Nossa Senhora do Bom Sucesso

Quem passa pela Rua da Misericórdia e, displicentemente, dirige a vista para uma igreja situada no fundo do Hospital da Santa Casa, bem no sopé da ladeira – único remanescente do demolido Morro do Castelo, jamais pode supor que além daquelas grossas paredes, sem outro atrativo a não ser o respeito que merecem as obras antigas, haja um mundo de preciosidades escondidas. Dizemos escondidas porque a Igreja só está aberta pela manhã, para a realização do culto religioso, e é justamente durante a tarde que o movimento de pedestres mais se intensifica naquele recanto velho da cidade.

É ali o templo que tem a invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, pertencente ao patrimônio da Santa Casa da Misericórdia, e cuja devoção conta mais de três séculos, por isso que data de 1637.

Naquele ano, já tão distante, o Padre Miguel da Costa, aqui chegado procedente de Portugal, trouxe em sua companhia a imagem da Virgem que lhe merecia a mais elevada veneração. Com a indispensável permissão do Provedor do estabelecimento hospitalar colocou a imagem em um dos altares, onde logo granjeou muitos devotos que passaram a festejá-la. Em breve o culto à Virgem do Bom Sucesso crescia, e a Santa teve até mordomos e zeladores, ficando o Padre Miguel da Costa como seu procurador e tesoureiro. Tamanha era a sua evidência que Nossa Senhora do Bom Sucesso passou a ser considerada padroeira do Hospital da Santa Casa, e suas festas, realizadas sempre no primeiro domingo seguinte ao dia 8 de setembro, alcançaram grande brilhantismo, e atraíram membros da nobreza e do povo, na sua mais alta condição social.

Dizem os antigos que na primeira vez que se festejou a Virgem (11 de setembro de 1639), achando-se o SS. Sacramento exposto, a sua imagem foi vista na hóstia consagrada durante cerca de uma hora e meia, por três sacerdotes, e que, ainda em uma novena rezada por motivo de grande seca que assolava então o Rio de Janeiro, o mesmo milagre se repetiu, segundo declaração de Frei Miguel de São Francisco.

No ano de 1652, no mês de setembro, já morto o Padre Miguel da Costa, o Juiz da Irmandade do Bom Sucesso fez doação da instituição à Santa Casa da Misericórdia, assim como todos os bens pertencentes à Virgem, sob a condição de continuarem a festejar a Santa milagrosa. O documento referente a este assunto deve ainda encontrar-se no 1.º Livro do Tombo daquele Hospital.

Não obstante a letra da escritura, poucas festas foram realizadas em louvor à Senhora do Bom Sucesso.

A imagem que se vê no altar-mor é de pequenas dimensões, e sobre ela pairam dúvidas de ser, ou não, a primitiva que fundou a devoção.

Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, no seu livro “Santuário Mariano”, a primitiva foi retirada do templo pelo Provedor Tomé Corrêa de Alvarenga, antigo Governador, que a levou para a sua casa, colocando-a em oratório particular, para que somente ele e a família a venerassem, e que, mais tarde, daqui fora para Lisboa, conduzida pelo mesmo Ex-governador. Em seu lugar teria sido colocada uma outra imagem perfeitamente igual.

Não podemos asseverar ser ou não verdadeira essa substituição, porquanto Tomé Corrêa de Alvarenga, faleceu nesta cidade em setembro de 1675, e o seu corpo, conforme o seu desejo expresso, teve sepultura na entrada da igreja. Assim sendo, como poderia ter ido parar a Lisboa a imagem de lá trazida pelo Padre Miguel da Costa?

Essa interrogação jamais terá uma resposta elucidativa.

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Altar da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso

Como dizíamos no princípio desta crônica, a Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, é um mundo de preciosidades do mais alto valor arqueológico. Quem entra no templo, não sabe, de pronto, o que mais deva admirar – tantos e tão variados são os objetos que os seus olhos contemplam de repente. Tudo ali fala do passado; em cada uma daquelas magníficas obras há um rumor de glória e uma comovida lembrança dos tempos que se foram e que só a lembrança e a saudade podem reviver. E como é agradável penetrar-se naquele ambiente onde tudo recorda uma história bonita que ali vive, muda e silenciosa, em cada banco, em cada altar, em cada imagem!

Pendentes do teto todo branco e cuidadosamente limpo, destacam-se onze lustres de puro cristal da Boêmia, fulgindo a luz. São peças de grande beleza e que hoje representam enorme soma.

Três altares construídos em madeira denunciam logo a época de sua confecção – 1567. Um é grande, e dois menores. Há também um púlpito que, como os altares, apresenta caprichoso trabalho. Destoam inteiramente – altares e púlpito, do estilo da igreja, mas a sua confecção é tão preciosa que a divergência não chega a chocar. Pertenceram todos à Igreja de Santo Inácio, dos Padres Jesuítas do Morro do Castelo. Naquele púlpito, por certo que muitas vezes pregaram o Evangelho os Padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, os dois grandes expoentes da palavra sagrada que, pelo seu saber merecem eterna reverência.

Nos altares acima mencionados, as imagens são igualmente modeladas em madeira e de rara perfeição. No maior está Santo Inácio de Loiola, tendo aos lados, sobre duas peanhas, São Francisco Xavier e São Francisco de Borja. Nos outros dois, ao centro, se vêm duas imagens da Virgem da Conceição, perfeitamente iguais, ladeadas, cada uma, por seis pequenas estátuas dos apóstolos do Cristo, com cerca de um palmo e meio de altura.

Além do altar-mor, onde se acha, ao alto, o Cristo Crucificado, e, logo abaixo a imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso, há ainda quatro outros altares, em que são venerados Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora da Cabeça, Nossa Senhora das Dores e São Salvador.

Tudo está em ótimas condições de conservação e asseio, o que se deve ao desvelo de Manoel de Sá, funcionário que conta cerca de vinte anos de serviço à igreja, e que sabe informar aos visitantes do templo tudo quanto lhes possa ser útil. E o faz sempre com cativante solicitude e admirável boa vontade.

A pia batismal, colocada à esquerda da porta de entrada, não apresenta nenhum traço de maior curiosidade; no entanto o quadro que lhe fica ao fundo, pintado sobre cobre, representando o batismo de Jesus, é uma preciosa obra de arte.

Acima está o coro, espaçoso, com cadeiras, estantes e o órgão que conta aproximadamente 200 anos, mas que funciona como novo.

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Sacristia da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso

A Sacristia é uma peça ampla, cheia de claridade. Há ali quatro arcazes de jacarandá trabalhado, e no centro deles, em pequeno altar, uma magnífica imagem de Santa Isabel, mãe de São João Batista.

Nas paredes grandes quadros com efígies de santos, todos muito antigos e de inestimável mérito histórico. Um outro quadro, embora menor, desperta a atenção: é o que lembra o milagre do aparecimento da Virgem do Bom Sucesso na hóstia, pintado a óleo. Não está assinado nem tem data visível. Entretanto logo se percebe ser de data muito afastada. No próprio quadro o autor apôs abaixo a seguinte inscrição:

“No ano de 1639 aos onze de setembro na dominga infra octava na Natividade da Senhora dia em que se celebrou a primeira festa à Nossa Senhora do Bom Sucesso, estando o SS. Sacramento desencerrado, apareceu na custódia a Virgem Senhora na forma que está pintada e viram três sacerdotes por espaço de hora e meia estando a completas e foi aprovado este milagre.”

Ao fundo da sacristia destacam-se dois candelabros de metal branco do mais fino lavor, e em frente, um lavatório de mármore com figuras embutidas, de várias cores, no mesmo estilo dos que existem nas Igrejas de Santa Rita e São Francisco de Paula. Além disso, há ainda outras prendas que completam aquele relicário de maravilhas que é o templo da Rua da Misericórdia.

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