O Centenário

Para comemorar o 1.º Centenário da Independência Política do Brasil houve muito quem pensasse numa Exposição Nacional; depois numa Continental Americana; não sei como prevaleceu, em 1921, a ideia de uma Exposição Universal.

Vista Parcial

Desde logo se tratou do lugar onde deveria ser instalada a Exposição; e, nesta Cidade de 1.116 quilômetros quadrados, com tanto terreno desocupado, áreas vastíssimas na zona suburbana – tão necessitada de melhoramentos, teve surto e realização a lembrança de se criar uma superfície nova para o grande certame comemorativo!

O Prefeito, Professor das Escolas Politécnica e Naval, homem instruído, viajado, imaginoso e prático, dispusera-se a realizar o muito desejado e necessário arrasamento do “Castelo”, um morro sem higiene, sem estética, sem utilidade, antes rude obstáculo ao arejamento da zona comercial. Não faltaria onde lançar a terra dele proveniente; mas como havia pressa, pareceu mais cômodo e expedito lançá-la mesmo ali, por assim dizer, no sopé do morro, dentro d’água, na baía do Rio de Janeiro!

A estranheza do público foi grande; mas divulgada a notícia de que sobre o terreno com que se ampliasse a Avenida Beira-mar (Santa Luzia, Lapa, Glória) se traçaria, formosa, a “Avenida das Nações” da Grande Exposição do Centenário, a surpresa converteu-se em expectativa. Todos se conformaram.

O desmonte já estava iniciado. O aterro foi-se alastrando. A ponta Leste da Cidade avançou rápido, puxando quinhentos metros na direção de Villegagnon. Ao mesmo tempo o Morro da Viúva era contornado por uma bela Avenida talhada no granito: É a Avenida Rui Barbosa, novo trecho da Avenida Beira-Mar. Saneava-se e embelezava-se a Lagoa Rodrigo de Freitas; canalizava-se o Rio Maracanã, no Engenho Velho, pelo centro de outra nova Avenida; traçava-se a “Avenida do Exército”, em São Cristóvão; e outras muitas obras simultaneamente se executaram neste ano.

Afluíram trabalhadores de todos os campos, desprezando a Lavoura por amor dos altos salários que a pressa oferecia. Revezavam-se turmas de milhares de operários, noite e dia; e fez-se atabalhoadamente, ofegantemente, dispendiosissimamente, em poucos meses o que – está fora de dúvida – se podia ter feito com mais tempo, mais estudo, mais calma, mais acerto, e muito menos dinheiro.

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No dia 7 de Setembro de 1922, sobre o aterro de Santa Luzia, onde fora a Avenida Wilson, estava lançada, realmente, a Avenida das Nações. Na área que fora do antigo Arsenal de Guerra avultavam palácios de grandiosa arquitetura, composição graciosa de artistas nacionais. Procedeu-se oficialmente à inauguração da Exposição, havendo, apenas prontos, acabados na véspera, o “Palácio das Festas”, e os pavilhões da Bélgica, Dinamarca, Inglaterra, França, Japão, e Grandes Indústrias Nacionais. Estavam por acabar, a meio construídos ou apenas esboçados, o Pavilhão dos Estados, o das Pequenas Indústrias e o da Estatística (nacionais), e os pavilhões do México, dos Estados Unidos da América do Norte, da Argentina, de Portugal, da Suécia, da Noruega, da Itália e da Tchecoslováquia.

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Ao Rio de Janeiro chegavam diariamente forasteiros do interior e do exterior. Desde Agosto que desembarcavam no Rio de Janeiro representantes diplomáticos de nações amigas. Até 6 de Setembro estavam acreditados junto do Presidente da República do Brasil os Delegados Especiais da Alemanha, Argentina, Bélgica, Bolívia, Bulgária, Canadá, Chile, China, Colômbia, Cuba, Dinamarca, Estados Unidos da América do Norte, Equador, Espanha, Grã-Bretanha, Itália, Japão, México, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Portugal, São Salvador, Suécia, Suíça, Tchecoslováquia, e Uruguai; assim como o Pontificado Romano.

Foi perante esses diplomatas, e mais estrangeiros e brasileiros distintos que o Sr. Presidente da República, no dia 7 de Setembro de 1922, depois de passar Revista às tropas em Parada, assistiu na Praça Deodoro ao desfile das mesmas, vendo-se em primeiro lugar os contingentes estrangeiros em fraternal solidariedade com as forças nacionais:

Marinheiros e soldados navais dos encouraçados norte-americanos Maryland e Nevada;

Marinheiros japoneses dos encouraçados IwateIsuno e Azuma;

Marinheiros ingleses dos encouraçados Hood e Repulse;

Marinheiros argentinos do encouraçado Moreno;

Marinheiros uruguaios do cruzador Uruguay;

Marinheiros portugueses dos cruzadores República e Carvalho Araújo; e

Colégio Militar de México.

Cada bandeira era precedida da sua banda de música. Era um extraordinário e emocionante espetáculo.

Depois desfilaram as forças brasileiras:

Brigada de Marinha, composta da Escola Naval, Marinheiros Nacionais, Reserva Naval, Tiro Naval de Santos e Batalhão Naval;

Companhia de Carros de Assalto; Colégio Militar do Rio de Janeiro; 1.ª Brigada de Infantaria – 1.º e 2.º Regimentos de Infantaria, 1.ª Companhia de Metralhadoras; 2.ª Brigada de Infantaria – 3.º Regimento de Infantaria, 3.ª Companhia de Metralhadoras Pesadas, 1.º, 2.º e 3.º batalhões de Caçadores, 1.º Batalhão de Engenharia; 1.ª Brigada de Artilharia – 1.º e 5.º grupos de Artilharia Montada, 1.º Regimento de Artilharia de Montanha, 15.º Regimento de Cavalaria Independente. Polícia Militar. Total 20.000 homens.

A Parada terminou por uma carga de cavalaria de impressionante efeito.

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Regressando da Parada o Sr. Presidente da República assistiu na Prefeitura ao patriótico Juramento da Bandeira pelos alunos das escolas públicas municipais.

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Selo Comemorativo de 100 réis:

Às 14 horas o Sr. Presidente recebeu em Palácio os cumprimentos das Embaixadas Estrangeiras em missão especial, Corpo Diplomático, Comissários Gerais, membros do Congresso Nacional, oficiais de terra e mar, e alto funcionalismo. Era a segunda solenidade importante do dia.

Nesta ocasião Monsenhor Francisco Cherubini, representante de S. S. o Papa Pio XI, e na qualidade de Decano dos Embaixadores em missão especial, assim falou:

“Senhor Presidente! – É com a maior satisfação que dirijo a palavra a V. Ex. neste dia, que será inscrito em letras de ouro nos anais do Brasil; e é para mim uma honra toda particular ser junto a V. Ex., nesta solenidade, o intérprete dos meus ilustres colegas, embaixadores em missão especial. Considero como a nota mais agradável de minha missão a de trazer, antes de tudo, as mais respeitosas homenagens ao ilustre Presidente, que, pelo seu saber, sua atividade, sua habilidade, seu devotamento, dirige o povo brasileiro para os seus gloriosos destinos.

Afirmo – gloriosos destinos; tais, com efeito, foram sempre os destinos deste grande povo depois da primeira página, que escreveu na história, até a época mais gloriosa ainda da sua independência; deste povo que atingiu a virilidade sem passar pela infância.

É um fato conhecido, que em todos os tempos os povos, que não gozaram de liberdade, aspiraram sempre a uma existência nacional independente e trabalharam com todas as suas forças para a conquistar. Mas, ah! quanto sangue, quantas lágrimas, não custou essa independência!

Felizmente não aconteceu assim para a Nação Brasileira em 1822.

Porque o povo português, que lhe descobriu o gênio e cultivou a nobreza, a considerou antes como filha do que colônia.

Ele lhe deu a educação moral, social, religiosa; desenvolveu suas excelentes disposições para as artes, ciências, comércio; em uma palavra, preparou-a para o dia da emancipação, para o dia da Independência.

De fato, Sr. Presidente, quando, às margens do Ipiranga ecoou o grito da liberdade, esta grande Nação obtinha a sua independência sem derramar uma gota de sangue, nem mesmo uma lágrima; porque era o sangue português que corria nas veias do jovem e nobre príncipe que acabava de pronunciar a frase histórica: “Independência ou Morte!”

Desde então a generosa Nação Brasileira, tão jovem ainda, se lançava sobre o caminho da glória ou mesmo de todas as glórias.

De José Bonifácio ao Barão do Rio Branco, é toda uma série de passagens ilustres, que revelam ao mundo inteiro o desenvolvimento intelectual e ascendente moral desta nobre Nação.

A História repetirá à Posteridade as páginas sublimes, onde estão escritos em caracteres indeléveis os feitos gloriosos do nobre povo brasileiro.

O grande gesto da Princesa Isabel, proclamando a abolição da escravatura, fez conhecer os sentimentos delicados da civilização e do progresso deste país.

Na Conferência da Paz, em Haia, a delegação brasileira chamou sobre si a atenção universal; e o nome do eminente jurisconsulto Rui Barbosa será respeitado tanto pelo historiador como pelo homem de Estado. E na Conferência de Paris, Sr. Presidente, o tato e a habilidade com que V. Ex. dirigiu a delegação do Brasil granjearam para V. Ex. as maiores simpatias do estrangeiro, e um lugar de maior realce. É, portanto, justo, Sr. Presidente, que todas as nações estejam aqui representadas nas festas do Centenário da Independência de sua nobre Pátria, e lhe tenham trazido o tributo de sua admiração.

Sr. Presidente! Em nome de Sua Santidade o Papa Pio XI, em nome dos demais augustos soberanos e chefes de Estado, que temos a honra de aqui representar, nós nos associamos com alegria às festas, que recordam dias tão gloriosos para o Brasil, e ao mesmo tempo formulamos votos os mais sinceros pela prosperidade, cada vez maior, para a felicidade sempre mais completa, deste nobre país.

E, se bem que é da união dos espíritos que resultam os grandes benefícios, peço a Deus realizá-los sempre com vantagem, removendo tudo que lhe possa servir de obstáculo.

Que o Cruzeiro do Sul, que brilha sobre esta terra privilegiada, possa, para o futuro, como no passado não a iluminar senão de coisas nobres, generosas e admiráveis.”

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Às 16 horas foi solenemente inaugurada a Exposição. Era a terceira grande solenidade comemorativa.

Na presença dos representantes de nações amigas, Ministério, militares, magistrados, professores, senhoras, comerciantes, industriais, congressistas, logo que o Sr. Presidente da República declarou aberta a Exposição, o Sr. Ministro do Interior proferiu o seguinte discurso:

“Sr. Presidente! Srs. Embaixadores e Enviados das Nações amigas! Minhas Senhoras! Meus Senhores!

O começo do Século XX é a época festiva da América Latina, como o começo do século dezenove é a época dolorosa das suas lutas pela independência e pela liberdade.

Dir-se-ia que ela passou cem anos a crescer e a robustecer-se, e agora celebra a sua maioridade no meio das nações mais velhas do mundo, gentilmente associadas a essa comemoração.

É tão longa a idade dos povos, que menos de um século parece apenas a adolescência, o começo da juventude.

O Brasil já teria chegado àquela fase da vida, se tivesse querido contar a sua entrada no convívio internacional, desde 1815, quando, unido a Portugal e Algarves, passou a fazer parte do Reino-Unido e aqui se constituiu a sede do governo comum.

Ao fim de seis anos, porém, foi interrompida a cordialidade existente entre os membros da União, e começou a luta porfiada, donde resultou separarem-se pelo interesse particular de cada um, para depois se encontrarem irmanados no futuro pelos destinos idênticos da mesma origem e as tendências iguais da mesma civilização.

O Brasil quis mostrar ao mundo como usou da liberdade nesse século que passou.

Recebendo a visita de Chefes de Estados, de Embaixadores e Enviados das Nações Amigas, quis dizer-lhes, por fatos, como trabalhou e quanto produziu; como foi digno da independência que logrou e deixar julgar se merece, ainda mais, a confiança dos que esperam do seu porvir.

Nenhuma linguagem falará melhor do que o certame que hoje inauguramos.

Ele não se realiza como pretexto para festins, mas como demonstração de esforços extraordinários de inteligência consumidos num século de atividade, em quase todos os ramos de trabalho.

Haverá aí mostras desse passado.

Umas servirão para acentuar como os povos devem guardar certos patrimônios legados por seus maiores, exemplos do seu bom gosto e da sua personalidade técnica; outras servirão para abrir os olhos aos que se aferram à rotina e hão de constituir, pela comparação com os produtos aperfeiçoados aqui expostos, benéfico estímulo para melhorar e progredir.

Esse último efeito há de vir, sobretudo, da lição que nos trazem os povos mais adiantados do mundo, cultores das maravilhas de todo gênero que facilitaram o bem estar dos homens e concorreram para levá-los, com rapidez, de um a outro extremo da Terra, aproximando-os reunindo-os, tornando possível conhecerem-se melhor, para um dia, que praza aos céus já tenha chegado, abandonarem as suas desconfianças e prevenções, geradoras de males, e enfrentarem uns aos outros, somente como hoje, nestes campos de combate do pensamento e do trabalho, donde só resultam benefícios para a humanidade e brilho para a civilização.

Em nome do Governo da República, agradeço aos Chefes de Estados, Embaixadores e Enviados das Nações Amigas, a honra que fazem ao Brasil de realçar com a sua presença a solenidade deste ato; e aos representantes da indústria e de todas as manifestações do trabalho vindos de tão longe o concurso que nos trouxeram para o bom êxito da Exposição comemorativa do primeiro Centenário da independência Política do Brasil”.

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À noite houve espetáculo suntuoso no Teatro Municipal, com uma assistência brilhantíssima de convidados do Sr. Presidente da República, sendo cantada a ópera Il Guarany, inspirada composição do Maestro brasileiro Antônio Carlos Gomes.

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Continuou por dias a comemoração festiva do Centenário da Independência, realizando-se consecutivamente solenidades e reuniões cuja enumeração é difícil fazer completa:

Missa Campal no campo que se estende onde foi a Praia do Russell;

Te Deum, na Catedral Arquiepiscopal;

Banquete oferecido pelo Presidente da República do Brasil aos chefes das missões especiais; e Recepção concorridíssima, em Palácio;

Revista Naval.

O Secretário de Estado da República dos Estados Unidos da América do Norte assistiu ao lançamento da pedra fundamental do monumento que o seu país oferece ao Brasil.

Houve na Embaixada norte-americana Recepção às altas autoridades, Corpo Diplomático, delegações estrangeiras e Sociedade Brasileira.

A bordo do Maryland foi pela Delegação norte-americana oferecido um almoço às altas autoridades brasileiras, embaixadores especiais e Corpo Diplomático.

A União dos Empregados no Comércio reuniu-se para ouvir a Oração Cívica de Coelho Netto.

O Embaixador do México ofereceu ao Brasil a imponente estátua de Cuauhtemoc, inaugurando-a no local em que está.

Houve mais:

Recepção na Embaixada do Chile;

Recepção e Baile na Embaixada da Inglaterra;

Baile a bordo do encouraçado Hood;

Banquete da Embaixada Especial da República Argentina em homenagem ao Sr. Presidente da República do Brasil;

Sessão solene da Universidade do Rio de Janeiro em homenagem aos delegados universitários nossos hóspedes;

Banquete das delegações municipais de Buenos Aires, Montevidéu, Córdoba, Santiago e Valparaiso ao Conselho Municipal do Rio de Janeiro;

Recepção do Embaixador Francês aos diplomatas presentes no Rio de Janeiro, e à Sociedade brasileira;

Almoço oferecido pela Marinha Brasileira à oficialidade dos navios de guerra surtos na Baía de Guanabara;

Recepção e Baile oferecido ao Governo e à Sociedade Brasileira pelo Embaixador Extraordinário da Bélgica;

Jantar oferecido pelo Ministro do Japão às autoridades brasileiras, embaixadores especiais e Corpo Diplomático;

Baile oferecido pelo nosso Ministro das Relações Exteriores às missões especiais e ao Corpo Diplomático;

Garden Party oferecido pelo Congresso Nacional Brasileiro aos congressistas e parlamentares estrangeiros;

Banquete em caráter íntimo do Sr. Presidente da República ao Embaixador Especial da Santa Sé;

Garden Party oferecida pelo Dr. Linneu de Paula Machado, Presidente do Jockey Club do Rio de Janeiro à Diretoria do Jockey Club de Buenos Aires;

Sessão especial do Congresso Nacional para votação de uma Moção Congratulatória;

Recepção oferecida pelo Presidente do Brasil à Sociedade Carioca em homenagem ao Presidente de Portugal;

Parada Infantil, desfilando pela Avenida Rio Branco, militarizados, 4.600 alunos de institutos e colégios oficiais e particulares, escoteiros, e patronatos agrícolas;

Corridas, nos hipódromos do Derby e do Jockey Club; Festa Veneziana, na Enseada de Botafogo; exposições agrícola e pecuária; Olimpíadas; grandes fogos de artifício em vários pontos da Cidade.

Enriquecendo o programa comemorativo, reuniram-se no Rio de Janeiro as seguintes coletividades, celebrando sessões regulares com variado e sempre grande número de membros vindos de toda parte:

Congresso Americano da Criança;

Congresso das Associações Comerciais do Brasil;

Congresso Americano de Expansão Econômica e Ensino Comercial;

Congresso Brasileiro do Carvão;

Congresso Brasileiro de Ensino Secundário e Superior;

Congresso Brasileiro de Esperanto;

Congresso Brasileiro de Farmácia;

Congresso Brasileiro de Química;

Congresso de Estradas de Rodagem;

Congresso de Estudantes de Escolas Secundárias;

Congresso Carmelitano Nacional;

Congresso Espírita Internacional;

Congresso Eucarístico;

Congresso Ferroviário Sul Americano;

Congresso de Inspetores Agrícolas;

Congresso Internacional de Americanistas;

Congresso Internacional de Engenharia;

Congresso Internacional de Febre Aftosa;

Congresso Internacional de História da América;

Congresso Jurídico;

Congresso Nacional de Agricultura e Pecuária;

Congresso de Operários em fábricas de Tecidos no Brasil;

Congresso Nacional de Práticos (Médicos);

Congresso de Proteção e Assistência à Infância (com Inauguração do Museu da Infância, fundado pelo Dr. Moncorvo);

Congresso Regional de Igrejas Evangélicas;

Conferência Americana da Lepra;

Conferência Brasileira de Mulheres;

Conferência do Ensino Primário;

Conferência Internacional Algodoeira.

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Selo Comemorativo de 300 réis

Verdadeiro acontecimento, como o fora, dois anos atrás, a vinda do Rei Alberto, da Bélgica, foi a visita do Presidente da República de Portugal, Sr. Dr. Antônio José de Almeida.

Não lhe foi possível estar aqui no dia 7, mas chegou no dia 17, havendo de bordo do Porto que o transportava, desferido, pelo telégrafo sem fio, esta Mensagem que logo penetrou no coração do povo brasileiro:

“Ao entrar na Baía de Guanabara, a melhor baía do mundo, tenho a honra de saudar o Brasil, uma das mais possantes e formosas pátrias que tem existido sobre a Terra. Venho visitar este país de maravilhas com a trêmula emoção de quem pratica um ato religioso, em que o espírito se sente arrebatado para além do espaço e do tempo, contemplando absorto, o esforço sobre-humano das gerações predestinadas. Colaboradores da mesma obra de civilização, tão juntos temos trabalhado, brasileiros e portugueses, que para sempre ficámos irmãos; irmãos, mais nos aproximamos ainda no momento do centenário da vossa independência, em que as duas pátrias como que suspendem o voo na sequência de um destino eterno, para se unirem sob a asa da sua tradição ancestral, como duas águias oriundas dos cerros da Lusitânia que quisessem sentir por um instante o calor e agasalho comum. Homem simples e modesto, figura transitória da vida pública do meu país, por mim, brasileiros, nada vos posso trazer que tenha valor. Mas no meu coração conduzo até vós um sentimento imorredouro que é o amor dos portugueses à vossa pátria acolhedora e resplandecente, Pátria fecunda e generosa onde, como se fora na sua, devotados à terra e respeitando as leis, trabalham honradamente tantos filhos queridos de Portugal. E mais, ainda, se é possível, do que o próprio orgulho de ser chefe do grande povo que, outrora, fez uma patética criação de mundos, experimento a imerecida fortuna de ser o mensageiro da fraternidade inviolada que a minha terra sente pela vossa terra admirável. Águas brasileiras, 16 de setembro de 1922. – Antônio José de Almeida.”

A bordo do Porto chegou pouco depois este radiograma:

“Rio de Janeiro, 16 de Setembro de 1922 – Tenho grande prazer em apresentar a V. Ex.ª, Senhor Presidente da República Portuguesa, os cumprimentos de boas vindas e as saudações muito cordiais do povo do Brasil, no momento em que o Porto, navegando em águas brasileiras, se aproxima desta Capital, que espera V. Ex.ª com demonstrações da mais viva simpatia e cordialidade. – Epitácio Pessoa.”

O desembarque do Presidente de Portugal, recebido pelo Presidente do Brasil, num Domingo luminoso, passando por diante das forças militares que em duas alas guarneceram o trajeto desde o Arsenal de Marinha até o Palácio Guanabara, e sob as aclamações do povo que afluíra para vê-lo e saudá-lo, foi uma nota galantíssima que brilhou nos brilhos festivos da comemoração do Centenário.

A estada do Presidente de Portugal no Rio de Janeiro, entre 17 e 27 de Setembro de 1922 foi uma sucessão quotidiana de demonstrações afetuosas. S. Ex.ª, pôde apreciar o espírito fraternal das duas nacionalidades, a alta cultura do povo que descendia da radiante cultura lusíada, e o grande esplendor da metrópole, que, há 355 anos, portugueses fundaram nesta parte da América. S. Ex.ª reconheceu o trabalho dos últimos cem anos de vida nacional, a obra genuinamente brasileira do último quarto de século transformando, saneando, embelezando a Capital do Brasil.

O Presidente de Portugal confessou-se deslumbrado em discursos calorosos, eloquentíssimos que de improviso proferiu na Festa Popular da Exposição, no Grêmio Republicano Português, no Supremo Tribunal Federal, no Gabinete Português de Leitura, na Sociedade Portuguesa de Beneficência, na Academia Nacional de Medicina, na Câmara Portuguesa de Comércio, no Congresso Legislativo, na Escola Naval, no Banquete que lhe ofereceu o Presidente do Brasil.

Estão publicados alguns deles. O que foi pronunciado no Congresso mostra bem a grandeza e a formosura do orador; mas reproduzirei aqui somente o da pragmática, respondendo à saudação do Presidente do Brasil no banquete que lhe ofereceu em Palácio no dia seguinte ao da chegada. E como a saudação é também um primor de eloquência cordial, estampo gostosamente as duas orações.

Assim falou o Dr. Epitácio Pessoa.

“Sr. Presidente!

A visita de V. Ex.ª a esta Capital, no momento em que o Brasil comemora o primeiro centenário de sua independência política, tem tão alta significação, e importância transcendente, que bem justifica a profunda comoção com que é recebida por todos os brasileiros.

Espíritos menos observadores poderão, talvez, acreditar que, nessa comemoração, à qual a presença de V. Ex.ª dá excepcional relevo, se dissimula o júbilo nacional pela vitória que os brasileiros alcançaram contra os portugueses em 1822. Um exame menos superficial do acontecimento, porém, logo dissipa o equívoco, e mostra a toda a luz que o que estamos festejando, neste momento histórico, é antes uma data da raça.

Porque não haveria Portugal de comemorar hoje conosco a emancipação política de um país que ele descobriu, povoou e defendeu contra a cobiça dos invasores? Porque, se, mesmo em 1822, tantos portugueses de nascimento se bateram ao lado dos brasileiros pela obra da Independência?

Não! A guerra da Independência não foi uma luta de brasileiros contra portugueses, mas de brasileiros e portugueses, aliados entre si, contra a orientação retrógrada e impolítica das Côrtes de Lisboa, empenhadas em destruir a obra que vários séculos haviam já consolidado – a unidade nacional dentro da imensa vastidão do nosso território.

Ninguém mais trabalhou pela independência do Brasil do que D. João VI que, nos seus treze anos de administração, cuidou exatamente de preparar o país para o Governo de si mesmo, abrindo-lhe os portos, dando-lhe arte, escolas, academias, bibliotecas, imprensa, liberdade de comércio e de indústria, meios de transporte, vias de comunicação, exército, armada, cultura, em uma palavra, tudo quanto podia conduzir-nos à vida de soberania. Fê-lo com o propósito declarado e firme de formar, no Brasil, o grande império do futuro. Quando ele partiu, em 1821, já o nosso país tinha seis anos de vida como Reino, com a sua política, a sua justiça, a sua administração e o seu credo religioso – condições essenciais à formação da nova nacionalidade. Essa formação já o velho monarca a previa, tanto que, ao deixar as nossas plagas, aconselhava o filho a pôr na cabeça a nova coroa antes que o fizesse qualquer aventureiro.

Assim, pois, o grito do Ipiranga – dado pelo filho às margens do ribeirão paulista – nada mais foi da que a consequência lógica dos atos do pai. Esse grito, partido da alma portuguesa de D. Pedro, com aplausos de portugueses e filhos de portugueses, não foi nem podia ser um brado de guerra contra Portugal, mas um protesto vibrante contra os desatinos das Côrtes de Lisboa.

Fez-se a Independência.

As relações entre os dois povos ou, melhor, entre os dois ramos do mesmo povo, que a força irresistível da evolução natural desunira sem separar, ou cujos corpos separara sem as almas desunir, nem foram, a bem dizer, interrompidas. Os portugueses que ficaram conosco não se sentiram, em 1822 como não se sentem hoje, em terra estranha. As forças mandadas de Lisboa pelas Côrtes hostis, não tiveram contra si apenas os brasileiros feridos no seu orgulho, mas também os portugueses liberais, indignados com a ditadura coletiva dos deputados da Regeneração.

Portugal, pelo seu Rei, preparara o Brasil para a Independência, como o pai prepara o filho para a maioridade. O 7 de Setembro de 1822 é, pois, uma data luso-brasileira, é uma data da Raça. E, assim, nada mais natural que os dois povos, unidos outrora por esse espírito de justiça e de liberdade, de progresso e de empreendimentos ousados que levaram os portugueses ao descobrimento e impeliram os brasileiros à Independência, se reúnam hoje também, com a amizade e o carinho de sempre, para festejarem juntos um acontecimento que a ambos deve encher de orgulho.

É, portanto, Sr. Presidente, com o mais íntimo regozijo que, em nome da Nação Brasileira, e no meu próprio nome, saúdo ao glorioso Portugal, na pessoa de V. Ex.ª, em cuja honra levanto a minha taça.”

Assim respondeu o Sr. Dr. Antônio José de Almeida:

“Sr. Presidente!

A emancipação política da grande Pátria que é hoje o Brasil foi um fato espontâneo e normal, consequência de uma evolução inexorável, que nenhuma força seria capaz de impedir.

A Independência do Brasil não data do grito do Ipiranga, como à primeira vista podia supor-se; ela partiu de mais longe, porque se vinha formando lentamente na consciência nacional, visto que de fato, o Brasil, apesar de colônia, foi desde cedo nação, tendo mais condições de vida própria do que tantos outros povos que, ao longo da História, com aparência de independentes, mais não foram do que organismos subordinados a outros mais poderosos que os dominaram.

O nervosismo, mais feito, afinal, de desolação e despeito do que de má vontade, que, em Portugal, se manifestou logo após o ato definitivo da Independência, desapareceu sem demora, porque aqueles, que lá lutavam contra uma forma de governo retrógrada e reacionária, compreenderam que se, para eles, a fórmula da própria independência individual e coletiva era a revolução liberal, aqui, no Brasil, a revolta contra a mesma opressão só podia revestir um aspecto. – o da Independência.

Como V. Ex.ª acaba de dizer, com firme exatidão e escrupulosa verdade, Portugal descobriu, povoou e defendeu contra a cobiça, dos estrangeiros o vasto território do Brasil.

O Brasil independente de hoje tem, pois que agradecer a Portugal o fato de ele lhe ter legado, intato, à custa de torrentes de sangue e torrentes de lágrimas, tamanho e tão rico patrimônio. Mas Portugal tem que agradecer ao Brasil independente de hoje a energia, a bravura, a inteligência e o amor da Raça com que ele tem sustentado, aumentando-a, desenvolvendo-a e dourando-a de uma maior majestade e beleza, a sua obra, que foi a maior glória do seu grande passado.

Creio que estamos pagos perante a História.

Nenhum povo deve menosprezar as honradas origens que teve; e nenhum povo tem o direito de olhar com ressentimento ou tristeza sequer a separação do seu todo daquela parte que, no exato cumprimento dos destinos históricos, uma vez sentiu em si a ação de forças indomáveis que a levaram ao legítimo afastamento.

É esse o motivo que determinou V. Ex.ª a render, neste momento, um sentido culto a Portugal. É essa a razão que me impele a mim, a prestar profunda e comovida homenagem ao Brasil.

V. Ex.ª o disse: o Sete de Setembro é uma data luso-brasileira; e celebrá-la é realizar uma festa da Raça.

Em verdade, nesta data há glória que chegue para todos. Somente eu, Senhor Presidente Dr. Epitácio Pessoa, devo declarar francamente que não vim aqui com mandato da minha Pátria para tomar a porção de glória que lhe pertence. Eu vim aqui no exclusivo intuito de reconhecer aquela outra, e bem grande ela é, que cabe em partilha ao Brasil.

E nesta missão de que venho investido, e que teve ontem tão auspicioso início na maneira inexcedível de entusiasmo e carinho com que V. Ex.ª, o seu governo, as autoridades civis e militares e o povo quiseram receber-me, ao entrar nesta formosa Cidade, estou reconhecendo por mim próprio, o que já sabia por depoimentos alheios, isto é, que o Brasil tem sabido criar uma civilização própria que é, em parte, feita da velha tradição portuguesa, em parte devida ao forte e sadio ambiente americano; mas, sobretudo, é o resultado do esforço intrépido e inteligente dos homens resolutos que o povoam, e na verdade se formaram um estado de alma coletivo, poderoso e resplandecente, a que, com justeza se deve chamar brasilidade, – força nova, serena e ousada que está intervindo eficazmente nos destinos do mundo.

Brasil e Portugal são duas Pátrias irmãs, cada uma vivendo em sua casa, tendo um passado até há cem anos comum, e um futuro, em muitos pontos, diverso, mas, em tantos outros equivalente.

Os brasileiros sentem-se em Portugal como na sua Pátria.

Os portugueses, em vastos núcleos de trabalhadores, sentem-se no Brasil, como na sua própria terra. As mesmas instituições republicanas, embora sob aspecto diferente, governam e dirigem as duas Nações, que têm dado provas de amar sinceramente a Democracia.

Uma língua incomparável que retine o melhor ouro de linguagem humana, e dispõe de um poder plástico sem igual, serve – maravilhoso instrumento de civilização e solidariedade – os dois povos que se sentem presos nas espiras desse verbo quase divino.

Que outra coisa é preciso para que eles se auxiliem sempre e se entendam cada vez mais? Creio que coisa nenhuma, já que o sentimento fraterno que enleia os seus corações, perenemente, alvoroçados pela estima comum, é tão forte, que em caso nenhum a vontade dos homens o pode quebrar. E o nosso encontro aqui, Senhor Presidente, é um eloquente testemunho dessa esplêndida realidade.

Senhor Presidente!

Em nome da Nação Portuguesa, e no meu próprio nome, agradeço a V. Ex.ª, e ao Brasil, a entusiástica e comovida recepção que me fizeram, e de que guardarei perdurável recordação; e erguendo a minha taça em honra a V. Ex.ª, e do grande povo de que é chefe eminente, faço votos sinceros pelas suas mútuas felicidades.”

* * *

A Exposição completou-se demoradamente. Os pavilhões estrangeiros que margeavam a Avenida das Nações, e que, também, se ergueram, atraentes, na Praça Mauá, atestaram o já conhecido poder industrial e capacidade criadora de nações europeias, asiáticas e americanas; assim como os pavilhões nacionais afirmaram possibilidades surpreendentes da nossa Indústria; e as riquezas naturais do Brasil foram brilhantemente expostas.

O Pavilhão de Estatística agradava e empolgava; ali o visitante era, por meio de símbolos e de algarismos, levado ao conhecimento de realidades que ignorava.

Imigração, nacionalidades, nascimentos, casamentos, óbitos, instrução, agricultura, indústria, importação, exportação, estatística pecuária, tudo ali se mostrava impressionantemente; sob todos os pontos de vista o Brasil foi estudado e exposto aos olhos do visitante.

De lá transporto para aqui somente alguns algarismos referentes ao Rio de Janeiro, São do recenseamento de 1920:

População: 1.157.873 indivíduos; 917.481 brasileiros, 239.129 estrangeiros, sendo 172.338 portugueses; 21.929 italianos; 18.221 espanhóis; 6.121 árabes; 3.538 franceses; 2.885 alemães; 2.057 ingleses; 1.370 argentinos, 1.022 norte-americanos…

Podem-se distinguir, ainda, 598.307 adultos masculinos; 559.566 mulheres adultas; 540.877 brasileiros letrados; 200.925 analfabetos! 163.086 estrangeiros letrados e 73.150 analfabetos!

Esta seção da Exposição foi organizada pelo Diretor Geral de Estatística, Dr. Bulhões Carvalho.

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Pavilhão de Festas

Notáveis concertos se realizaram no Palácio das Festas, interior e exteriormente. A concorrência de visitantes à Exposição, sempre grande, mantinha cheios de admiradores os pavilhões da Argentina, América do Norte, Inglaterra, México, Noruega, Tchecoslováquia, Portugal, Japão, Itália, Bélgica, França – cada qual com suas especialidades, seu cunho característico, seus primores manufatureiros, seus engenhos, suas utilidades. Fizeram-se conhecidos muitos artigos novos, houve intercâmbio de relações comerciais. Lucrou o nosso mercado, lucraram os mercados estrangeiros, todos alargando a esfera de suas transações. E o fino espírito de quem sabe gozar as belas artes extasiou-se com o mobiliário e tapeçaria do Pavilhão de Honra da França, com os formosos quadros e soberba prataria artística de Portugal e com as delicadas esculturas italianas. Todos os produtos da prodigiosa atividade humana apareceram neste certame faustoso que pela primeira vez se abriu em cidade brasileira.

Ao estandarte da Independência que desfraldamos em 1822 trouxeram em 1922 seu convívio afetuoso os lindos estandartes de tantas nações laboriosas. Oxalá que esta harmonia, esta associação de esforços nunca desfaleçam; que as nacionalidades que nos visitaram sempre nos estimem como nós as prezamos, e sempre, todas as bandeiras se encontrem reunidas para o Progresso, e para a felicidade humana.

Fonte

  • Rosa, Francisco Ferreira da. Rio de Janeiro em 1922-1924. Rio de Janeiro: Typographia do Annuario do Brasil (Almanak Laemmert), 1924. 222 p. (Coleção Memória do Rio 3 - Reprodução).

Texto original

Imagem destacada

  • Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Exemplar histórico raro dos pavilhões construídos para abrigar a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, realizada em 1922, servindo como Pavilhão da Administração e do Distrito Federal. Foi restaurado em 1990 e tombado pelo Estado em 1988. Projeto de Silvio Rebecchi e Raphael Rebecchi.

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