Santo Antônio

No cimo do monte que dá saída para o Largo da Carioca, abrangendo grande extensão de sua fralda de oeste, ergue-se, soberbo na sua tocante modéstia, o Convento de Santo Antônio.

Convento de Santo Antônio do Largo da Carioca – P. G. Bertichem – 1856

Na igreja desse refúgio cristão, os brasileiros católicos, que constituem uma grande maioria entre os que nasceram nesta esplêndida cidade, vão buscar um pouco de alívio em suas aflições, alguma esperança de salvação para o seu espírito. E dentro da nave silenciosa, no convívio das imagens invocadoras da mais pura santidade, encontram sempre, num milagre surpreendente – a paz e o conforto para sua alma atribulada pelas misérias morais. E quando deixam o templo para retomar o caminho da rua, a alma está possuída de doce ternura, de um profundo contentamento, como se o próprio Santo Antônio, ouvindo a prece que lhe foi dirigida, entrasse no coração do devoto para dar-lhe alento e guiar-lhe os passos, desviando-o dos tropeços que a todo o momento lhe surgem à frente. É o milagre da fé.

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No ano de 1592 chegavam ao Rio de Janeiro, vindos do Espírito Santo, os primeiros frades franciscanos – Frei Antônio das Chagas e Frei Antônio dos Mártires, estabelecendo pousada na ermida de Santa Luzia (nas imediações da atual igreja) situada à beira-mar na praia da mesma denominação. Por escritura de doação, lavrada em 28 de fevereiro de 1592, receberam os religiosos os terrenos ocupados pela ermida para nele levantarem o seu Convento.

A construção, porém, protelou-se durante quinze anos. Somente com a chegada do Custódio, Frei Leonardo de Jesus, vindo de Pernambuco, é que se pensou em erguer o Convento. O Custódio, entretanto, não achou próprio o local; pediu então e obteve do Governador e dos Oficiais da Câmara, outro terreno. Suas vistas foram, nessa ocasião, lançadas para o morro do Carmo (depois de Santo Antônio), que, por escritura de doação de 19 de abril de 1607, foi cedido, para nele erguerem os franciscanos o seu Cenóbio.

Retirou-se Frei Leonardo para o norte em 1607, deixando como Superior da pequena comunidade Frei Vicente do Salvador, a quem coube dar início à construção de um recolhimento e ajuntar material no morro para Convento e templo. Preparado o terreno, cujo pagamento dos operários era feito com o produto das esmolas que recebiam do povo, oito meses após de trabalho intenso, foi marcada a data de 4 de junho de 1608 para o lançamento da pedra fundamental. A esse tempo havia regressado de sua viagem o Custódio Frei Leonardo, que também assistiu à cerimônia.

Essa festa, à qual compareceram as altas autoridades da época, teve também a assistência de todo o povo do Rio de Janeiro. O transporte da pedra que ia assinalar a fundação do convento, como um testemunho de fé cristã, foi executado pelo próprio Governador da cidade, Afonso de Albuquerque, o ex-Governador Martim de Sá, padre Pedro de Melo, reitor do Colégio dos Jesuítas e padre Martim Fernandes, vigário da Sé. O marco foi posto sobre uma prancha, ao lado de uma imagem de Santo Antônio, e carregado aos ombros por aquelas eminentes figuras do governo e do clero.

A obra da edificação era, no entanto, de grande vulto e demandava muito tempo para sua conclusão. Não obstante, logo que se completou uma parte os religiosos mudaram-se para ali. Aconteceu isso a 7 de fevereiro de 1615, e na manhã seguinte, dia 8, diante de um altar provisório, armado junto do arco cruzeiro, foi celebrada a primeira missa no monte de Santo Antônio.

Começou, desde logo, a comunidade, a sua vida claustral, e as obras prosseguiam com o passar do tempo. Frades artistas davam o seu talento e perícia ao embelezamento material do Convento, enquanto grandes oradores, pelo poder da palavra, emocionavam e dominavam as multidões, atraindo ao rebanho de Cristo, as ovelhas porventura transviadas.

Logo à entrada se encontra o Irmão porteiro, pronto sempre a atender, dentro das suas possibilidades, a quantos o procuram. Naquela janelinha que se abre e fecha para o mundo exterior, recebe diariamente a visita de centenas de pessoas que buscam uma informação, que oferecem uma dádiva para a pobreza, que desejam encomendar uma missa, que pretendem trocar uma imagem ou comprar um livro religioso, enfim, para tudo encontram naquela abertura minúscula da parede o sorriso amigo e complacente do Irmão, disposto sempre a atender a todos no serviço do Senhor.

À esquerda de quem entra no vestíbulo, vê-se a pesada porta que dá acesso ao claustro. Transposta essa passagem, o homem se sente inteiramente dominado pelo ar de santidade que se respira naquele quadrado de terra cultivado em jardim, circundado pelas galerias largas, em cujo piso repousavam, e repousam ainda, os restos mortais de ilustres vultos cujos nomes figuram na história religiosa e pátria.

Ao centro do jardim há dois viveiros com pássaros, cujos trinados são o único sinal que nos faz lembrar a vida terrena, fora da Casa de Deus.

Existem no claustro lindas capelas, todas antiquíssimas. A primeira é a de N. Sra. dos Prazeres, seguida das de N. Sra. das Dores, cuja expressão fisionômica da imagem é impressionante. Dir-se-ia que era a própria Virgem Maria transida pela dor que ali estava, heroína sublime, dando ao mundo uma amostra do quanto de sofrimento pode conter um coração de mãe. Na parede do fundo dessa capela há os quadros a óleo simbolizando as sete dores de Nossa Senhora, e que são – Apresentação do Menino Jesus, A fuga para o Egito, A Virgem e São José à procura de Jesus, No vale da amargura, Jesus Crucificado, A Descida da cruz e o Sepulcro.

Na sétima capela há a evocação do nascimento de São Francisco, em Assis, destacando-se na parede os versos de Frei São Carlos:

“Em Assis Belém se renova
Com espantosos sinais,
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais”.

e na oitava capela se tem à vista o quadro da morte do mesmo São Francisco, onde se lê a seguinte quadra, também de Frei São Carlos:

“Adverte, não é Jesus,
É Francisco que aqui jaz,
A quem semelhante faz
Nascimento, vida e cruz”.

A seguir vem a capela de São Joaquim, pai de Nossa Senhora.

Ao pé de uma escada vê-se a imagem de Santo Aleixo. Na vida terrena fora mendigo, e encontrara a morte à beira de uma escada. A imagem mostra o grande santo, sentado, em atitude de pedir uma graça.

No recinto do claustro e da igreja, há muitos sepulcros, entre os quais o do Cardeal Dom Lorenzo Caleppi, primeiro Núncio Apostólico que veio ao Brasil. O Cardeal Caleppi que nasceu em Cervia em 1741, faleceu no Rio de Janeiro a 10 de janeiro de 1817. Está também assinalado por uma lápide, o local em que foi sepultado, em 1747, Frei Fabiano de Cristo, cujos ossos se acham hoje depositados em uma capela, à esquerda da nave da igreja. (De Frei Fabiano nos ocuparemos mais adiante).

Sacristia do Convento de Santo Antônio

Do claustro passa-se à sacristia do Convento. Uma ampla sala caprichosamente mobiliada em jacarandá, trabalho feito em 1745, por Manuel Álvares Setúbal. O teto, todo de painéis pintados a óleo, representando passagens da vida de Santo Antônio, com molduras de ouro em folha, cujo autor é desconhecido.

As paredes da sacristia são de azulejo pintado, lembrando milagres de Santo Antônio. Um desses é muito curioso. Vê-se um grupo de rapazes que escarneciam do frade, e um deles, para zombar do franciscano, amarrou uma venda nos olhos procurando fingir de cego. Chamou Santo Antônio e pediu-lhe que o curasse de sua cegueira. O Santo, porém, pressentindo o embuste, declarou que isso era impossível, visto que o mal era incurável. Rapidamente o jovem, num gesto brusco, arrancou o pano que lhe cobria os olhos e – diante do pasmo de todos, não pôde ver a luz. Estava realmente cego! Santo Antônio, então, na sua infinita misericórdia, realizou mais um lindo milagre: – devolveu a vista ao infante.

Junto à janela defendida por grossos varões de ferro, depara-se com o lavabo de mármore rosa, branco e cinzento, de magnífica confecção. Conta mais de 200 anos e serve para os frades lavarem as mãos antes e depois da celebração dos ofícios religiosos. Representa essa obra esplêndida, com cerca de três metros de altura, a imagem da Pureza, sustentada por quatro golfinhos. Tudo bem feito, bem imaginado e bem acabado, tendo o seu valor aumentado ainda mais, quando se sabe que àquele tempo os instrumentos de trabalho eram muito deficientes. Nem por isso, no entanto, deixa de ser uma obra perfeita.

A imagem de Cristo coroado de espinhos, em tamanho natural, está também na Sacristia do Convento. Detendo o olhar sobre a figura do Nazareno, logo nos convencemos de que o trabalho foi executado por um grande artista. Somente um verdadeiro conhecedor da história de Cristo, com os seus imensos sofrimentos e a sua santa humildade, conseguiria produzir uma obra como aquela. A face apresenta um misto de suavidade e amargor e os olhos, parecem vivos, a olhar a humanidade que salvou com o seu sangue e que tanto o fez sofrer. A esta imagem, vinda de Portugal em 1678, tinha especial devoção o servo de Deus, Frei Fabiano de Cristo.

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Azulejos da Igreja de Santo Antônio em 2007 (antes da reforma)

Nos fundos da Capela-mor há um grande salão antigamente transformado em cela por Frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio. Nesse salão tiveram lugar inúmeras reuniões a que compareceram vultos eminentes da sociedade do tempo da regência e que muito concorreram para a efetivação da nossa independência política. Pedro I, antes e mesmo após a sua aclamação como imperador do Brasil, muitas vezes ali esteve em companhia de Frei Sampaio, sábio e patriota, para discutir e redigir os artigos do nosso primeiro código fundamental. Esse fato indica que os frades do Convento de Santo Antônio também, de certo modo, contribuíram com alguma parte para a emancipação do nosso país do domínio de Portugal.

Em prova da influência de Frei Sampaio nas decisões de Dom Pedro, há fixada na parede, à entrada da igreja, uma placa de bronze com a efígie do ilustre monge, que ali foi colocada por iniciativa do Centro Carioca, como testemunho da gratidão do povo desta cidade, em cujo meio pontificou a sua inteligência através de sermões inesquecíveis.

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À direita da sacristia do convento, avista-se um jardim com plantas e flores, que trai logo o cuidado que merece do seu jardineiro, um português baixo, atarracado, que está a serviço dos franciscanos há mais de trinta anos. Um banco de cimento, sob um caramanchão com trepadeiras, empresta uma nota de suave poesia e romantismo àquele aprazível e silencioso recanto.

Ao centro do jardim há um poço medindo aproximadamente 6 metros de circunferência e oito de profundidade, construído em granito e por fora com paredes de mármore branco de lioz, que com o passar dos dias já perdeu o brilho. À primeira vista, ou melhor, a um leigo em estudos arqueológicos, essa cisterna em nada difere das demais no gênero. Entretanto ela é bem diversa. A armação que apresenta no alto, em forma de arco encimada por uma cruz, bem como a roldana que serve para baixar e elevar a caçamba que traz a água, revelam logo a sua antiguidade. São de ferro batido, com acabamento tosco, apresentando talvez alguns defeitos – índices que mais ressaltam o trabalho do artífice.

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Mausoléu do Convento de Santo Antônio

Ao fundo do terreno, olhando para o Largo da Carioca, está situado o mausoléu que guarda os restos mortais de preciosos vultos da nossa nacionalidade. Essa capela mortuária foi construída em 1936/37 sob o projeto do engenheiro Gustavo A. Aigner. As paredes são revestidas de pó de pedra, e lanternas de estilo colonial, em ferro batido, iluminam o recinto onde dormem o sono eterno aqueles que viveram, brilharam e sofreram entre nós.

Logo à entrada, à direita, se avista, por estar em maior relevo, a urna em que repousa Dona Maria Leopoldina Josefa Carolina, primeira imperatriz do Brasil, falecida na Quinta Imperial da Boa Vista em 1826 [1]. O esquife, colocado em um plano de três degraus, é simples, coberto de veludo negro com galões dourados, tendo em cima a coroa imperial do Brasil. Na parede vê-se, sobre fundo negro, a seguinte inscrição: –

“Aqui repousam os preciosos restos da adorada imperatriz Maria Leopoldina. Seu espírito, cremos, habita os céus. Sua memória não gastarão os séculos”.

Acima dessa placa, está o brasão de armas do império, em madeira dourada.

Ao lado acha-se situada outra urna, de menor porte, forrada de vermelho, que contém o corpo da princesa Dona Paula Mariana, filha de Dona Maria Leopoldina e de Dom Pedro I, nascida em 17 de fevereiro de 1823. Essa princesa contraiu o tifo, falecendo com dez anos de idade, em 16 de janeiro de 1833, no Palácio da Quinta Imperial da Boa Vista.

Mais adiante, à esquerda, está situado o monumento com os despojos de outros príncipes: – Dom João Carlos Barrorneu, filho de Dom Pedro I e Dona Maria Leopoldina, nascido em 6 de março de 1821 e falecido, em consequência de pneumonia, em 4 de fevereiro de 1822; Dom Pedro Afonso e Dom Afonso, filhos de Dom Pedro II e de Dona Teresa Cristina, falecidos ambos com dois anos de idade.

Há também um pequenino caixão cor-de-rosa, tendo sobre a tampa um cartão de prata com os seguintes dizeres: –

“Aqui repousam os restos da princesa inocente, filha de Dona Isabel e de Luiz Felipe Gastão, Conde d’Eu. Nasceu morta no Rio de Janeiro em 28 de julho de 1874. Foi batizada dentro do ventre materno a 26 do mesmo mês”.

Consta que foi a própria princesa Isabel quem forneceu o desenho do belo monumento em que está depositado o sarcófago, tendo a obra sido executado em Paris.

Convento de Nossa Senhora da Ajuda em Vila Isabel

Os corpos da Imperatriz e das duas princesas repousaram no Convento da Ajuda (no local em que está edificado atualmente o Bairro Serrador [2]) até o dia 9 de novembro de 1911, quando foram trasladados para o Convento de Santo Antônio, por motivo da demolição daquele estabelecimento religioso. (O Convento da Ajuda está hoje situado na Praça Barão de Drummond em Vila Isabel). Os restos dos príncipes, porém, sempre estiveram junto aos frades de Santo Antônio, tendo para ali sido conduzidos logo após a morte, e depositados na Capela do Ecce homo.

Existem ainda no mausoléu vários nichos, construídos nas paredes laterais, que guardam os ossos de frades da comunidade, alguns deles ilustres, entre os quais Frei Francisco do Monte Alverne.

Ao fundo da Capela está o altar com o Crucifixo, entre dois vasos com flores, onde os piedosos franciscanos celebram, em determinados dias, missas especiais pelas almas dos que ali estão recolhidos há tantos anos, no sossego e na paz de Deus.

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Ao pé de uma das escadas que têm início no claustro, logo se avista no andar térreo, o refeitório dos frades. É uma ampla sala de enternecedora singeleza, tendo em volta compridas mesas com as respectivas cadeiras onde se sentam os religiosos à hora de comer. Ao fundo da peça uma imagem do Cristo crucificado, da altura da parede. Nos longos muros laterais vêm-se retratos pintados a óleo, representando Frei Rogério Neuhaus, Frei Fabiano de Cristo e Frei Jordan Mai, frade leigo, falecido em 1922, em odor de santidade.

Nos corredores largos e silenciosos, caiados de branco, estão colocados quadros a óleo, velhíssimos, e oferecem à vista efígies sagradas como as de São Jerônimo, N. Sra. da Conceição, pintada em madeira, tendo ao seu redor todos os símbolos da Ladainha, a morte de São Francisco, além de muitos outros.

Merece especial atenção a Biblioteca do Convento. Ali estão, arrumadas em prateleiras vultosas fortunas, representadas por livros raros, antiquíssimos. Destacamos, por exemplo, “A Origem da Ordem Seráfica Franciscana”, de autoria de Francisco Gonzaga, datada de 1567; “Edições dos Santos Padres”, que se compõem de 200 grossos volumes, editados em 1698; livros em idiomas gregos, latino, hebraico e sírio e em outras línguas. Há ainda um mapa histórico da guerra do Paraguai, publicado em 1871, pesado volume em que se pode apreciar todas as posições dos exércitos em luta, os rios, as datas das batalhas e das vitórias brasileiras. Tudo ali está assinalado com admirável precisão pelo seu autor. O número de preciosidades que contém a biblioteca é incalculável à primeira vista; o que, no entanto, deixa logo patente é que se trata de um grande tesouro literário que os religiosos conservam sob sua guarda, e até com certo ciúme.

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A sala da frente, à direita, no segundo pavimento, é denominada – Recreio dos Frades. Um ambiente agradável, sumamente acolhedor. Duas janelas abrem-se para o Largo da Carioca, e duas portas dão acesso a um terraço situado por cima do antigo cárcere do convento. Esse recanto, como tudo naquela casa, é de singeleza notável; ao centro uma mesa antiga, de madeira, cadeiras de vime em torno. Nas paredes – uma imagem da Virgem da Conceição, e retratos a óleo de Frei Francisco do Monte Alverne, Frei Antônio do Coração de Maria Almeida, Frei Francisco de São Carlos, Frei Rodovalho e Frei Sampaio, todos devidos ao pincel de Tironi, destacado pintor da época.

Mais adiante encontra-se a Capela dos Três Corações, com rico altar de talha dourada, onde se guardam relíquias de santos relicários antigos e outros objetos caros à memória dos franciscanos.

Em toda a extensão dos vastos corredores estão localizadas as celas – dormitórios dos frades. A mobília é resumida: – um leito de ferro, uma mesa, cadeira, um móvel para guardar roupas de uso, e nas paredes registros de santos ou uma imagem, e, em algumas, estantes com livros. Nada mais. Tudo isso simples como a própria alma daqueles que ali vivem, infensos às paixões terrenas, com o pensamento perenemente voltado para Deus, a suplicar a sua clemência para os homens.

Em cada porta de cela há um cartão indicando o nome do seu ocupante. Entre elas descobrimos a que pertenceu a Frei Rogério Neuhaus, nascido no ano de 1863 e falecido em 1934. Naquele quarto pobre viveu durante anos o piedoso frade, até quando saiu para ser recolhido à Casa de Saúde São José, a fim de submeter-se a uma melindrosa intervenção cirúrgica. Não resistindo à operação, ali faleceu.

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O Convento possui também um repositório de suas relíquias veneráveis. Numa das duas salas que servem ao museu foi pintada, por Vitor Meireles, a célebre tela representando “A primeira Missa rezada no Brasil”, que todos conhecem através de cópias, não só pintadas como litografadas ou em gravuras. Como na referida sala não houvesse luz suficiente para a execução de obra de tamanho relevo, o pintor solicitou e obteve consentimento dos frades para abrir um espaço no telhado, sob a condição expressa de recompô-lo, terminado que fosse o trabalho. A condição foi cumprida, mas, por melhor que tivesse sido trabalhada a reparação, os vestígios lá ficaram como prova do que se passou, até o teto se renovar de todo, em 1937.

Na coleção de preciosidades que ali se encontram guardadas, há objetos de inestimável valor histórico. Logo à entrada nota-se uma peça antiquíssima que, segundo informa um cartão nela afixado, terá provavelmente servido de leito fúnebre a Frei Monte Alverne, Frei Sampaio e outros religiosos falecidos no Convento. Há também o altar portátil que foi do Duque de Caxias, e diante do qual eram celebrados os ofícios religiosos durante as campanhas em que tomou parte o bravo general brasileiro. Ainda hoje, no “Dia do Soldado”, os militares vão ao Convento assistir à missa que é rezada para eles no histórico altar.

Magníficos são os retratos, pintados a óleo, de Dom Pedro I, Dom Pedro II e Dom João VI, soberanos do Brasil, que ornam a grande parede do fundo da sala, assim como magnífico é um busto em bronze dourado do nosso primeiro imperador.

No mostruário está depositada, entre outros objetos que recordam o passado glorioso do Convento, uma bengala em que se apoiava Frei Monte Alverne, durante os vinte anos de cegueira que lhe procederam a morte.

Chama igualmente a atenção uma rica custódia de prata dourada, de caprichosa confecção e alto valor artístico. O seu peso é de cerca de 7 quilogramas, tem 82 centímetros de altura, e foi trazida de Portugal entre os anos de 1754 e 1757.

Quatro jarras esguias, de madeira, são conservadas com o maior carinho. Elas encerram uma curiosa história que revela o temperamento artístico de um frade que habitou o Convento. Resumimos o fato no seguinte: – Sempre que havia festa na igreja, os frades pediam a um negociante, por empréstimo, as suas jarras de porcelana da índia para enfeitar o altar. Isso repetiu-se muitas vezes. Um dia, porém, o negociante deixou de ser procurado para ceder as jarras. Estranhando o caso, dirigiu-se ele ao templo, e, com surpresa, deparou sobre o altar, com os vasos. Nada disse. Ao chegar a casa, de volta, constatou, no entanto, que as jarras ali estavam. No dia imediato voltou ao Convento, e soube então de tudo. Frei Francisco Solano, constrangido por incomodar tantas vezes o seu amigo, ou temendo que aqueles ricos objetos de ornamento se partissem, resolveu, ele mesmo, confeccionar em madeira quatro jarras iguais em feitio às que tomava emprestadas. Com grande habilidade copiou o desenho e as pintou com tal perfeição, que ninguém duvidaria de sua procedência indiana. É de notar, para maior valor da obra, que Frei Solano nunca estudara pintura, ou melhor, nunca tivera a menor noção dessa arte; era, pois, um artista nato. Hábil desenhista, foi indicado por Frei José Mariano da Conceição Veloso ao Vice-Rei para seu ajudante, quando então executou precioso trabalho sobre a flora brasileira, imitando flores e frutos. Ainda hoje a Comunidade franciscana conserva com muito zelo 149 estampas das 1000 desenhadas por ele.

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No primeiro andar, na parte situada por cima do mausoléu, está instalado o gabinete entomológico, objeto do maior apreço e dedicação de Frei Tomaz Borgmeier, cientista conceituado não somente em nosso país, mas também em outras terras por onde tem viajado. Naquele gabinete realiza Frei Tomaz suas curiosas pesquisas sobre as formigas e outros insetos do Brasil. Nem sempre esse apreciado servo de Deus é encontrado em seu gabinete, pois entre as suas muitas ocupações reúne ainda a de redator de várias revistas, como a “Vozes de Petrópolis”, que todas se publicam na cidade serrana,

Há pouco tempo esteve Frei Tomaz nos Estados-Unidos, onde lhe foi conferido o diploma de “Doutor honoris causa” por uma das Academias de ciências da República do norte.

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Relíquias de Santo Antônio – 2008 – Celebração dos 400 anos da Igreja e do Convento

Dentre a comunidade franciscana destacou-se sobremodo, pela sua extrema bondade e abnegação, Frei Fabiano de Cristo, frade leigo, que iniciou sua vida religiosa em 11 de novembro de 1704. Frei Fabiano era português de nascimento, pois viera ao mundo em uma pequena aldeia no distrito de Braga, em 1676, tendo recebido o nome de João Barbosa. Em sua terra viveu até a juventude, quando então embarcou para o Brasil com o objetivo de tentar a melhoria da sorte. Aqui chegado estabeleceu-se na então vila de Parati, no vizinho Estado do Rio de Janeiro, onde a custa de trabalho seus negócios logo prosperaram; como, porém, não era ambicioso, não esquecia de distribuir com os necessitados grande parte dos lucros que auferia, considerando-se feliz em poder socorrer a pobreza do lugar.

Um dia o comerciante se convenceu de que não tinha vocação para os negócios; sua aspiração era mais elevada e desejava ser mais útil à humanidade. Nessa convicção procurou o Provincial da Ordem Franciscana no Sul do Brasil, Frei Boaventura de Jesus, a quem confessou a sua firme inclinação, e pediu humildemente que consentisse na sua entrada para a Ordem. Isso aconteceu justamente aos 28 anos de idade, e o novo religioso, depois da profissão, trocou o nome de João Barbosa pelo de Frei Fabiano de Cristo, em 12 de novembro de 1705, um ano depois do noviciado.

Do Convento de Angra dos Reis, onde sua permanência teve curta duração, foi chamado para o Rio de Janeiro, a fim de ocupar o lugar de porteiro do Convento de Santo Antônio. Algum tempo depois, seguiu para Cabo-Frio, a ocupar o mesmo importante cargo. Cinco anos passados, isto é, em 1709, era novamente designado para servir no Rio de Janeiro, desta vez, porém, como enfermeiro do Convento do Largo da Carioca.

Foi nesse mister de difícil exercício, em que se exigem as maiores reservas de paciência e amor, que Frei Fabiano mais se pôde tornar grande no conceito do povo. O desvelo com que atendia aos doentes sob a sua guarda e o carinho com que procurava minorar-lhes os sofrimentos, eram, de certo, inspirados por uma força superior – tal a alegria que o frade demonstrava sempre que podia ser útil a alguém. Era positivamente um predestinado; uma criatura escolhida para aliviar as dores humanas, dando consolo aos aflitos e confiança aos desesperados. Sua vida no Convento de Santo Antônio foi toda uma cintilante benção; os enfermos disputavam-no, e ele fazia o máximo empenho em tê-los aos seus cuidados.

Naquele tempo não eram somente os Religiosos do Convento de Santo Antônio que se utilizavam da enfermaria do Convento, mas também os dos Conventos da vizinhança. E nunca nenhum só deixou de encontrar em Frei Fabiano o dedicado, paciente e caridoso enfermeiro. Ao contrário, ele apegava-se de tal maneira aos seus doentes que, no intuito de melhor servi-los, dormia a um canto da enfermaria, tendo por leito uma simples esteira de palha.

Era, assim, integralmente justa a fama que corria acerca de sua imensa bondade; desde que vestira o hábito religioso nunca tivera nada de seu, mas as necessidades do próximo afligiam-no de tal sorte, que suplicava esmolas dos mais abastados para distribuí-las entre os pobres. Se na vida terrena alguém pode atingir a perfeição espiritual, de molde a tornar-se santo pela prática do bem, por certo que Frei Fabiano alcançou esse elevado e luminoso nível.

Conta Frei Basílio Röwer em seu livro “A Ordem Franciscana no Brasil” que quando, abraçado à imagem de Cristo, faleceu o venerando frade na avançada idade de 71 anos, o seu corpo foi exposto à visitação na igreja. Toda a cidade sentiu a sua morte. Gente das mais diversas classes sociais foi ao Convento chorar sobre os despojos daquele velho bom que tanto conforto espiritual, moral e material prestara ao próximo, abnegadamente, esquecendo-se até de si próprio. E todos desejavam guardar uma recordação do seu querido amigo; por isso o seu corpo teve de ser vestido três vezes, pois os que iam levar-lhe, entre lágrimas, as suas despedidas, guardavam consigo um retalho das vestes do franciscano como preciosa relíquia.

Hoje os restos de Frei Fabiano de Cristo acham-se numa urna, colocada sob uma capela que olha para o claustro, mas cuja porta de grades não se abre, por ser vedado às senhoras o ingresso no pátio. No entanto uma porta no interior da igreja dá passagem a esse recinto. Nas paredes da capela veem-se inúmeras pequenas placas de mármore, cujas inscrições revelam a quantidade de graças alcançadas por intermédio de orações ao santo frade. E durante todo o decorrer de cada dia, dezenas de pessoas de ambos os sexos, vão, contristas, àquele recanto, orar pelo repouso daquela alma pura e rogar a sua proteção.

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Frei Francisco do Monte Alverne, que nascera em 1784 nesta cidade do Rio de Janeiro, e que aos 17 anos de idade ingressava na Ordem, foi um dos luminares entre a plêiade magnífica dos seus talentosos membros. Orador sacro dos mais fecundos, os seus sermões tinham o poder de convencer as multidões, pela espontaneidade da palavra e pela exuberância de imagens com que os ilustrava. Possuidor de invejável erudição, abordava todos os assuntos com facilidade incrível, dominando completamente o auditório, que era sempre grande nos dias de sua pregação.

E a fama do seu saber era tão larga, que um dia Dom Pedro II desejou ouvi-lo. Mandou, portanto, convidá-lo com insistência, para pregar na capela imperial, no dia da festa de São Pedro, em 1854. Apesar de cego, e, por isso mesmo 18 anos afastado do púlpito, Frei Monte Alverne não deixou de atender ao apelo do monarca. Na hora exata lá estava solene, brilhante, magnífico, dissertando sobre a significação da grande data religiosa, exaltando as virtudes do santo. O próprio imperador sentiu-se deslumbrado ante a eloquência do velho frade, tal o poder do seu verbo erudito.

Foi o penúltimo sermão do genial orador.

Depois dessa data somente uma vez mais Monte Alverne falou; foi na festa de N. Sra. da Glória, na igreja do Outeiro. Daí em diante sua vida se foi consumindo, até que veio a falecer em 1858, na cidade de Niterói.

Citaremos ainda alguns nomes que mais se distinguiram na comunidade por suas apreciáveis virtudes. Entre os grandes pregadores avultam Frei Sebastião dos Mártires, Frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, que foi considerado o religioso mais sábio do Convento, Frei Joaquim de Santa Leocádia, que às qualidades de orador reunia as funções de professor de filosofia e teologia e Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio, de quem já nos ocupamos linhas atrás.

No campo científico surge a figura de Frei José Mariano da Conceição Veloso, a quem o vice-rei Dom Luís de Vasconcelos e Sousa encarregou de estudar a flora brasileira, obra publicada em 11 volumes.

Na arte, por certo, ocupa o primeiro plano Frei Francisco Solano, o grande desenhista e pintor.

Há também frades músicos, escritores e poetas. Frei Francisco de São Carlos foi um inspiradíssimo cultor das musas, e as suas composições nesse terreno da literatura refletiam sempre, envolta em doçura infinita, a sua grande paixão religiosa. Toda a vida e a obra de Frei São Carlos foi devotada à N. Sra. da Assunção; por isso os seus versos de rimas musicais, repassados de ternura e admiração pela Santa de sua veneração, eram um hino vibrante, exaltado, à glória da Virgem. Alguns versos do poema de Frei São Carlos, cognominado “Poeta da Virgem”, encontram-se no livro de Frei Basílio Röwer.

Esses todos são vultos do passado, falecidos há muitos anos, que honraram pelo esplendor de suas ideias e pelo valor de suas obras, a história do Convento. No entanto, releva citar aqui, como nosso contemporâneo, o nome de Frei Rogério Neuhauss, falecido em 1934, e que foi também uma figura admirável na vida da comunidade. Se não se distinguiu por dotes intelectuais ou artísticos, salientou-se, porém, por outros méritos incomparáveis: a humildade e a grandeza de coração. Tudo em Frei Rogério tinha visos de santidade, e as almas atribuladas que ouvia em confissão, sempre encontraram nele o conforto moral de que careciam para sua tranquilidade, o lenitivo espiritual para tornar mais ameno o peso de sua existência na terra. Os trabalhos intensos que realizou em muitas missões de que foi encarregado, a canseira, e ultimamente a enfermidade de que sofria, nunca serviram de motivo para que deixasse de amparar alguém que necessitasse dos seus conselhos ou de sua benção. Sua lembrança continua a ser venerada como foi a sua pessoa durante o longo tempo em que viveu entre nós.

Os restos de Frei Rogério encontram-se depositados na capela, dentro de uma urna, ao lado dos de Frei Fabiano de Cristo.

Presentemente vivem no Convento Religiosos professores, letrados, músicos, escritores, historiógrafos, cujas modestas celas tivemos ocasião de visitar.

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Igreja de Santo Antônio no Convento de Santo Antônio do Largo da Carioca (antes da reforma)

A Igreja de Santo Antônio, edificada junto ao Convento, é hoje o templo mais antigo do Rio de Janeiro. A sua nave é ampla e confortável, medindo cerca de 30 metros de fundo por 9 de largura. Os bancos, de madeira trabalhada, estão arrumados nos dois lados da passagem central que vai da porta de entrada ao altar-mor.

Durante muitos anos, como era comum em todas as igrejas, o chão da de Santo Antônio estava dividido em sepulturas. Contava 80 sepulturas e nelas eram enterrados, na sua maioria gente humilde, escravos e soldados. Em 1850 foi proibido por lei o sepultamento de corpos nas igrejas; e desde a renovação da Comunidade a principal preocupação dos frades passou a ser a reforma do templo, a começar pelo chão, substituindo-o por assoalho de madeira.

Só em 1920, no entanto, foi possível iniciar-se a reforma completa. Não era apenas do assoalho que carecia a igreja, mas de uma renovação geral.

Nesse tempo era Guardião do Convento Frei Inácio Hinte, sacerdote trabalhador, cheio de boa vontade, que se dedicou ao assunto sem desfalecimento. Não era admissível nem justo, todavia, que se interrompesse o culto ao santo taumaturgo enquanto estivesse em obras o seu templo, e por isso, durante os três longos anos que durou a reforma, os ofícios religiosos foram celebrados regularmente na Igreja da Penitência, situada ao lado direito da de Santo Antônio.

Devido ao avultado número de pessoas que frequentam a igreja diariamente, o chão nunca podia estar devidamente asseado. O pó impregnava-se nas tábuas de tal sorte que se tornava quase impossível ser completamente removido. Assim, foi o assoalho retirado e em seu lugar foram colocados ladrilhos desenhados, como ainda hoje se conserva.

A fachada foi também modificada, e já não tem o estilo barroco da anterior; a que hoje apresenta, foi projetada e a sua construção supervisionada por Frei Feliciano Schlag, irmão arquiteto, tendo os vitrais magníficos das janelas vindo da Alemanha. São obras de grande valor artístico, de motivos religiosos; o vitral do centro foi oferecido à igreja pela Ordem 3.ª do Convento.

Dado o mau estado em que se encontrava o coro dos religiosos, este foi igualmente transformado. Os assentos que ora ali estão, são obra cuidadosa dos irmãos leigos Frei Leonardo Preis e Frei Antônio Boos. Na face do coro que olha para o altar-mor, estão os nichos com bustos dos 18 franciscanos martirizados no Japão em 1597. Ressalta no coro uma artística estante giratória, de jacarandá, com 4 faces, que era destinada à leitura e ao canto. Foi feita entre os anos de 1704 a 1707.

Os altares são todos de madeira entalhada, de grande trabalho e esplêndido aspecto. No do centro, dominando a nave, está a imagem de Santo Antônio; no do lado do Evangelho, N. Sra. das Graças – uma imagem magnífica, de alta expressão fisionômica, e no do lado da Epístola está São Francisco de Assis. Há ainda outras imagens como de São José, São Benedito, Sagrado Coração de Jesus e N. Sra. Aparecida. O púlpito para as pregações é uma obra admirável, confeccionada em madeira com caprichosos desenhos recortados. Daquela tribuna os fiéis do Rio de Janeiro, ouviram em tempos longínquos a voz de verdadeiros sábios, como Frei Monte Alverne, Frei São Carlos e outros ainda, cujos nomes chegaram até nós através da tradição.

No teto e nas paredes da capela-mor, há painéis a óleo representando fases da vida de Santo Antônio, cujo autor não é conhecido, por isso que não deixou assinatura e nem o seu nome consta nos documentos arquivados. As pinturas do arco do cruzeiro, assim como as do coro, são, no entanto, da autoria de um artista brasileiro: Pedro Cechet.

Enfim, todo o templo é uma grande obra de arte que precisa ser vista para que se possa ter uma noção aproximada do seu justo valor.

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Em torno de uma das imagens de Santo Antônio circulam várias lendas ou fatos bastante curiosos. O primeiro vem da data em que a imagem foi construída, em barro queimado, por um dos frades da comunidade. Conta Frei Basílio Röwer em seu livro “O Convento de Santo Antônio”, citando vários autores, que o artífice já havia confeccionado todo o corpo da imagem, inclusive o menino que a mesma apresenta nos braços, e não acertava em fabricar uma cabeça que se adaptasse à estátua. Em vão já tinha tentado muitas vezes, e o trabalho redundava sempre inútil. O frade já desesperava, e nas suas orações suplicava ao céu que o protegesse e inspirasse, no sentido de que lhe fosse concedida a graça de completar a obra.

Uma noite, quando todos os monges já se haviam recolhido, ouviu-se o som da campainha da porta anunciando a presença de alguém. Apesar da hora avançada, imediatamente atenderam os franciscanos. Aberta que foi a porta verificaram, com surpresa de todos, que ninguém estava ali, mas, colocada no chão, encontraram uma cabeça de Santo Antônio.

Serviria ela para ultimar o trabalho até então inacabado?

Levada pelos frades até a imagem, foi a cabeça colocada no seu lugar, ao qual se adaptou de modo perfeito, como que feita sob medida! Quem a teria trazido? Nunca se soube. A verdade é que ela serviu e lá está até hoje.

Pode-se afirmar que este fato terá o cunho de verdade; pois no “Livro do Tombo”, mencionado por Frei Basílio Röwer, consta o seguinte: –

“Em 1621 se colocou a imagem de Santo Antônio, o corpo feito por um religioso leigo porteiro, e a cabeça por um, que pediu esmola para jantar, como se vê no Cartório do Convento”.

Outro fato, também digno de nota, ocorreu em 1710, quando da invasão francesa chefiada por Jean François Duclerc. O governador do Rio de Janeiro, Francisco de Castro Morais, não dispunha de forças suficientes para enfrentar os franceses, convenientemente armados para a luta e para a conquista. Só um milagre poderia, em tal emergência, salvar a cidade da ocupação estrangeira. Fervoroso devoto de Santo Antônio, o governador voltou o pensamento para o céu e implorou a proteção do Santo para que as suas armas lograssem expulsar os assaltantes. Assim, na sua firme confiança, enviou ao Provincial da Ordem a patente de Capitão de Infantaria para ser conferi da a Santo Antônio, rogando ao mesmo tempo que fizesse colocar a imagem do santo sobre a amurada do Convento para, na qualidade de oficial, assistir e dirigir a batalha que seria cruenta e antecipadamente considerada perdida sem uma proteção sobrenatural. O Superior colocou a imagem empunhando o bastão de Sebastião Xavier da Veiga Cabral, governador da Colônia do Sacramento, que, por sua vez, o oferecera como penhor de gratidão ao Santo por ter resistido galhardamente durante seis meses aos espanhóis, quando estes, em 1703, invadiram aquela Colônia.

O combate teve início; atos de bravura indescritível foram registrados e, finalmente, os franceses receberam o prêmio de sua audácia – uma grande derrota os pôs em fuga desordenada, forçando-os a se recolherem a um trapiche, onde foram capturados.

Essa vitória foi atribuída à intervenção de Santo Antônio que, do muro do Convento, teria conduzido o embate a favor dos nossos.

Passados cem anos, em julho de 1810, o Santo foi promovido a Sargento-mor por decreto do príncipe regente (depois Dom João VI), e em 1814, lhe foi conferido o posto de Tenente-Coronel pelo mesmo príncipe. Além dessas patentes militares, o regente, grande católico que era, agraciou ainda a milagrosa imagem com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, em 13 de agosto de 1814.

Essa imagem que vem de dias tão distantes presidindo a fé dos cariocas, encontra-se hoje em um nicho colocado no alto do frontispício do convento, e para ali foi levada em 1779, pelo então guardião Frei José do Desterro. Junto da figura mantêm-se acesa uma pequena lâmpada que perpetuamente a alumia.

A imagem que está no trono, no interior da igreja, é de maiores proporções, pois mede 1,66 m. É também antiga, datando dos fins do século 17.

A devoção do povo do Rio de Janeiro por Santo Antônio é extraordinária; às terças-feiras, dia de ladainha no templo, essa casa de Deus torna-se pequena para abrigar os milhares de pessoas de todas as classes sociais que ali vão, humildes, suplicar a proteção do Santo e receber o benefício espiritual de sua benção.

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A instituição do “O Pão dos Pobres” existente na igreja, tem cerca de 50 anos, e prende-se ao fato de ter sido Santo Antônio grande amigo dos necessitados. E os seus devotos, no intuito compreensível de conseguir dignamente as graças pretendidas, prometem ao Santo fornecer determinada quantidade de pão para os seus pobres, em troca do benefício desejado.

No Convento, o piedoso porteiro distribui diariamente centenas de pães aos mendigos que o vão procurar, cheios de fome e ávidos de graças do céu. Esses pães são adquiridos por meio de esmolas que o Convento recebe de muitos devotos.

Há ainda outra instituição religiosa de grande espírito humano: a “Pia União de Santo Antônio”, associação que em larga escala ampara os menos favorecidos pela sorte.

Essa sociedade sustenta 400 pobres registrados, além de outros 1.000 avulsos que ali vão buscar alimentos e outras utilidades de uso pessoal. Todas as terças-feiras uma comissão composta de senhoras, no adro da igreja, distribui grande quantidade de gêneros, e nos primeiro e terceiro sábados de cada mês novas dádivas são oferecidas, embora em volume menor.

Os gêneros são comprados a granel, depois de verificada a sua boa qualidade, e em seguida ensacados e embrulhados em pacotes, nas dependências da Sociedade Pia União, instaladas ao lado esquerdo do Convento.

Esses alimentos são quase sempre adquiridos a dinheiro, é às vezes alguma mercearia contribui também com qualquer parcela para ajudar a caridade que ali se pratica em favor da pobreza.

Mas não se satisfaz, porém, a Pia União em apenas mitigar a fome dos necessitados. Ampliando a sua generosa assistência, socorre e veste crianças que moram no morro de Santo Antônio, assim como promove casamentos de moças pobres, faz enterros, fornece remédios aos enfermos e roupas aos que precisam.

A despesa mensal da Sociedade atinge a cerca de Cr$ 9.000,00. O numerário para atender a esses benefícios é conseguido dos sócios da Pia União, com o pagamento das mensalidades e donativos que espontaneamente são oferecidos, além do produto da venda de bilhetes para tômbolas, livros sagrados, troca de imagens e registros de santos e objetos religiosos, e ainda por espórtulas.

É, pois, uma agremiação altruística, e Santo Antônio que preside essa obra altamente meritória, não pode nunca deixar de amparar na sua infinita misericórdia os belos corações que tanto se preocupam com o bem dos seus semelhantes.

Notas

  1. Os despojos da Imperatriz Leopoldina que estavam no convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, foram transladados em 1954, nas comemorações dos 400 anos da Cidade de São Paulo, para a Cripta Imperial do Monumento à Independência. Fonte: Cripta e Coração Imperiais, por Giane Brandão – Equipe Cemiteriosp.
  2. O Bairro Serrador foi construído nos terrenos do Convento da Ajuda. Atualmente é conhecido como Cinelândia.

Fonte

Texto original

Galerias de imagens

Mapa – Convento de Santo Antônio e Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência