Santa Ana

Nem sempre a igreja que tem a invocação da esposa de São Joaquim e mãe da Virgem Maria, esteve situada na Rua de Santa Ana, onde hoje se encontra. Nesse local ela existe apenas há cerca de 75 anos, isto é, desde 1870, data em que terminou a sua construção, obra que consumiu cerca de cinco lustros. A devoção por Santa Ana no Rio de Janeiro vem, no entanto, de tempo já bastante afastado.

Em 1706 os devotos de São Domingos iniciaram a edificação do seu templo, o qual foi demolido no ano de 1943 pelo governo municipal, quando da abertura da Avenida Presidente Vargas, por isso que o mesmo ficava bem no centro da nova artéria da cidade.

Terminada aquela igreja, conseguiram os devotos de Santa Ana permissão para colocar em um dos altares do novo templo uma imagem da santa. Dia a dia crescia o número de fiéis que adoravam a veneranda mãe de Nossa Senhora, e os dominicanos não aceitavam de bom grado essa demonstração de fé; interpretavam-na, talvez, como descaso ou injustiça a São Domingos. Assim, entre os dois grupos de religiosos começaram a surgir mal-entendidos, que aumentavam sempre, até que os santanistas resolveram deixar o templo dos dominicanos, retirando dali a imagem que lhes pertencia.

Nesse difícil transe, eis que surge em socorro dos devotos de Santa Ana, o Cônego Antônio Pereira da Cunha, virtuoso sacerdote, proprietário de uma grande chácara no lugar que, mais tarde, passou a ser conhecido por Campo de Santa Ana. Resolveu o pastor de almas conceder aos religiosos uma área no seu terreno a fim de ali poderem eles construir uma capela onde se passasse a prestar culto à Senhora Santa Ana, tendo ainda, ele próprio, com o seu prestígio, conseguido dos poderes públicos, em 30 de julho de 1735, a necessária licença para a fundação da capela. O Cônego Cunha dava o terreno gratuitamente, livre e desembaraçado, apenas sob uma condição: – a de, quando morresse, ser enterrado na capela. Esse desejo do padre, tão simples, tão altamente religioso, foi satisfeito; quando faleceu em 22 de outubro de 1759, a sua sepultura foi aberta no centro do pequeno templo, e ali o seu benfeitor dormiu o último sono.

Muitos anos depois a capela estava grandemente danificada pela ação do tempo. As paredes, fendidas, ameaçavam ruir, e se impunha uma medida urgente em seu auxílio.

Mais uma vez a Providência pôs à disposição dos filhos de Santa Ana um novo protetor. Logo apareceu o Brigadeiro José Vicente de Velasco Molina, Comandante do 2.º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Esse militar elegeu a Santa para padroeira da Corporação e todos os seus soldados passaram a festejá-la. Espírito verdadeiramente católico, e possuidor de ampla fortuna, imediatamente se prontificou a custear a reconstrução da casa que caía, e, em breve, a capela adquiriu novo esplendor, passando a ser local preferido pelos soldados do 2.º Regimento para o culto religioso.

Falecendo o Brigadeiro Molina, em 1806, encontrou na Capela que tanto beneficiara, a sua sepultura, tendo o corpo sido enterrado vestido com o hábito de Aviz, de cuja Ordem era membro.

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Igreja de Sant’Ana

No princípio do Século XIX, isto é em 1814, surgiu entre a Capela de Santa Ana e a Igreja de Santa Rita, uma séria desavença.

Tornando-se demasiado populosa a paróquia de Santa Rita, os moradores nas proximidades do templo de Santa Ana requereram ao governo a criação de uma nova paróquia, cuja sede fosse esta última igreja.

Ouvida a Mesa da Consciência e Ordens, os seus Membros reconheceram razoável o pedido, e expediram ordem para a demarcação dos limites da novel jurisdição.

Logo o Vigário de Santa Rita lançou veemente protesto, alegando que a divisão promovida pelas autoridades competentes tirava grandes benefícios à sua paróquia. Tomando em consideração a reclamação do Vigário, resultou o governo ceder aos prejudicados, como recompensa, grande área de terra que havia sido desmembrada da freguesia da Sé. A 4 de setembro de 1817, por decreto real de Dom João VI, cuja corte então se achava aqui no Rio de Janeiro, foi, afinal, definitivamente estabelecida a paróquia de Santa Ana, tendo exercido o cargo de seu primeiro Vigário, até o ano de 1844, o padre Antônio Ferreira Ribeiro.

Em 1840, o governo imperial, sob a regência do Marquês de Olinda, considerou imprópria a velha igreja para a categoria de sede da Matriz. Achava que a Matriz de Santa Ana deveria ser mais suntuosa, e em lugar mais amplo. E nesse propósito designou outro terreno em que pudesse ser construído com todos os requisitos o novo santuário. Assim, a 28 de abril de 1840, baixava o regente o decreto n.º 170, concedendo à edificação da Igreja Matriz o terreno em que se havia começado a obra para a construção de uma cadeia, situado num pequeno largo defronte à então Rua das Flores (hoje Rua de Santa Ana).

A seguir a Cia. Estrada de Ferro Dom Pedro II (atualmente E. F. Central do Brasil) necessitou do terreno onde estava a igreja, para levantar ali a estação inicial de sua linha. Dessa forma a igreja teve de ceder, uma vez que não era possível resistir, mormente tendo a Irmandade sido indenizada dos prejuízos com a quantia de quarenta contos de réis (hoje Cr$ 40.000,00).

Iniciada a demolição, todas as imagens foram trasladadas para a Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, na atual Praça da República, até que terminasse a construção da nova Matriz, que teve começo em 1850, sendo aproveitados os próprios alicerces lançados em 1802, e que se destinavam ao prédio da futura cadeia.

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Igreja de Sant’Ana

Logo à entrada do templo, ao lado esquerdo da porta principal, há uma bela imagem do Cristo crucificado, colocada na parede. Conta a igreja com seis altares laterais, sempre floridos, nos quais se vêm N. Sra. das Dores ladeada por Santo Antônio e Santo Expedito; N. Sra. do SS. Sacramento com São José e São Sebastião; a Imaculada Conceição com São Luiz Gonzaga e Santa Inês; N. Sra. de Fátima com Santa Terezinha e Sagrado Coração de Maria e à frente o Arcanjo São Miguel; o Divino Espírito Santo com São João Batista e São Pedro, e à frente N. Sra. do Carmo. Ao lado direito de quem entra, sobre um altar provisório, está a imagem de Santa Ana acompanhada da Virgem Maria, enquanto não se concluem às obras de um santuário, que está sendo construído especialmente para ela, contíguo à própria matriz.

Ornam a nave, além de muitos vitrais de alto preço, seis belos painéis representando a Fuga para o Egito, o Batismo de Jesus, a Instituição da Eucaristia, o Sagrado Coração de Jesus, a Apresentação de Jesus no Templo e Jesus entre os Doutores.

A velha imagem de Santa Ana com que foi inaugurada a primitiva capela e que esteve na Igreja de São Domingos, ainda existe, e está sob a guarda cuidadosa do atual Vigário, Padre Jerônimo Billiouw.

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Numa caixa de vidro, colocada em baixo do altar de N. Sra. da Conceição, repousam sobre colchão de seda bordada, as relíquias de Santa Prisciliana, a propósito de quem circulam, desde remotas épocas, as lendas mais disparatadas. Santa que conta com inúmeros devotos e inspira mesmo sentimento de respeitoso carinho, por se tratar de uma quase criança, os seus restos merecem de todos a mais profunda veneração.

A verdade, no entanto, acerca de Santa Prisciliana, segundo relata Vieira Fazenda, em “Antiqualhas”, resume-se no seguinte:

– Havia no tempo do Imperador Juliano, o apóstata, que reinou em Roma nos anos de 361 a 363, já na era cristã, uma menina com o nome de Prisciliana, que, como seus pais acreditava no Filho de Deus como única verdade sobre a terra.

Nesse tempo, quando a menina contava apenas 16 anos, é que se faziam sentir com mais violência os castigos e os sacrifícios dos cristãos, sob o comando do imperador. A menina, movida por seus sentimentos de bondade, muitas vezes, sorrateiramente, acompanhada apenas da mãe, levava socorros aos mártires da fúria de Juliano, e, depois de executados esses mártires, recolhia os seus corpos, dando-lhes sepultura.

Um dia, porém, foi Prisciliana surpreendida na prática dessa elevada caridade. Logo presa, encarcerada, torturada, nunca teve uma palavra contra os seus algozes; aceitava todos os horrores estoicamente, certa de que a misericórdia divina lhe haveria de salvar a alma.

Condenada à morte pelo simples motivo de se recusar a abjurar a sua crença, foi pelos soldados levada ao local do suplício. Enquanto caminhava para o último momento de sua vida terrena, entre a multidão que se aglomerava, somente uma palavra murmurava os seus lábios: – “Jesus!”

Sua morte, embora crudelíssima, foi rápida. Um dos verdugos, desembainhando a espada, com ela traspassou o pescoço da jovem, que logo caiu, estertorando, num lago de sangue. O seu corpo foi recolhido por pessoas piedosas, e dado à sepultura no cemitério de Ciriaca, na Via Tiburtina.

Vários séculos volveram sobre o acontecimento que tanto compungiu a igreja universal.

Estando um dia em Roma, o Monsenhor Manoel Joaquim de Miranda Rêgo, Vigário da paróquia de Santa Ana, resolveu o Papa Gregório XVI, por uma graça especial, consentir em que os restos da já então Santa Prisciliana viessem para o Rio de Janeiro, mediante a condição de serem depositados na Igreja Paroquial. Assim vieram ter à nossa capital as relíquias da menina-santa, imolada pelos bárbaros, inimigos da Igreja de Cristo.

Os ossos foram caprichosamente armados e revestidos de uma camada de cera, tomando a forma de um corpo perfeito. Assemelha-se a uma criança dormindo placidamente. Na arca em que descansam eternamente os despojos da santa há também um vaso contendo o seu sangue, misturado com areia – tal como foi recolhido na ocasião de sua gloriosa morte.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, a preciosa carga, em 17 de maio de 1846, foi logo removida para a Capela de São Francisco da Prainha, no Cais do Porto, onde permaneceu alguns dias, sendo depois trasladada com grande pompa para a Igreja de Santa Ana, ainda no Campo da mesma denominação.

Relatam crônicas da época a imponência da procissão que se organizou para o efeito da trasladação, a qual reuniu todos os vultos de maior prestígio no tempo, no cenário das artes, das letras, da nobreza, prelados, irmandades religiosas e todo o povo, inclusive o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Thereza Christina.

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O Cardeal Dom Sebastião Leme, vulto excepcional por suas elevadas virtudes, coração sempre cheio de bondade, que tanto trabalhou pela Igreja Cristã no Brasil, era um fervoroso devoto da glória de Cristo. E assim houve por bem instituir o Santuário Nacional do Coração Eucarístico de Jesus, para cuja sede escolheu a Matriz de Santa Ana, estabelecendo ali o culto perpétuo de adoração ao Santíssimo Sacramento.

Desde o dia dessa piedosa resolução do Cardeal Dom Leme, nunca mais foram fechadas as portas do templo, pois nem por um só instante o Santíssimo deixou de ser velado.

E no altar-mor, onde estava até então a imagem de Santa Ana, se vê hoje a custódia com o SS. Sacramento em exposição perene, tendo ao alto a imagem do Sagrado Coração de Jesus entre dois anjos.

Para que a adoração seja sempre constante e ininterrupta, ali residem membros da Ordem dos Padres Sacramentinos, que durante dia e noite se revezam na adoração do Senhor. O próprio, Dom Leme, todos os dias, ia ao templo prestar o seu culto a Deus. E quantas vezes o vimos, já de saída, a abençoar paternalmente e a distribuir esmolas aos meninos pobres que o rodeavam…

O Cardeal Dom Leme, que faleceu a 17 de outubro de 1942, foi sepultado a 20 do mesmo mês, no chão da igreja, em frente ao altar-mor, à vista do SS. Sacramento, de sua maior devoção, obedecendo, deste modo, a igreja, ao cumprimento da última vontade do ilustre morto.

O corpo de Dom Leme, que esteve em câmara ardente na Catedral Metropolitana, entregue à visitação pública, foi conduzido à mão desde a Praça 15 de Novembro, até o templo onde repousa em paz, debaixo de um retângulo de bronze em que aparece, admiravelmente esculpida, a sua efígie com as luxuosas vestes cardinalícias.

A igreja que está passando ainda pela reforma iniciada pelo falecido Cardeal, tem já a fachada concluída, apresentando aspecto sóbrio e elegante. É toda de cantaria com colunas altas e grande escadaria também de pedra, com passagem para automóveis. É um dos mais belos templos do Rio de Janeiro.

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Igreja de Santana e o Chafariz das Lavadeiras no Campo de Santana – 1817 – Thomas Ender – Akademie der Bildenden Künste Wien

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