Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

O culto especial à Senhora do Rosário no Rio de Janeiro data de antes de 1639, porquanto, naquela época, os devotos da santa, que tinham a sua imagem na igreja de São Sebastião (Morro do Castelo) e os devotos de São Benedito, fundiram os seus cultos e fundaram uma confraria sob a denominação de “Nossa Senhora do Rosário e São Benedito”. Essa instituição, aprovada em 22 de março de 1669, por provisão do prelado Manuel de Sousa e Almada, foi prosperando normalmente até quando a prelazia do Rio de Janeiro se transformou em bispado, passando a Sé a funcionar na igreja do Castelo.

Começaram nessa ocasião os desentendimentos entre a Irmandade e o Capítulo, tornando a existência daquela, que até então corria placidamente, em constantes sobressaltos e dissabores. Entre outros motivos determinantes das questões, segundo Monsenhor Pizarro e Araújo, nas suas Memórias Históricas do Rio de Janeiro, havia o da obrigação de contribuir com determinada quantia para o cabido, com a qual não se conformavam os irmãos de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Não vamos discutir aqui sobre de que lado estava a razão; aceitemos os motivos de qualquer forma, mesmo porque seria difícil chegar agora a uma conclusão certa.

Dia a dia menos se tornava possível a continuação da sede da Irmandade na igreja de São Sebastião. E, assim, ficou resolvido retirarem dali a imagem de Nossa Senhora do Rosário e construírem-lhe um templo, onde pudesse ser venerada e festejada tranquilamente, sem maiores contrariedades.

Em 1700 teve início a edificação da igreja, num terreno de 7 braças de frente por 32 de fundo, obtido de Francisca de Pontes, e situado na Rua Pedro da Costa (hoje, Uruguaiana). Para levar a termo esse propósito a Irmandade contou com o valioso auxílio do governador Luiz Vahia Monteiro, o “Onça”, que se dedicou com especial simpatia ao empreendimento religioso. Dessa forma, dentro de pouco tempo estava concluída a capela-mor e logo depois de 1725 o templo se achava completo. Em sinal de gratidão eterna, a congregação colocou solenemente o retrato do seu benfeitor no consistório da igreja.

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Nos desígnios misteriosos do tempo há resoluções imponderáveis. Em 1737, por se encontrar ameaçando ruína a igreja do Castelo, eis que a Sé do Rio de Janeiro é transferida para a igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito!

Não é lícito acreditar que a Irmandade recebesse com simpatia essa determinação capitular, porquanto não podia esquecer a série de contrariedades por que passara ao tempo em que a sua devoção era sediada no santuário do outeiro. De resto, era também compreensível que uma agremiação não desejasse abdicar dos seus direitos sobre uma propriedade – pois quase a isso equivalia a transformação de um templo em Sé. Em lugar de representar uma honra, constituía, antes, um contratempo.

Não era a primeira vez que a Sé se mudava. No ano de 1734, por motivo de obras no Castelo, a catedral passou a ter sede na Cruz dos Militares; surgiram, porém, tantas desinteligências que três anos e meio depois os religiosos de São Sebastião tiveram de deixar a igreja da Rua 1.º de Março. Em dias anteriores, em 1659, já o prelado tentara transferir para a igreja de São José a Sé do Rio de Janeiro. Mas, encontrando forte resistência por parte da irmandade, foi forçado a desistir do propósito.

Não obstante tudo isso, a irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito acatou a ordem superior, e o cabido ali instalou a sua sede provisória.

Recomeçaram logo as contrariedades, e tão sérias foram elas que em 1739 a Irmandade dirigiu ao rei, uma áspera e circunstanciada queixa contra o cabido. O soberano, ouvido o Governador e a Mesa de Consciências e Ordens, enviou por intermédio do Bispo a resposta, ordenando-lhe “conservar interinamente a catedral e o cabido da igreja de Nossa Senhora do Rosário, enquanto se fazia a nova Sé, para cuja obra de novo recomendou ao Bispo que escolhesse sítio apto onde se executasse, sem ser na igreja dos pretos, por não ser decente que o mesmo prelado e o Cabido estivessem celebrando os ofícios divinos em uma igreja emprestada e de mistura com os pretos”.

Como se vê, a opinião real era contrária ao justo desejo da Irmandade. Já não havia, pois, apelação; somente a submissão era aconselhável. Em compensação, nunca os irmãos deixaram de questionar e discutir com os cônegos do Cabido durante todo o tempo em que ali estiveram, nem tampouco se interessaram em mandar melhorar ou limpar o templo. O resultado de tais desentendimentos foi que a igreja nunca ofereceu certo conforto e o seu aspecto interno não era de todo agradável.

Esta situação prolongou-se desde 1 de agosto de 1737 até 15 de junho de 1808, quando a catedral passou para a igreja do convento dos Carmelitas, elevada à categoria de Capela Real.

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Desembarcando no Rio de Janeiro, a 8 de março de 1808, a família de Bragança e o seu enorme séquito, impunha-se à alma religiosa dos monarcas, dos príncipes e de todos os dignitários da casa real uma visita à Catedral da cidade. Era um dever espiritual; desejavam todos, render graças aos céus por terem chegado sãos e salvos a esta banda do mundo, onde nem se falava em Napoleão.

O cortejo formou-se no cais Pharoux com destino à igreja do Rosário, onde Suas Majestades Sereníssimas e todos os demais componentes da corte fujona fariam as suas primeiras orações em terra carioca.

Nesse dia de festa, um novo fato desagradável havia ainda de surgir entre o cabido e a irmandade. É que os cônegos queriam à viva força receber na porta do templo os visitantes, em detrimento dos membros da Irmandade – e donos da casa, portanto. Estabeleceu-se discussão, ocorreram cenas deploráveis, quase de pugilato. Para evitar maior escândalo, os irmãos simularam conformar-se com a vontade dos “hóspedes” e abandonaram o templo, tomando o rumo do centro da cidade.

Ninguém suspeitaria, no entanto, do que dentro em pouco iria acontecer.

Ao aproximar-se o cortejo da igreja do Rosário, eis que todos os da Irmandade, que se encontravam ocultos nas imediações, inopinadamente tomam a dianteira do grupo e, imponentes, dão entrada no recinto, formando alas, entre as quais passaram, em grande pose, os regentes lusos e todos os seus acompanhantes.

Estavam vingados os irmãos de Nossa Senhora do Rosário e S. Benedito. Por serem de cor, os do cabido não os consideravam dignos de aguardar à entrada do templo tão luzidas personagens; mas foi por entre os pretos que Suas Altezas Reais e mais fidalgos e fidalgotes chegaram até o altar-mor!

Foi esta a última desavença entre os irmãos e os ocupantes da igreja do Rosário. A 15 de junho de 1808 deixava para sempre a Catedral aquele templo onde estivera durante 70 anos, 9 meses e 15 dias, legando à Irmandade grandes e lamentáveis recordações…

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Interior da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Em 1967 a igreja sofreu pavoroso incêndio, sendo reduzida às paredes externas, por isso atualmente a igreja não tem praticamente mais nenhuma decoração interna.

Embora a igreja, nos seus primórdios, nunca houvesse tido grande esplendor, ante motivos aqui ligeiramente relatados, nela se realizaram memoráveis festas, de caráter bastante curioso. O largo que havia em torno enchia-se de gente de todas as esferas, e ali se procedia a leilões de prendas, enquanto eram vendidos objetos e guloseimas em tabuleiros forrados com toalhas brancas. A música emprestava um tom de alegria aos festejos daquela gente sem outra ambição a não ser honrar à Virgem e a São Benedito.

A esse respeito escreve Joaquim Manuel de Macedo:

“Não há um só dos nossos velhos que não se lembre com saudade das famosas festas do Rosário. Assim como na festa do Espírito Santo há um imperador, nas do Rosário havia rei e rainha com a sua competente Corte, e cuja realeza durava um ano. O negro e a negra, rei e rainha da festa do Rosário, apresentavam-se trajando riquíssimos vestidos bordados de ouro e prata, imitando o mais possível as vestes reais dos antigos tempos. A sua Corte enfeitava-se às vezes extravagantemente, mas sempre com grande luxo. O cortejo real era precedido de uma música especial, e, além da solenidade religiosa, havia danças nas ruas, em que tomava parte a realeza improvisada, e os pretos do Rosário batiam palmas, vendo bailar, a seu modo, o rei e a rainha da festa.”

Era, como se percebe, a festa do Rosário, uma cerimônia de cunho nitidamente africano, mas que despertava grande interesse e curiosidade entre o povo da época.

Ainda para ilustrar melhor esta crônica, pedimos vênia a Augusto de Lima Júnior para transcrever trecho de um dos trabalhos do seu livro Histórias e Lendas, a respeito das festividades em honra de Nossa Senhora do Rosário promovidas pelos pretos escravos, em Vila Rica:

“O rei, de coroa e cetro, e sua luzida corte, só apareciam lá para as 10 horas, pouco antes da missa cantada, e apresentava-se com a rainha, os príncipes, os dignitários de sua realeza, cobertos de ricos mantos e trajes de gala bordados a ouro, precedidos de batedores e seguidos de músicos e dançarinos batendo caxambus, pandeiros, marimbas e canzás, executando, os batedores e os do séquito, bailados simbólicos e atroando os ares com esgoeladas ladainhas. As negras do séquito e todas as que se prezavam de ‘ter qualidade’, ao chegarem próximo da igreja, polvilhavam suas carapinhas com ouro e iam lavá-las numa pia que ainda existe.”

A devoção dos pretos a Nossa Senhora do Rosário não se limitava ao Rio de Janeiro, mas dominava em todo o Brasil.

Quando a família real portuguesa voltou para Lisboa, em abril de 1821, aqui deixou como regente o príncipe D. Pedro.

Mal haviam chegado a Portugal os soberanos, e já os brasileiros demonstravam a sua repulsa ao domínio português e o seu vivo desejo de independência, no que eram francamente apoiados pelo próprio D. Pedro, que se tornou a figura de maior destaque da nossa História.

Os rumores das agitações populares com a anuência do regente logo se fizeram ouvir na Corte, o que provocou uma ordem de D. João VI para que o príncipe entregasse o governo a uma junta e regressasse imediatamente a Portugal. Dessa, forma, pensavam as cortes lusitanas, estariam sufocados os anseios de liberdade do povo brasileiro…

Nessa ocasião o Senado da Câmara funcionava no Consistório da igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Foi dali que a 9 de janeiro de 1822 saíram José Clemente Pereira e seus pares para se avistarem com D. Pedro e entregar-lhe uma representação popular com 8.000 assinaturas, redigida por Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio, pedindo ao Príncipe, de quem era grande amigo, que se deixasse ficar no Brasil. E na mensagem constavam estes termos:

“Senhor. A saída de V. Alteza Real dos Estados do Brasil será o decreto fatal que sanciona a independência deste reino. Exige, portanto, a salvação da Pátria que V. Alteza suspenda a sua ida até nova determinação do Soberano Congresso. O Partido da Independência, que não dorme, levantará o seu império, e em tal desgraça, oh! que de horrores e de sangue, que terrível cena aos olhos de todos se levanta!”

E foi junto ao mesmo Consistório, sobre um monte de pedras, que Inocêncio Rocha Maciel, filho do Capitão-Mor José Joaquim da Rocha, leu em voz alta, para a grande multidão que o rodeava, a resposta de D. Pedro: — “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto; diga ao povo que fico!”

Foi, portanto, ali na igreja do Rosário que se deu um dos mais decisivos passos para a nossa emancipação política.

Na fachada do templo há uma placa de bronze, de autoria do escultor Rodolfo Bernardelli, relativa ao importante acontecimento, e ali colocada por iniciativa do historiador Noronha Santos.

Também dali do Senado da Câmara partiu a comissão que procurou D. Pedro, em 13 de maio de 1822, para rogar-lhe que aceitasse o título de “defensor perpétuo do Brasil”, quando o governo português ordenou aos seus representantes nos países estrangeiros que se opusessem à remessa de armas e munições para aqui. Em 23 de maio do mesmo ano, novamente o Senado da Câmara se dirigiu ao regente para pedir-lhe a convocação de uma Assembleia Legislativa brasileira, pedido que imediatamente foi satisfeito pelo príncipe. Igualmente foi no consistório da igreja do Rosário que esteve exposto o livro, em 1824, para que todos os cidadãos dessem o seu voto aprovando ou rejeitando a Constituição apresentada pelo primeiro imperador.

Depois de 1824 o Consistório da igreja esteve vago durante algum tempo, pois o Senado mudara-se para o Campo de Sant’Ana. Logo a seguir, porém, foi ocupado pela Imperial Academia de Medicina para a realização de suas sessões ordinárias.

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Quando morreu José do Patrocínio – um dos pioneiros da campanha pela abolição da escravatura, e cujo nome estará para sempre fulgurando em lugar de relevo na História da Pátria – o corpo desse inolvidável tribuno esteve exposto na sacristia da igreja do Rosário, transformada em câmara ardente. Era esse digno filho do Brasil membro da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Falecera o “Zé do Pato” em sua modesta casinha suburbana da Rua Dr. Bulhões, em Engenho de Dentro, na noite de 30 de janeiro de 1904, sendo os seus restos transportados no dia seguinte para o templo da Rua Uruguaiana. Envolvendo o travesseiro em que pousava para o último sono aquela cabeça iluminada, sempre povoada de sonhos de beleza, estava uma folha da Cidade do Rio, jornal que fundara, e em cujas colunas ele e outros defenderam sempre os seus ideais de liberdade.

Da igreja do Rosário saiu o préstito fúnebre, com enorme acompanhamento, não só de vultos relevantes na política ou na intelectualidade do tempo, mas também, e em grande parte, de gente humilde, que sempre encontrara em José do Patrocínio um amigo incondicional. A esse respeito diz Osvaldo Orico em seu precioso volume PATROCÍNIO: — “A multidão que ele seduziu com a sua palavra, foi também atraída pelo seu silêncio. Toda ela conduziu ao cemitério, numa despedida votiva, o corpo do Libertador.”

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Se antigamente a igreja era mal cuidada, se em seu redor havia monturos de lixo, e se se ressentia da falta de maior atenção da irmandade, esses fatos pertencem agora ao passado e não devem ser revolvidos. Atualmente o templo da Rua Uruguaiana é asseado, encantadoramente singelo, claro e agradável à vista. Ao lado direito de quem entra no templo, próximo à porta principal, há uma placa de bronze, onde se vê, em medalhão, a efígie do escultor, Valentim da Fonseca e Silva, falecido em 1 de março de 1813, e sepultado em uma das catacumbas que então havia na igreja. Foi ali colocada a placa por iniciativa do então Prefeito Bento Ribeiro. Nessa mesma data se inaugurou a herma de Valentim no Passeio Público.

A igreja do Rosário, na sua simplicidade, na sua ausência completa de luxo, é uma casa essencialmente do povo. Ali, em priscas eras, sob aquele teto, confundiram-se muitas vezes a nobreza e a plebe em solenes festas para homenagear os santos padroeiros. E pelos muitos fatos históricos que ali se desenrolaram, dentre os quais salientamos alguns, constitui também uma página vibrante na formação da nossa nacionalidade.

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário, desenho de Eduard Hildebrandt (9.9.1818 – 25.10.1869), 1844

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