Por um fio de cabelo

Naqueles três primeiros dias da organização da República há um episódio pequenino, muito pequenino, mas de tal grandeza e de tal vibração dramáticas na sua minúcia culminante que, pode-se dizer, dele esteve dependendo por um momento, suspenso por um fio de cabelo, a vida do regímen que se inaugurava.

É o episódio, ou melhor, uma minúcia do episódio do embarque do Imperador.

Ao cair da noite de 16 de novembro de 89, o ministério republicano percebeu que, as vinte e quatro horas impostas a Pedro II para retirar-se do território brasileiro, eram um espaço de tempo muito longo, em vista das aperturas do governo provisório.

Os horizontes anuviavam-se. Aquelas facilidades surpreendentes da manhã anterior degeneravam agora em perturbações assustadoras.

A cidade, saída do inesperado do dia 15, parece que caía em si e começava a refletir sobre o grande choque da véspera. As ruas estavam cheias de boatos. Dizia-se que os partidários do trono, apanhados de surpresa, pensavam numa reação e numa desforra imediatas.

As coisas não iam muito sorridentes como parecera à primeira vista. Aqui, acolá, havia arruaças e agitações de rua.

Na Marinha, as nuvens eram carregadas. Em muitos navios não se arriara ainda a bandeira do império. A maruja, que desembarcava, vinha disposta a brigar com os soldados republicanos. Murmurava-se desde o entardecer que o Almirante Jaceguai coligava, entre os marinheiros, elementos para a contrarrevolução.

Na Bahia, o Marechal Hermes, irmão mais velho de Deodoro, recebera hostilmente a República. Queria apenas a queda do gabinete Ouro Preto. O ministério, organizado na véspera, tinha insinuado a prisão do irmão do proclamador, mas Deodoro recusara-se rigorosamente a magoar a velhice do seu parente.

Se aqueles antolhos fossem aparecendo o trabalho da organização do governo seria penosíssimo.

O remédio era embarcar imediatamente o Imperador, antes que as reações se formassem, antes que explodisse a tempestade desenhada.

O embarque estava anunciado para o dia seguinte, mas, feito de dia, como no primeiro momento se determinara, era de uma inconveniência desastrada.

Todo o mundo sabia da popularidade de Pedro II. Depois de 13 de maio a Princesa Isabel era também um dos grandes ídolos do povo. E a população, bestificada como recebera a República, assistiria ao embarque da família imperial?

Podia ser que sim, podia ser que não. Era mais provável que não.

O governo republicano seria obrigado a reagir energicamente, violentamente, se é que pudesse conter o embate de uma reação popular em defesa do monarca querido.

E seria um desastre inaugurar-se o governo republicano à pata de cavalo e à carabina.

A única solução ali era fazer-se o embarque pela calada da noite, quando a cidade dormisse, longe dos olhos facilmente emocionáveis do povo.

E o Imperador estaria disposto a embarcar à hora incômoda que o governo provisório exigia? Depois dos boatos de que os elementos monarquistas preparavam a desforra, quereria ele embarcar?

O governo temia.

Era mais de meia-noite, e o ministério, reunido no quartel general do Campo de Sant’Anna, não tinha encontrado ainda uma saída para a entaladela.

Um alvitre foi lembrado e aceito. Prender-se-ia o Conde d’Eu.

O marido da Redentora ficaria como refém, até que a família imperial chegasse à Europa.

Assim, temendo medidas de represálias contra seu genro, Dom Pedro certamente obedeceria às determinações do governo provisório.

Mas o alvitre foi afastado minutos depois. O ministério teve informações seguras de que os monarcas destronados não pensavam em contrariar o novo regímen.

O tenente-coronel Mallet é escolhido para ir ao paço exigir da família imperial o embarque antes do amanhecer de 17. Talvez tivesse sido a missão mais penosa e mais dolorosa daqueles primeiros dias republicanos.

A cena, como a descreve Tobias Monteiro, é de uma emoção que corta a alma. É ali no casarão onde está hoje a diretoria dos Telégrafos [1]. Dom Pedro é acordado pouco antes das duas da madrugada. No grande salão do paço esperam-no, além do militar embaixador do governo provisório, o Visconde da Penha, o General Miranda Reis, o Príncipe Dom Pedro Augusto, o Conde d’Eu e a Princesa Isabel.

O momento é de gelar os ossos. A Redentora soluça a saudade da pátria que vai deixar. Mallet tem um nó a apertar-lhe a garganta.

Lá fora ouvem-se tropéis de cavalos, um ou outro brado das sentinelas espalhadas pela praça. A noite está negra e carregada de nuvens. Há prenúncios de chuva próxima.

Os soluços da princesa cortam, de quando em quando, o silêncio dramático do salão. Faltam apenas Dom Pedro e a Imperatriz.

Ouvem-se passos. Voltam-se todos. É a figura austera e magnífica do Imperador.

As suas barbas brancas parecem cem anos mais velhas. Vem de sobrecasaca preta e chapéu na mão.

O diálogo entre o monarca e o coronel republicano é rápido e nervoso.

Então ele será algum preto fugido, para ser obrigado a embarcar àquela hora da noite?

O militar não sabe o que responder.

Chega o momento da partida. Mallet tem as mãos geladas, uma inquietação atroz no peito. É necessário apressar o embarque e nem o imperador, nem a imperatriz, nem a princesa, ninguém se sente com animo de fazer um movimento para deixar o palácio.

É por interferência do Conde d’Eu, o único calmo naquilo tudo, que se dão os primeiros passos para descer as escadas. Todos se movem como que arrastados, como que puxados por um guindaste, porque nenhum deles, no momento, tinha pernas para andar.

No cais, uma lancha do Arsenal de Guerra os espera, arfando e fumegando.

A família imperial embarca.

Embarcam o Marquês de Tamandaré, Conde de Motta Maia com a família, três damas, os camaristas José Calmon e o Conde de Aljézur, Mallet e o capitão-tenente Serrano, que vai comandar o “Parnaíba”.

A hélice levanta uma onda de espuma que brilha à claridade da luz do cais. E a lancha, a trepidar, some-se na escuridão da noite horrenda, fumegando…

Não se sabe bem onde está ancorado o “Parnaíba” que, no outro dia, levará os imperadores para bordo do “Alagoas”.

A urgência do embarque não permitiu informações seguras.

E a lancha anda pela baía aqui, acolá, à procura do navio.

A noite é cada vez mais negra e mais pesada. Chove. Quase não se enxerga nada diante dos olhos. Os farolins dos barcos parecem envoltos num véu de bruma.

Chega-se a um navio, chega-se a outro, indagando do “Parnaíba”.

Só Mallet e Serrano sabem do perigo que se está correndo. Muitos dos vasos de guerra estão ainda leais ao trono… Seria com a maior facilidade que a maruja se apossaria da lancha, impedindo a partida dos monarcas.

Encosta-se afinal ao “Parnaíba”. A bordo ninguém sabe das resoluções do governo republicano. Só muito tempo depois, depois de longas explicações, a escada é arriada.

A noite continua como breu. Um vento irritante sopra agora com violência. O mar está revolto.

Há uma dificuldade enorme em passar-se da lancha para o navio. A escada é vacilante e estreita. O único lampião que a alumia parece mais uma candeia de azeite.

Mallet pula para a escada a fim de dar a mão ao Imperador. Começa o episódio aludido acima. A lancha espinoteia como um cabrito, ora batendo violentamente no costado do navio, ora recuando. Dom Pedro tem a mão direita presa à mão de Mallet, ambos de braço estirado na meia sombra que o lampião, em cima, consegue espalhar.

Basta um pequeno esforço, um pequeno impulso do monarca, para que galgue a escada. Mas, o pobre velho, que sofreu muito naquelas vinte e quatro horas, não pode ter agilidades varonis. As suas pernas estão trêmulas e fraquíssimas.

Além disso, há uma tolda no começo dos primeiros degraus. A qualquer desvio, a qualquer impulso menos calculado, terá ele a cabeça esmagada de encontro à tolda. A situação é horrível.

Mais de uma vez a mão do soberano soltou-se das mãos do coronel.

A lancha continua a pular nas vagas picadas. Agora o militar e o Imperador estão de novo de mãos seguras, apertadas. Dom Pedro, já de alguma maneira acostumado àquela meia sombra, vai pular. Mas, nesse momento, a lancha, que os ganchos dos marinheiros procuram prender com desespero, afasta-se. O monarca tem um pé à borda, bem à beirinha da lancha, e outro pé no ar.

Se soltar a mão de Mallet cairá irremediavelmente nas ondas. E aperta e comprime, com todas as forças que lhe restam, a destra do coronel.

O instante é trágico. A lancha continua a afastar-se, a afastar-se devagarinho, pulando.

Mallet percebe, num relance, a gravidade do momento. Se aquele homem morrer, nunca, nunca jamais convencerá o país e o mundo de que não foi ele que o matou.

Toda gente dirá que aquilo nada mais foi do que uma cilada miseravelmente preparada pela República.

E, morto o Imperador daquela maneira, a República teria prestígio para impor-se? Não seria o próprio povo a derribá-la na dor profunda da morte do mais simples e mais querido dos imperantes?

E, durante momentos, durante segundos o novo regímen esteve suspenso nas mãos de Mallet. O Imperador era, naquele instante, a própria República. Morto ele, estaria ela irremediavelmente perdida.

E a lancha continua a afastar-se, a afastar-se. Mallet desce um degrau, mais outro, mais outro, sempre de braço no ar, os músculos retesos, num esforço supremo.

Vai consumar-se a tragédia. Um fio de cabelo apenas, um nada…

Mas o coronel desperta todas as energias restantes da sua vida, e vem puxando, puxando o braço do monarca devagarinho, devagarinho. A lancha, agora ajudada pelas próprias águas, vem cedendo, aproximando-se.

Um marinheiro, que viu tudo e calculou a tragédia, desceu, juntando as suas forças as forças de Mallet.

A lancha encostou. Dom Pedro teve um impulso feliz e saltou na escada.

Não estava salva apenas uma vida preciosa para o país, mas muitas vidas, muitas, que a guerra civil de certo ceifaria.

Tudo estava salvo naquele instante trágico. Até a República.

Nota

  1. Após a Proclamação da República, as propriedades da Família Imperial e seus bens foram arrestados e leiloados. O Paço foi transformado em Agência Central dos Correios e Telégrafos. Leia mais em Paço Imperial

Fonte

  • Lago Filho, Manuel Viriato Correia Baima do. Terra de Santa Cruz: Contos e Crônicas da História Brasileira. 3.ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1930. 256 p.

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