Santa Cruz dos Militares

O templo da Santa Cruz dos Militares, levantado na Rua 1.º de Março, esquina da Rua do Ouvidor, tem a sua história assinalada por fatos curiosos que datam de muitos anos, e que bem revelam o espírito religioso da nossa gente, em todos os tempos, herdado dos descobridores em 1500. E a nacionalidade brasileira assim se formou, tendo como guia espiritual os mandamentos cristãos, e como exemplo de fé a cruz onde morreu o Redentor do mundo por amor à humanidade.

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Rua Direita, atual Rua Primeiro de Março, Rio de Janeiro – Gustavo Dall’Ara (1865–1923) – Museu Nacional de Belas Artes (MNBA)

Antigamente, no ano de 1623, havia no local onde se encontra hoje a Igreja da Santa Cruz dos Militares, um pequeno forte, com seus canhões apontados para o mar, pois as águas da baía de Guanabara chegavam até ele, em cuja amurada de pedra se quebravam as ondas por vezes revoltas. Denominava-se Santa Cruz esse forte. O tempo, entretanto, se encarregou de envelhecer e destruir quase completamente essa defesa do velho Rio de Janeiro, e em 1623, Santa Cruz apresentava o aspecto de desoladora ruína.

A vista da imprestabilidade do forte, que, dia a dia, mais se acentuava, os oficiais e soldados da sua guarnição resolveram se dirigir ao governador da cidade, Capitão Martim de Sá, para pedir-lhe que consentisse na edificação ali de uma ermida, onde os militares pudessem ser sepultados. Obtida a permissão desejada iniciaram logo os trabalhos, e o pequeno templo ficou concluído em 1628, recebendo a denominação de Santa Vera Cruz.

Formou-se então a Irmandade, cabendo aos oficiais superiores a obrigação de concorrerem com 100 réis mensais, os inferiores com 50 réis, e os soldados rasos com 20 réis apenas para a manutenção do templo, tendo sido eleito para Juiz o Capitão Martim de Sá.

Logo terminada a construção da capela, os navegantes e comerciantes das imediações, passaram a festejar o seu padroeiro São Pedro Gonçalves, na Santa Vera Cruz, ao que os irmãos não se opuseram; ao contrário, em virtude de serem muito escassos os recursos de que dispunham, resolveram mesmo ceder, praticamente, àqueles festeiros, metade da ermida, sob a condição expressa de fazerem eles face a uma parte das despesas, não somente ordinárias, como das obras que acaso tivessem de ser realizadas. E assim foi vivendo e prosperando sempre a Capela da Santa Vera Cruz.

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Nos princípios do século 18, a Igreja de São Sebastião, situada no alto do morro do Castelo, e que servia de Sé, ao Rio de Janeiro, encontrava-se bastante danifica da pelo tempo. Carecendo de obras urgentes, volveu então o Bispo os olhos para a Santa Vera Cruz, dirigindo-se à Irmandade com o intuito de conseguir que a capela fosse cedida, para ali serem celebrados os ofícios religiosos, elevando-se, ipso facto, à categoria de Sé e Catedral. Isso mesmo foi comunicado a el-rei em 13 de setembro de 1703, e o desejo mereceu o beneplácito real.

No entanto, pouco tempo após, tiveram início sérias divergências entre os padres e os militares; estes achavam, com justa razão, que o templo lhes pertencia; que era uma propriedade construída por eles, com ingentes esforços e indescritíveis sacrifícios. E os desentendimentos tomaram vulto, e os padres de São Sebastião acabaram por deixar de celebrar ali as suas missas.

Assim, a Santa Vera Cruz foi, durante três anos e meio, apenas, a Sé do Rio de Janeiro.

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Em 1716, o então governador da cidade, General Francisco de Távora, por carta de sesmaria, confirmada mais tarde pelo rei de Portugal, Dom João V, cedia à instituição religiosa, não somente o terreno em que assentava a ermida, mas toda a área de terra; que fosse ficando nos fundos pelo recuo do mar.

Por cerca de 1760, a ermida que não resistira ao correr do tempo, achava-se quase em ruínas. Se não fosse tomada uma providência para o seu soerguimento teria fatalmente que desaparecer. Os militares então apelaram para os festeiros de São Pedro Gonçalves, no sentido de auxiliá-los com uma parte das despesas para a reconstrução do templo, que de longa data vinha servindo também a eles para a realização de suas comemorações. Não conseguiram, todavia, o seu intento; não concordaram aqueles, e até deixaram de festejar o seu protetor.

Não desistiram, no entanto, os militares, de reconstruir a sua casa de orações. Anos depois, isto é, em 1780, resolveu a Irmandade começar a ereção definitiva de sua igreja, e convocou os festeiros de São Pedro Gonçalves para discutirem sobre a cessão dos prédios, que a esse tempo já havia no local, e que pertenciam às duas confrarias. Ficou nessa ocasião assentado que os festeiros cederiam a sua parte nos prédios, mediante a condição de lhes ser permitida a realização de uma festa anual a São Pedro Gonçalves, e, ainda mais, que a imagem do santo tivesse um altar no novo templo. E tudo isso ficou ajustado e foi cumprido.

A primeira pedra da construção foi colocada em 1 de setembro de 1780, e os trabalhos tiveram início sob a direção do Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria. Trinta e um anos após, em 1811, foi terminada a igreja que recebeu a denominação de Santa Cruz dos Militares. A 28 de setembro, quando da sua sagração, foi celebrada missa solene, com a assistência de pessoas da maior evidência na época, inclusive o príncipe-regente Dom João, que para aqui correra fugindo às hordas napoleônicas que dominavam quase toda a Europa na sua sede de conquista. Nessa ocasião a Irmandade ofereceu ao Regente o título de seu Protetor, o que foi aceito com viva alegria, dado o espírito religioso do príncipe.

O templo tem passado por várias reformas e pinturas internas; contudo conserva ainda a sua primitiva forma.

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Igreja de Santa Cruz dos Militares

A nave é toda branca, em estuque trabalhado e revestido de gesso, vendo-se nas paredes desenhadas em relevo, magníficas obras que recordam o passado império, inclusive o emblema, além de outras lembranças caras, como condecorações e instrumentos militares, e ainda as ordens honoríficas instituídas pelo nosso primeiro imperador. O púlpito onde se fazem ouvir os pregadores, é magnífico em seu desenho.

São três os altares do templo. No da Capela-mor está colocada a Cruz sobre o Monte do Calvário, tendo ao pé a imagem de N. S. da Piedade; mais abaixo estão a do Sagrado Coração de Jesus e a do Senhor Desagravado, que constitui uma das grandes devoções da Irmandade. O altar do lado direito é de N. S. das Dores, e o que fica à esquerda apresenta a imagem de S. Pedro Gonçalves.

Guarda a igreja preciosas relíquias que rememoram feitos heroicos dos soldados do Brasil. Assim, junto ao arco do cruzeiro, encontram-se três bandeiras paraguaias que caíram em mãos dos nossos patrícios por ocasião da batalha de Avaí, ferida em 11 de novembro de 1868. Esses troféus de glória para nós, foram oferecidos à Irmandade pelo Duque de Caxias, figura máxima do Exército Brasileiro.

A propósito do Duque de Caxias, queremos transcrever aqui algumas palavras proferidas pelo ilustre militar, quando foi empossado no cargo de Provedor da Irmandade, e que bem demonstram a sua grande fé religiosa:

– “Os laços da espada nos unem, as lides da guerra nos ligam e os braços da cruz nos abrigam. Irmãos pela cruz e irmãos pela espada, a nossa missão é sagrada: Santificar o culto do Divino Lenho e aliviar da miséria as viúvas e filhos dos que seguem a nobre profissão das armas. Eis aí o justo fim da sábia instituição denominada Irmandade da Santa Cruz dos Militares”.

A Irmandade, no tempo da monarquia, foi considerada imperial, por Decreto de 3 de dezembro de 1828, tendo Dom Pedro I, se declarado seu Protetor. Esse título Dom Pedro II transferiu para si, pouco depois da sua ascensão ao trono brasileiro, em 1840.

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Instituiu-se em 1845, a devoção do Senhor Desagravado, que teve origem em um fato ocorrido na igreja durante uns reparos de pintura que ali se executava.

Foi em 29 de julho, pela manhã. O operário português Augusto Frederico Corrêa, em dado momento, vendo sobre o altar do Consistório a imagem do Cristo morto, desacatou-a, dirigindo-lhe pesados impropérios. Advertido pelos companheiros de trabalho, respondeu-lhes que não temia a Deus e que “aquilo” era apenas um pedaço de madeira sem maior significação. Só acreditaria na existência do Cristo se ele o matasse às 3 horas (hoje 15 horas) daquele dia.

O trabalho continuou, e ninguém mais pensou no ocorrido. Quando o relógio anunciava justamente 3 horas, ouviu-se no templo um lancinante grito, e o operário caiu pesadamente no chão, em frente ao altar de N. S. das Dores, contorcendo-se em horríveis convulsões.

Conduzido em rede para a residência, à Rua do Senado nº 48, ali esteve durante três dias completamente desacordado; no dia 1 de agosto, porém, foi o operário encontrado completamente curado, abraçado a uma imagem da Virgem das Dores.

O acontecimento foi divulgado por toda a cidade, e o Bispo Dom Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, juntamente com outras autoridades eclesiásticas, dirigiram-se no dia 12 do mesmo mês ao local do delito, e ali entoaram preces em desagravo pela ofensa à imagem do Cristo, e Augusto Frederico Corrêa, de joelhos, pediu perdão pelo desacato, proferindo palavras de fé e arrependimento.

Desde esse dia, comemora-se anualmente na Igreja da Cruz dos Militares a cerimônia do Desagravo, que consiste em uma procissão interna, sendo a imagem conduzi da pelos irmãos, enquanto o capelão, durante o trajeto, reza em voz alta preces de louvor ao Altíssimo.

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