Nossa Senhora do Parto

Quando, antes de 1653, aqui chegou João Fernandes, mulato carpinteiro, natural da ilha da Madeira, trouxe consigo uma imagem de Nossa Senhora do Parto, santa de sua devoção, e colocou-a em um altar da ermida de Nossa Senhora do Ó, então existente onde hoje está a Catedral Metropolitana [1], na mesma ermida em que se haviam homiziado os primeiros padres beneditinos que vieram para o Rio de Janeiro no ano de 1589.

E ali ficou a imagem do português ultramarino até que a ermida foi dada aos frades carmelitas para que nela se estabelecessem.

João Fernandes era um homem simples, talvez de poucas letras, porém de recursos; assim, não poderia consentir que a santa de sua veneração ficasse sem altar. Para tanto adquiriu, à sua custa, um terreno situado na várzea da cidade, para em seguida nele construir uma capela sob a invocação da Virgem do Parto.

A várzea da cidade era toda a vasta zona compreendida entre os morros do Castelo, de São Bento e de Santo Antônio. O terreno em questão dava frente para a Rua dos Ourives (parte que tomou a denominação de Rodrigo Silva, depois da abertura da Avenida Rio Branco), e lados para a Rua da Cadeia (atual Assembleia) e São José. Na esquina desta última rua fez levantar o templo, onde expôs à veneração pública a imagem do seu culto.

Isso foi em 1653. E o pequeno santuário, em pouco tempo tornou-se muito frequentado, e aumentando sempre a devoção à Virgem do Parto.

Em breve vieram sediar-se na pequena igreja várias Irmandades, entre as quais a de Nossa Senhora das Mercês, a de São Jorge e a dos Clérigos de São Pedro, que até 1705 residira na Igreja de São José.

Com a morte de João Fernandes, não arrefeceu a fé em Nossa Senhora do Parto, pois outros piedosos dela passaram a cuidar.

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Igreja Nossa Senhora do Parto por Augusto Malta (1864-1957), via Biblioteca Nacional.

Falecendo no Rio de Janeiro um certo Estevão Dias de Oliveira, a Mitra recebeu como legado a importância de quarenta mil cruzados, sob a condição de ser a soma empregada em obras de caridade.

Nesse tempo em 1742, era Bispo do Rio de Janeiro, D. Frei Antônio do Desterro, que instituído testamenteiro, se encarregou de cumprir a disposição do morto. Assim, com o prévio consentimento do Sumo Pontífice, resolveu construir ao lado direito da capela do Parto um recolhimento destinado a asilar mulheres que tivessem tido vida irregular e se mostrassem arrependidas do pecado, procurando nos ensinamentos e conselhos religiosos um caminho para a regeneração. Seria assim como um reformatório de almas.

Esse, naturalmente, o intuito de D. Antônio do Desterro. Todavia, esse louvável objetivo foi deturpado, e o recolhimento passou a receber, não somente as pecadoras, mas também moças solteiras que se insurgiam contra as determinações paternas, quase sempre por motivo de casamento.

Como é do conhecimento de todos, antigamente uma moça não tinha liberdade de eleger o homem com quem se deveria unir perante o altar de Deus. O coração não tinha voto no seu destino. A vontade dos pais prevalecia acima de tudo, e o noivo era escolhido em conselho de família, no qual a parte mais interessada não era ouvida.

Não é necessário dizer da antipatia que provocou no belo sexo o recolhimento do Parto. As damas e as meninas de então a ele se referiam sempre com profundo ódio, no que lhes assistia mesmo certa razão. Naquela época longínqua quem dominava no lar era apenas o marido, senhor absoluto da casa e da família. Bastava que, por qualquer motivo desejasse se ver livre da esposa, para logo recolhê-la ao estabelecimento. As razões para isso não era difícil inventar. A imaginação humana é sempre fértil, principalmente quando se trata de satisfazer a nossa vontade.

Os autores antigos contam a respeito do Recolhimento coisas horripilantes. E como foi amaldiçoado pelo sexo feminino o infeliz Estevão Dias de Oliveira!…

Com a construção do recolhimento contíguo à Capela do Parto, esta perdeu a feição de igreja. Juntou-se àquele edifício, formando um só corpo. Era uma casa retangular, com três pavimentos. Na parte de baixo havia uma porta ladeada de janelas; nesse pavimento térreo funcionavam várias lojas. Nos andares superiores, que davam para a Rua Rodrigo Silva, contavam-se 17 janelas no primeiro e 18 no segundo. Do lado da Rua da Assembleia havia cinco janelas em cada andar.

Era esse o aspecto, no ano de 1789, da atual Igreja de Nossa Senhora do Parto.

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Incêndio no Recolhimento do Parto. Museu da Chácara do Céu. Pintura de João Francisco Muzzi (1789)

Por cerca da meia-noite de 23 de agosto de 1789, pavoroso incêndio irrompeu no estabelecimento. As chamas envolveram o edifício e, em pouco tempo, devoravam-no todo. A cidade inteira acudiu às imediações para assistir ao horrível espetáculo. Gritos lancinantes das reclusas, tetos fendidos que caíam com estrépito, madeira estalando ao calor do fogo, e o fumo subindo ao céu em coluna negra estrelada de faíscas vermelhas.

Guardas arrombaram as portas do asilo e deram liberdade às pobres reclusas meio sufocadas pela fumaça. Já estavam todas salvas quando uma delas lembrou-se das imagens da capela.

Rápida, deixando o grupo, embarafustou-se igreja a dentro, antes que alguém pudesse detê-la. Momentos depois, ei-la que volta, tonta pelo fumo, com as vestes rotas, os pés queimados, mas trazendo abraçada a imagem de Nossa Senhora do Parto, aquela mesma que viera da Madeira, trazida por João Fernandes!

Foi a única imagem que se salvou. Todas as demais foram consumidas pelo fogo.

Estrugiram aplausos à heroína desfalecida aos pés do Vice-Rei, que também no local, envidava esforços para a extinção da fogueira.

Em breve um montão de brasas substituía o edifício. Dizem alguns escritores que o fogo foi ateado propositalmente por alguém interessado em destruir aquela prisão; outros, porém, afirmam ter sido casual o sinistro. Nada podemos esclarecer, mesmo porque nunca ficou devidamente apurado o fato. Sabemos apenas que o incêndio ocorreu.

Por ordem do Vice-Rei D. Luiz de Vasconcelos a imagem de Nossa Senhora do Parto foi guardada na igreja de Santo Antônio, e as recolhidas levadas para a casa dos Terceiros Franciscanos que servia de hospital. Ficavam, dessa forma resguardadas do pecado do mundo, em ambiente religioso.

Quanto à reconstrução, logo foram tomadas providências para que tivesse início. D. Luiz de Vasconcelos pessoalmente interessou-se pelo assunto, e o Mestre Valentim da Fonseca e Silva foi o encarregado da obra que começou logo no dia seguinte ao do incêndio.

E tanto trabalharam na reedificação, tanta dedicação demonstraram pelo serviço, que, em dezembro do mesmo ano de 1789, isto é, três meses e poucos dias depois de iniciada, já a obra se encontrava pronta.

No dia 8 de dezembro, todo o Rio de Janeiro estava na ladeira de Santo Antônio para assistir à cerimônia da trasladação da imagem da Virgem do Parto, para a sua capela, o que se realizou com pomposa procissão. O vice-rei e outras pessoas do maior destaque na administração pública carregavam o andor em que era conduzida a santa. Logo a seguir, em fila de duas em duas, iam as recolhidas para a sua antiga residência.

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Reedificação do Recolhimento do Parto. Museu da Chácara do Céu. Pintura de João Francisco Muzzi (1789).

O Recolhimento existiu até o ano de 1812, quando as meninas e moças que então abrigava foram alojadas na Santa Casa da Misericórdia. Posteriormente, em 1814, funcionou provisoriamente naquele estabelecimento o hospital da Ordem do Carmo, enquanto não terminava a construção do próprio, na Rua do Riachuelo.

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Há alguns anos a igreja se encontra em obras. O seu aspecto interior é moderno, e se vêm delineados nas paredes laterais quatro altares, sendo dois de cada lado da nave. Neles estão Nossa Senhora das Dores, Sagrado Coração de Jesus, São José, Santa Terezinha, Santo Antônio e outras imagens que ainda não estão dispostas definitivamente em seus lugares.

À entrada, à direita, está uma bela imagem de Nossa Senhora da Piedade, e à esquerda um grande crucifixo pendente da parede.

No altar-mor, junto ao muro do fundo, sobre um painel à feição de tapete, vê-se a histórica imagem da Virgem do Parto, salva das chamas pela abnegação e pela fé de uma das hóspedes do antigo Recolhimento.

Na sacristia, que é simples, sem maior atrativo, encontram-se guardados dois magníficos quadros, pintados a óleo pelo grande Leandro Joaquim, e que representam o incêndio do Recolhimento, e o mesmo estabelecimento depois de reconstruído pelo vice-rei D. Luiz de Vasconcelos e Souza.

Nota do Editor

  1. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé.

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Atual Igreja de Nossa Senhora do Parto na Rua Rodrigo Silva, 7.

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