A Capela e o Recolhimento de Nossa Senhora do Parto (III)

III

Estava aberto o caminho da perdição de Matilde, e para precipitá-la por ele conspiravam o ciúme, a vaidade ofendida, o amor justamente ressentido, um espírito exaltado, uma natureza ardente e a educação mal dirigida.

E além de tudo isso, velava sinistra ao lado de Matilde a traição com a máscara da amizade.

– Vingar-me-ei! – repetiu a infeliz com um tom que indicava já um pensamento criminoso.

– Sim – observou Ana Campista. – Um amor cura-se com outro amor.

Era ainda um conselho pérfido que prometia o castigo do esposo infiel com a infâmia da esposa traída, como se a desonra desta não tivesse de atenuar de certo modo a maldade daquele.

Mas o provérbio imoral fizera estremecer Matilde.

– Um outro amor! – disse ela, atraiçoando-se. – Um outro amor! E eu que…

– Acaba. Já és amada por um belo mancebo.

– Quem to disse?

– Agora mesmo começavas a confessá-lo.

Matilde corou. Ana Campista alterou-lhe o rubor da face, envenenando com um beijo insano a rosa do pudor.

– Quem é o teu apaixonado? – perguntou.

– É Lopo de Freitas, que me requesta em toda a parte onde encontra, apesar da aspereza com que o trato.

– É um moço nobre, bonito, discreto e rico. Quantas invejariam a tua felicidade! Ah! o Sr. Gil Soares paga-te bem essa tua surdez aos protestos de amor de Lopo de Freitas.

A lembrança da ingratidão de Gil Soares era naquele momento inspirada pelo Demônio.

– Pode-se lá deixar de ser surda? – murmurou sinistramente Matilde.

Alguns momentos depois, Ana Campista perguntou:

– Vês muitas vezes Lopo de Freitas?

– Não.

– Pois é fácil vê-lo.

– Onde?

– Na ópera.

– Raramente vou à ópera.

– Queres ir comigo depois de amanhã?

– Irei.

Facilmente pode-se calcular como passaram os dois dias que correram entre a noite de Natal e a da ópera, a que deviam ir Ana Campista e Matilde.

A casa da ópera era naquele tempo defronte das primeiras janelas do lado direito do palácio dos vice-reis, exatamente a mesma casa que depois ficou sendo uma dependência do paço, e que ainda hoje se vê paralela ao edifício da Câmara dos Deputados (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – N. do E.).

Não direi agora o pouco que tenho conseguido saber a respeito dessa casa da ópera. Porque tal assunto será tratado em um dos nossos próximos passeios.

Ana Campista e Matilde não faltaram à ópera. Estavam ambas vestidas com elegância e primor, e enquanto uma, pela fascinação da voluptuosidade, fazia esquecer que não era formosa, a outra avassalava corações com o poder de sua beleza, mais fulgurosa ainda naquela noite por uma indizível exaltação que parecia em luta com o receio.

Defronte delas mostrava-se um cavalheiro radiante de mocidade. Tinha olhos pretos, a fronte alta, rosto pálido e belos dentes. Estava vestido como um peralta do seu tempo. Era Lopo de Freitas.

Acaso ou prevenção de quem facilmente se adivinha, Lopo escolhera um lugar onde, volvendo apenas os olhos, podia contemplar Matilde. Ainda não tinham sido introduzidos no Rio de Janeiro os binóculos teatrais e naquela casa da ópera um binóculo seria um pleonasmo, como atualmente se diz no Ginásio. Além disso Lopo tinha bonitos olhos e excelente vista.

É inútil dizer que o mancebo inebriava-se, devorando com um olhar abrasador o lindo rosto de Matilde, que, pela primeira vez, não se mostrava enfadada com essa adoração atrevida.

Representava-se a ópera intitulada “Guerras do Alecrim e Mangerona”, do nosso Antônio José da Silva, o chamado Judeu, a quem o horrível tribunal da Inquisição fez queimar em uma de suas infernais fogueiras.

O público aplaudia com ardor o espirituoso semicúpio, enquanto Lopo de Freitas repetia com os olhos a Matilde as finezas que D. Gilvaz e D. Fuas rendiam a D. Clóris e a D. Nize.

Entretanto, Matilde tolerava apenas, mas não correspondia ainda às demonstrações de amor do seu namorado.

D. Fuas cantou na cena os versinhos seguintes:

Se chego a vencer
De Nize o rigor,
De gosto morrer
Você me verá.
Porém, se um favor
Alenta o viver,
Quem morre de amor
Mais vida terá.

Ao terminar o canto, encontraram-se os olhos de Lopo e de Matilde, e tanto fogo havia nos do mancebo, que Matilde abaixou os seus e mostrou o rosto inundado do rubor do pejo.

A ópera auxiliava Lopo de Freitas, porque logo depois veio a cena em que D. Clóris cantou por sua vez:

Dirás ao meu bem
Que não desconfie,
Que adore, que espere,
Que não desespere,
Que à sua firmeza
Constante serei;
Que firme eu também
A tanta fineza,
Amante constante
Extremos farei.

Lopo e Matilde tornaram a olhar-se e sorriram ambos da coincidência daqueles cantos com as falas dos seus corações.

O sorriso de Matilde não escapou a Ana Campista.

– Até que enfim! – disse esta ao ouvido da amiga, ao mesmo tempo em que lhe apertava a mão.

O resto do espetáculo foi para Matilde cheio de novos sorrisos, daqueles sorrisos sacrílegos que murcham depressa, cedendo o rosto às lágrimas e o coração aos remorsos.

Algumas semanas de galanteio acabavam de perder Matilde. A vingança a impelira, a vaidade incensada e satisfeita embriagou-a. E pouco a pouco, uma paixão infrene arrastou-a ao precipício.

Ana Campista protegia um amor criminoso, que devia servir aos seus cálculos.

Lopo de Freitas pediu uma entrevista a Matilde. O prazo e o lugar foram marcados.

Uma noite, e já muito tarde, abriu-se a porta da casa de Lourenço Taques e outra vez saíram duas mulheres de mantilha, que caminharam apressadas e silenciosas e passavam diante da igreja de N. S. do Parto, quando uma delas parou, estremeceu e murmurou, tremendo:

– O recolhimento!

Mas imediatamente, parecendo ceder a uma força irresistível, disse:

– Vamos!

E continuou em rápida marcha até chegar, quase no fim da Rua do Parto, a uma casa térrea, cuja porta, já entreaberta, então de todo se abriu para dar entrada às duas senhoras.

Lopo de Freitas recebeu de joelhos a Matilde, a quem Ana acabava de arrancar a mantilha.

A estrada do vício é íngreme e escorregadia, e quem uma vez começou a descer por ela, tarde ou nunca mais pode parar.

As entrevistas de Lopo e de Matilde repetiram-se muitas vezes.

A esposa indigna correu precipitada para o abismo onde a esperava o maior opróbrio.

O mundo, que tudo vê e arrasa todos os mistérios, descobriu esses amores impuros, e a murmuração e a reprovação pública marcaram com o ferrete da infâmia a mísera Matilde.

Ana Campista triunfava, pois, e contando já com a mais completa vitória, sempre, porém, hábil e astuta, começava a provocar, como involuntariamente e sem comprometer-se, a atenção e os anelos de Gil Soares.

O libertino deixou-se pouco a pouco atrair pela mulher voluptuosa que lhe acendia a imaginação adivinhadora de irresistíveis encantos. Cercou-a de cuidados, ousou fazer-lhe a confissão do seu amor, e tomou-se ainda mais vivamente apaixonado pelo desdém fingido com que Ana Campista o repeliu.

Ana esperava ainda. A mulher a quem profundamente aborrecia e a quem dava o nome de amiga, a esposa do homem que lhe inspirara uma paixão reprovada pagava-lhe com hedionda miséria o crime de haver gozado alguns dias de amor e de felicidade. Sua vingança poderia talvez estar saciada. Mas o domínio exclusivo e indispensável do coração de Gil Soares só lhe parecia seguro, quando uma barreira ou um abismo o separasse de Matilde.

Tal reparação era, portanto, a sua ideia implacável.

Uma carta anônima foi em breve patentear a vida ignominiosa de Matilde aos olhos de Gil Soares, que, arrebatado e furioso, não podendo ocultar os seus ciúmes, perdeu o mais seguro de certificar-se da verdade, porque os dois amantes, acautelando-se temerosos, interromperam as suas entrevistas.

Ana Campista, contrariada em seus planos por esse prudente proceder, receou ver arrefecer-se a paixão criminosa de Matilde, e para inflamá-la de novo, correu a derramar o veneno de pérfidos conselhos no seio da desgraçada.

Matilde seguiu de olhos fechados o caminho por onde quis conduzi-la a traição. Um dia em que foi visitar sua mãe, fingiu-se, de súbito, tão incomodada, que não pôde voltar para casa.

Matilde contava que seu marido, habituado a passar as noites em orgias, a deixasse só com sua mãe. Não calculou, porém, com as suspeitas de um marido desconfiado.

Gil Soares, com efeito, deixou-a só. Mas retirou-se suspeitoso.

O incômodo de Matilde desapareceu com a partida do marido. E a mãe da inconsiderada moça sorriu àquela milagrosa cura, vendo apenas um inocente capricho no que a filha ocultava um desígnio criminoso.

A mãe de Matilde morava no largo da Ajuda. (81) Era uma boa velha, observadora fiel dos costumes antigos. Às 9 horas da noite rezou o seu terço, e às 10 dormia.

À meia-noite, uma voz abafada e trêmula pronunciou na rua a palavra – segredo!

Daí a poucos minutos Matilde e Ana Campista seguiam juntas para o Passeio Público, onde entraram pela porta lateral, que lhes foi aberta por Lopo de Freitas, que conseguira obter a chave.

Os dois amantes sentaram-se ao lado um do outro no banco de um dos caramanchões cobertos de jasmins.

A lua estava clara e brilhante, e o ar embalsamado de perfumes.

A noite parecia propicia aos amores.

Ana Campista passeava no terraço. Toda ocupada de seus malvados tramas, nem sentia a indignidade do seu repugnante proceder, nem se lembrava dos perigos a que se expunha. Mas, de súbito, ouviu um grito pungente soltado por Matilde, e logo, soando rouca e terrível, a voz de Gil Soares.

Ana Campista não calculara com esse contratempo. Rápida, porém, como o raio, desceu a escada do terraço, e escapando pela porta do Passeio que ficara aberta, voltou correndo para sua casa, onde, apenas chegou, caiu desfalecida de terror e de fadiga.

Lourenço Taques dormia sempre o seu aturado sono de ferro. Amante extremoso e cheio de confiança na esposa, e constante dorminhoco da noite, era um marido que convinha perfeitamente a Ana Campista.

Mas esta mulher ousada e falsa tremia pela primeira vez. Receava que a tivessem conhecido no Passeio, que Matilde a houvesse comprometido. Receava as consequências de uma luta que devia ter havido entre Gil Soares e Lopo. E receava-se, mais do que tudo, da cólera de seu pai.

E foi ainda com violento esforço que dissimulou o medo de que estava possuída, quando, na manhã seguinte, recebeu Gil Soares, que veio lhe pedir alguns momentos de atenção.

Lourenço Taques já tinha saído.

Gil Soares estava pálido e agitado. Soubera da cumplicidade de Ana Campista no crime de sua mulher, e queria confundi-la antes de denunciar a sua culpa a Lourenço Taques e a Leôncio Peres.

Nas primeiras horas do seu arrebatado e justo desespero, pareceu-lhe transformado em ódio o amor que tantas vezes, desde alguns dias, e até então sempre inutilmente, o arrastava aos pés de Ana Campista.

Chegou trazendo na alma um pensamento de vingança cruel.

Ana fingiu não reparar na agitação de Gil Soares e pediu-lhe notícias de Matilde.

– Esta noite – disse Gil Soares, – teve lugar no Passeio Público a última entrevista dessa mulher com Lopo de Freitas, seu amante. O infame escapou à minha vingança, porque, aos gritos de uma esposa que me desonrou, acudiram intrometidos que o arrancaram de minhas mãos.

Ana Campista não respondeu, mas fitou um olhar audacioso no rosto de Gil Soares.

– Quer notícias da sua amiga? – continuou este. – Acha-se bem guardada no seu quarto, onde não receberá nem parentes, nem amigas, até que amanhã entre no recolhimento do Parto, para ficar nele todo o resto da sua vida.

Os olhos de Ana Campista brilharam com um fogo irresistível. O seu seio, abalado por uma viva comoção, mostrou-se ofegante de ardor e voluptuosidade. Ela não arredava suas vistas magnetizadoras do rosto de Gil Soares, que, começando a experimentar a influência daquela mulher perigosa, para escapar à fascinação do seu olhar, abaixou um pouco os olhos, mas deixou-os presos ao seio que arfava tão provocadoramente.

– Minha mulher atraiçoou-me, – continuou ele – e sofrerá, portanto, o merecido castigo. Sei, porém, que ela teve uma cúmplice que eu preciso conhecer para puni-la também.

Ana Campista fez um movimento e ergueu-se. Os seus cabelos negros desataram-se e caíram em enchentes de bastos anéis sobre os seus ombros nus.

– A senhora – prosseguiu Gil Soares – amiga íntima de Matilde, necessariamente conhece a sua cúmplice. Quem é, pois, essa mulher? Quem é?

– Sou eu – respondeu Ana Campista.

– E ousa dizê-lo?!

– Sim. Fui eu que levei Matilde à perdição. Fui eu que cavei um abismo entre ela e seu marido.

Gil Soares encarou confuso, quase aterrado, a mulher que assim lhe falava, e viu-lhe no semblante a audácia, a paixão, o arrebatamento em flamas abrasadoras.

– Mas é horrível – disse ele atônito.

– Sim! – exclamou Ana, prorrompendo. – Mas eu te amava!

Eu te amo, Gil Soares!

No dia seguinte, Matilde entrava para o recolhimento do Parto, e Ana Campista ficava sendo a amante de Gil Soares.

Mulher execrável, porém alucinadora, fez do inconstante e libertino Gil Soares um escravo submisso. Dominou sobre ele, tornou-se o encanto e a loucura de sua vida.

Alguns meses durou a gozar tranquilo desses indignos amores.

Ana Campista, embebida nos triunfos da sua paixão, tinha-se esquecido de um homem que devia vingar Matilde.

Lopo de Freitas descobriu a traição de que ele e a sua amada haviam sido vítimas, aborreceu ainda menos Gil Soares do que Ana Campista. Mas, observando com a solicitude e a vigilância do ódio os passos dos seus dois inimigos, exultou, conhecendo que podia tirar deles uma desforra completa.

Sem que lhe tremesse a mão com a vergonha de uma vil denúncia, escreveu a Lourenço Taques, informando-o dos desregramentos de sua mulher, e a Leôncio Peres, anunciando-lhe a desonra de sua filha, e julgou-se livre da ignobilidade de denunciante, escondendo-se com a capa do anônimo.

Lourenço estava em companhia do sogro, no escritório da sua casa comercial, quando as cartas de Lopo de Freitas foram entregues. E apenas leu a que lhe era dirigida, rasgou-a com raiva, exclamando:

– É impossível! É uma calúnia!

– É possível – disse Leôncio com amargura e calma. – É mesmo provável. Eu já o suspeitava.

Lourenço sentiu um ímpeto de cólera igual ao amor ardente que nutria por Ana Campista, e ia sair precipitado, mas Leôncio Peres o deteve.

– Espera – disse ele a Lourenço.

– Atraiçoado e esperar! – exclamou o marido amante e desgraçado.

O velho riu-se de um modo feroz.

– E eu não espero? – perguntou.

– O senhor não é marido, é pai.

– Mas eu espero porque… devo ser juiz, e se for preciso, serei algoz.

Passaram alguns momentos de silêncio.

– Escuta-me, tornou Leôncio. – Eu não compreendo a vida com uma nódoa, nem admito que haja perdão para a filha que desonra seu pai.

– E então?

– Então? É que o crime de que acusam minha filha importa numa sentença de morte para ela e para mim.

– E então? – repetiu Lourenço, como se receasse ter compreendido mal o lúgubre pensamento do velho.

– Então? – continuou este. É que o juiz tem necessidade de inteirar-se de toda a verdade, antes de lavrar a sentença que deve arrancar do mundo uma filha que desonrou seu pai, e um pai que não tolera a vida com o opróbrio.

Leôncio Peres falara com voz pausada e grave. O seu rosto mostrava uma serenidade aterradora.

Pai severo e homem de justiça cruel, que não sentia que a justiça deixa de o ser, quando se torna em crueldade, Leôncio Peres tinha já tomado uma resolução irrevogável.

Essa resolução preparava um atentado nefando.

Leôncio Peres era no fundo um mau homem.

Lourenço conservava-se em pé diante de seu sogro, que tornou, dizendo:

– Assim, pois, devemos primeiro chegar à evidência dos fatos que nos revelam. Descansa em mim. Silêncio e dissimulação. Dentro de três dias eu te falarei.

Lourenço obedeceu. Não falou. Não dormiu. Mas fingiu dormir.

Dissimulou, e sabia já demais, quando no fim de três dias o sogro o chamou ao escritório.

– Tudo é verdade – disse Leôncio Peres.

– Eu o sei – respondeu Lourenço.

– Uma filha que enche de ignomínia seu pai – tornou o velho.

Uma esposa que mancha o nome de seu marido é uma criminosa que deve morrer. É, porém, necessário que a sua morte não pareça um castigo, porque um castigo seria a manifestação pública da infâmia.

Lourenço estremeceu.

– Vou dizer-te como hás de matar tua mulher – continuou Leôncio.

– Matá-la?… Eu?… – exclamou o infeliz.

– Bem – prosseguiu o velho. – Não serás tu o algoz. Mas, em falta do marido que devia castigar a esposa infiel, o pai saberá punir a filha.

Lourenço horrorizou-se do que lhe dizia Leôncio, e saindo logo depois, tão ativamente trabalhou, que na tarde desse mesmo dia Ana Campista, quando menos o esperava, foi por seu marido conduzida para o recolhimento do Parto.

Lourenço não dera explicação alguma a sua mulher, não a injuriou, nem a maldisse. Obrigou-a a sair com ele, levou-a ao recolhimento, e ao vê-la entrar, disse-lhe:

– É o seu lugar. Arrependa-se.

Ana desapareceu. Lourenço escondeu duas grossas lágrimas que lhe caíram dos olhos e voltou para casa.

Tinha-se realizado a profecia do mestre Valentim.

Às sete horas da noite. Leôncio Peres chegou à casa de seu genro. Onde está minha filha? – perguntou, antes de sentar-se.

– No recolhimento do Parto – respondeu o genro.

O velho lançou um olhar de desprezo e de cólera sobre Lourenço, e saiu.

Leôncio Peres não tornou a aparecer no seu escritório a quem quer que fosse, e nunca mais dirigiu a palavra a seu genro. Escondendo-se de dia a todos os olhos, saía apenas de noite para ir passear muito tempo e sempre diante da capela do recolhimento do Parto.

O ressentimento e a severidade selvagem desse velho eram implacáveis.

Vagando de noite em frente do recolhimento do Parto, onde estava encerada sua filha, Leôncio Peres era como a sentinela de uma vingança satânica.

E era mil vezes horrível, por isso mesmo que era pai.

Nota

81. Depois, da Mãe do Bispo. Hoje Praça Floriano.

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

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