Nossa Senhora do Loreto

No caminho que conduz à igreja de Nossa Senhora da Pena, no lugar denominado Porta D’água, pouco distante do ponto terminal da linha de bondes, ergue-se o templo paroquial, dedicado a Nossa Senhora de Loreto.

A freguesia de Jacarepaguá foi criada em 6 de março de 1661, pelo Prelado Dr. Manoel de Souza e Almada, “em vista do adensamento da população rural”, sob a invocação de Nossa Senhora de Loreto e Santo Antônio, tendo dita freguesia sido desmembrada da de Irajá.

Impunha-se, portanto, a construção de uma igreja que servisse de matriz à nova paróquia.

Três anos mais tarde, em 1664, surgia a igreja, levantada em terras antigamente pertencentes ao Padre Manoel de Araújo, e que foram doadas por Francisco de Aragão, conforme consta no respectivo livro do Tombo. Está situada no centro de terreno quadrado, que mede quarenta braças em cada face.

A benção do edifício, naquela longínqua época, teve a assistência do mesmo Prelado Almada, do Governador Pedro de Melo e das pessoas mais destacadas no clero e na administração pública.

A matriz é de estilo barroco, e mede cerca de vinte metros de frente por quarenta de fundos. Os dois corredores laterais que acompanham toda a extensão do templo, e uma grande sala que fica atrás, reduzem as dimensões da nave para 27 metros de fundo por 9 de largo, sendo que no presbitério – separado do corpo da igreja por uma grade de madeira, ainda mais estreita se torna, medindo sete e meio metros. O frontispício do templo em muito se assemelha ao de Nossa Senhora da Apresentação, de Irajá. Como aquele, é todo branco, o tímpano em forma triangular, ao lado uma torre não muito elevada, com os respectivos sinos. Para entrada na nave há apenas uma porta larga, vendo-se ainda uma outra na coluna da torre, que dá para o corredor.

Infelizmente ignora-se muita coisa, quiçá interessante, acerca da igreja e de fatos que terão nela ocorrido. O tempo destruiu valiosos documentos da época, lançando sobre a história da matriz de antanho um espesso e impenetrável mistério. A grossura das paredes do templo, de uma solidez que desafia o tempo, o seu feitio comum no século 17, são, no entanto, um atestado nítido do enorme trabalho que exigiu a sua construção, principalmente tendo-se presente a dificuldade de transporte que naquela ocasião se deveria fazer sentir com mais agudeza.

Várias reformas foram executadas na igreja, desde a sua fundação. Uma delas, talvez a mais importante, foi realizada em 1896, segundo atesta a data afixada na parte posterior do edifício. Mais tarde, já no século atual, novas obras, inclusive caiação interna, foram feitas ao tempo em que ali servia como Vigário o Monsenhor Dr. Felício Magaldi.

Em nada, porém, foi modificada a arquitetura do santuário, cujas linhas mereceram o mais rigoroso respeito. É assim mais uma preciosa relíquia do passado, que o povo admira e contempla com veneração.

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O altar-mor, de estilo gótico, aberra do feitio barroco de toda a igreja. O primitivo altar que desde tempo ultra distante ali servia, está hoje no coro da Comunidade, que funciona na grande sala situada por trás desse altar-mor, em cuja dependência até 1921 era instalada a sacristia.

Os antigos degraus do trono foram transformados em grandes blocos de nuvens, deixando ver sobre fundo azul diáfano, como se fora um pedaço de céu, a imagem da Virgem de Loreto, um precioso trabalho em madeira, com cerca de 200 anos, tendo aos seus pés um avião em voo.

Mais abaixo, sobre duas pequenas prateleiras, estão São José e São Sebastião.

O teto da Capela-mor é delicadamente decorado pelo pintor Humberto Rizzoli. O motivo apresentado é dos mais felizes: a Casa de Loreto carregada por serafins. É um belo conjunto artístico, executado em 1936, por iniciativa do Vigário, Padre Ambrósio M. Molteni.

Ainda na capela-mor há duas colunas, sustentando na extremidade superior uma lâmpada sempre acesa. Na que fica à esquerda, uma águia tendo pendente do bico uma fita com as cores brasileiras, asas abertas, vitoriosa, alça o voo para a conquista dos espaços infinitos; na da esquerda, outra águia, mas em sentido inverso, cai da imensidade, envolta em um laço de crepe. São duas legendas – de triunfo e de morte. A primeira águia simboliza os aviadores cheios de vigor e de confiança no seu ideal. Na coluna há a seguinte inscrição: “Excelsior pro Patria conscendam”. A outra lembra os que tombaram na ânsia de atingir o máximo de glórias para a Pátria. Os dizeres afixados à coluna são: “Dulce et decorum pro Patria mori”.

Essas peanhas foram inauguradas num mesmo dia, servindo de padrinho à primeira o General Eurico Gaspar Dutra, então Comandante da Aviação[1], e à segunda o Dr. Pedro Ernesto, eminente médico já falecido. As lâmpadas que as encimam permanecem sempre acesas: por determinação das famílias de dois dos maiores vultos da aeronáutica brasileira – Brigadeiros Eduardo Gomes e Amilcar Pederneiras.

No corpo da igreja há quatro altares, à esquerda o de São Benedito, cuja imagem é centenária, e o de Nossa Senhora das Dores. No lado oposto se vê um altar de mármore dedicado a Nossa Senhora de Pompeia com um magnífico quadro do pintor Boscagli, ali erigido por Monsenhor Magaldi, antigo Vigário, e o altar de Nossa Senhora da Conceição, onde anteriormente pousavam Santa Ana e o Sagrado Coração de Jesus.

Além desses altares há ainda uma capela funda, construída em 1939, na qual se venera Santo Antônio Maria Zacaria, fundador da Ordem dos Padres Barnabitas, a cujos cuidados está atualmente entregue a Matriz.

Um grande lustre de cristal ilumina o templo, pendente do teto que é de madeira, abaulado.

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É bastante curiosa a lenda existente em torno de Nossa Senhora de Loreto, escolhida para protetora dos aviadores.

Lendo a “Esquadrilha” de maio de 1945, uma bela revista que é órgão da Escola de Aeronáutica e do Corpo de Cadetes do Ar, encontramos a notícia, que resumimos para nossos leitores, a respeito da Virgem de Loreto.

Data da Idade Média a crença dos italianos na Virgem de Loreto, e essa fé tinha base em um fato estranho ocorrido em pequena aldeia coberta de loureiros (lauretum, loreto). Da noite para o dia uma casa de madeira, inexplicavelmente, aparecera construída entre as árvores seculares da região. Maravilhados com o acontecimento, os lavradores locais aproximaram-se da estranha casa e, abrindo-lhe a porta, ficaram surpreendidos com o que viram; no interior, além de belas pinturas nas paredes, havia um altar, e nele se achavam expostos um crucifixo e a imagem da Virgem.

Pouco tempo depois de tão surpreendente ocorrência, chegava à Itália a notícia de que em Nazaré uma casa dedicada à Virgem desaparecera misteriosamente.

Naquela época os muçulmanos moviam intensa guerra aos cristãos, praticando toda sorte de perseguições contra estes, destruindo e pilhando os seus santuários, cometendo, enfim, os mais bárbaros atentados à sua crença. Correndo, portanto, o risco de ser destruída também a Casa da Virgem, contam os antigos que os anjos transportaram o pequenino templo de Nazaré para Tersat, na Dalmácia, dali para Recanati, e, como tudo indica, depois para o bosque de loureiros, onde passaria a Virgem a ser venerada tranquilamente pelos fiéis.

Comissões foram nomeadas para pesquisar a origem do aparecimento e da construção. No entanto, todos os cientistas mobilizados para desvendar o mistério foram unânimes em declarar que o templo não fora construído ali, pois nem alicerces tinha – e as pedras que o compunham, jamais existiram na Itália. Continuando as investigações, chegaram por fim à conclusão de que somente na Terra Santa havia o material empregado na edificação.

Ainda hoje essa casa existe, e no mesmo local. Está, porém no centro de uma grande Basílica, levantada em sua honra, cuja construção foi terminada durante o pontificado do Papa Sixto 5.º no ano de 1587.

Mas por que é Nossa Senhora de Loreto a padroeira dos pilotos do ar?

É natural a pergunta.

É que o Vaticano assim o determinou, considerando o fato de ter o templo da Virgem sido transportado para a Itália, através o espaço, conduzido pelos anjos.

E no dia 10 de dezembro de cada ano, imponentes festas são realizadas em toda a Itália, especialmente na grande basílica de Loreto.

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A paróquia de Jacarepaguá, encontra-se, desde 6 de janeiro de 1921, sob a direção dos Padres Barnabitas. Nos fundos da igreja mantém eles um seminário onde se formam os religiosos brasileiros que elegem a Ordem Barnabita para o desenvolvimento de sua vocação. Nesse seminário já foram ordenados 15 sacerdotes, ora trabalhando em prol da religião, em vários pontos do Brasil.

Havia também ali um Curso Ginasial; este, agora, foi transferido para Caxambu, no Estado de Minas Gerais. O Curso Teológico funciona à Rua Cândido Benício 546, naquele mesmo subúrbio de Jacarepaguá.

Nota

  1. O Ministério da Aeronáutica foi criado depois da revolução de 1930. Anteriormente a Aviação fazia parte das pastas da Guerra e da Marinha.

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Igreja de Nossa Senhora do Loreto

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