Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte

Na Rua do Rosário, esquina da Rua Miguel Couto, antiga Ourives, havia, no ano de 1700, uma pequena ermida, que estava compreendida entre os bens patrimoniais da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Não dispomos de elementos que nos esclareçam sobre a data de sua construção, entretanto, naquela época já existia e era conhecida como “Igreja do Hospício”, porque além da sua finalidade de congregar fiéis para o culto a Deus, era também destinada a proporcionar hospedagem a religiosos. A atual Rua Buenos Aires foi durante muitos anos denominada do Hospício, pelo motivo da capela dar fundos para aquela rua.

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Nossa Senhora da Boa Morte na Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte

A Igreja de São Sebastião, situada no morro do Castelo e antiga Sé do Rio de Janeiro, era sede de várias Irmandades. Entre elas se encontrava a de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos, fundada por Antônio Pinheiro, Jorge de Castro, Eugênio Ribeiro da Costa, Antônio Dutra e Francisco Coelho de Brito, e cujo compromisso foi aprovado em 19 de julho de 1700.

Anos mais tarde, pretendendo o bispo transferir a Sé para outro local, em virtude de achar-se a igreja do Castelo em péssimo estado, ameaçando ruir, a Irmandade dos Pardos tratou, por sua vez, de procurar guarida também em outro lugar.

Foi assim que o governador da cidade Luiz Vahia Monteiro, – o “Onça”, por ordem d’El Rei, determinou a ocupação da ermida da Rua do Rosário pela Irmandade da Conceição.

Todavia, essa congregação, procurando a Ordem da Penitência, indenizou-a com a quantia de Rs. 3.160$000, pelo imóvel que lhe havia custado 3.000 cruzados, conforme consta em escritura datada de 9 de janeiro de 1729.

Passou, assim a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição a residir em sede própria. Os irmãos eram todos exclusivamente pardos libertos, homens trabalhadores, cheios de fé, que se dedicavam com grande carinho à causa de sua agremiação, lutando pelo seu progresso. Não obstante, os recursos financeiros de que dispunham eram pequenos, e desse modo, somente em 1807, puderam completar o pagamento da propriedade.

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Imagem de Nossa Senhora da Conceição na Sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte

Havia no Convento dos Carmelitas Calçados, uma irmandade sob a invocação de Nossa Senhora da Assunção e Boa Morte, ereta em 1663. No ano de 1734, estando desavindos alguns irmãos e os frades do recolhimento religioso, aqueles membros resolveram deixar os carmelitas e fundar uma outra irmandade com o título de Nossa Senhora da Boa Morte. E assim o fizeram, indo homiziar-se na capela de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos.

Conta Moreira de Azevedo que o grupo dissidente estabeleceu o plano para a mudança em absoluto segredo. Os religiosos nem levemente o suspeitaram e, por isso, tudo foi levado a efeito conforme havia sido previsto.

Sob o pretexto de levar a conserto, começaram retirando alguns ornamentos e objetos de prata que lhes pertenciam, os quais passaram a ser guardados em lugar ignorado. O que se afigurava difícil, no entanto, era a trasladação da imagem, sem que se apercebessem os frades. Não era, todavia, impossível, e como veremos, o caso chegou a revestir-se de grande escândalo, mas o intento foi, afinal, conseguido.

O fato teve lugar na data da festa da Virgem. Era noite. Extensa procissão percorria as ruas, tendo saído do Convento dos Carmelitas, sendo a imagem conduzida pelos irmãos da Boa Morte. Ao chegar o préstito à Rua da Quitanda, esquina da do Rosário, em lugar de continuarem por aquela rua, tomaram o caminho desta última e, quando chegaram nas proximidades da Capela da Conceição, estugaram o passo e nela entraram com a imagem, inopinadamente, fechando com estrépito a porta. A procissão foi interrompida, havendo “tumulto, contenda, velas quebradas, hábitos rotos, intervindo a força armada, mas a imagem ficou”.

Dessa forma algo pitoresca passaram a residir sob o mesmo teto, embora com vida completamente independente, as duas agremiações.

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Pia da Sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte

A princípio tudo indicava que a paz e a compreensão reinariam entre as duas famílias. Animando essa presunção estava o fato da ideia da construção de um templo maior, para o que ambas as partes contribuiriam e davam opinião, no sentido de que a realização correspondesse ao objetivo comum.

A 25 de março de 1735, houve a cerimônia do lançamento da pedra fundamental do edifício, tendo a planta da construção sido apresentada pelo Brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim. E as obras progrediram, a custa de donativos e esmolas que espontaneamente eram oferecidos.

Tudo ia bem, e era lícito esperar que, pela harmonia que então reinava, a obra fosse completada dentro de prazo relativamente breve.

De repente, porém, modificou-se inteiramente o panorama de relações entre as duas confrarias. Os irmãos da Conceição perceberam que os da Boa Morte não mais se dedicavam com o mesmo interesse às obras da igreja, e, assim, locupletavam-se com o que eles produziam. Data daí uma série enorme de contrariedades, de rusgas, de aborrecimentos de toda a classe, que cumularam com a paralisação das obras. Qualquer atitude de uma das partes era mal interpretada pela outra e dava origem a ciúmes e disputas deploráveis. Nem pareciam duas irmandades religiosas cujo objetivo principal era cultuar a Mãe de Deus.

Brigaram por causa do órgão que fora doado por Felix Martins Rates, à Conceição, e a Boa Morte dele queria utilizar-se; discutiram porque os Pardos reservavam para si o direito sobre o sino da capela; e até, certa vez, chegaram a disputar o altar para a realização de uma cerimônia religiosa, de cuja contenda resultou sair ferido por um castiçal, que lhe fora arremessado por um irmão da Boa Morte, o tesoureiro da Conceição!

Esse fato suscitou tal indignação que obrigou o Vigário Geral Vilas Boas a multar em Rs. 20$000 o agressor e lançar-lhe a excomunhão por ter desrespeitado o altar sagrado.

Depois desse triste acontecimento, em 25 de julho de 1815, o Juiz da Conceição, Francisco Ferreira Sampaio, tentou reunir as duas Irmandades, mas a sua proposta em tal sentido recebeu formal recusa do Juiz da Boa Morte, Domingos José Ferreira Braga.

Enfim, uma sucessão de coisas desagradáveis tiveram lugar na igreja, durante largo tempo, entre as duas corporações religiosas.

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Frontão da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte

Afirma a primeira parte de um brocardo popular que “não há mal que sempre dure…” e mais uma vez não foi desmentida a voz do povo.

Reunidas as duas instituições em assembleia, a 9 de março de 1820, depois de uma discussão que se estendeu por 48 horas, ficou, enfim, estabelecida a junção da Ordem de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos com a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, sob a denominação de “Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte”, do que se lavrou uma escritura a 11 do mesmo mês.

Terminava, assim, uma luta que pelo espaço de 60 anos, tantos desgostos provocara no espírito do povo sinceramente crente, comprometendo até o esplendor da religião que recomenda a paz e a harmonia entre os homens.

Deve a igreja essa pacificação aos esforços de Nicolau Viegas de Proença, Corretor da Conceição, e Domingos Alves Pinto, Juiz da Boa Morte.

Para comemorar tão auspicioso evento, foi marcado o dia 16 de abril, quando se realizou uma grande festa. Pela manhã celebrou o ofício religioso o Monsenhor Decano Joaquim da Nóbrega Amorim, e à tarde saiu enorme procissão à qual acompanharam 60 sacerdotes. À noite houve profusa iluminação na parte externa do templo, ao lado do qual estava armado o palanque, de onde o rei Dom João VI deveria assistir aos festejos. Entretanto, apesar do seu maior desejo, o soberano não pôde comparecer; mas toda a corte ali foi levar o testemunho do seu regozijo pela união das duas organizações. A música executada nessa festa memorável foi escrita especialmente pelo Padre-mestre da Real Capela, José Maurício, nome celebrado pelo seu talento de compositor.

Somente em fevereiro de 1838 recomeçou a construção do templo que as incompreensões anteriores haviam interrompido. Convidados o mestre carpinteiro José Maria Trindade e o mestre pedreiro Francisco Pereira de Santa Ana, acharam-se eles, muito honrados com o convite, e superintenderam gratuitamente a execução das obras.

Dedicados ao seu labor, a edificação em 1853, estava concluída, tendo a nova igreja sido benzida pelo Bispo Conde de Irajá, no dia 14 de dezembro daquele ano, e reconduzidas para, ali, em procissão, as imagens que haviam sido guardadas na Igreja de São Francisco de Paula.

As obras de talha que se encontram no recinto da igreja são da autoria de Manoel Francisco dos Santos Deveza, e o retábulo do altar-mor foi executado pelo Mestre Valentim da Fonseca e Silva.

O aspecto exterior do templo, embora simples, é extremamente agradável. Conta com três portas, e sobre a do centro lê-se, em letras de ouro, a legenda Janua coeli[1], e logo abaixo a data – 1785. No alto do frontispício vê-se o monograma feito com as letras C. B. M., encimado por uma coroa real.

A abertura da Avenida Rio Branco (então Avenida Central), em 1903, não alterou fundamentalmente a fachada da igreja, pois esta ficou fora da linha traçada pelo engenheiro Francisco Passos. O corte atingiu apenas o adro lateral onde anteriormente estavam situadas as catacumbas, e a escada de pedra que dava acesso ao campanário, colocado ao lado direito. Os sinos se encontram hoje em uma pequena torre, construída em cima do frontão.

Hoje a igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, talvez devido ao local favorável em que se encontra, é muito visitada, principalmente na parte da manhã, quando é intenso o movimento das pessoas que se dirigem às suas diversas ocupações. São comerciários, funcionários do governo, operários, bancários, enfim, todos os que trabalham e são religiosos, para ali se encaminham antes de dar início às suas atividades cotidianas.

O interior do templo, silencioso, convida à meditação e à prece.

No altar-mor está entronizada a imagem de Nossa Senhora da Conceição, e nas capelas fundas, à direita e à esquerda, se veem Nossa Senhora da Boa Morte e Nossa Senhora das Dores. Nos demais altares, que são seis, estão São Miguel, Nossa Senhora da Assunção, São José, São Francisco de Paula, Santa Ana e São Francisco de Assis.

Na sacristia encontram-se duas belas imagens: Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Socorro. Ao lado, junto à parede que dá para a Rua dos Ourives, nota-se a pia de mármore branco, oferecida pelos Irmãos da Ordem, em 1855.

Nota

  1. “Porta do céu”, “Porta do paraíso celestial” ou “Solstício de Verão no Hemisfério Norte”. (N. do E.)
    Veja também Janua Coeli: Heaven's Gates.

Fonte

Texto original

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