Nossa Senhora da Glória

Mais uma vez somos gratos ao saudoso Moreira de Azevedo. Em seu precioso livro “O Rio de Janeiro”, encontramos a indicação para poder escrever sobre a Matriz da Glória, pois na referida igreja nada há a respeito de sua própria história.

No citado livro de Moreira de Azevedo, diz o seu autor que F. B. Marques Pinheiro, que fora provedor da Irmandade da Glória, havia deixado escrito algo sobre o templo. Aproximamo-nos, então, do seu filho, Antônio Marques Pinheiro, funcionário aposentado do Banco do Brasil que logo, gentilmente, forneceu-nos os elementos indispensáveis para esta crônica.

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Pia da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória

Por decreto imperial de 1834, foi criada no Rio de Janeiro a freguesia de Nossa Senhora da Glória, e a 30 de outubro do mesmo ano marcados os seus limites. Essa nova freguesia era um desmembramento da de São José, que já àquele tempo era muito populosa, e compreendia toda a vasta área da cidade, não só da que ainda lhe pertence, mas ia até os confins do bairro da Gávea.

A freguesia de São João Batista da Lagoa, já havia sido instituída anteriormente; entretanto a população de Laranjeiras, Catete e Botafogo, por muito numerosa, sobrecarregava de serviço a de São José.

Eis o decreto, datado de 30 de outubro de 1834, que determinava os limites da freguesia da Glória:

“A Regência permanente, em nome do Imperador o Sr. Dom Pedro II, em execução do art. 1º do Decreto da Assembleia Legislativa de 9 de agosto passado: Há por bem que a nova freguesia de Nossa Senhora da Glória, desmembrada de São José desta Corte, tenha por limites todo o distrito compreendido entre os atuais, da freguesia da Lagoa de Rodrigo de Freitas e o Beco do Império da Lapa [1], tirada por este beco do lado da Glória, uma linha desde o canto do Passeio Público pela parte do mar até ao alto do morro de Santa Thereza junto ao Aqueduto da Carioca”.

Criada a freguesia, fazia-se, necessária uma igreja para lhe servir de sede paroquial.

A Irmandade do SS. Sacramento de Nossa Senhora da Glória, fundada no ano de 1835, em 26 de janeiro, pelo Sargento-mor Antônio Joaquim Pereira de Velasco e outros vultos do maior prestígio na época, ficou sediada em uma capela particular dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, edificada na propriedade do mesmo Velasco, na atual Rua Pereira da Silva, onde também passou a funcionar, a título precário, a Matriz da Glória.

Na Rua das Laranjeiras, no atual n.º 9, havia àquele tempo uma pequena capela, reedificada pela rainha Dona Carlota Joaquina, à qual por certo, aos domingos, comparecia a trêfega e ardente soberana para implorar absolvição pelos pecados cometidos durante a semana…

Como se sabe, a rainha residia na chamada “Chácara de Botafogo”, situada na esquina da hoje Rua Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo, de sorte que a capela próxima ao Largo do Machado, para sua comodidade, não ficava muito distante de casa.

Em 1835, por motivo de execução do Banco do Brasil, contra a então rainha de Portugal, Dona Maria 2ª, a velha capela passou a ser propriedade de Antônio José de Castro.

Entrando em negociações com o novo proprietário, o templo foi logo adquirido pela Irmandade da Glória, pela quantia de dois contos de réis, conforme consta de escritura datada de 4 de abril de 1835.

Só no fim desse ano de 1835, no entanto, deixaram as imagens e a Irmandade a capela dos Prazeres, para residir na nova sede.

Para a cerimônia da trasladação das imagens, foi organizada aparatosa procissão, tendo comparecido à festividade o imperador Dom Pedro II e suas irmãs as princesas Dona Januária e Dona Francisca, o Governo da Regência e todos os dignitários da Corte.

Instalada a Irmandade em prédio próprio, foi nomeado pároco interino o Padre Joaquim de Melo Castelo Branco, e na capela exposto o Divino Tabernáculo.

Todavia a Matriz não podia continuar indefinidamente no pequeno e acanhado templo. Naquela época as missas no Largo do Machado – atual Praça Duque de Caxias [2], já tinham caráter aristocrático, e a grande afluência de fiéis exigia, urgentemente, a construção de uma grande e confortável igreja.

Assim a Irmandade do SS. Sacramento da Glória foi compelida a cuidar do palpitante assunto.

Em 1837, tratou a Mesa Administrativa da Congregação de escolher o sítio em que se levantaria o belo santuário; essa escolha recaiu em um terreno de propriedade de Domingos Carvalho de Sá, situado no Largo do Campo do Machado, entre as ruas das Laranjeiras e a atual Gago Coutinho (antiga Carvalho de Sá). Foi pela Mesa encarregado de dirigir a petição à autoridade competente para a ocupação do terreno, o definidor Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, Visconde de Jequitinhonha.

Respondendo ao requerimento a Câmara Municipal aconselhava à Irmandade a entrar em entendimentos com o proprietário do pretendido local. Isso feito, ficou resolvido que a área seria cedida, incluindo nela também uma nesga de terra pertencente a Francisco Marques Lisboa, que previamente consultado, concordou com a pretensão. Impunham eles apenas uma condição, fácil, aliás, de ser atendida: – “que não enterrassem defuntos na Matriz, quer em catacumbas ou campas”. Lavrado o termo de cessão, que teve a data de 17 de julho de 1838, passou o terreno à posse da Irmandade.

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Preenchidas todas as formalidades legais, tratou-se logo do levantamento do templo.

A cerimônia do lançamento de pedra fundamental da Matriz foi realizada com grande pompa, no dia 17 de julho de 1842, depois de benzida pelo Bispo Dom Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, Conde de Irajá, e conduzida ao local pelo Imperador Dom Pedro II, a quem foi conferido o título de Provedor Perpétuo da Irmandade. Ao ato compareceram o Vigário Manoel da Piedade Valongo de Lacerda, Antônio Joaquim Pereira de Velasco, Visconde de Abrantes (depois Marquês), Francisco Teixeira de Aragão, e muitos outros, todos oficiais e mesários, além de grande massa popular.

Dentro do cofre de chumbo foi colocada uma medalha de prata pesando oito oitavas, com a efígie do soberano, e muitas moedas de ouro, prata e cobre em circulação no momento, e ainda um pergaminho com os seguintes dizeres:

“DEBAIXO DA PROTEÇÃO DIVINA OS PIEDOSOS FREGUEZES DA FREGUEZIA DA GLÓRIA SE REUNIRAM PARA LEVANTAR ESTA FREGUEZIA EM HONRA DA BEATÍSSIMA VIRGEM MARIA, DEBAIXO DO SPECIOSO TÍTULO DA SENHORA DA GLÓRIA, PRECEDENDO DOAÇÕES PÚBLICAS E PARTICULARES. A PEDRA FUNDAMENTAL DESTE TEMPLO SENDO CONDUZIDA PELO SENHOR D. PEDRO II, IMPERADOR CONSTITUCIONAL E DEFENSOR PERPÉTUO DO BRASIL, E PRIMEIRAMENTE BENTA CONFORME O RITO PELO EXM. E REM. BISPO CAPELÃO MOR D. MANOEL DO MONTE RODRIGUES DE ARAÚJO, FOI LANÇADA NO LUGAR DO SEU DESTINO PELAS MÃOS DO SOBREDITO SENHOR PARA GLÓRIA DE DEUS E DA VIRGEM MARIA, SERVINDO DE PROVEDOR DA DITA FREGUEZIA ANTONIO JOAQUIM PEREIRA DE VELASCO, NO DIA 17 DE JULHO DE 1842”.

Este termo foi também escrito em latim, e ambos hoje se encontram gravados em placas de bronze, colocadas na frente da igreja, aos lados da porta de entrada principal.

Aprovada a planta do templo, que fora apresentada pelos engenheiros Koeler e Rivière, logo tiveram início os trabalhos da construção.

Não caminharam, entretanto, com a celeridade desejada por motivo dos parcos recursos de que dispunha a Irmandade para empreendimento de tamanho vulto, tanto assim que somente em 1856, ficou concluída a capela-mor, para onde foram trasladadas as imagens, no dia 5 de abril do mesmo ano.

Prosseguiram os trabalhos lentamente, apesar da Assembleia Legislativa ter concedido várias loterias em favor das obras, e de haver corrido outras tantas subscrições populares.

Enfim a Matriz foi finalmente inaugurada em 1872, tendo havido grandes festas, por esse jubiloso motivo, nos dias 28 e 29 de setembro e 6 de outubro daquele ano, benzido o templo e as imagens pelo Bispo Dom Pedro Maria de Lacerda.

Enorme cortejo formou-se no dia 6 de outubro, quando foram abertas ao povo as portas da igreja da Glória. As imagens que, na véspera, haviam sido enviadas para a igreja da Lapa, voltavam triunfalmente para a Praça Duque de Caxias. E o povo cheio de fé cristã, assistiu o desfilar dos andores que conduziam as imagens do Senhor da Agonia, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Cabeça e São Miguel, além de outros santos que os fiéis hoje veneram na Matriz da Glória.

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Altar da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória

Logo que se transpõe o pequeno corredor que vai da porta principal até o para-vento, atrai a atenção o altar-mor onde está colocada a imagem da padroeira. É construído esse altar em semicírculo, e se compõe de quatro colunas encimadas por belo trabalho de talha, de caprichoso desenho. Pousada sobre o dossel encontra-se a estátua de Moisés tendo nas mãos as Tábuas da Lei.

Nas duas paredes que fazem ângulo com a capela-mor há dois nichos, dentro dos quais estão as estátuas de São Lucas e São João Evangelista, e no centro do arco cruzeiro vê-se o painel simbolizando a Assunção da Virgem, obra de Chaves Pinheiro, de grande expressão artística.

Um grande lustre de cristal, além de pequenas lâmpadas colocadas das paredes, ilumina o templo.

Os altares laterais, que são seis, expõem as imagens dos seus titulares, além de outras de menor tamanho, dispostas aos lados e à frente. Assim vemos, do lado do evangelho, São José com Santa Ana e São Joaquim; Nossa Senhora da Cabeça com São Tiago Maior e Santo Ovídio e a Virgem do Pilar; Nossa Senhora das Dores, tendo à direita e à esquerda São Sebastião e São Manoel.

Nos altares em frente, estão o SS. Sacramento com a imagem do Senhor Bom Jesus, além das de São Pedro e São Francisco de Sales; Nossa Senhora da Conceição, com São João Batista e Santa Rosa de Lima; São Miguel, juntamente com São Luiz e Santo Henrique.

No altar-mor estão encerradas em uma urna as relíquias dos santos mártires Irineu, Jacundino, Inocêncio, Honorata, Iluminata, Jucunda e Honesta.

Há no templo imagens demais, além de muitos quadros. Essa aglomeração não causa boa impressão; ao contrário, chega a parecer negligência, comprometendo, de certo modo, a imponência e a dignidade do ambiente.

No entanto, é um mal que se não poderia remediar sem desgostar os devotos da Virgem. Por exemplo: há tempos foi doada à igreja uma bela obra, que se vê na parede do lado direito da nave, e que representa a cabeça do Cristo. Esse quadro, que veio de Paris, ali foi adquirido por avultada soma. O então vigário, Monsenhor Gonzaga do Carmo, colocou a preciosa dádiva na sacristia. Isso contrariou a doadora que chegou mesmo a manifestar o seu desapontamento, obrigando, com tal atitude, o vigário a transferir o quadro para o local onde se encontra.

A sacristia está situada à esquerda. É mobiliada com sobriedade e nos seus muros tem pendentes vários quadros pintados a óleo, dentre os quais ressalta o “Senhor-Morto”, uma magnífica obra do pincel de Júlio Ballás, artista que tendo sido batizado na igreja da Glória quis homenagear o santuário com um dos seus trabalhos mais belos.

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É imponente o aspecto exterior da igreja da Glória. Uma larga escadaria de treze degraus toma toda a frente do edifício, num espaço de 22 metros, e vai ter ao vestíbulo do edifício onde se erguem oito grossas e altas colunas de pedra, da ordem jônica, medindo cada uma três metros e trinta centímetros de circunferência. Sobre essas colunas assenta o frontão, de forma triangular, terminando com uma cruz, tendo ao centro um painel em relevo, feito em Paris, pelo artista espanhol Francisco Mutido, lembrando a Criação da Virgem, copiado de um quadro célebre existente na Academia de Belas Artes de Lisboa. Nas duas extremidades baixas desse tímpano, estão colocadas as estátuas de São Pedro e São Paulo.

Por trás do frontão encontra-se o terraço, ladrilhado, cercado de balaustrada de mármore lioz português, tendo em cada um dos quatro ângulos uma estátua também do mesmo mármore – a Fé, a Esperança, a Caridade e a Religião.

A estátua da Caridade acha-se ligeiramente desviada do seu primitivo lugar. No ano de 1938, violenta tempestade sacudiu o Rio de Janeiro; nessa ocasião uma faísca elétrica caindo junto à igreja deslocou a figura.

No centro do terraço levanta-se a torre, alta, em forma de agulha. No interior da torre estão os sinos, que são cinco grandes – um dos quais trás em relevo as armas imperiais brasileiras, e um de tamanho menor. Não são vistos do exterior do templo. O som de seus repiques coa-se através das frestas abertas na torre.

A Igreja da Glória é o centro preferido pela elite residente nos bairros do Catete, Laranjeiras e Flamengo, para a prática de seu culto religioso, numa autêntica demonstração de fé. As missas ali celebradas aos domingos afluem milhares de devotos de Nossa Senhora da Glória e dos demais Santos que se veneram no templo da Praça Duque de Caxias.

Notas

  1. Atual Rua Teotônio Regadas.
  2. Primitivamente era um terreno alagadiço, e tinha o nome de lagoa da Carioca. Mais tarde, aterrado o local, passou a ser chamado de Campo das Laranjeiras, Campo ou Largo do Machado, Praça da Glória, logo que foi criada a freguesia, e mais tarde, por Portaria da Câmara Municipal, de 18 de novembro de 1869, ficou sendo Praça Duque de Caxias.
    Tempos depois voltou à denominação de Largo do Machado. Há poucos anos, porém, novamente passou a ter o título do Patrono do Exército Brasileiro.

Fonte

Texto original

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