Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Há mais de 220 anos já, os navios que entravam na baía de Guanabara, avistavam no cimo de pequena elevação, uma capela muito alva, muito poética, resplandecendo, de tão branca, aos raios do sol carioca. Era ela a primeira demonstração viva de fé religiosa que o Rio de Janeiro oferecia aos seus visitantes. Vista do mar, de grande distância, mais parecia uma custosa joia incrustada no fundo sempre azul do céu brasileiro.

Era o templo de Nossa Senhora da Glória, a Virgem que do alto do outeiro abençoava a todos que buscavam a nossa terra animados de boas intenções.

Naquele monte houvera, outrora, por cerca de 1670, uma pequena ermida levantada por Antônio Caminha, porém nunca teve maior projeção, e passou quase despercebida. Pelo menos as histórias da época dela não se ocupam, a não ser para descrever lendas que se teriam ali originado.

A capela do nosso tempo, esse magnífico templo que todos contemplamos com indisfarçável orgulho, por ser nosso, começou a existir, isto é, teve a sua construção terminada, em 1739, data em que também foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, por provisão do bispo Dom Frei Antônio de Guadalupe.

O terreno do morro foi doado em 20 de junho de 1699, pelo Dr. Cláudio Gurgel do Amaral, “para nele se edificar uma ermida que fosse permanente, onde Nossa Senhora da Glória pudesse ser louvada e festejada”, conforme reza a escritura de doação.

A ereção da igreja consumiu largo tempo, pois, segundo consta, teve começo por cerca de 1714. E desde que a majestosa obra foi acabada, o templo tem servido sempre à sua finalidade, qual seja a de amparar os necessitados de fé, mostrando-lhes que só na palavra de Deus se encontra o caminho da salvação eterna.

A história da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro está intimamente ligada à vida da monarquia no Brasil, regime que se estendeu desde que aqui chegou a família real portuguesa em 1808, acossada pela onda napoleônica que avassalava a Europa, até 1889, quando foi proclamada a república. Falando sobre o templo, logo nos passam pela lembrança, como num caleidoscópio, todos os fatos ocorridos ou relacionados com os soberanos de então.

Recordamos, por exemplo, D. João VI, a 27 de julho de 1819, subindo ao outeiro, tendo nos braços a pequenina princesa Maria da Glória, sua neta, filha primogênita do então príncipe D. Pedro e de D. Leopoldina, para apresentá-la no altar à Nossa Senhora da Glória, e pedir para a criança a proteção do céu. D. Maria da Glória, que teve esse nome em homenagem à Virgem, mais tarde subiu ao trono de Portugal, sob o título de D. Maria II.

Atitude idêntica teve D. Pedro I, quando acompanhado de D. Leopoldina e das filhas, ali foi levar o príncipe D. Pedro (depois imperador D. Pedro II) com um mês apenas de idade. Depondo a criança sobre o altar, ajoelharam-se os monarcas e, contritos, imploraram a graça de Nossa Senhora, para que o menino fosse sempre feliz. Vários príncipes nascidos no Brasil receberam ali a água do batismo.

E o segundo imperador, a imperatriz D. Teresa Cristina e as princesas inscreveram-se também na Irmandade, sendo imitados por toda a nobreza do país.

Era tão patente a simpatia da família reinante pela capela do morro, que D. Pedro II, em 27 de dezembro de 1849, conferiu à Irmandade o título de “Imperial”, que ainda hoje é conservado com justificado desvanecimento.

Ainda há pouco tempo, chegando ao Rio de Janeiro o príncipe patrício D. Pedro Gastão, e sua esposa, a princesa D. Maria de la Esperanza, com quem se casou no ano de 1945 em Sevilha, subiram também ao outeiro da Glória para receberem a opa de Irmãos da Igreja tradicional.

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Altar da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

O templo por dentro é imponente, embora de uma beleza simples, tranquila, sem asperezas de formas nem traços complicados. Grandes arcadas de granito, bancos comuns para os fiéis assistirem aos ofícios religiosos, e uma larga barra de azulejos azuis que se estende pelas paredes do Santuário em todo o seu contorno. Somente três altares e três imagens apresenta o templo. Nossa Senhora da Glória, em todo o seu esplendor, ocupa o altar da capela-mor; no altar à direita está Santo Amaro e no da esquerda, São Gonçalo.

De cada lado do altar-mor vêm-se duas bandeiras – a do Brasil e a do Vaticano, como que simbolizando a aproximação entre a Pátria e a religião. Acima do arco do cruzeiro está colocado o emblema do império, em metal, como a lembrar os dias faustosos que passaram.

Dois púlpitos. O da direita é ocupado todos os domingos pelo capelão para a pregação do Evangelho; o da direita, porém, merece maior reverência, e é conservado como uma saudade caríssima. Foi ali que o grande Frei Francisco do Monte Alverne, já cego e alquebrado pela velhice, pronunciou o seu último sermão, em 15 de agosto de 1855, em dia de festa de Nossa Senhora da Glória, perante o templo repleto de fiéis, confundindo-se a nobreza com o povo. À tribuna, amparado, assoma Monte Alverne solene, magnífico pela simpatia, empolgante pelo valor de sua palavra. A sua prédica maravilhosa nesse dia memorável começou assim:

– “Longe, bem longe vão esses tempos em que, fortalecido pela mocidade, devorado do mais acendido entusiasmo, celebrei aqui mesmo a glorificação desta criatura incomparável a quem o Imperador considera a sua inefável protetora. Quando em 1833, convidado para satisfazer nesta rotunda os anelos da devoção, recordando o passado, evocando o futuro, vitoriei na robustez da minha fé a invicta defensora do Brasil, seguro de que o império sairia incólume dos casos a que tinha sido exposto, e que bem cedo o órfão augusto deixaria ver em todo o seu fulgor, dissipando as procelas e conduzindo a serenidade – posso dizê-lo com desvanecimento, – nem foram desmentidas minhas convicções, nem frustrada minha confiança!”.

Essas palavras tão repassadas de amor pelo Brasil e de fé no segundo imperador, são encontradas em um opúsculo mandado imprimir pela Irmandade.

Mas continuemos a falar da igreja.

Duas pias, que são duas grandes conchas de mármore rosa de lioz português, à entrada do templo, são utilizadas com água benta.

Cada dia 5 de agosto realiza-se a cerimônia de vestir a Virgem e o Menino. Esse serviço, outrora, era desempenhado pelas princesas, hoje, no entanto, como a Coroa desapareceu, a roupagem da Santa é mudada por suas aias, assim como as do Menino-Deus pelos seus zeladores. São vestes riquíssimas, representando quantias respeitáveis.

Em tempos passados uma administração da Irmandade teve a infeliz ideia de mandar pintar os altares, que são magníficos trabalhos de talha, e as arcadas de cantaria, assim como retirar o soalho, para substituí-lo por ladrilhos. Por certo nem lhe passou pela mente a possibilidade de estar cometendo um atentado contra a arte e contra a história! Julgava talvez que a cantaria pintada a óleo, imitando mármore, os altares dourados, e o piso ladrilhado, apresentariam melhor aspecto…

Durante a administração do Cmt. Thiers Fleming, de 1939/42, em boa hora foi restabelecido o aspecto primitivo da igreja, conforme o plano organizado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde está catalogado aquele monumento pátrio. Assim, foi raspada a tinta das obras de talha e das arcadas de granito, voltando ao chão as largas tábuas, como era uso em 1739, além de retirada também uma varanda que fora construída pelo lado externo em 1861, circundando o templo. Hoje a igreja está integralmente dentro da feição que tinha, readquirindo as suas linhas arquitetônicas puras que sempre a tornaram tão bela. Graças a Deus!

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Praça Paris com o Outeiro da Glória ao fundo

Conta-nos o ministro Edgard Costa em um precioso opúsculo, citando Frei Agostinho de Santa Maria, o seguinte fato que resumimos para os nossos leitores:

– Quando em 1718, Antônio Caminha, o mesmo que edificara a primitiva ermida no outeiro, pretendeu embarcar de regresso a Portugal, terra em que nascera, achou justo levar consigo uma imagem de sua propriedade, por ele caprichosamente modelada em madeira, e que fora venerada no altar de sua ermida. Logo espíritos malévolos correram ao bispo para denunciar o pobre homem que – diziam, furtara grandes haveres doados à santa.

Nessa contingência, sob a iminência de ter de desembarcar da nau “Falcão” em que pretendia viajar, resolveu presentear com a imagem o rei de Portugal, a esse tempo, D. João V, “para que ele a colocasse em um altar em que pudesse ser venerada”. Preso e apeado Caminha, o navio rumou para a Europa.

Já nas costas de Portugal, a 21 de dezembro, uma grande tempestade fez com que o navio naufragasse, levando no sinistro muitas vidas e todo o carregamento. A caixa em que seguia a imagem sagrada, no entanto, como que protegida por força sobrenatural, deu à praia da cidade de Lagos, atirada pelas ondas revoltas. E – caso singular: estava perfeita!

Logo os habitantes do lugar acorreram à praia, e os padres Capuchos do Convento de Santo Antônio daquela cidade, recolheram a imagem e a colocaram no altar-mor do seu cenóbio, onde durante mais de um século foi conservada. Atualmente encontra-se na Igreja de São Sebastião, na mesma cidade portuguesa de Lagos.

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Restaurada que foi a igreja pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, foi reaberto um nicho, na ladeira que dá acesso ao templo. Logo uma ideia acudiu a todos: – colocar no nicho uma imagem da Padroeira.

Nessa ocasião o então vice-provedor Ministro Edgard Costa, sugeriu que a imagem fosse uma cópia da que tinha ido, em 1718, parar a Lagos. Aprovada a sugestão logo foi encarregado o escultor João José Gomes de executar o trabalho, que aqui chegou pronto pelo vapor “Bagé”, em 9 de julho de 1942. Justamente um mês depois, a 9 de agosto, foi a imagem inaugurada no nicho, no último altiplano, ao chegar ao cimo do monte, onde se encontra exposta, envolta pelo carinho e pela veneração dos seus devotos.

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O revestimento de azulejos da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, representa uma obra do mais elevado valor artístico e histórico. Os painéis têm sua significação em texto bíblico. Segundo a análise realizada a respeito pelo provecto e estudioso artista Frei Pedro Sinzig, baseiam-se no Livro de Tobias, da Sagrada Escritura. Dessa forma, conforme declaração daquela acatada autoridade em assuntos religiosos e de arte, o primeiro quadro do lado da Epístola, representa Tobias em companhia de Sara; o segundo, Sara deitada no leito, protegida por Tobias; o terceiro, Tobias e Sara na noite de seus esponsais. Do lado do Evangelho, vê-se, no primeiro painel, Tobias com os anjos; no segundo Tobias dando a Sara uma medalha, e no terceiro, Sara recebendo os filhos de Tobias.

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Glória entre 1908 e 1919, via Library of Congress.

No fundo do prédio situado por trás do templo, e onde está instalado o Consistório – ampla sala mobiliada com apuro e sobriedade, em cujas paredes pendem quadros com fotografias dos Imperadores D. Pedro II e D. Tereza Cristina, de D. Frei Antônio de Guadalupe e uma outra comemorativa da visita do então Presidente Getúlio Vargas à igreja – encontra-se o museu da Irmandade.

Ali estão guardados, admiravelmente arrumados, os objetos caros à Congregação, e que podem ser vistos todos os dias. São quadros, bustos, a cadeira em que sentava Pedro II, medalhas, documentos manuscritos, assinaturas de fidalgos, pequenos bibelôs, que foram oferecidos à Nossa Senhora da Glória, por membros da família imperial, pela nobreza da época e por pessoas da mais alta distinção social. Destacam-se no meio de tantas maravilhas o quadro que tem por título – “O milagre”, de F. Machado, magnífica alegoria em que aparecem como principais personagens D. Pedro I e D. Leopoldina, outro quadro – “Nossa Senhora do Rosário”, de Molina, que foi doado à Irmandade por William Mc. Gregor, e ainda uma tela: “Vista da Glória”, datada de 1846 e assinada por P. Bertichem. Um relógio velhíssimo também chama a atenção. Foi adquirido em 1832, tendo custado a sua máquina a quantia de 20 mil réis, e a respectiva caixa dezesseis mil réis. Até o ano passado esse relógio funcionava perfeitamente; hoje, no entanto, está parado… talvez cansado de tanto trabalhar.

Há também joias de elevado preço e confecção primorosa, como o adereço de opalas e brilhantes, um colar de pérolas com um coração de ouro, brilhantes e esmeraldas, que eram da Marquesa de Abrantes, além de outros, adereços de pedras preciosas, colares, broches, alfinetes, enfim, verdadeiros tesouros que deslumbram o olhar de quem os contempla. Não queremos deixar de citar aqui algumas peças que foram de D. Leopoldina, oferecidas à santa por D. Pedro I – um adereço compreendendo brincos e broche, com 15 grandes brilhantes cravados sobre mais de um cento de outros de menor tamanho, todos montados em prata e ouro, além de um grampo para cabelo em que se destacam esmeraldas e brilhantes fulgindo à vista.

Essa fortuna é exposta em dias de festa numa montra cavada na parede, e defendida por grosso vidro.

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O acesso ao outeiro que até então só era possível pelas ladeiras que partem do Largo da Glória e da Praia do Flamengo, é agora muito mais fácil. No ano de 1945, foi inaugurado um plano inclinado, com duas confortáveis cabines, a exemplo do que existe no Monte Serrate, em Santos, o que possibilita os fiéis atingirem o Santuário, apenas em um minuto, a troco de uma despesa mínima de Cr$ 0,50. Esse serviço está instalado na Rua do Russell.

Fonte

Texto original

Mapa – Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro