São Francisco da Penitência

O interior de uma arca toda de ouro e pedrarias não seria mais belo, mais rico, nem mais suntuoso do que a Igreja de São Francisco da Penitência. O trabalho de talha que há ali, folheado a ouro, preciosamente executado, é uma riqueza que não tem preço. O desenho do entalhamento revela arte, gosto e capricho; as figuras ora representam anjos de fisionomia suave, ora flores, ora bichos exóticos, dando ao ambiente o aspecto de um escrínio onde se encerrassem as joias mais raras e do maior valor. Um verdadeiro tesouro de arte.

A Ordem Terceira de São Francisco da Penitência nasceu na Capela da Conceição, contígua à Igreja de Santo Antônio, da qual está separada por uma grade de ferro, e foi fundada por Luiz de Figueiredo e sua mulher, Antônia Carneiro, no ano de 1619.

Muitos devotos de São Francisco aderiram à Ordem e logo resolveram adquirir o terreno em que se encontra o templo, o qual custou, naquela ocasião, a apreciável soma de cinquenta mil réis, tendo sido cedido pelos frades do Convento de Santo Antônio.

Trataram em seguida de construir a igreja, e, a custa de donativos dos irmãos e de estranhos, e ainda de festas que realizavam, logo a obra foi iniciada.

Levantadas as paredes da capela-mor, que ficou concluída em 1700, foi contratado o trabalho da decoração em madeira, em 1735, com Francisco Xavier, e da douração da mesma capela encarregou-se Caetano da Costa Coelho, no ano de 1737.

Em 1773 estava terminado o templo, realizando-se a 4 de outubro daquele ano a solenidade de sua inauguração.

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No teto da nave encontra-se o belo painel simbolizando a Apoteose de São Francisco, pintado por José de Oliveira, artista brasileiro, cuja sensibilidade ressalta da grandiosa obra que executou. O quadro ocupa toda a extensão do “plafond”, e as figuras ali focalizadas são de impressionante expressão.

Diz Vieira Fazenda, a propósito desse quadro, que tanto o pintor francês Jean Baptiste Debret como o nosso artista Manuel de Araújo Porto-Alegre, apontavam-no aos seus discípulos como verdadeira obra prima da arte em que eram professores, salientando a “ciência da perspectiva, a valentia do claro-escuro e a riqueza da imaginação poética, que formavam o apanágio do quadro”.

No entanto, devido à lastimável indiferença que caracteriza o brasileiro por tudo quanto lhe pertence, nunca se cogitou, na época, de ao menos saber quando nasceu e morreu esse grande artista que legou à posteridade tão preciosa amostra do seu talento. Dele só se sabe que se chamava José de Oliveira.

Esse quadro foi restaurado em 1895, por Tomaz Driendl, conforme consta em escritura datada de 8 de julho, guardada no arquivo da Ordem.

Foi difícil encontrar quem quisesse se encarregar de tão difícil quão perigosa empresa; além disso, a própria Ordem não desejava tocar no trabalho de José de Oliveira, temerosa de que o desfigurassem. Mas, com o passar do tempo, essa obra se impunha, pois cada dia mais se apagavam os traços do desenho.

Aceitando a incumbência, Tomaz Driendl lançou-se ao trabalho com tanta devoção e carinho, que ali “passava longas horas do dia, e mesmo de noite se levantava inspirado e, como por milagre, parecia ser o próprio José de Oliveira que, passados tantos anos, recompunha a sua obra querida, o mais belo sonho de sua mocidade de artista”.

Ao fim de algum tempo, porém, a obra de restauração foi interrompida por motivo de moléstia súbita de Driendl; o artista teve de retirar-se da cidade em busca de saúde. Um mês depois voltou, porém, e retomando os pincéis, concluiu o trabalho que se apresenta magnífico.

A douração do templo também foi acometida a Driendl, que restabeleceu de modo brilhante o que tinha sido anteriormente.

Nas paredes laterais da nave há ainda esplêndidos painéis evocativos da vida do Santo Patriarca de Assis.

No altar-mor, ao alto, vê-se o Cristo crucificado, imprimindo as chagas em São Francisco ajoelhado aos pés da cruz. Magnífica a expressão do olhar de Jesus; parece uma criatura viva.

Mas abaixo, sobre o trono, está a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Sobre o altar-mor encontram-se seis tocheiros de prata lavrada, oferecimento de uma irmã que, por encantadora modéstia, negou-se a declinar o nome.

O painel do teto da capela-mor foi reconstituído em 1932. Não foi de todo feliz o artista que executou a restauração das figuras; notam-se algumas falhas, vários defeitos, principalmente nas curvas, o que se torna mais saliente ainda pelas tintas fortes que foram empregadas. Todavia nem todos reparam em tais irregularidades; só mesmo os que conhecem o assunto.

Nos altares laterais, que são seis, encontram-se em nichos com fundo dourado, como toda a igreja – Nossa Senhora das Dores, São Gonçalo, São Vicente Ferreira, Santo Ivo, padroeiro dos Advogados, Santa Maria Madalena e São Roque. Logo à entrada, em pequenas prateleiras, de um lado e de outro, estão as imagens de São Luiz, Rei de França, e São Lúcio.

Todo o mobiliário da igreja é de jacarandá, e pendentes do teto oito preciosas lâmpadas de prata iluminam a nave.

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Na sala que dá acesso à sacristia estão colocados os retratos a óleo, em tamanho maior do que o natural, dos imperadores Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, quando ainda jovens, e outros três retratos de benfeitores da Ordem.

Na sacristia – uma peça ampla, clara e confortável, com seu arcaz de jacarandá trabalhado, de puxadores de prata, há outras preciosidades dignas de serem apreciadas. Assim, vimos quatro jarrões chineses oferecidos em 1817 pelo rei Dom João VI, e que representam grande valor antigo. Cadeiras com assento de couro, estilo Dom João V, oferecem comodidade aos visitantes. Em dois nichos: São Francisco de Assis e São Francisco Solano.

Atravessando a sacristia chega-se a um pátio, de onde se descortina uma bela vista para o lado noroeste da cidade. Em cima da amurada está colocado um relógio de sol.

Em frente está o portão do cemitério da Ordem; um grande quadrado de paredes brancas, com passagem ao centro. Logo à entrada se vê o busto do Sargento Antônio Costa, Ministro da Ordem, em homenagem pelos grandes benefícios prestados à instituição.

Nos muros e no chão desse campo-santo estão as sepulturas dos Irmãos, e no fundo do terreno ergue-se a capela em que se celebrava missa de corpo presente, no tempo em que ali existia o cemitério, no período de 1827 a 1850.

Atualmente a Ordem possui o seu cemitério na Praia do Caju.

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O Consistório, que está situado no andar superior, é uma enorme sala, toda mobiliada em jacarandá. Na parede do fundo há uma imagem do Cristo Ressuscitado. Um quadro que merece menção é o que evoca a flagelação do Cristo, datado de 1880, e de autoria de Belmiro de Almeida, colocado logo à entrada do Consistório.

A Capela onde se guarda o SS. Sacramento é à esquerda da nave da igreja, e foi inaugurada em 1754. Sobre o altar num retábulo, vê-se uma tela de fino acabamento, simbolizando a Ceia do Senhor, idealizado e executada por Antônio Simplício. A luz que jorra do alto através de um vidro amarelo, empresta maior suntuosidade ao recinto. A Capela é toda forrada de madeira, com frisos dourados.

No corredor que dá passagem para essa dependência, dentro de um nicho, há uma velha imagem de Santa Ana e a Virgem Menina, modelada em madeira, que pertenceu à demolida Igreja de São Domingos, além de três sanguíneas representando os profetas Ahías, Abdias e Elias, telas essas que se achavam no antigo Hospital da Ordem, no Largo da Carioca.

A Capela de Nossa Senhora da Conceição, a que nos referimos no início deste capítulo, é, como todo o templo, uma peça suntuosa. Também com o seu entalhamento dourado, foi inaugurada em 1622, isto é, dois anos depois de fundada a Ordem Terceira.

A imagem da Conceição lá está no altar, ladeada por Santa Rosa de Viterbo e Santa Isabel, Rainha de Portugal.

Essa dependência, como a igreja toda, é de estilo barroco, caprichosamente construída. Há ali o túmulo do príncipe Dom Juan Carlos, de Espanha, marido da princesa Dona Teresa, filha de D. João VI e Dona Carlota Joaquina, e aqui falecido em 1812. Cinco anos depois, isto é, em 1817, foi levantado em mármore branco o mausoléu para guardar os seus ossos.

A ideia de erigir ali o túmulo, com cerca de três metros de altura, foi positivamente insensata; não se compreende como houvesse coragem para sacrificar de tal modo uma obra de arte pura como é a capela da Conceição, com um trambolho que aberra completamente do seu estilo.

Será possível que o fato de ser príncipe, marido de princesa, genro de reis, justificaria tamanho atentado? Pois foi o que sucedeu…

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Merece especial carinho do Dr. Felix de Mariz, Administrador da Ordem, o museu por ele projetado e organizado, e cuja inauguração teve lugar em 17 de setembro de 1933. Ocupa várias salas, e os objetos que se achavam guardados em mostruários de vidro valem elevadas somas. Estão ali recolhidos os paramentos, as imagens, os andores, as lanternas e todos os demais apetrechos que se usava na antiga “Procissão das Cinzas” – que anualmente, na quarta-feira depois de Carnaval, saía da igreja em passeio pela cidade, para lembrar aos fiéis que era chegada a Quaresma e se devia fazer penitência.

Esse préstito teve começo em 1647 e até o ano de 1798 nunca deixou de ser organizado, contando sempre com grande acompanhamento. Em 1799 não houve a então tradicional procissão, que voltou a ser restabelecida em 1800, mantendo suas saídas regulares até 1862, quando, em seu lugar, foi instituída a cerimônia do “Lava-pés”, na Semana Santa.

Todos os objetos que se encontram no museu organizado pelo Dr. Felix de Mariz datam de 1800. No salão das Alfaias acham-se o guião da procissão, o Pálio de filó roxo bordado a prata, sanefas dos andores, laços, sacolas para os ciriais, almofadas, o manto da imagem de São Luiz Rei de França, manto de Santa Isabel Rainha de Portugal, lanternas, varas de Pálio e a pauta da antiga Procissão. Na sala imediata, a dos Andores, estão as forquilhas de jacarandá, os andores em que eram colocadas as imagens, insígnias da Impressão das Chagas, Frases do Evangelho, o Senhor Crucificado e Varas do guião da Ordem.

Na galeria das Imagens encontram-se a cruz e ciriais de prata lavrada, insígnias da Conceição, túnicas de damasco e mantos de seda bordados a ouro e a prata, imagens da Imaculada Conceição, Santa Margarida de Cortona, São Gualter, bispo, São Roque, São Luiz, Santa Isabel, São Lúcio e Santa Bona, os “bem casados”, e São Francisco de Assis, além de muitos objetos utilizados no préstito que saiu pela última vez em 1862.

Esse museu representa um justo motivo de orgulho para a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.

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A meio da escada que partindo do Largo da Carioca conduz os fiéis ao santuário da Penitência, justamente no ângulo que separa o primeiro do segundo lance, há uma alta coluna de mármore branco, artisticamente trabalhado. Esse monumento representa a gratidão da Ordem Terceira aos seus fundadores, e ali foi colocado em 9 de julho de 1876.

Em cada uma das quatro faces que forma a base desse marco há uma inscrição: – “À memória de Luiz de Figueiredo e sua mulher Dona Antônia Carneiro, fundadores da Venerável Ordem 3.ª da Penitência no Rio de Janeiro em 1619” – “Merecido reconhecimento a tão distintos missionários da religião e da caridade” – “Deliberação de 22 de junho de 1874, sancionada em 3 de julho do mesmo ano” – “Inaugurada pela Administração de 1875 a 1876”.

À festa da inauguração desse marco que foi precedida da celebração de um ofício religioso em memória dos iniciadores da Ordem, compareceram comissões de várias Ordens Terceiras, entre as quais as de São Francisco de Paula, Nossa Senhora do Terço, Monte do Carmo, Conceição e Boamorte, as sociedades portuguesas de Beneficência e Socorros Dom Pedro V, os Ministros da Fazenda e da Marinha, além de outros vultos da maior projeção política e social no momento.

O véu que ocultava o monumento foi descerrado com solenidade, ao som de banda de música, por quatro ministros jubilados da Ordem da Penitência.

Fonte

Texto original

Galeria de Imagens

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