Chafariz do Palácio do Catete

Construído o palacete pelo Barão de Nova Friburgo (Antonio Clemente Pinto), em 1860 ou 1862, legado depois a seus filhos, que viviam na fazenda do Gavião (Cantagalo), deixando o mesmo em abandono, foi então vendido ao conselheiro Francisco de Paula Mayrink, que o transferiu ao governo, por intermédio do Dr. Aarão Reis, diretor do Banco do Brasil, para ser transformado em palácio do governo, o qual foi inaugurado, a 24 de fevereiro de 1897, pelo Dr. Manuel Victorino Pereira, vice-presidente da República em exercício, visto estar o presidente, Dr. Prudente de Moraes, enfermo.

Na adaptação do palácio foi, sob a direção do Dr. Aarão Reis, reformado e embelezado o parque, correndo por entre arvoredos um riozinho que, serpenteando o terreno, é cortado por pontes rústicas e cascata.

No seu interior aparecem repuxos e fontes; junto a uma ponte, uma fonte de bronze, assente sobre pedras, representa um menino nu montado no dorso de um jacarezinho, o qual com as mãos abre as mandíbulas do anfíbio, de onde jorra a água; no centro do riacho, outra fonte de bronze surge entre pedras, representando outro menino em plena nudez, que com muita graça subjuga um ganso de asas abertas, mantendo em suas mãos o pescoço ereto do mesmo, de cujo bico esguicha o líquido para o ar, formando uma chuva perene.

No gramado do parque, aparecem, também, grupos em bronze de meninos, mas não como motivos aquáticos e sim terrestres; sob uma palmeira real, surge o grupo de bronze: um menino nu matando a seus pés um jaguar, com um machado de pedra, e mais adiante, entre uma moita de pequenas palmeiras, um outro grupo de bronze, representando um menino nu, com o cabelo à moda indiana, dominando uma serpente. Estes quatro grupos representam a fauna dos quatro continentes do mundo: África, Europa, América e Ásia.

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Chafariz do Palácio do Catete. Desenho de Magalhães Corrêa.

Perto do pavimento térreo do palácio, está situada uma fonte de mármore branquíssimo, já carcomido pelo elemento líquido, que continuamente cai do repuxo.

Constituída por uma bacia de mármore polilobada regular, tem ao centro um amontoado de pedras de onde se eleva uma coluna octogonal irregular, tendo nas faces mais largas quatro carrancas de leões; sobre este corpo, a base que sustenta a delicada taça que tem na parte interna a forma de concha estriada; sobre ela ergue-se um pedestal formado de quatro golfinhos, que suportam outra taça menor, elevando-se do seu centro uma coluna em forma de balaústre que expele a água com intermitência.

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No centro do parque, está o monumental chafariz, construído de granito a parte arquitetônica e, de bronze, a escultural.

Este chafariz é o mesmo que existia em frente ao palacete Nova Friburgo, na rua do Catete, retirado da via pública para o interior do palácio presidencial, pelo Dr. Aarão Reis, segundo o ministro Agenor de Roure, em sua crônica “Palácio do Presidente” em “A Notícia”, de 23 de novembro de 1896.

Pousando sobre um degrau uma bacia circular, de 80 centímetros de profundidade, recebe ao centro um corpo constituído de quatro consolos, como pés, que saem das faces de um octógono regular, para sustentar quatro golfinhos, que partem das quatro faces superiores do octógono, e, nas outras faces reentrantes, aparece uma enorme rosácea: termina este corpo octogonal por uma cornija, que mede dois metros de altura.

Sobre esta primeira parte repousa outro corpo octogonal, de quatro faces reentrantes com cartuxas ao centro, com os seguintes dizeres: “Comércio, Obras Públicas e Agricultura” e a face posterior uma simples cartuxa. Nas outras faces, a cavaleiro dos golfinhos, pilastras com caneluras, base e o capitel, que forma com as partes reentrantes a cornija deste segundo corpo, que mede um metro e cincoenta de altura, e quatro metros do solo à parte superior desta massa pétrea.

Chafariz do Palácio do Catete., grupo de “Vênus Anadiomene”

Coroando esta parte arquitetônica, o grupo de “Vênus Anadiomene”, representando o nascimento de Vênus das espumas do mar,a qual aí aparece conduzida sobre as águas em uma concha puxada por golfinhos e circundada por quatro Cupidos, como atributos que são da deusa do Amor.

A estátua de Vênus é de uma mulher de beleza plástica extraordinária, nua e, pudicamente um panejamento cobre levemente uma parte do lado direito.

A sua fisionomia é de bondade e de amor, cabelos soltos, coroada com um pequeno diadema de forma de palmeta grega; sua mão direita delicada e elegantemente acaricia com os finíssimos dedos as madeixas de seu cabelo; seus pés pousam com elegância, o direito à frente e o esquerdo mais atrás, levemente levantado, dando uma leveza e graciosidade no movimento à linha do perfil esquerdo, e o braço um pouco afastado do corpo, em movimento de apreensão, estendido para um Cupido que dentro da concha lhe oferece o pomo que não é o da discórdia; os outros Cupidos estão, um à frente guiando os golfinhos, e os outros dois, na parte posterior, tendo um preso aos braços um golfinho que pela guela precipita a água, e o outro com um molusco, de onde sai o líquido cristalino, que, passando pelo interior dos cálices de oito flores aquáticas pendentes, sai em filetes límpidos e rutilantes, caindo na bacia de pedra.

Fonte

  • Corrêa, Armando Magalhães. Terra Carioca - Fontes e Chafarizes. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939. 214 p. Ed. do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (Reimpressão feita pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Coleção Memória do Rio, vol. 4).

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