Santa Rita

Os católicos do Rio de Janeiro devem a ereção da Igreja de Santa Rita, à iniciativa particular de uma família de fidalgos portugueses aqui chegada no princípio do século 18.

Antes do ano de 1710 desembarcaram neste porto Manoel Nascentes Pinto, sua esposa Dona Antônia Maria e um filho. Vinha o fidalgo dar cumprimento a uma missão de que havia sido encarregado pelo rei de Portugal, D. João V.

Membros de família tradicionalmente católica, dedicava o casal Nascentes Pinto o seu principal culto religioso à Santa Rita de Cássia, através de um quadro que possuíam e que sempre os acompanhava.

Aqui chegados, instalaram-se em uma vasta chácara que adquiriram, e cujo terreno ocupava toda a extensão que vai do mar, pela hoje Rua Teófilo Otoni, até as cercanias do morro da Conceição. Muito estimados por todos, mercê de suas virtudes e de sua encantadora simplicidade, apesar de nobres de sangue, o solar dos Nascentes Pinto era continuamente visitado pelos vizinhos pobres que lhes rendiam homenagens de gratidão pelos benefícios que recebiam.

Nessa ocasião o culto de Santa Rita, que até então era particular, isto é, era íntimo da família solarenga, passou a ser quase público. Todos os anos, a 22 de maio, o quadro de Santa Rita era exposto na residência senhorial para receber a veneração de todos os religiosos. Para tanto Nascentes Pinto convidava toda a cidade – nobreza e povo se confundiam, irmanados pela mesma fé, animados de um único objetivo: – homenagear a Santa de Cássia.

Assim se passaram vários anos, durante os quais o número de devotos crescia rapidamente, triplicado de período a período.

Esse aumento de devotos trazia ao casal fidalgo grande alegria. E, assim, um dia, resolveram mandar trazer de Portugal uma rica imagem para ser colocada em lugar mais largo, onde pudesse ser melhor venerada, pois a residência já se tornava pequena para abrigar todos os fiéis que procuravam a santa no dia de sua festa.

E o local escolhido para a imagem foi a Igreja da Candelária. Ali permaneceu a santa durante muito tempo, recebendo as demonstrações de respeito dos seus devotos. Todos os anos, a 13 de maio, a imagem era conduzida à residência dos Nascentes Pinto, e, depois de vestida novamente e enfeitada com ricas joias, volvia ao seu altar na Candelária, na véspera da festa, a 21 do mesmo mês. E a imagem, quando voltava à Igreja, carregava sobre si tão vultosa fortuna em joias e adereços, que – segundo conta Moreira de Azevedo, de uma feita foi roubada em suas alfaias no valor de cerca de 40 contos de réis, no trajeto, entre a igreja e a chácara.

Para dar ainda maior esplendor ao culto da milagrosa de Cássia, os Nascentes Pinto deliberaram fundar uma Irmandade, construindo eles, à sua custa, e no mesmo terreno de sua propriedade, uma capela onde pudesse ser exposta permanentemente a santa de sua devoção.

A Irmandade logo prosperou, e foi dado início à construção da capela, cuja pedra fundamental foi colocada em 1720, pelo Bispo D. Francisco de São Jerônimo. E o trabalho foi desenvolvido com tal afinco, que no ano seguinte, em 1721, já estavam prontos a capela-mor, a sacristia e o consistório da igreja. Terminada a ereção da igreja, cujas alfaias, ornamentos e objetos do culto religioso foram oferecidos por Nascentes Pinto – foi o templo entregue à administração da Irmandade, conforme consta da escritura guardada ainda no Instituto Histórico e Geográfico, datada de 13 de março de 1721, e na qual o benfeitor reservava para si o padroado da igreja, que até então tinha sido propriedade particular.

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Resolvendo, tempos depois, o Bispo D. Francisco de São Jerônimo, elevar a capela de Santa Rita em freguesia, recusou-se a reconhecer o padroado de Nascentes Pinto, embora tal direito constasse da escritura de doação, alegando ele que somente o rei podia ser o padroeiro das igrejas do Brasil.

A questão foi aberta e estava em andamento quando o Bispo desistiu do intento de tornar em sede de freguesia a capela da taumaturga de Cássia.

Nesse ínterim morre subitamente Manoel Nascentes Pinto, e seu filho Inácio Nascentes Pinto, reconhecendo justa a razão do pai, continuou a demandar com o bispo.

Em 1741, novamente D. Francisco de São Jerônimo voltou a insistir na entrega do templo. Ante a relutância de Inácio, o bispo ameaçou-o até de excomunhão, caso não fosse satisfeito o seu desejo.

Nessa contingência Inácio Nascentes Pinto não teve outro meio senão pôr nas mãos do bispo a igreja fundada por seu pai, prosseguindo, no entanto, na querela.

Um dia Inácio é presa de grave enfermidade; um ataque súbito de paralisia deixa-o sem movimentos, sem ouvido e sem voz. Nele somente funcionavam o cérebro e a vista.

Logo atribuíram a sua enfermidade a um castigo que viesse do céu, pela razão de estar ele demandando contra a Mitra. Chamada assim a sua atenção, logo o espírito religioso do jovem aconselhou-o a desistir da velha questão. Inácio então prometeu à Santa Rita que se se restabelecesse, daria por encerrada a rumorosa contenda.

Alguns dias após a solene promessa, Inácio, como por milagre, recuperou repentinamente todos os sentidos – voltaram-lhe a audição, a voz e os movimentos. Estava curado.

Morto tempos depois, Inácio Nascentes Pinto, os seus filhos respeitaram a sua determinação, e nunca mais o assunto foi revolvido.

Manoel Nascentes Pinto e sua esposa, fundadores da Irmandade e da Igreja de Santa Rita, foram sepultados na capela-mor do templo, como era de sua vontade, e na lápide que assinalava o seu último leito via-se a seguinte inscrição: “Sepultura perpétua de Manoel Nascentes e de sua mulher e descendentes fundadores desta Igreja”.

Essa pedra tumular ali permaneceu até 1919, quando foi substituída por outra com os dizeres: “Sepultura perpétua de Manoel Nascentes Pinto e sua esposa Antônia Maria Nascentes Pinto que fez doação desta Igreja à Mitra Diocesana em 1753”.

Como se leu linhas atrás, esta última inscrição não representa a verdade, pois a Igreja não foi doada à Mitra, mas para ela passou porque Inácio Nascentes Pinto desistiu da questão que contra ela movia.

Enfim, são fatos remotos, que apenas são relembrados para fixar a verdade histórica.

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Altar da Igreja de Santa Rita

O interior da igreja passou por varias reformas desde a sua longínqua fundação. A capela-mor profusamente iluminada, apresenta a imagem de Santa Rita entre dois anjos, tendo mais abaixo, do lado da Epístola, Santo André Avelino protetor do clero, e do lado do Evangelho, Santo Agostinho, principal guia espiritual da Santa de Cássia. As imagens de Santa Rita e Santo André Avelino datam de 1765 e 1801, respectivamente, e foram mandadas modelar pelo padre Antônio José, então vigário da paróquia.

Ainda na capela se vêm as imagens de Santa Inês e Santa Terezinha. A decoração dessa capela, que é um magnífico trabalho de pintura, é de autoria de um artista cujo nome é uma afirmação de talento: Comte, ao qual Monsenhor Ananias Correia do Amaral incumbiu de ornar a igreja. Os três painéis da capela-mor, assim como os oito do teto, reproduzem emblemas do SS. Sacramento e milagres e trechos da vida da padroeira, e bem assim os seus últimos momentos.

No corpo da igreja há quatro altares. No primeiro, do lado do Evangelho, contempla-se N. S. da Graça, Sagrado Coração de Jesus, Santa Bárbara e Santa Luzia, e ainda sobre uma coluna São João Batista; no imediato, São Miguel, Santo Antônio e Santa Quitéria. Nos altares do lado da Epístola, veneram-se, no primeiro N. S. das Dores, São Tiago e São Lázaro. No interior desse altar está recolhida a imagem do Senhor Morto, que é exposta à adoração pública todas as sextas-feiras. No outro, do mesmo lado, se vêm Santa Ana, o Menino Jesus, São Joaquim e São José.

O batistério, colocado ao lado direito, é antiquíssimo, pois data da fundação da freguesia, em 1753. São incontáveis os vultos ilustres que ali receberam o sacramento do batismo, inclusive o padre Dr. Antônio Pereira de Souza Caldas que nasceu em 1762, e que mais tarde, do púlpito da própria igreja, emocionava multidões pelo poder de sua palavra erudita.

O quadro, a óleo, de Santa Rita, que serviu de base à fundação da igreja, e que era venerado na residência dos Nascentes Pinto, assim como a primitiva imagem que veio de Portugal, encontram-se ainda em ótimo estado de conservação. A imagem está na sacristia; falta-lhe apenas o dedo indicador da mão direita, partido durante uma das muitas trasladações da Igreja da Candelária para a residência solarenga.

Um dos objetos de raro valor da sacristia é uma pia também antiquíssima, toda de mármore de várias cores, e de caprichosa escultura. Um verdadeiro mosaico em que podem ser apreciados desenhos magníficos.

Havia antigamente na sacristia, cavado na parede, do lado esquerdo de quem entra, um poço memorável. A água dês se poço, segundo afirmam, continha virtudes especiais contra afecções dos olhos. Inúmeras pessoas ali iam procurar a água, que reputavam milagrosa, para lavar os olhos, e juravam que se sentiam aliviadas e até curadas dos seus padecimentos. Se era o povo que afirmava, ou melhor, aquelas pessoas que utilizavam a água e obtinham resultados satisfatórios – quem poderá contestar as propriedades da referida água? Desse poço, atualmente, só resta o vestígio.

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Relatamos aqui, a título de curiosidade, um funeral realizado naquele histórico templo. Como se sabe, durante muitos anos, foi uso enterrarem-se corpos nas igrejas.

Conta Vieira Fazenda que nas vizinhanças de Santa Rita havia um boticário que possuía um macaco de grande porte, que divertia o povo local com suas travessuras. Um dia morreu o símio, a quem o dono dedicava grande estima.

A peso de ouro comprou o sacristão e o sineiro, e o animal teve a sua sepultura na igreja, tal como se fosse gente, e quando o caixão passava os umbrais do templo o sino dobrou a finados.

Descoberto que foi o engodo, o povo se revoltou contra o ímpio negociante e ameaçou-o de aplicar-lhe um corretivo. O boticário fugiu, enquanto o macaco era desenterrado e tomava destino conveniente.

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