A Capela e o Recolhimento de Nossa Senhora do Parto (II)

II

O vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, apesar de ter já empreendido e adiantado diversas e importantes obras na cidade do Rio de Janeiro, não pôde ver a decadência e a ruína em que se achavam a capela e o recolhimento de N. S. do Parto sem sentir vivos desejos de regenerar uma e outro.

Para Luís de Vasconcelos, o desejar precedia poucos instantes ao querer, e o querer se satisfazia logo pelo poder, que não tardava a mandar. E assim devia naturalmente observar-se no tempo do posso, quero e mando, que eram as três sublimes notas da música do despotismo, que no Brasil se cantava a compasso marcado pela mais infalível das batutas – o bastão do vice-rei.

Demais, o enérgico sucessor do hábil marquês de Lavradio tinha por sua vez descoberto o segredo de arranjar dinheiro, quando os cofres estavam exaustos, e de improvisar trabalhadores, quando não havia gente para o trabalho, como já ficou dito e demonstrado em um dos nossos passeios ao jardim público do Rio de Janeiro.

O desejo que teve Luís de Vasconcelos de regenerar a capela e o recolhimento de N. S. do Parto entrou, por consequência, em imediata realização. O mestre Valentim acudiu à voz do vice-rei e meteu mãos à obra. Somente um pouco desapontado por ver-se coagido a consertar e a acrescentar o edifício velho, em vez de construir um novo, que fosse digno da sua maestria em arquitetura.

Não me é possível marcar o dia em que começam as obras, no ano de 1787. Contaram-me, porém, uma história que provavelmente contém episódios inventados pela imaginação. Mas uma história a cujos fios prende-se a inauguração daqueles trabalhos, e vai toda ela acabar na catástrofe que dois anos depois ia destruindo completamente a capela e o recolhimento do Parto.

É claro que estou na obrigação de reproduzir aqui o romance do incêndio do recolhimento do Parto, para não deixá-lo ficar de todo perdido nas sombras do passado.

No momento em que terminava a cerimônia da inauguração dos trabalhos em presença do vice-rei, passou diante da capela, vindo da igreja, e pela Rua de São José, seguindo pela da Ajuda, o cortejo de um casamento, constando de duas elegantes cadeirinhas em que eram levadas a noiva e a madrinha, e do noivo, e dos parentes e amigos, que marchavam a pé.

É de regra que as noivas abaixem os olhos e procurem esconder-se às vistas dos observadores. Mas, por exceção a essa regra, a noiva que passava abriu as cortinas da sua cadeirinha, mostrou o seu lindo rosto e, encarando o mestre Valentim, não pôde conter um sorriso malicioso.

A madrinha seguiu o exemplo da noiva. Abriu as cortinas, olhou. Mas não sorriu, brilhando apenas seus olhos com uma flama ousada e irresistível.

O cortejo foi seguindo, e Luís de Vasconcelos, que estava perto do mestre Valentim, com quem gostava muito de gracejar, principalmente a respeito do belo sexo, de que o feio arquiteto era famoso apaixonado, perguntou-lhe a meia-voz:

– Que lhe parecem aquelas moças, mestre?

– Pelo sorrir da noiva e pelo olhar da madrinha, adivinha-se que bem posso ter começado hoje a preparar aqui aposentos para ambas.

– Longe vá o agouro! – disse o vice-rei, afastando-se.

No entanto, chegara o cortejo nupcial à casa onde o esperavam o banquete e a festa.

Na sala, sentara-se a noiva ao lado da madrinha, e o cobiçoso noivo não tardou a ir ter com elas.

– Venho pedir-lhe contas de um sorriso – disse ele a noiva.

– Pois já? – observou a madrinha.

– Então? Preciso saber porque sorriu, passando em frente da capela do Parto.

– Ri-me – respondeu a noiva, porque achei muito apropriado que as obras da casa mais antipática do Rio de Janeiro fossem dirigidas pelo homem mais feio do mundo.

– Acha antipática, portanto, a capela de N. S. do Parto?

– A capela não. O recolhimento, sem dúvida.

– Mas por quê?

– Porque é um recurso da tirania dos maus maridos.

– Ah! Então receia que eu seja um grande tirano?

– Também não. Revolta-me a injustiça que sofre o meu sexo.

Mas, quando mesmo eu fosse encarcerada no recolhimento do Desterro, não me conservaria aí por muito tempo.

– Que faria em tal caso?

– Incendiava-o.

– Ah! Sr. Gil Soares! – exclamou a madrinha. Tome cuidado. Veja que se casou com uma moça do fogo.

– Eu tenho as provas disso no meu coração – respondeu galantemente o noivo.

A conversação foi nesse ponto interrompida. Bastante, porém, durara, para se apreciar o caráter vivo e indiscreto da noiva.

Algumas palavras agora, para esclarecimento da história.

A noiva chama-se Matilde. Não ignoro, mas entendo que devo ocultar o seu nome de família. Contava essa moça 20 anos de idade. Tinha tido uma educação muito mais livre do que era de costume naquele tempo. Seu rosto era claro, regular, móbil e alegre. Seus cabelos castanhos. Seus olhos grandes, quase pretos, e sem contestação, formosos. Era, enfim esbelta, bonita, ardente e vaidosa.

A madrinha chamava-se Ana, e tinha o sobrenome ou alcunha de Campista, que não tirara do nome de seu pai, nem do de seu esposo. Contava perto de 30 anos, era alta, bem-feita, e, não podendo dizer-se bela, mostrava-se perigosamente voluptuosa pela cor morena carregada de seu rosto, pelo brilhantismo e audácia de seus olhos negros e por um não-sei-quê de provocador em seus sorrisos, em seus gestos e movimentos.

Ana Campista fora trazida de uma vila do interior por Leôncio Peres, seu pai, que viera se estabelecer com uma modesta casa de comércio na cidade do Rio de Janeiro e que um dia lhe apresentou um seu afilhado, Lourenço Taques, chegado uma hora antes daquela mesma vila, e disse-lhe sem consultas nem explicações:

– O Sr. Lourenço vai ser teu marido.

Lourenço ficou espantado e Ana curvou a cabeça. A notícia apanhara de surpresa os dois noivos, que eram quase desconhecidos.

Dito e feito. Dois dias depois, celebrou-se o casamento, a que Ana Campista se submeteu sem murmurar, porque seu pai era o tipo da severidade a mais violenta.

Leôncio Peres casara a filha, porque Lourenço lhe pareceu um bom partido. Ambrósio Taques casou o filho para livrá-lo de sentar praça de soldado. Nada mais simples.

O mestre-de-campo do distrito onde morava a família de Lourenço achou neste mancebo disposições para guerreiro e mandou-o recrutar; e, como o não encontrassem os seus agentes, fez trancar na cadeia da vila a Ambrósio Taques. Mas debalde, porque o enfezado velho zombou dos gritos e das ameaças do fidalgão mestre-de-campo, e não deu conta do filho.

No fim de dois meses saiu Ambrósio da prisão, escreveu logo ao seu compadre Peres e, recebendo a resposta deste, foi aos matos da fazenda, onde escondera Lourenço, e, sem dizer a este o fim a que o destinava, mandou-o para a cidade.

Este casamento assemelha-se a muitos outros daquele tempo, em que, por medo do recrutamento, os pais chegavam a casar meninos de 10 ou 12 anos com meninas que preferiam as bonecas aos maridos.

Entre parênteses. Não se lembrem os felizes viventes de hoje de persignarem-se para espantar o demônio do passado.

O demônio mudou de nome, de figura e de maneiras. Mas se recolheu ainda ao Inferno. Chamava-se mestre-do-campo e chama-se hoje aí por fora delegado de polícia, e faz pouco mais ou menos as mesmas diabruras que fazia dantes. Neste século e depois da constituição, já um dia prendeu para soldado a um bacharel em direito, prende e faz assentar praça a homens casados e a outros que têm por si isenção da lei, e que, apesar da lei recebem muito honradamente chibatadas nos lombos.

Por consequência, no fundo continua o mal a ser o mesmo. A única diferença que eu lhe encontro é que outrora o arbítrio era a verdadeira lei, e hoje a lei é o verdadeiro arbítrio. Se não compreenderem a metafísica desta diferença, consolem-se, porque eu também não a compreendo.

Fecho o parêntesis e continuo a história.

Lourenço Taques ficou morando na cidade, e passou em breve de caixeiro a sócio da casa comercial do sogro. Mas se deixou de ter amo no negócio, teve na vida doméstica mais do que amo: teve uma senhora despótica em Ana Campista, que, em retribuição ao amor o mais cego e complacente do esposo deu apenas a este o disfarce de uma indiferença que mais tarde se transformou em desprezo, contido apenas pelo medo que ela tinha da autoridade e do desabrimento de seu pai.

Leôncio Peres era amigo do pai de Matilde, e esta e Ana se tornaram íntimas camaradas; e nas efusões de uma recíproca e decidida confiança fizeram um contrato de aliança indissolúvel e perpétua.

As senhoras costumam celebrar com frequência tais ajustes, e os respeitam tanto como os governos os seus tratados de aliança ofensiva e defensiva. Nestes, como em outros pontos, os governos parecem pertencer ao sexo feminino.

Tratou-se do casamento de Matilde, e quis a má fortuna desta que Ana Campista, encontrando o noivo, Gil Soares, por ele se apaixonasse perdidamente. Mas, tão fementida como hábil a falsa amiga, vendo insensível aos seus agrados provocadores porém cautelosos, o jovem, que então só parecia ter olhos, ouvidos e coração para a sua noiva, mudou de plano, sacrificou o presente ao futuro, e calculou que, não podendo desposar o homem que amava, mais facilmente o tornaria seu amante depois de casado com Matilde, cuja família tão íntimas relações entretinha com a sua. Em seguida, pois, tão interessada se mostrou pelo casamento da incauta amiga, que esta a escolheu para acompanhá-la ao altar.

O mestre Valentim havia, portanto, acertado no juízo que fizera de Matilde e de Ana Campista, vendo e apreciando a malícia do sorriso de uma e o fogo do olhar da outra.

Correram felizes e tranquilos os primeiros meses que sucederam ao casamento de Gil Soares.

Ana Campista contemporizara com a lua-de-mel. Não deixou, porém, acabar o ano de noivado sem entrar em ação, e, tomando por pretexto os ajustes que celebrara com a amiga, principiou por lançar no seio desta amargas suspeitas de infidelidades do esposo.

A intrigante era auxiliada pelo indigno procedimento de Gil Soares, que, libertino antes, libertino continuou a ser, e bem cedo, depois do seu casamento.

Os ciúmes de Matilde irritaram Gil Soares. Para ambos, tornou-se o lar doméstico um purgatório; e Ana Campista, confidente da pobre esposa, e fazendo espiar todos os passos do marido infiel, ficou senhora dos segredos de um e de outra.

Na véspera do dia de Natal de 1787, Matilde foi jantar com Ana Campista, e depois da longa conferência que teve com ela, resolveu-se a passar a noite em sua companhia, com evidente satisfação do marido, que se despediu até ao dia seguinte, e retirou-se logo que anoiteceu.

Leôncio Peres ceou, como costumava, com o genro e a filha; mas as 9 horas da noite, saía o velho pela porta do seu quarto para adormecer profundamente alguns minutos depois.

Lourenço se admirara muito de que sua mulher não quisesse ir à missa do galo, sendo, como era, tão religiosa que nunca perdia festa alguma. Habituado, porém, a não discutir, e somente a obedecer às resoluções de Ana Campista, deu as boas noites a ela e a Matilde, e foi entregar-se ao mais tranquilo sono.

Às 11 horas da noite, Ana e Matilde achavam-se envolvidas em longas mantilhas pretas, que escondiam completamente as formas e quase completamente o rosto de ambas.

– E teu marido não acordará? – perguntou Matilde com voz trêmula.

– Não. Lourenço é um marido modelo. Dorme um sono só. Esse, porém, dura apenas das 9 horas da noite até ao romper do dia.

– Mas… se por acaso acordasse?

– Dormiria outra vez – respondeu Ana com acento decidido e seguro.

– Sim… mas amanhã…

– Amanhã eu o faria pedir-me perdão de se ter acordado.

– Ana!

– Vamos.

E tomando a mão de Matilde, Ana Campista dirigiu-se à porta da rua, que foi aberta de manso por uma escrava fiel.

As duas senhoras saíram e começaram a caminhar apressadas.

Mantilhas! Mantilhas! Já passou o tempo das mantilhas, e as senhoras talvez não calculem o que perderam.

O belo sexo condenou e proscreveu a mantilha, porque essa imensa capa, que envolvia inteiramente uma mulher, não deixava ostentar a gentileza do corpo, nem a riqueza dos enfeites e das joias. Condenou-a e proscreveu-a, porque a mantilha era o manto com que se cobriam geralmente as velhas, as pobres e as mendicantes.

Como a vaidade faz errar as senhoras!

Condenada e proscrita por todas as moças e por todas as senhoras faceiras, a mantilha, que era um romanesco e cômodo recurso para as jovens e matronas de todas as classes e posições no século passado, e ainda no princípio deste, tornou-se desde alguns lustros em objeto de irrisão, e nem é mais permitido às próprias mendicantes, a quem os gaiatos, ao encontrá-las assim vestidas, perseguem cruelmente, gritando: “Barata! barata!”

Entretanto, a mantilha, que se usava tanto no Brasil, e que, como todos sabem, não era um manto curto, que é o que significa esse nome, porém, sim, um manto de pano preto, e tão longo que caía da cabeça até aos pés e envolvia a mulher toda, escondendo-a desde os cabelos até à barra do vestido, a mantilha era dantes tanto um espesso véu, em que se ocultava a pobreza e a velhice, como uma nuvem, que encobria uma estrela brilhante. Era ao mesmo tempo o manto da mendicidade e o disfarce da riqueza. Um expediente de amor e um recurso do ciúme.

Ah! quantos romances não pôde dar a mantilha do século passado!

E as senhoras condenaram e proscreveram as mantilhas! Coitadinhas! Perdem-se sempre pela sua vaidade.

Mas, como eu ia dizendo, Ana Campista e Matilde caminhavam apressadamente, levando suas mantilhas tão fechadas diante do rosto, que apenas seus olhos brilhantes podiam ser descobertos e apreciados pelos curiosos, que abundavam no meio das ondas do povo que enchiam as ruas.

Admitindo que os meus companheiros de passeio principiem a interessar-se pela história que vou contando, sou obrigado a pedir-lhes perdão, porque é força que eu a interrompa por momentos, para dizer em duas palavras alguma coisa sobre as festas do Natal na cidade do Rio de Janeiro, tais como elas eram no século passado e ainda em alguns anos do atual.

As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis.

O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores.

No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.

Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.

O presépio do Livramento era propriedade e glória do célebre cônego Filipe. As figuras que ali se apresentavam eram de barro e tinham dois palmos de altura, e de tanta fama gozava esse presépio que o príncipe regente, depois rei d. João VI, o visitou por mais de uma vez.

Como já disse, o proprietário desse presépio foi aquele sempre lembrado cônego Filipe, que se imortalizou por trinta mil simplicidades. Uma vez, por exemplo, indo esse cônego pregar em uma festa fora da cidade, hospedou-se na casa do festeiro, e, como chovesse muito durante a noite e houvesse uma goteira exatamente por cima da cama em que devia dormir o cônego, este passou a noite inteira sentado na cama a receber no prato do rosto a água que caía da goteira. No dia seguinte, lamentou-se o pregador da sua triste e maçante vigília.

– Oh! Sr. cônego! – disse o festeiro. – Por que não afastou V. Revma. para longe da goteira a sua cama?

– Homem! – respondeu o cônego. – Você tem toda a razão. Mas essa só lembra ao Diabo!

E como esta muitas outras.

Ao dia do Natal seguia-se o de Ano Bom, que era o das visitas, dos presentes, dos banquetes e dos obséquios.

E enfim, o dia de Reis fazia-se muito apreciado pelas cantatas de reis, que começavam na noite de 5 e repetiam-se na de 6 de janeiro.

Eram numerosos os reis que corriam a cidade, cantando às portas das casas das famílias amigas, que ofereciam a esses obsequiadores ceias opíparas e riquíssimas e variadas mesas de doces. Havia cantador de reis que atacava dez ou doze ceias em uma noite e não tinha indigestão.

Os cantadores de reis compunham-se de mancebos e moças, de ordinário vestidos à camponesa, e de alguns grotescos mascarados, a quem competia alegrar as companhias, provocando risadas.

Percorrendo a cidade em diversas direções, reuniam-se enfim todos os cantadores de reis no pátio do convento da Ajuda, onde terminava a festa alegremente, em um outeiro mais ou menos brilhante. As freiras davam motes do alto das janelas e por entre as grades, e os poetas glosavam como podiam e de improviso, mas quase sempre com metrificação livre.

Dou apenas uma ligeira ideia destas festas, de que espero tratar mais de espaço. Agora é impossível continuar a discorrer sobre este assunto, visto que nos cumpre acompanhar duas senhoras de mantilha que não devemos perder de vista.

Ana Campista e Matilde, depois de um quarto de hora de acelerada marcha, entraram no largo da Carioca, foram subindo a ladeira de S. Antônio, demoraram-se apenas alguns momentos diante do presépio, continuaram a subir, e chegaram enfim ao pátio da frente do convento e igreja, onde já havia muito povo, embora ainda fosse um pouco cedo para a missa do galo.

Cheio estava o pátio. Mas tornava-se notável que a quase totalidade dos fiéis que aí se achavam se desviassem de um grupo de mancebos e de moças, que assim se mostrava isolado. Contudo, o observador conhecia bem depressa a causa dessa separação, que era um protesto dos bons contra o sacrilégio da libertinagem em uma noite de tão santas recordações.

O grupo condenado ostentava ali à face de todos a vilania dos costumes de mancebos desmoralizados e de mulheres loucas que não se envergonhavam de uma conversação licenciosa e misturada de frenéticas risadas.

As duas senhoras recém-chegadas tinham-se misturado com a multidão; e Ana Campista, estendendo o braço para fora da mantilha, mostrou a Matilde Gil Soares no meio do grupo reprovado, tendo pelo braço a mais petulante daquelas mulheres sem nome.

Basta! – murmurou Matilde, segurando-se ao braço da falsa amiga.

– Ainda não – respondeu Ana Campista.

A missa começou à meia-noite em ponto, e finda ela o povo que enchera a igreja desceu pela ladeira, como um exército que desfila.

Ana e Matilde seguiram de perto o grupo licencioso, que foi ruidosamente visitar o presépio do convento de Ajuda, seguindo daí para o do Livramento. Gil Soares não deixara um só instante o braço da mulher que acompanhava desde o pátio da igreja de S. Antônio.

– Basta! – balbuciou de novo Matilde.

– Ainda não – repetiu Ana Campista.

Voltando do Livramento, o grupo foi pouco a pouco se dissolvendo ao som de gargalhadas e de zombarias. Finalmente, acharam-se sós Gil Soares e a sua indigna companheira, que, parando à porta de uma casa de triste aparência, bateu com força, e, apenas a viu aberta, entrou com aquele marido que atraiçoava sua mulher.

A porta fechou-se.

– Basta! basta! – disse Matilde em convulsivo tremor.

– Agora sim, basta! – respondeu Ana Campista.

E voltaram ambas para a casa, onde entraram às 4 horas da madrugada.

Lourenço Taques dormia ainda a sono solto.

As duas senhoras arrancaram as mantilhas e sentaram-se extenuadas de fadiga.

Depois de algum tempo dado ao descanso, Ana Campista rompeu o silêncio.

– Então? – perguntou.

– É um infame! – exclamou Matilde. – Hoje mesmo separar-me-ei desse monstro.

– Louca! O mundo te cobriria de ridículo ou de ignomínia.

– Oh! É assim? Pois bem, matar-me-ei.

– E o teu belo viúvo não se divertirá menos por isso.

– Sim… sim… Mas que farias tu?

– Não se trata de mim, Matilde.

– Mas. Se se tratasse?

– Não aconselharei a mulher alguma que faça o que eu faria.

A serpente ia-se arrastando para dar o bote.

– Não aconselha, porém fala. Que farias?

– Não te direi.

– Ana! Não és mais a minha amiga fiel.

– Ingrata? Depois do que acabo de fazer por ti!

– Dize, pois, que farias?

Ana respondeu em voz baixa, mas terrível.

– Vingar-me-ia!

– Vingar-me? Oh! Sim. Porém como?

Ana Campista olhou para Matilde com piedade, e depois disse-lhe:

– Vai chorar.

– Ana!

– Quem no teu caso não compreende qual é a vingança que deve tomar é uma criança, a quem só cumpre chorar.

Uma luz infernal brilhou aos olhos de Matilde, e o demônio que acendera essa luz contemplou com um rir de triunfo a exaltação e o delírio da esposa traída.

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Imagem destacada

  • Reedificação do Recolhimento do Parto. Museu da Chácara do Céu. Pintura de João Francisco Muzzi (1789).

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