São Roque

Paquetá, a aprazível e romântica ilha da Baía de Guanabara, cognominada por Dom João VI, de “Ilha dos Amores”, procurada ainda hoje pelos namorados, trovadores e artistas que se extasiam ante a enternecedora poesia que oferece aquele recanto magnífico de praias alvas e altos coqueiros – possui também a sua igreja histórica.

Esse templo foi dedicado a São Roque pelo Padre Manoel Antônio Espinha, que conseguiu em Lisboa, em 29 de dezembro de 1697, a necessária provisão para a sua fundação.

Supõe-se tenha esse templo sido construído por Inácio de Bulhões, primeiro proprietário de um lote de terras situado no norte da ilha, e que aqui chegara de Portugal, com Estácio de Sá, ou pelos que o sucederam na posse da terra.

A princípio era uma pequena capela particular, fazendo parte do terreno que logo foi transformado em fazenda.

Pouco se conhece acerca da Capela de São Roque até o ano de 1728, quando lhe foi concedida pelo Bispo Dom Antônio de Guadalupe, permissão para ter pia batismal e ministrar a extrema-unção, e isto porque a ilha se achava situada há aproximadamente três léguas de Magé, no continente, de cuja paróquia, fazia parte. De fato era por demais penoso atravessar o mar em tão larga extensão a fim dos habitantes de Paquetá – já em apreciável número poderem ser beneficiados com os recursos da religião.

Em 23 de março de 1833, Paquetá, por decreto imperial, foi desmembrada da freguesia de Magé, passando para o município da Corte.

A capela, naquela época, tinha somente um altar e nele se venerava a imagem de São Roque. Segundo diz Moreira de Azevedo, em seu livro “O Rio de Janeiro”, o templo era dividido em três partes – a capela-mor, em cujo altar estava o padroeiro, a nave, onde a família dos fazendeiros e os seus convidados assistiam aos cultos religiosos e, próximo da porta, em recinto ladrilhado e separado, do centro da nave por uma grade, o local destinado aos escravos que, como os brancos – embora em sítios distintos e em condição inferior… também eram filhos de Deus.

O coro era localizado por cima da porta principal e em frente ao trono do santo, e para o qual se subia por uma estreita escada construída por fora do templo passando-se por uma porta. Acima levantava-se uma pequena torre.

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Interior da Igreja de São Roque em Paquetá

No ano de 1822, a fazenda passava a novo dono. Era ele o Capitão José Joaquim Pinto Serqueira, fabricante de cal na Ilha de Brocoió, nas imediações de Paquetá. Progredindo nos seus negócios, trabalhador que era, conseguiu amealhar regular fortuna, e logo cuidou de mandar trazer de Portugal a família que lá havia deixado.

Algum tempo mais tarde adquiriu a fazenda de São Roque, então propriedade da Sra. Maria Florência Gordilho, na qual se incluía a capela.

Falecendo José Joaquim Pinto Serqueira, em 2 de maio de 1848, tocou a capela ao seu filho de nome Pedro José Pinto Serqueira, que logo deu início a uma grande reforma no templo, tendo sido o seu primeiro cuidado – humano que era, levantar a grade que separava os brancos dos escravos, e assoalhar toda a nave.

Antes de 1876, ano em que faleceu Pedro José Pinto Serqueira, a capela possuía mais dois altares laterais. Num deles estava exposta Nossa Senhora das Dores, imagem magnífica, vinda de Portugal; esse altar foi construído em homenagem à Virgem por se ter salvo da morte uma filha de Pedro José. No outro altar estava São Sebastião, igualmente por motivo de promessa feita por uma senhora enferma, e que em Paquetá se restabelecera, atribuindo a sua salvação a milagre do santo.

Por morte de Pedro José a 13 de outubro de 1876, a propriedade da capela coube à Sra. Adelaide Adelina Serqueira de Alambari Luz, que falecendo em 1 de outubro de 1897, passou a sua posse ao arcebispado do Rio de Janeiro, conforme consta do documento abaixo:

– “Eu, abaixo firmado, no pleno goso do direito que me é assegurado pela sentença do Tribunal Civil e Criminal de 25 de Abril do anno proximo preterito de 1901, nos autos do inventario dos bens deixados por minha fallecida mulher D. Adelaide Adelina Serqueira de Alambary Luz, mandando lançar à minha meação a capella de S. Roque, em cuja pósse nesta ilha me acho há mais de um quarto de seculo (primitivamente como cabeça de casal, depois como proprietário); attendendo a que maior lustre e merecimento assumirá o culto do referido e venerado Sancto, estando o seu pequeno e velho templo sob a immediata administração das altas autoridades ecclesíasticas, e ao mesmo tempo accedendo às instantes solicitações de meus filhos, que de egual modo pensam acerca de tão elevado assumpto, – resolvi muito voluntariamente, e sem a menor insinuação de pessôa extranha à minha familia ceder, como de facto cedo, com todos os meus direitos sobre a mesma capella de S. Roque ao Arcebispado do Rio de Janeiro, hoje sob o paternal governo do muito digno e Illustrado Exmo. e Revdmo. Sr. Arcebispo D. Joaquim Arcoverde, transferindo para as benignas mãos de Sua Excellencia Revdma. não só a sobredita capella, como tudo quanto a eIla pertence. E para que produza todos os effeitos legaes, escrevo do meu próprio punho esta irretractavel declaração, que é por mim assignada e pelos meus dois filhos Adelina e Pedro, meus unico legítimos herdeiros. Ilha de Paquetá, 17 de Agosto de 1902 – José Carlos d’Alambary Luz – Adelina Verginia Serqueira d’Alambary Luz – Pedro d’Alambary Luz”.

Pouco depois do Arcebispado ter sido empossado na propriedade, foi a capela demolida. Hoje, no mesmo local se ergue um novo templo, mais amplo, porém com apenas ligeiras modificações quanto ao seu aspecto interno e externo.

Durante o tempo que durou a construção da atual igreja as imagens, do orago e as de Nossa Senhora das Dores e São Sebastião, foram guardadas na Igreja do Bom Jesus do Monte, Matriz de Paquetá, situada na parte sul, bem em frente à estação das barcas que estabelecem a ligação entre a ilha e o Rio de Janeiro.

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Ilha de Paquetá – Festa de São Roque no começo do Século XX – Charles Julius Dunlop no livro Rio Antigo

A festa de São Roque é tradicional na ilha de Paquetá. A 16 de agosto de cada ano, há ali imponentes comemorações.

Antigamente, no entanto, tais festejos tinham maior retumbância, atraindo povo de todas as partes, quer da capital, quer das cidades e povoações do Estado do Rio de Janeiro. Numerosos barcos, faluas, saveiros e até pequenos vapores transportavam devotos e curiosos para a grande solenidade. Era gente que chegava de Petrópolis, de Niterói, de Magé, de Mauá, do Rio de Janeiro, e até de Teresópolis, empolgada pelo tradicional esplendor das comemorações. Havia passeios a cavalo, fados chorados à guitarra, leilão de prendas, barraquinhas com doces e frutas, e terminava com a queima de fogos de artifício, que deslumbravam os habitantes da pacata ilha e os forasteiros.

O próprio rei Dom João VI e os seus ministros, muitas vezes rumaram para Paquetá para vivar o padroeiro. O soberano era recebido na casa solarenga de Francisco Gonçalves da Fonseca, oficial de Milícias, situada na Rua dos Muros. E ali passava Dom João VI, longe das intrigas da corte, até que voltava, pesaroso, ao seu palácio no Rio de Janeiro, depois de alguns dias de permanência no poético rincão da Guanabara.

Contam até que, certa vez, o rei esteve na capela de São Roque, cumprindo um voto que fizera ao santo, por se ter curado de dolorosa ferida que lhe aparecera em uma das pernas, em consequência de picada de traiçoeiro carrapato, que não respeitara o seu sangue azul. Vários médicos foram chamados; no entanto, só a intervenção de São Roque (segundo ele proclamava), lograra restabelecê-lo.

Posteriormente, Dom Pedro I, já imperador, José Bonifácio, Evaristo da Veiga, vários regentes do império depois da abdicação, compareceram também à festa de São Roque, levando ao povo da ilha o seu testemunho de fé nos milagres do mártir.

Na sala contígua à capela as “promessas” de cera eram em tão avultado número, que, por falta de espaço para guardar a todas, as mais antigas eram convertidas em velas para alumiar o santo.

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Não podemos deixar de assinalar nesta crônica os relevantes serviços prestados pela antiga capela de São Roque, durante a rebelião da Armada em 1893. No seu seio recebeu os corpos mutilados dos marinheiros e oficiais inferiores, mortos no embate político.

Como se sabe, Paquetá era a base de operações dos revoltosos chefiados pelo Almirante Custódio José de Melo contra o governo do Marechal Floriano Peixoto.

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Nos primeiros anos do século atual a capela foi demolida, para em seu lugar ser edificada a que hoje ali se encontra, como uma relíquia amada pelo povo da ilha.

Em 1905, foi iniciada a construção durante o tempo que exercia a função de Vigário da freguesia o Padre Juvenal Madeiro. Falecendo esse pastor, ficaram por algum tempo paralisadas as obras, até que em 1910, o seu sucessor, Padre Pouton, resolveu dar incremento à realização, encarregando desse serviço o arquiteto Miguel Bruno, que procurou manter as mesmas linhas da antiga capela, imprimindo na sua planta o estilo jônico, revelado nas colunatas que ornam o seu frontispício. Ao lado direito levanta-se pequena torre, como a que existia, ligeiramente modificada no seu pináculo.

Tem somente uma porta na frente, duas no oitão esquerdo, e igual número de janelas gradeadas do mesmo lado.

No interior o piso que é todo ladrilhado, e o teto apresentando caprichoso desenho realizado em estuque, há apenas o altar do presbitério, onde se venera a velha imagem de São Roque. Na parede que fica atrás está um belo quadro de grandes dimensões, executado há cerca de dez anos por Pedro Bruno, exímio pintor, filho de Paquetá. Esse quadro representa o Padroeiro da ilha, com o seu indefectível cão, símbolo de fidelidade. A vista que serve de fundo a essa pintura é o recanto onde está a capela, com aquele poço lendário, que a Prefeitura mandou cobrir, ensombrado pelas acácias da Praça de São Roque. O trabalho rico em imaginação e primoroso na execução, foi doado ao templo pelo seu autor.

Aos lados do altar, mais à frente, estão sobre colunas, as imagens de Santa Terezinha e Sagrado Coração de Jesus.

Nas paredes laterais da nave, há dois nichos. No da direita está colocada a imagem de São Sebastião, cabendo à Nossa Senhora das Dores o lugar no segundo nicho. Há também, logo à entrada, à esquerda, Nossa Senhora da Penha. São essas, as únicas imagens que existem no tradicional santuário de São Roque.

A construção do atual templo foi concluída em 5 de setembro de 1911.

Em frente à capela ainda há hoje a base do cruzeiro de madeira que indicava a existência ali de um cemitério. A grande cruz desapareceu, mas o seu vestígio lá permanece como uma recordação piedosa dos dias idos.

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