador José Bernardes de Castro – José da Silva Lisboa, depois Visconde de Cairu – Mariano José Pereira da Fonseca, depois Marquês de Maricá – Silvestre Pinheiro Ferreira – M. F. de Araújo Guimarães, e o Cônego Francisco Vieira Goulart. Revisor de provas, José Saturnino da Costa Pereira.

A Imprensa Régia em 1822 passou a chamar-se Tipografia Nacional; e em 1889 Imprensa Nacional.

Do Dr. Antônio de Paula Freitas há, publicada em 1877, uma boa monografia sobre a Tipografia Nacional. Publicado em 1881, por Alfredo do Valle Cabral, existe um volume Annaes da Imprensa Nacional.

138. Foi a Sociedade Propagadora das Belas Artes fundada em 1856 pelo Arquiteto Francisco Joaquim Bitencourt da Silva – de pais açorianos, e nascido em viagem para o Brasil. Tem por fim promover o desenvolvimento e perfeição das artes, e manter um Liceu de Artes e Ofícios que facilite a nacionais, e a estrangeiros o estudo das belas artes, não só como especialidade, mas, também, como aplicação aos ofícios e indústrias.

Eleito Secretário Perpétuo da Sociedade que fundou, Bitencourt da Silva organizou e dirigiu o Liceu a que consagrou o máximo da sua atividade e paternal dedicação. Coube-lhe a fortuna de ver a Sociedade próspera e o Liceu reputadíssimo. Quando em 1911 faleceu o benemérito fundador a Sociedade Propagadora das Belas Artes elegeu para substituí-lo como Secretário o BeI. P. J. Bitencourt da Silva Filho; que é ipso facto o Diretor do Liceu.

Foi sob a hábil direção deste, e com auxílio oficial, que se construiu o vastíssimo edifício em que o Liceu hoje funciona, sem, aliás, ocupá-lo todo.

Fonte

  • Rosa, Francisco Ferreira da. Rio de Janeiro em 1922-1924. Rio de Janeiro: Typographia do Annuario do Brasil (Almanak Laemmert), 1924. 222 p. (Coleção Memória do Rio 3 - Reprodução).

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Largo da Carioca