Nossa Senhora da Penna

O templo de Nossa Senhora da Pena, padroeira da Imprensa, das Artes e das Ciências, construído no cimo de pitoresco monte em Jacarepaguá, data de cerca de trezentos anos. De estilo colonial, suas linhas sóbrias e austeras, constituem um atestado do gosto artístico da época.

Ao tempo em que se ergueu o santuário no morro, Jacarepaguá deveria ter vida mais ou menos intensa. Várias fazendas com plantações e engenhos de cana, em que eram empregados muitos colonos, animavam aquelas paragens longínquas, para onde o transporte ainda primitivo se efetuava em dorso de burros ou em carros de bois. Não há, todavia, absoluta certeza quanto à data da construção da ermida que ainda hoje é procurada com frequência pela população devota da Senhora da Pena e constitui também motivo de atração para os estrangeiros que aqui chegam ávidos por conhecer os belos recantos do Rio de Janeiro. E ali no cume do outeiro, em consórcio permanente com a natureza, há razões de sobra com que recrearem a vista e o espírito, desde a rusticidade do ambiente de sublime encantamento, até a poesia bucólica que, dominando tudo, convida à meditação.

O caminho de acesso ao templo é uma íngreme subida que tem começo logo após o final da linha de bondes da Freguesia. A estrada é ensombrada por intrincada ramaria de árvores seculares e, de espaço a espaço, se encontram bancos toscos, feitos de troncos ou de cantaria, onde descansam todos os que se propõem visitar o elevado templo.

Uma vez chegados ao alto, magnífica vista se descortina – o oceano ao longe parece uma pincelada azul sobre o verde-escuro das montanhas, e mais próximas, ao pé da colina, as fazendas e os sítios, os casebres e as casas senhoriais, os animais e os instrumentos de trabalho campestre, são uma nota de vida e de ação que se vislumbra daquele ponto elevado.

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Interior da Igreja de Nossa Senhora da Penna

Por falta de documentos ou de outras provas elucidativas sobre o motivo da ereção da capela de Nossa Senhora da Pena, no lugar em que está situada, atribuem os antigos a sua origem a um caso que afirmam ter ali ocorrido, e que tem mais visos de lenda do que de realidade. Esse fato aqui o relatamos, baseados no que escreveu Amadeu de Beaurepaire Rohan, em seu livro a respeito do santuário de Jacarepaguá.

O escravo de um abastado fazendeiro da localidade, à hora de recolher o gado que pastoreava, notou a falta de um animal. Procurara-o já por toda a parte sem resultado satisfatório. Certo de que quando regressasse à fazenda seria severamente castigado, era justa a sua grande aflição. Desesperado e cansado já de tanto buscar o animal nos lugares mais afastados e nas grotas mais profundas, fez então uma prece à Virgem para que o ajudasse no transe amargurado em que se via.

Passados alguns minutos apenas, eis que o negro divisa no alto do morro, como uma aparição sobrenatural, esplendente de luz, uma senhora ricamente vestida de azul e branco, tendo à cabeça uma coroa, e que lhe acenava com o braço convidando-o a que fosse até ela.

Refeito da estupefação, o escravo tomou a direção indicada; em lá chegando verificou contristado que a Senhora havia desaparecido. Em seu lugar, porém, estava a rês tresmalhada.

Sabedor do ocorrido, o fazendeiro teria mandado levantar a ermida naquele sítio, para perpetuar a lembrança do impressionante acontecimento.

No entanto, Frei Agostinho de Santa Maria, no livro “Santuário Mariano”, datado de 1723, também citado por Amadeu de Beaurepaire Rohan, trás luz ao assunto, manifestando-se de outra forma sobre a razão da construção do templo, que deve ter ocorrido durante o ano de 1664. Diz o velho escritor sacro o seguinte:

“Fundou esta casa naquele alegre e notável sítio o padre Manuel de Araújo. Este devoto clérigo era devotíssimo da Mãe de Deus e bem podia ser que de Lisboa levasse esta imagem para o Rio de Janeiro, e que na viagem lhe fizesse alguns milagres por cuja causa lhe dedicaria aquele santuário naquele tão notável sítio ao qual a Senhora enobrece com muitas e notáveis maravilhas”.

Como não se ignora, PENA é sinônimo de penha, elevação de pedra, penedo. E, tendo vindo de Portugal para aqui a imagem, trazida pelo padre Manuel de Araújo, nada mais justo que esse sacerdote erigisse no alto do penhasco a capela dedicada à Virgem tendo possivelmente no pensamento a suntuosa igreja sob o mesmo título que se levanta na cidade portuguesa de Leiria. Valemo-nos ainda de Frei Agostinho de Santa Maria:

“Com muita razão dedicou El-Rey Dom Affonso Henriques a Maria Santíssima o Castello da Cidade de Leiria, &, como foy fundado sobre uma penha, quiz que a mesma Senhora com o título de Pena, delle deffendesse aquella nova fortaleza, e mais fundou o mesmo Rey uma Igreja que ficou sendo Freguezia do mesmo Castello”.

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Sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Penna

Teve a capela de Nossa Senhora da Pena dias faustosos, de grande evidência. A volubilidade, no entanto, do povo da época, tempos depois deixaria em abandono aquela casa de oração. Quase ninguém a procurava, e o ermitão que ali ficara, pouco podia fazer em benefício do templo. O mato crescia, não somente em redor do edifício, mas também pela ladeira, tornando, dia a dia, mais difícil e penoso o acesso à montanha.

Nessa ocasião apareceu alguém que não permitiu que o tempo destruísse a obra realizada, quiçá com grandes sacrifícios, em louvor da Virgem. Chamava-se José Rodrigues de Aragão o restaurador do templo fundado pelo Padre Manuel de Araújo.

Senhor de largos recursos, logo deu inicio ao trabalho. Todavia este prometia ser árduo e demorado, em virtude de não haver água no local. Os escravos tinham que buscá-la na várzea e transportá-la à cabeça dentro de baldes. Durante essa faina novo milagre se operou, segundo contam os antigos. Reunidos os trabalhadores, suplicaram estes à Virgem da Pena a sua benevolência no sentido de fazer com que aparecesse uma fonte no morro, tornando assim menos penoso o serviço que realizavam em sua honra.

E, dias depois, conforme afirmam, num local até então completamente enxuto, foi notado um fio de água que brotava entre pedras. Era a prece do homem humilde mais uma vez ouvida pela Mãe de Deus!

E a mina ainda hoje lá existe, no tope da pedra, jorrando água límpida e fresca, procurada sempre pelos que frequentam o santuário.

E em 1770, a capela que ameaçava ruína, aparecia inteiramente reformada, interior e exteriormente, atraindo novamente multidões de devotos a ali prestarem seu culto à Virgem.

E José Rodrigues de Aragão fez mais. Não se contentando com o benefício prestado à igreja, à qual forneceu alfaias e paramentos, ainda lhe doou terras e outras propriedades, além de 4.000 cruzados que ofereceu à Irmandade de Nossa Senhora da Pena. Tudo isso consta de escritura pública datada de 1771, lavrada no dia 30 do mês de abril, no Rio de Janeiro, nas Notas do tabelião Domingos Coelho Brandão.

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A capela por dentro ê uma verdadeira joia arquitetônica. Tudo ali rescende a velharia tão mais venerável quanto mais antiga, relembrando todo um passado de fé e devoção, provado por vultos ilustres que muitas vezes atingiram o alto do morro com o objetivo simples de orar à Virgem.

No altar-mor, sobre o trono, contempla-se a imagem de Nossa Senhora da Pena, a quem são atribuídos incontáveis milagres; lá está ela sorrindo bondosamente para a humanidade tendo sobre o braço esquerdo o Menino-Deus, e na mão direita uma pena de ouro. Aos lados se vê as imagens de Nossa Senhora do Rosário, da Conceição, das Dores, São José, São Sebastião, Santo Antônio, Santa Terezinha e Santa Inês, além de várias outras do Senhor Crucificado.

Nos painéis, simbolizando várias passagens da História Sagrada, que se encontram no teto e nas paredes, nota-se logo, pelas linhas artísticas a sua antiguidade; datam provavelmente, de 1770, quando foi reconstruído o templo, e os azulejos que o adornam, igualmente antigos, são, por si mesmos, uma obra de rara beleza e preciosa confecção.

Os oito bancos de imbuia que atualmente servem de assento aos fiéis, assim como o paravento com vitrais, são recentes. Representam o produto de donativos de irmãos e devotos que atenderam ao apelo do Juiz da Irmandade, Onofre da Silva Oliveira e do Tesoureiro, Jaime Esteves.

Na sacristia há relíquias magníficas, dignas de figurarem em qualquer museu. São vasos de porcelana, serpentinas, alfaias do mais elevado custo, e uma infinidade de objetos ofertados pelos devotos em troca de favores alcançados do céu por intermédio da Virgem, e que constituem parte do patrimônio da agremiação religiosa. Nessa mesma dependência se vê, em um nicho, o crâneo de José Rodrigues de Aragão falecido em 1778, que foi o benfeitor da Irmandade e o restaurador do santuário, e no Consistório onde se reúne a Administração, situado na parte superior do edifício, entre os retratos de Dom Pedro II, Dona Teresa Cristina, Coronel Severiano Pereira de Melo, Barão da Taquara e outros vultos notáveis, há também o quadro com a efígie do mesmo Aragão – prova perene da gratidão de todos os irmãos de Nossa Senhora da Pena. Também ali se encontra o retrato do Cardeal Dom Sebastião Leme, inaugurado há pouco tempo.

Pendentes das paredes vê-se inúmeros quadros com fotografias, cartões, etc., muitas placas de mármore com dizeres alusivos a graças obtidas, em épocas as mais diversas, desde tempos remotos até os dias mais proximamente passados, e em livros estão também registrados outros tantos fatos ocorridos e que são atribuídos à intervenção da Santa.

Dentre o número de relíquias ali existentes havia até bem pouco, convenientemente conservada, uma liteira da qual se servia a imperatriz Dona Teresa Cristina, sempre que visitava a capela. Hoje essa preciosidade histórica se encontra no Museu Nacional, oferecida que foi pela Mesa Administrativa àquela casa da municipalidade.

No livro de visitantes encontramos a assinatura de várias figuras eminentes na política, na administração pública, nas artes e nas letras brasileiras, o que prova que estiveram presentes um dia na igreja da Pena. Citaremos alguns nomes, como ilustração – Barão Homem de Melo, Baronesa do Lavradio, Visconde de Tamandaré (depois marquês), Catulo Cearense, Hercílio Luz, Baronesa da Taquara, Monsenhor Rosalvo Costa Rêgo, e deixamos de mencionar uma infinidade de outros que, além do nome, deixaram suas impressões consignadas no álbum.

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Não possui o arquivo da Irmandade o seu primeiro compromisso, pois os papéis mais importantes a ela referentes foram extraviados.

Assim, a Mesa Administrativa organizou em 1835 novo estatuto com 19 capítulos, que depôs nas mãos do imperador, para a sua aprovação.

E no ano seguinte, 1836, com a assinatura do Padre Diogo Antônio Feijó, Regente do Império, foi o compromisso aprovado, e por ele se regeu a Irmandade até o ano de 1943, quando foi reformado.

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