Nossa Senhora da Apresentação

No fim da linha do bonde e do ônibus de Irajá, cerca de vinte minutos de viagem da Estação de Madureira, num sítio denominado Largo Honório Gurgel, encontra-se o templo, todo caiado de branco, sob a invocação de Nossa Senhora da Apresentação, e que serve de Matriz à localidade. É uma igreja velhíssima, pois em 1613 já existia, não se sabendo ao certo a data exata de sua edificação, nem tampouco a sua origem. Presume-se que tenha sido, primitivamente, propriedade de alguma fazenda, porquanto o local em que se acha devia ser completamente deserto naquele século, e não se concebe que se pudesse erigir uma igreja pública em lugar desabitado.

Irajá, embora nunca tivesse sido um arrabalde florescente, é possível que tenha tido uma época mais próspera, pelo menos no que se refere a movimento e atividade nas imediações da Matriz.

A Estrada de Ferro Central do Brasil, passando o seu leito por Madureira, muito concorreu para que a freguesia de Irajá se despovoasse, preferindo os seus habitantes morada mais próxima à condução para a cidade.

Nossa crença na possibilidade de uma vida mais intensa na freguesia, em tempos idos, reside no fato da igreja ter sido construída com a frente olhando em direção do mar, ou, como se dizia – voltada para a civilização, pois era do mar que o progresso chegava até nós.

O estilo do templo é tipicamente colonial. Um chalé, tendo ao alto do tímpano uma cruz de ferro, ao centro um óculo, três janelas envidraçadas que dão-luz ao coro, e apenas uma porta para a entrada. No ângulo esquerdo ergue-se uma torre retangular com os respectivos sinos de pequeno tamanho. Os portais, tanto das janelas como da entrada, são de granito, vendo-se no centro deste último a data gravada de 1613.

À frente do templo há um cruzeiro com pedestal de pedra, em torno do qual os fiéis acendem velas em intenção às almas, e os indivíduos menos respeitadores depositam suas “macumbas” e “despachos” durante as trevas da noite.

Conta a igreja atualmente três altares revestidos de obra de talha. No principal está Nossa Senhora da Apresentação, uma bela obra modelada em madeira, tendo logo abaixo a imagem do Sagrado Coração de Jesus. Nos laterais se vê Nossa Senhora das Dores e São Sebastião.

Segundo diz Monsenhor Pizarro e Araújo, em suas “Memórias Históricas”, a igreja já teve sete altares, num dos quais, do lado do Evangelho, se venerava São Jerônimo. Nesse mesmo altar, em 1713, foi colocada também uma imagem de Santa Escolástica, deixada por uma devota de nome Prudência de Castilho em disposição testamentária, juntamente com a importância de duzentos mil réis para a celebração de uma missa por sua alma, durante todos os meses, in perpetuum.

Hoje não existe mais a imagem, assim como também os ofícios religiosos de há muito deixaram de ser efetuados.

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Quando em 1644, o Prelado Antônio de Marins Loureiro criou a paróquia de Irajá, logo foi elevada à categoria de Matriz a capela fundada pelo Padre Gaspar da Costa, em honra de Nossa Senhora da Apresentação, aliás o único templo que havia então naquela longínqua localidade.

O primeiro vigário da nova Matriz foi o próprio Padre Gaspar da Costa, conforme carta régia assinada por D. João IV, em 1647.

Naquele tempo Irajá era um enorme território; a freguesia abrangia toda a zona suburbana, e à proporção que se ia povoando, era dividida em outras novas freguesias. Dessa forma se fundaram Engenho-Velho, Campo-Grande, Guaratiba, Inhaúma, Penha, e ainda outras, que foram desmembradas da primitiva de Irajá.

Esses retalhamentos vieram implicar também no empobrecimento da freguesia, pois criadas novas Matrizes, as rendas eram desviadas da anterior paróquia.

E assim foi sucedendo sempre, e a igreja foi ficando cada vez mais abandonada pelos fiéis, não por desprezo à religião, mas porque passaram a frequentar os templos mais próximos de suas residências.

O último golpe sofrido pela Irmandade de Nossa Senhora da Apresentação foi desferido pela Prefeitura, no princípio deste século. Em torno da igreja, isto é, ao seu lado esquerdo e na parte dos fundos, está situado o cemitério local, que sempre fora propriedade da Irmandade. Em 1902, porém, o Poder Municipal confiscou o campo-santo que passou desde essa data a pertencer ao Distrito Federal. Parecia até uma conjura contra a congregação da Virgem!

Em 1926 a Matriz foi pintada e reformada, a custa de esmolas e donativos angariados pelo Padre Januário Tomei, então Vigário, que não se limitou a pedir entre os seus paroquianos, quase todos pobres, mas estendeu o seu apelo a outras freguesias, obtendo enfim os necessários recursos para os imprescindíveis reparos.

Mas são passados já vinte anos, e o tempo, inexorável, novamente arruinou o santuário de Irajá.

Agora, sob a orientação do atual Vigário, Padre Juan Luís Garrido, a igreja está passando por fundamental reforma interna, incluindo no projeto até a abertura de uma janela em cada parede lateral com o fim de melhor arejar a nave. Já foi substituído o teto – que era de madeira e estava completamente roído pelo cupim, por um plafond de concreto, no mesmo feitio arcado do anterior; o chão, que era de largas e compridas pranchas, e também se achava apodrecido, já se encontra cimentado, pronto para receber o ladrilho do seu novo piso.

Talvez essa obra venha comprometer de certa forma a feição colonial do templo; contudo é preferível que assim aconteça do que perdê-lo definitivamente. Os recursos são parcos, e não basta a boa vontade do Vigário aliada aos ingentes esforços da Irmandade, para que a velha igreja não sucumba pela ação do tempo.

Durante a reforma que se está efetuando, verificou-se, por uma viga retirada do coro assim como, pela escada que dá acesso ao presbitério que, tanto a capela-mor como o coro foram construídos muitos anos após ter sido levantada a nave. Na viga, por exemplo, traz, aberta a canivete, em algarismos que autenticam a sua antiguidade, a data de 1695; e os degraus, que são de madeira, por sua vez indicam que ali foram colocados posteriormente, pois são colados na coluna que forma o arco cruzeiro. Se fossem construídos na mesma ocasião, seriam de pedra, como o próprio arco.

Por uma porta ao lado esquerdo da capela-mor chega-se à sacristia, ornada de móveis antigos, onde se encontram os documentos antiquíssimos relativos a batizados e casamentos efetuados na Matriz. Ao fundo um altar de talha, expondo várias imagens, inclusive uma que representa Nossa Senhora do Rosário, em madeira de caprichoso acabamento e que data de mais de dois séculos.

Em dependência contígua acham-se guardados objetos e paramentos usados nas procissões além de outras imagens de santos.

No sobrado por trás do altar, está situada a sala das sessões da Irmandade; ali há uma escada estreita que vai dar ao nicho ocupado pela imagem da Padroeira, Nossa Senhora da Apresentação.

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